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domingo, 16 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO

                    

Sabes, querida, o cansaço tem o seu limite. Tem mesmo.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

domingo, 17 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL

          Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                   João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

A toda a largura, e no topo da sua 1ª página, o ultra-fascista jornal Época de 17 de Março de 1974, colocava em letras garrafais:

PÁGINA TRISTRE
UM GRUPO DE INSUBORDINADOS FEZ DESLOCAR UMA PEQUENA COLUNA MILITAR EM DIRECÇÃO A LISBOA APROVEITAND O  UM AMBIENTE DE BOATOS FABRICADOS INSIDIOSAMENTE NO PAÍS E NO ESTRNGEIRO OS REBELDES RETROCEDERAM E FORAM PRESOS

Na mesma 1ª  página fazia publicar este libelo em defesa da pátria:


Os jornais deste dia davam conta da rebelião abortada, e em caixa, reproduziam a nota da Direcção-Geral de Informação.

«Reina a ordem em todo o País»

Assim terminava a lacónica nota, em que o governo de Marcelo Caetano revelava que já tinha conhecimento de que se preparava um movimento de características e finalidades mal definidas mas fácil foi verificar que as tentativas realizadas por alguns elementos para sublevar outras unidades não tinham tido êxito.
O governo dizia ao País que conseguira colocar um ponto final nas movimentações militares.

E parecia acreditar nessa ilusão.

Quem não acreditava era o incorrigível Mário-Henrique Leiria que, numa carta que há-de ser datada (22 de Março de 1974) desde Carcavelos para a sua«Querida Beluska» estar perante uma palhaçada, porque na farda não se pode acreditar nem no boné. Preocupante para o Mário era o drisco de ser deepjada da casa onde vivia com a mão e a tia, o cão Vodka e onde meter 7.000 livros, toneldasa de mobília idiota.

Recebi ontem o teu pacote medicinal. Agradeço como se seve. Chegou mesmo na hora, tu estás sempre atenta às coisas. É espantoso! Um beijão, se quiseres aceitar. Pode ser?

Por aqui, houve o que sabes e até muito mais. No fundo, mais uma palhaçada, que na farda não se pode acreditar nem no boné. Contarei, se valer a pena, quando cá vieres. Aqui não. Os meus papéis estão vigiados, tal como o telefone, mas isso não tem importância nenhuma, até porque eles sabem que eu sei que eles sabem…

Cá por casa há problema, mas não fiques preocupada, por favor. É assim:

Tivemos a notícia, no domingo, que o prédio foi vendido e vai ser demolido para dar lugar a mais uma pequena colmeia de obcecados… Muito bem. O diabo é que eu tenho duas velhas, 17 divisões, um cão, 7000 livros, toneladas de mobília idiota, sei lá…! E além disso, pago só 550$00!!! Oh pasmo! Mas é verdade. Nem de outra maneira podia ser, pois a média geral aqui de casa não chega a 3000$00 por mês.

Aí está. A gaita é que vou para a rua e, neste magnífico país ultra-inflacionário, um cochicho onde não cabe nada com o máximo de quatro assoalhadas (como se chama aqui) vai logo para entre 4000$00 e 5000$00 e já não é mau…

Um bode dos grandes…

Vou ter de aguentar. Não sei como, mas vou. E o diabo é que isto está a deitar as velhas abaixo… e eu sempre a fingir que tudo há-de ir pelo melhor.

Sabes, querida, o cansaço tem o seu limite. Tem mesmo.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos


Esta reprodução do Diário Popular de 17 de Março mostrava que a população das Caldas da Raínha, naquele domingo, fez a sua vida normal indo comprar, ao Mercado, na praça central da cidade como habitualmente, frutas, legumes  e flores. 

sábado, 16 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


         Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                  João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


No dia 14 de Março de 1974 aconteceu a vassalagem das chefias militares a Marcelo Caetano, que ficou para a História, designada como a «Brigada do Reumático».

No Salão Nobre da Assembleia Nacional, numerosos oficiais dos três ramos das Forças Armadas, reuniram-se para afirmarem ao Chefe do Governo, prof. Marcelo Caetano, o seu apoio à acção de defesa do ultramar e, simultaneamente o seu espírito de unidade, lealdade e solidariedade.
Em nome de todos os militares falou o Chefe do Estado-Maior do Exército, General Paiva Brandão:

«Estamos unidos e firmes e cumpriremos o nosso dever sempre e onde quer que o exija o interesse nacional.»

