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domingo, 1 de junho de 2025

À LUPA

Em redor da falta de iniciativas infantis que os jovens hoje enfrentam

Havia em casa do meu pai, uma boa série de livros, tanto do meu avô como do meu pai, o começo daquilo a que, hoje, chamo a Biblioteca da Casa.

Tirando o tempo de jogar à bola na rua, passei tardes a ler livros ao acaso que ia tirando das ainda pequenas prateleiras. A esmagadora maioria dos livros desbravados foram abandonados por não entender patavina do que por lá, ainda mal, lia.

A leitura que agora fiz do livro do Rui Cardoso Martins, E se Eu Gostasse Muito de Morrer, levou-me a deparar que o autor encontra, uma ocupação dos miúdos da terra dos suicidas, num prédio em construção. Leia-se:

«Quando estava em caboucos, uns miúdos da primária foram para lá jogar à batota e deitaram-lhe fogo, por piada, aborrecidos com a falta de iniciativas infantis, mas a casa fez-se. As crianças voltaram e pintaram suásticas no muro.»

quinta-feira, 29 de maio de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Lá para o sul, há um país que dá pelo nome de Alentejo.

Este é um livro que fala do Alentejo ou de quem gosta muito de morrer.

Tenho guardado, há longo tempo, uma história de que não lembro o autor, tão pouco o sítio de onde a tirei:

«Passou a santa vida a beber copos de cinco, no balcão de pé. Mesmo tendo todo o tempo do mundo – como gostava de arrematar – nunca o viram sentado na taberna. Dizia que gostava de estar à altura do momento. E ria-se, ria-se escancaradamente de si mesmo enquanto cismava que afinal, era um homem para consumo próprio.

Estimava igualmente sublinhar que, em coerência com o consumo, era também dono de si próprio.

E assim parecia ser. Corria à boca cheia que sempre que um patrão o tentou abeirar do vexame ou da desfeita: despediu-se. Alardeava depois que não eram só os balcões que o conheciam de pé!

Como não tinha paciência para usar a vida a meias, permaneceu solteirão. Quando a velhice tentou empurrá-lo para a dependência do lar da misericórdia, bradou: serei até ao fim eu o meu único dono. Suicidou-se, igualmente de pé!

(Desaforadamente, depois de morto, a estatística usou-o como mero número para informar que o Alentejo é região contumaz no topo de suicídios.)»

No seu Diário, Miguel Torga tem esta frase:

«Foi a terra alentejana que fez o homem alentejano, e eu quero-lhe por isso. Porque não o degradou, proibindo-o de falar com alguém de chapéu na mão.»

Na contra capa pode ler-se que os factos verdadeiros são os piores.

Mas que factos?

«Faz calor na província dos suicidas. Dá vontade de rir: uma cidade em que até o coveiro se mata… São estatísticas, tudo em números.»

Ou como disse o poeta Mário de Sá Carneiro: «um pouco mais de sol - eu era brasa.» 

OLHAR AS CAPAS

E Se Eu Gostasse Muito de Morrer

Rui Cardoso Martins

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Março de 2016

Um jogo de futebol, como sabes, deve jogar-se sábado de manhã, no momento mais agudo da ressaca, se possível de directa. Só assim faz efeito o ar puro, e deve-se correr sem aquecer os músculos, porque a saudável é vomitar antes do intervalo. Vem o intervalo e fuma-se um cigarro, sabe melhor com os alvéolos abertos, o fumo é cicatrizante, é das boas coisas do vício, e o primeiro a acendê-lo acho que foi o Trombeiro ou o Tonel ou talvez o Besta Porca. O Pardoca, acho, ou o Banana, um deles tinha chutado a bola para fora num corte que levantou uma rajada de pedrinhas e esfolou a canela do Perneta.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Ficámos chiques. Ir ao Alentejo fica muito bem.

Rui Cardoso Martins

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                 João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

No dia 25 de Abril de 1974, o jornalista Rui Cardoso Martins, então com sete anos, chegou a casa mais cedo e despiu a farda. Era um bibe azul com o nome bordado no peito.

A história é-nos contada nesta crónica publicada na então revista Pública do jornal Público de 25 de Abril de 2010.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


Domingo de Carnaval.

 Vergílio Ferreira:

 Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.

