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terça-feira, 11 de abril de 2017

OLHAR AS CAPAS


Memórias

Rómulo de Carvalho
Post Scriptum: Natália Nunes
Índice Remissivo organizado por Frederico de Carvalho
Design: José Brandão/Susana Brito
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Março de 2011

A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi o morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Obra Completa

António Gedeão
Notas Introdutórias de Natália Nunes
Capa: Raquel Porto
Relógio D’Água, Lisboa, Novembro de 2007

- Minha mãe, haverá mundo
para além da Trafaria?

- Não sei, meu filho. Não sei.
Tudo aquilo que sabia
já no meu sangue te dei.

- Que serras são estas, mãe,
que não nos deixam ver nada?

- São rugas que a Terra tem.
Não maces a tua mãe.
Deixa-me estar descansada.

- Ó mãe, que rio é aquele?
Onde nasce e onde morre?

- Ó filho, é Deus que o impele.
Entretém-te a olhar para ele.
É um rio. Tem água. Corre.

- Quando eu for crescido, mãe,
quero saber e entender.

- Ó filho, o supremo bem
é cada qual, com o que tem,
resignar-se e agradecer.

Deus faz tudo pelo melhor.
Não se engana nem se esquece.
De todo o mal, o maior,
seria sempre pior
se Deus assim o quisesse.
Ninguém foge ao seu destino.
Está tudo determinado.
Não penses com desatino.
Dorme, dorme, meu menino.
um soninho descansado.

sábado, 6 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Memória de Lisboa

Rómulo de Carvalho
Apresentação de Natália Nunes
Capa: Fernando Mateus
Relógio d'Água Editores, Lisboa Setembro de 2000

Nos anos setenta e oitenta dedicava s suas tardes de domingo a percorrer e a remomerar a velha Lisboa, onde nasceu (à Sé), onde crescera (na Graça), e que tanto amava e tão bem conhecia, não apenas de visu mas igualmente pela história estudada e dos seus bairros, ruas, praças e monumentos
Embora não gostasse de ser fotografado, praticava com muito gosto a fotografia e, creio, enquanto amador, as suas fotografias são excelentes.
Recolheu assim um vasto material, com que se compões este livro (que foi organizado em cinco álbuns e muitas mais fotografias, aqui não incluídas) que a sua família e o editor Francisco vale e Vasconcelos /Relógio d’Água) resolveram dar à estampa.
«Memória de Lisboa» não constitui apenas um conjunto de fotografias sobre a nossa Capital, ainda que vista pelos seus, dele, Rómulo/António, olhos de poeta, que tanto a admirou pela sua beleza e pelo seu cunho existencial de cidade vinda já da Antiguidade e desenvolvida entre o Mediterrâneo e o Atlântico.
É que neste álbuns as fotografias são sempre acompanhadas por legendas com a história da vida urbana, social e política dos sítios e monumentos, redigidos, (no original, com a sua linda e legível caligrafia) naquele estilo didáctico, preciso, elegante e claro que caracteriza todas as suas obras,
«Memória de Lisboa» é um belo roteiro, descrito simultaneamente pela ciência de um Historiador e pelo jeito didáctico daquele que foi também um grande Professor e um admirável Poeta.

(Da apresentação de Natália Nines).

segunda-feira, 26 de março de 2012

OLHAR AS CAPAS


Poetas de Hoje e de Ontem

Selecção de Maria de Lurdes Varanda e Maria Manuela Santos
Prefácio de Matilde Rosa Araújo
Capa e ilustrações: Filipa Canhestro
Escritório Editora, Lisboa, 2011

Poema do Coração

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios.
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados,
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz dos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão

domingo, 22 de maio de 2011

OLHAR AS CAPAS



Poesias Completas

António Gedeão
Prefácio de Jorge de Sena
Colecção Poetas de Hoje nº 17
Portugália Editora, Lisboa, 1964

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.