Marcelo Caetano agradeceu proferindo um discurso designado como «A Todo o Desafio Temos de Dar Resposta.» que termina assim:

«Milícia é sacrifício. E mesmo, num mundo onde o egoísmo desenfreado e o amor das facilidades e dos prazeres parece reinarem, ai de nós se desaparecerem as instituições onde o desinteresse, o serviço da colectividade, a dádiva de si próprio persistam como grandes virtudes morais exemplares.
O País está seguro de que conta com as suas Forças Armadas. E em todos os escalões destas não poderá restar dúvidas acerca da atitude dos seus comandos.
Pois vamos então continuar, cada um na sua esfera, dentro de um pensamento comum, a trabalhar a bem da Nação.»

No dia seguinte, por não terem alinhado com a «Brigada do Reumático», os Generais Costa Gomes e Spínola, são exonerados dos cargos de chefe e vice-chefe das Forças Armadas. O General Luz Cunha é nomeado para chefe das Forças Armadas.

Mas a 16 de Março, uma companhia de 200 militares, metade são oficiais e sargentos, outra metade são praças, sai do Regimento de Infantaria nº 5 em direcção a Lisboa, sob o comando do capitão Marques Ramos e do tenente Silva Carvalho, com a missão de ocupar o aeroporto da Portela. Informada de que falhou a adesão de outras unidades, regressa ao quartel que posteriormente é cercado por forças leais ao regime e rendem-se ao brigadeiro Pedro Serrano.

Só no dia seguinte, a censura, com os habituais «CORTADO» e «APROVADO COM CORTES», permitirá que os jornais se refiram ao acontecimento.

Passados 50 anos sobre aquele sábado, ainda não é possível reunir elementos que permitam, com clareza, determinar o que foi este acontecimento da nossa recente História.

Há quem defenda que terá sido um golpe que serviu de ensaio ao 25 de Abril.

Vasco Lourenço, em Março de 1994, esclarecia:

«Se o 16 de Março tem vingado, não havia Programa do MFA.»

Oficiais sublevados, não identificados, em declarações ao Correio da Manhã de 4 de Abril de 1979:

«Se o golpe de 16 de Março de 1974 não tivesse fracassado, a situação portuguesa seria hoje muito menos sombria. Se a sua marcha sobre Lisboa tivesse sido coroada de êxito, o Poder central diferia substancialmente da que foi consignada pelo 25 de Abril. A descolonização dos territórios africanos teria sido inspirada por directizes muito diversas. Não teríamos traído as expectativas das colónias nem permitido os acontecimentos sangrentos que vieram a verificar-se e ainda se verificam.»

quinta-feira, 7 de junho de 2018

VOU TER DE AGUENTAR


Carta, datada de 22 de Março de 1974, de Mário-Henrique Leiria para a «Querida menina»:

Recebi ontem o teu pacote medicinal. Agradeço como se seve. Chegou mesmo na hora, tu estás sempre atenta às coisas. É espantoso! Um beijão, se quiseres aceitar. Pode ser?
Por aqui, houve o que sabes e até muito mais. No fundo, mais uma palhaçada , que na farda não se pode acreditar nem no boné. Contarei, se valer a pena, quando cá vieres. Aqui não. Os meus papéis estão vigiados, tal como o telefone, mas isso não tem importância nenhuma, até porque eles sabem que eu sei que eles sabem…
Cá por casa há problema, mas não fiques preocupada, por favor. É assim:
Tivemos a notícia, no domingo, que o prédio foi vendido e vai ser demolido para dar lugar a mais uma pequena colmeia de obcecados… Muito bem. O diabo é que eu tenho duas velhas, 17 divisões, um cão, 7000 livros, toneladas de mobília idiota, sei lá…! E além disso, pago só 550$00!!! Oh pasmo! Mas é verdade. Nem de outra maneira podia ser, pois a média geral aqui de casa de casa não chega a 3000$00 por mês.
Aí está. A gaita é que vou para a rua e, neste magnífico país ultra-iflacionário, um cochicho onde não cabe nada com o máximo de quatro assoalhadas (como se chama aqui) vai logo para entre 4000$00 e 5000$00 e já não é mau…
Um bode dos grandes…
Vou ter de aguentar. Não sei como, mas vou. E o diabo é que isto está a deitar as velhas abaixo… e eu sempre a fingir que tudo há-de ir pelo melhor.
Sabes, querida, o cansaço tem o seu limite. Tem mesmo.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

quarta-feira, 25 de abril de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Dia da Liberdade