 Há uma cena genial em A Família Addams quando perguntam à Wednsday se não vai mascarada ao baile e ela responde que já está mascarada:

 Estou mascarada de psicopata. Os psicopatas parecem pessoas normais.

 Por ele,  que nunca foi de carnavais, gostava um dia de ir ao Carnaval de Nova Orleães.

 Os taipais são os do Kioske.

 Correm, ao findar do dia, depois de lida, apenas o que entendeu ler, a imensa tralha que se aloja no vazio da internet.

1. 

Francisco Louçã em entrevista: «Para o Partido Socialista, o Chega é o Euromilhões».

2.

Advogado acusado de cobrar 60 mil euros por processo fictício.

O Marque Mendes disse hoje na SIC, que os maiores beneficiários com o projecto habitacional de António Costa, serão os advogados!

3.

Duas casas devolutas, em espaços contíguos, arderam durante a madrugada deste domingo, na freguesia de São Victor, em Braga.

4.

Um grupo de católicos portugueses está a organizar uma vigília de oração contra abusos sexuais na Igreja Católica.

De acordo com a divulgação feita nas redes sociais, o evento vai decorrer em todo o país na próxima quarta-feira, dia 22 de Fevereiro, entre as 21 e as 22 horas.

5.

«Fui segunda-feira à Gulbenkian ouvir o relatório da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

Tirei quatro conclusões básicas: há cem sacerdotes no activo que têm de ser imediatamente expulsos das sacristias e altares e colégios e seminários e grupos de escuteiros; há 25 acusações ainda não prescritas, agora enviadas ao Ministério Público, que deverão ser investigadas e, caso se provem, severamente punidas com prisão; a Igreja terá, como noutros países, de pagar despesas médicas de acompanhamento psicológico e indemnizações às vítimas; por último, é essencial que haja um pedido de desculpas formal, ecuménico, irreversível e genuíno, dos bispos portugueses e do Papa, durante as cerimónias da Jornada Mundial da Juventude, no Trancão.»

Rui Cardoso Martins, da crónica no Jornal de Notícias

6.

O preço que os trabalhadores terão de pagar por uma refeição nas cantinas dos organismos e serviços públicos vai aumentar 80 cêntimos, passando dos actuais 4,10 euros para 4,90 euros.

7.

Ainda é possível, passados que são 13 dias sobre a tragédia encontrar pessoas com vida entre os escombros que, segundo números recentes, provocaram mais de 40.000 mortos.

8.

O primeiro-ministro português mostrou-se este domingo confiante na reeleição de António Vitorino, em alguns tempos o partido solicitou-lhe auxílio, «não há festa nem festança onde não apareça a Dono Constança» e ele assobiou para o lado, para a Organização Internacional para as Migrações, salientando que todos os líderes africanos com quem falou em Adis Abeba apoiam a manutenção de António Vitorino.

9. 

A biografia de Natália Correia que será publicada em Março pela Contraponto tem 700 páginas e levou seis anos a ser escrita, notícia revelada ao final da tarde desta sexta-feira no Correntes d’Escritas, o festival literário da Póvoa de Varzim.

10.

Marcelo Rebelo de Sousa, considerou esta sexta-feira que a posição do PCP sobre a condecoração do Presidente ucraniano com a Ordem da Liberdade “é coerente” com aquilo que o partido defende desde o inicio da guerra.

11.

Dados oficiais demonstram que cerca de 57 milhões de toneladas de comida são desperdiçados na União Europeia  todos os anos, o equivalente a 127 quilogramas por habitante. São cerca de 130 milhões de euros que vão, literalmente, para o lixo, quando milhares de europeus não têm acesso a uma refeição completa.

Neste cenário, números de 2020 mostram que Portugal está acima da média. No quarto país da União Europeia onde mais se deita comida fora, cada português desperdiça em média quase 184 quilogramas de alimentos por ano.

12.

«Os sacrificados funcionários judiciais são peças essenciais para o bom funcionamento da Justiça e a sua greve está a criar um caos. É do mais estrito bom senso que o Ministério da Justiça, rapidamente, chegue a um acordo com os funcionários judiciais.» 

Francisco Teixeira da Mota no Público 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

NO IMPONDERÁVEL AZUL CELESTE


 É, andei por aí.