Coordenação: Pedro Lauret
Verso da História, Vila do Conde, Abril de 2015

Era uma dança de fantasmas, um jogo de sombras, um epílogo patético para um poder que se transformara na sua aparência. Nem Marcelo Caetano, nem os seus generais mandavam já nas Forças Armadas. Para dizer a verdade, Spínola também não. A conspiração dos capitães fizera da hierarquia uma cabeça sem corpo e ia evidenciar que a tropa era ao MFA que obedecia.
A 16 de março, reagindo intempestivamente ao saneamento dos faltosos à Brigada do Reumático, foi a precipitação. Nem assim o regime conseguiu impedir ou desarticular o inexorável. A 25 de Abril foi a precisão. A falência da transição dava lugar à rotura militar e à revolução.

De um texto de Fernando Rosas.

sexta-feira, 16 de março de 2018

HÁ 44 ANOS


Neste dia, há quarenta e quatro anos, aconteceu aquilo que uns entendem como um ensaio geral do 25 de Abril, outros que foi um passo em falso que poderia deitar tudo a perder.
Mas a ditadura estava a desfazer-se e, mesmo qualquer passo em falso que acontecesse, não impediria a sua queda.
Na etiqueta «16 de Março» deste Cais, podem consultar algum material sobre o antes e o depois deste dia do ano de 1974.


«Uma companhia de 200 militares, metade são oficiais e sargentos, outra metade são praças, sai do Regimento de Infantaria nº 5 em direcção a Lisboa, sob o comando do capitão Marques Ramos e do tenente Silva Carvalho, com a missão de ocupar o aeroporto da Portela. Informada de que falhou a adesão de outras unidades, regressa ao quartel que posteriormente é cercado por forças leais ao regime e rendem-se ao brigadeiro Pedro Serrano.

Só no dia seguinte, a censura permitirá que os jornais se refiram ao acontecimento.

Passados 40 anos sobre aquele sábado, ainda não é possível reunir elementos que permitam, com clareza, determinar o que foi este acontecimento da nossa recente História.

Há quem defenda que terá sido um golpe que serviu de ensaio ao 25 de Abril.

Vasco Lourenço, em Março de 1994 esclarecia:

Se o 16 de Março tem vingado, não havia Programa do MFA.

Oficiais sublevados, não identificados, em declarações ao Correio da Manhã de 4 de Abril de 1979:

Se o golpe de 16 de Março de 1974 não tivesse fracassado, a situação portuguesa seria hoje muito menos sombria. Se a sua marcha sobre Lisboa tivesse sido coroada de êxito, o Poder central diferia substancialmente da que foi consignada pelo 25 de Abril. A descolonização dos territórios africanos teria sido inspirada por directizes muito diversas. Não teríamos traído as expectativas das colónias nem permitido os acontecimentos sangrentos que vieram a verificar-se e ainda se verificam.

Marcelo Caetano, na Conversa em Família, transmitida em 28 de Março de 1974, dirá que afinal, tudo não passou de uma insignificante irreflecção, ou talvez ingenuidade de alguns oficiais.

Contudo, no seu Depoimento, Marcelo Caetano dirá sobre o 16 de Março:

O episódio das Caldas não devia ser subestimado, porque decerto os oficiais que o provocaram contavam com apoio que a pronta reação do governo ou o facto de ter havido precipitação na revolta não tinham permitido actuar. Esses apoios não desarmariam, procurariam fazer a “revolução do remorso” para salvarem os camaradas que não podiam deixar de ser processados e naturalmente punidos por insubordinação.
A revolução que veio efectivamente de surpresa, e conduzida dessa vez com toda a eficiência, em 25 de Abril.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

MAS GANHA OITO CONTOS!...


Carta de Jorge de Sena, datada de 9 de Março de 1969, para Eugénio de Andrade:

Trago muitas e cruciantes saudades. Não direi da minha casa que me pareceu encolhida e desconfortável; não direi do país que me entristeceu profundamente, com o seu ar de decadência enxovalhada, a amargura dos melhores, e a resignação dos pequenos (uma mãe que se lamentava de o filho estar mobilizado em África, logo acrescentou, com um sorriso de consolada satisfação que ele ganhava oito contos…) mas dos amigos que é quase impensável para mim que não possa rever a bel-prazer. Agora é que compreendo a diferença de quando parti para o que seria uma ausência de quase dez anos: oficialmente eu não partia, e em conformidade não me despedira. Desta vez, foi diferente. E não sei se não é pior do que antes, de um ponto de vista geral: é que não havia saída para o país, mas esperava-se que um dia haveria, e presentemente é claro, demasiado claro, que a não há, e que ninguém ou quase ninguém sequer a deseja. Como viveria quem se habituou a apenas a sobreviver?


A frase da mãe do soldado fará parte do poema «Uma vez eu…», em que Jorge de Sena refere também as fanfarronadas de António Spínola, mais o seu livro «Portugal e o Futuro», bem como os acontecimentos do 16 de Março.
O poema escrito em Santa Bárbara está datado de 21 de Abril de 1974 e faz parte de «40 Anos de Servidão».
É este o poema:

                           I

Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Áfricas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!

                         II

O general combateu heroicamente nas Guinés
(todos os generais são heróicos porque não se arriscam
todos os dias como os soldados, mas só às vezes
quando visitam a »frente» para mostrar aos soldados
que têm colhões como eles, e os soldados acreditam),
foi largamente louvado pelo governo, muito promovido,
e começou a pensar que aquilo não levava a nada
e era mesmo um mau negócio para a União Fabril
(e oq eu é mau para a CUF é mau para a pátria, é claro).
Pensou então que a guerra não se ganhava,
que o país não aguentava (será que alguma vez
havia pensado nessas evidências desde o princípio?),
e que a sua popularidade entre os soldados da Guiné
correspondia a um papel salvador da pátria
para tirá-la da encrenca. Ressuscitou
a ideia da semi-federação, agitou
os imperialismos brasileiros em relação à África dita portuguesa
(que são mais velhos que o Brasil como nação),
E botou livro saudado como enorme êxito nacional e internacional.
Mas a extrema-direita – ou sejam aqueles
que acabam por acreditar eles mesmos nos mitos que impõem aos outros
- não gostou. Os jovens centuriões estavam todos
de olhos fitos na imagem paterna, de monóculo, herói
das Guinés e mais partes. E pensaram em pôr-se
pacificamente em marcha como no 28 de maio
que assim ganharam contra a República há cerca de cinquenta anos.
Mas era dia de futebol. Os soldados estavam todos
Preocupados em quem ganharia o jogo, e tristes
De o perderem na televisão. Outros centuriões
Acharam que não havia chegado o momento.
E assim as colunas motorizadas encontraram-se
frente  a frente ao pé dos Alguidares de Baixo,
e os revoltosos deixaram-se prender entre vivas
ao Benfica, ao Sporting, ou outro clube qualquer.
Na estrada, cruzavam-se as colunas motorizadas,
É tristíssimo isto, por certo, de todos os pontos de vista.
Mas – quem há-de fazer crer a um povo
usado por séculos que os acontecimentos
(para que não o ouvem nem consultam) lhe dizem
respeito? Se o livro do general é um grande êxito,
quem há-de convencer esse povo de que lhe diz
respeito uma questão de salvar-se o que está
para ver como é que fica? O povo, como pode,
sobrevive, entre futebol e emigração. O resto
lê com esperança, com raiva, ou com desânimo,
o livro do general que, silencioso, não comenta
dos jovens centuriões que se precipitaram. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

DEVAGAR É QUE NÃO SE VAI LONGE!


2 de Abril de 1974

A agenda do Cinéfilo avisava os seus leitores de que nesta noite a RTP transmitia o filme Eva de Joseph L. Mankiewicz.

Morte do Presidente francês Georges Pompidou.

De visita oficial a Espanha, o Ministro das Corporações e Segurança Social, Dr. Pinto Silva Pinto, instado pelos jornalistas sobre os recentes acontecimentos verificados no país, respondeu:
Não sei se realmente se passou alguma coisa em Portugal.

digo dos dias da nossa luta, juntos
digo da raiva de estarmos aqui e de nada fazermos
digo do vinho que bebemos até, quase, perdermos a consciência, talvez para nada
digo do que amamos e da Esperança, de que um dia gritaremos sem medo
digo desta sede aguda, esta necessidade louca de acreditar, ter mesmo de acreditar
digo deste país, donde nunca passei a fronteira e talvez nunca chegue a passar.
digo de aprender a ver-me escravo para ser livre, olá José Gomes Ferreira
digo, como o Chico, que devagar é que não se vai longe
digo… qualquer dia…

segunda-feira, 31 de março de 2014

TARDE DE DOMINGO EM ALVALADE


31 de Março de 1974

Acontecera já  o apoio da Brigada do Reumático, teria que existir, para reforçar ainda mais a posição do regime, uma manifestação popular.

Sportinguista que era, Marcelo Caetano entendeu, ou alguém por ele, deslocar-se ao Estádio José Alvalade para assistir ao Sporting-Benfica, a contar para a 26ª jornada do Campeonato Nacional da lª Divisão, e receber a tal manifestação popular.

No dia seguinte os jornais falavam de caloroso e vibrante acolhimento.

Diz quem lá esteve, que também houve assobios e vaias mas as palmas e os vivas ouviram-se melhor, principalmente vindos da bancada central, pejada de viscondes, pides e outros convidados.

Quantos dos que depois andaram, no 25 de Abril pelas ruas de Lisboa a saudar a revolução, não estiveram naquela tarde de domingo a aplaudir vibrantemente Marcelo Caetano?

Por fim, registe-se que o Benfica venceu o Sporting por 5 a 3, golos de Yazalde (2) e Dé pelo Sporting, enquanto pelo Benfica marcaram Nené (2), Humberto Coelho, Jordão e Vítor Martins.

O Sporting viria a sagrar-se campeão nacional.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A ÚLTIMA CONVERSA


 28 de Março de 1974 

Marcelo Caetano proferiu, hoje, através da rádio e da televisão, mais uma das suas Conversas em Família.

Não há uma única palavra sobre os acontecimentos ocorridos no dia 16 de Março  e, muito naturalmente, tão pouco refere o ambiente que se vive no seio dos oficiais das Forças Armadas.

Algumas passagens dessa última conversa:

Desde meados de Fevereiro até agora tenho recebido de todos os recantos do País, de aquém e além -mar, milhares de mensagens de apoio, de incitamento, de estímulo. Tantas que não é possível acusar aos remetentes a sua recepção. Nem sequer responder às centenas de cartas de pessoas amigas, algumas delas tão comoventes. Fica aqui o meu agradecimento a todos. Deus permita que eu seja sempre digno da confiança dos bons portugueses. Por isso me tenho esforçado.
(…)                              
De todas as infâmias que os adversários da nossa presença em África têm posto a correr contra nós e alguns portugueses infelizmente repetem, confesso que me fere mais a de que defendemos o Ultramar para favorecer os grandes interesses capitalistas.
(…)
Os soldados que em África se batem, defendem valores indestrutíveis, e uma causa justa. Disso se devem orgulhar e por isso os devemos honrar.
(…)
E, não tenhamos dúvidas, se alguma fórmula socialista viesse a estabelecer-se  no Ocidente – do que Deus nos defenda! – não seria o anarquismo romântico nem sequer a social democracia conformista, mas sim um colectivismo tirânico, cuja ditadura levaria muitos anos a evoluir para regimes mais humanos.
(…)
Enquanto ocupar este lugar mão deixarei de os ter presentes, aos portugueses do Ultramar, no pensamento e no coração. Procuremos as fórmulas justas e possíveis para a evolução das províncias ultramarinas, de acordo com os progressos que façam e as circunstâncias do Mundo: mas com uma só condição, a de que a África portuguesa continue a ter a alma portuguesa e que nela prossiga a vida e a obra de quantos se honram e orgulham de portugueses ser!

quinta-feira, 20 de março de 2014

UM GESTO DE TRESLOUCADOS


20 de Março de 1974

Ontem, o Conselheiro Albino dos Reis, decano dos parlamentares, proferiu um discurso na Assembleia Nacional em que abordou a sublevação dos militares do Regimento de Infantaria 5.
Reproduz-se a parte final do discurso:

quarta-feira, 19 de março de 2014

MOTIVOS DE CARÁCTER PROFISSIONAL...



19 de Março de 1974

O ministro dos Negócios Estrangeiros Rui Patrício, ainda no Rio de Janeiro onde foi assistir à tomada de posse do novo Presidente do Brasil, disse aos jornalistas que a sublevação de alguns oficiais subalternos nas Caldas da Raínha, mais não foi que um acto isolado movido por motivos de carácter profissional.


Como se entendia que os jornais, rádio e televisão estrangeiros estavam a difundir notícias que não correspondiam à realidade, o governo informava da nação sobre o número de oficiais detidos.

Porém, o comunicado no seu laconismo habitual, não revela a situação dos restantes militares que das Caldas saíram em direcção a Lisboa.

terça-feira, 18 de março de 2014

UM DOMINGO CHEIO DE SOL


18 de Março de 1974
A Época, na sua primeira página, realçava que a tranquilidade foi sentida no país num domingo de Inverno cheio de sol e que nas Caldas da Raínha o mercado registou o habitual movimento e que nas pastelarias nem sequer decresceu o fabrico das apetitosas «cavacas».


O Século também realçava a normalidade em todo o país e terminada a notícia:

É de esperar que venham a ser divulgadas informações mais pormenorizadas para o esclarecimento da opinião pública, sobretudo tendo em vista os relatos exagerados ou fantasiosos divulgados ni Imprensa e na rádio estrangeiras.


Legenda: a fotografia do merceado das Caldas da Raínha é tirada do Diário Popular de 18 de Março de 1974.

segunda-feira, 17 de março de 2014

REINA A ORDEM EM TODO O PAÍS


17 de Março de 1974

Apenas às 19,00 Horas do dia 16, o governo divulgou uma sucinta nota dos acontecimentos verificados a partir do Regimento de Infantaria nº 5 nas Caldas da Raínha.

Desta forma só no dia 17,os matutinos e os vespertinos só publicaram a nota e as reportagens do acontecimento do RI 5 que estiveram suspensas pela censura.

As notícias, principalmente do Diário de Lisboa e do República foram publicadas com cortes e muita matéria foi cortada na íntegra.


 Na primeira página da Época, matutino declaradamente pró-regime, o ultra Barradas de Oliveira escreveu o editorial: Não Pode Ser.


Existe a tese que o 16 de Março é uma tentativa desesperada de Spínola para evitar o eclodir do 25 de Abril nos moldes em que o MFA o concebera.

Praticamente todos os oficiais, implicados no Golpe das Caldas, estiveram com Spínola na Guiné ou eram muito próximos do General.

Armando Ramos um dos oficiais do 16 de Março, dirá, passada uma boa meia dúzia de anos, ao Expresso:

Para mim o 25 de Abril aconteceu no 16 de março. Após essa data já é o Partido Comunista o patrão de todo o processo. Os do 16 de Março foram gajos que se portaram bem. Não cultivaram um defeito próprio da época, que foi a vaidade.
Eu acho que no 25 de Abril 95 por cento da malta aderiu por solidariedade e cinco por cento porque eram comunas e queriam o poder.

Legenda: reprodução da primeira página da Época de 17 de Marços de 1974

OLHAR AS CAPAS


Conta Corrente 

(1969-1976)

Vergílio Ferreira
Capa: Luís Duran
Editorial Bertrand, Lisboa Dezembro de 1980

O livro de Spínola alastrou numa revolta militar frustrada. O livro? Há um clima de inquietação, um cansaço do provisório em que vivemos. O difícil da questão é que solução alguma coisa se nos impõe como boa. Há que escolher a menos má. Qual? A África é dos pretos que “exploramos” há quinhentos anos. Exploramos? Só? Mas como aguentar o embate da separação? O recurso seria retroactivo: termo-nos preparado para isso. Mas Salazar, como certos bichos, o que entregou foi pedra. Dizem-me: o Marcelo quer aguentar a guerra até estarmos preparados. Mas o desgaste não vai mais depressa que a preparação? Tentamos acumular de um lado, enquanto gastamos do outro Qual o saldo? Entretanto, ainda se recorre à retórica imperial. “Deus manda combater, não vencer, diz Marcelo. Mas Deus manda o que lhe mandamos mandar. Deus de paz, Deus carniceiro, Deus celeste ou terreno. O Deus de Marcelo não é muito inteligente. Ou estará simplesmente enrascado, sem saber o que fazer.

domingo, 16 de março de 2014

O PORMENOR


 Por isso o Governo chegou à undécima hora na ignorância de muita coisa que era já realidade profunda no seio das forças armadas…

Marcelo Caetano em Depoimento

16 DE MARÇO DE 1974


Uma companhia de 200 militares, metade são oficiais e sargentos, outra metade são praças, sai do Regimento de Infantaria nº 5 em direcção a Lisboa, sob o comando do capitão Marques Ramos e do tenente Silva Carvalho, com a missão de ocupar o aeroporto da Portela. Informada de que falhou a adesão de outras unidades, regressa ao quartel que posteriormente é cercado por forças leais ao regime e rendem-se ao brigadeiro Pedro Serrano.

Só no dia seguinte, a censura permitirá que os jornais se refiram ao acontecimento.

Passados 40 anos sobre aquele sábado, ainda não é possível reunir elementos que permitam, com clareza, determinar o que foi este acontecimento da nossa recente História.

Há quem defenda que terá sido um golpe que serviu de ensaio ao 25 de Abril.

Vasco Lourenço, em Março de 1994 esclarecia:

Se o 16 de Março tem vingado, não havia Programa do MFA.

Oficiais sublevados, não identificados, em declarações ao Correio da Manhã de 4 de Abril de 1979:

Se o golpe de 16 de Março de 1974 não tivesse fracassado, a situação portuguesa seria hoje muito menos sombria. Se a sua marcha sobre Lisboa tivesse sido coroada de êxito, o Poder central diferia substancialmente da que foi consignada pelo 25 de Abril. A descolonização dos territórios africanos teria sido inspirada por directizes muito diversas. Não teríamos traído as expectativas das colónias nem permitido os acontecimentos sangrentos que vieram a verificar-se e ainda se verificam.

Marcelo Caetano, na Conversa em Família, transmitida em 28 de Março de 1974, dirá que afinal, tudo não passou de uma insignificante irreflecção, ou talvez ingenuidade de alguns oficiais.

Contudo, no seu Depoimento, Marcelo Caetano dirá sobre o 16 de Março:

O episódio das Caldas não devia ser subestimado, porque decerto os oficiais que o provocaram contavam com apoio que a pronta reação do governo ou o facto de ter havido precipitação na revolta não tinham permitido actuar. Esses apoios não desarmariam, procurariam fazer a “revolução do remorso” para salvarem os camaradas que não podiam deixar de ser processados e naturalmente punidos por insubordinação.
… A revolução que veio efectivamente de surpresa, e conduzida dessa vez com toda a eficiência, em 25 de Abril.


Legenda; a coluna militar de regresso ao RI 5 após o golpe falhado.
Imagem do Diário de Notícias.

sábado, 15 de março de 2014

A BRIGADA DO REUMÁTICO


15 de Março de 1974

Os jornais deste dia fazem largas referências ao encontro dos oficiais-generais dos três ramos das Forças Armadas, que, na véspera, se deslocaram ao Palácio de S, Bento  para reafirmarem a Marcelo Caetano o apoio dos militares no que respeita «à política de defesa das províncias ultramarinas.»

Em nome dos militares falou o Chefe do Estado-Maior do Exército, General Paiva Brandão:

As Forças Armadas não fazem política mas é seu imperioso dever, e também da nossa ética, cumprir a missão que nos foi determinada pelo Governo legalmente constituído
Estamos unidos e firmes e cumpriremos o nosso dever sempre e onde quer que o exija o interesse nacional.

Marcelo Caetano agradecendo o apoio:

O Chefe do Governo escuta e aceita a vossa afirmação de lealdade e disciplina. A vossa afirmação de que as Forças Armadas não só não podem ter outra política que não seja a definida pelos poderes constituídos da república, como estão, e têm de estar, com essa política quando ela é a da defesa da integridade nacional.                             
O País está seguro de que conta com as suas Forças Armadas. E em todos os escalões destas não poderá restar dúvidas acerca da atitude dos seus comandos.
Pois vamos então continuar, cada um na sua esfera, dentro de um pensamento comum, a trabalhar a bem da Nação.

Felizes e cientes do dever cumprido todos regressaram aos seus afazeres.

A pergunta que ainda hoje se coloca:
                                                                                        
È possível que daquelas generalícias almas, uma única, não tivesse o mais leve sinal do que na madrugada seguinte iria acontecer no Regimento de Infantaria 5 nas Caldas da Raínha?


Marcelo Caetano revela no seu Depoimento que encetou todos os esforços, para que Costa Gomes e Spínola estivessem presentes na audiência, mas ambos recusaram e Marcelo lembrou-lhes que essa recusa implicava a exoneração dos cargos onde estavam.

Em consequência da recusa dos generais, é emitido um despacho enviado pela Secretaria-Geral da Presidência do Conselho à Imprensa Nacional, para próxima publicação no «Diário do Governo» em que são exonerados os generais Francisco da Costa Gomes e António Sebastião Ribeiro de Spínola dos cargos de chefe e vice-chefe do estado maior das Forças Armadas, que ocupavam por designação directa do Chefe do Governo. Um outro despacho nomeava o general Joaquim Luz da Cunha, na altura comandante da Região Militar de Angola, para suceder ao general Costa Gomes.

Voltemos ao Depoimento de Marcelo Caetano:

A 18 de Fevereiro recebi um exemplar do livro Portugal e o Futuro com amável dedicatória do autor: Não pude lê.lo nesse dia, nem no seguinte em que houve Conselho de Ministros. E só no dia 20 consegui, passadas já as onze da noite, encetar a leitura ao cabo de uma fatigante jornada de trabalho. Já não larguei a obra antes de chegar à última página, por alta madrugada. E ao fechar o livro tinha compreendido que o golpe de Estado militar, cuja marcha eu pressentia há meses, era agora inevitável.

Legenda: a fotografia é tirada do Notícias de Portugal nº 1403, o título pertence ao jornal República de 15 de Março de 1974.

sexta-feira, 14 de março de 2014

E NÃO ERA PELO SOL...



14 de Março de 1974

Uma pequena notícia perdida nas páginas do República de 14 de Março de 1974, dava conta que inúmeros jornalistas de periódicos, rádio e televisão estrangeiros, estavam a chegar a Lisboa.
Alguma coisa em Portugal andava pelo ar.
No estrangeiro notícias corriam, em Portugal, dessas notícias apenas  um ínfimo número de portugueses tinham delas conhecimento.
Faltavam dois dias, para que os portugueses soubessem do que, então,  andava a ser preparado.

quarta-feira, 12 de março de 2014

NÃO ACREDITA?


12 de Março de 1974

O jornalista brasileiro Joaquim Labreca veio a Lisboa para entrevistar Marcelo Caetano para a revista O Cruzeiro, entrevista que foi publicada na edição de 12 de Março de 1974.

Marcelo disse ao jornalista:

A África está a ser lenta e subtilmente invadida da China.

E Marcelo foi categórico ao dizer ao jornalista:

Não acredita?


Para que se possa entender melhor o quanto a entrevista foi encomendada, leia-se o comentário final do jornalista brasileiro:

Marcelo Caetano, mestre nas cátedras e no Governo, político nacional e hábil estadista internacional, profundo conhecedor dos problemas da conjuntura mundial, confirmou ainda mais, em sua palestra connosco, a impressão que tínhamos  da genialidade do homem que reconduziu e mantém Portugal em seu histórico posto de grandeza internacional.

Legenda: Os recortes de O Cruzeiro são retirados do Notícias de Portugal nº 1403 de 23 de Março de 1974.