 Com gente, procurando gente, pontes e vales, tem sido assim esta vida. E houve aquele dia, 25 de Abril de 1974.

 Dizem que por um Abril houve uma revolução, outros dizem que houve um golpe de estado, outros ainda que houve uma abrilada, sucederam coisas gritadas nas ruas, outras soavam nas sombras clandestinas.

 Na escola disseram aos miúdos que tinham que ir para casa, estava a acontecer qualquer coisa em Lisboa.

 Que comemoramos hoje? Que resta daquele dia?

 O chefe de redacção telefonou ao repórter, gritou-lhe: Salta da cama. A Revolução está na rua e é precisos escrevê-la!

 Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que hoje não posso ver nenhum sinal, daquilo que o 25 de Abril trouxe.

 Podemos saudar o desespero que nos invadiu perante algo que falhou?

 Estragaram a tua festa pá!, cantaram no outro lado do Atlântico.

 Houve quem dissesse que as revoluções são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, e quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

 O 25 de Abril é um dia e são dias. É daquelas datas que se constelam que estão antes de hoje, que hoje ecoam ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje.

 Quase sem darmos por isso, milhares de pessoas invadiram as ruas, ofereceram pão e cravos aos soldados, deram as mãos, sorriram, dos olhos saltavam sonhos e esperanças.

 Alguém perguntou como era possível tanta e tanta gente quando meses antes, semanas antes, dias antes, eram tão poucos aqueles que apareciam para escrever palavras de ordem nas paredes da cidade, colar cartazes, distribuir uns panfletos impressos a stencil…

 Será a memória curta? Apaga-se com facilidade?

 O apagamento de memória é chocante.

 Deste dia até ao 1º de Maio, é provável que muitos devem ter dormido, mas não se lembram bem. Uma semana de loucura já ninguém me tira, posso não ser feliz mas poucos chegaram tão perto disso a que chamam felicidade.

 É preciso ter vivido os anos terríveis, o tempo do desprezo, um tempo de ratazanas, para que aquele dia tivesse sido o que foi, um navio de sonho, uma nave de loucos, protagonistas duma enorme esperança, depois figurantes de um grande desencanto.

 Terá sido assim há tanto tempo?

 A ditadura acabou por ser derrubada por militares que antes desprezávamos.

 Dezassete horas e 45 minutos bastaram para abater um regime que oprimiu o povo português durante 47 anos, 10 meses, 34 dias e algumas horas.

 Teremos feito tudo para que as novas gerações fossem mais felizes?

 Vale a pena assinalar a data quando nos esquecemos de ensinar a importância que aquele dia nos trouxe? Olham-se as pessoas de hoje, os jovens de hoje, formam um grupo largo e variado mas, olhando bem, estamos todos muito mal no retrato de conjunto…

 Algures, numa dobra da história, alguma coisa falhou. O cantor, de viola às costas, acabou por dizer que houve alguém que se enganou.

 A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém.

 Naqueles dias, quase poderíamos dizer que a paisagem mudara para sempre.

 As paisagens até podem mudar, o resto… o resto… o resto… é uma chatice… um busílis de questão…

 O escritor perguntava e respondia: para que serve a utopia? Serve para que eu não deixe de caminhar.

 Um dia voltaremos a encontrar-nos todos no imponderável azul celeste.

 E recomeçamos a busca dum país liberto, duma vida limpa e dum tempo justo.

 Mas será que ainda verei alguém desenhar os nomes daqueles que, na sombra, nos lixaram a festa?

 

Montagem concedida com textos de:

 Jorge Silva Melo, Virgílio Martinho, Baptista-Bastos, José Saramago, Rui Cardoso Martins, Chico Buarque, Manuel António Pina, Manuel Gusmão, Rodrigues da Silva, João Gobern, José Mário Branco, Eduardo Galeano, Mário Dionísio, Cristina Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

Legenda: pintura de Vieira da Silva

quarta-feira, 13 de abril de 2022

POSTAIS SEM SELO


O mundo é um lugar perigoso e vai piorar.

Rui Cardoso Martins em Deixem Passar o Homem Invisível

quinta-feira, 7 de abril de 2022

OLHAR AS CAPAS


Deixem Passar o Homem Invisível

Rui Cardoso Martins

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Janeiro de 2020


António, também conhecido nas suas costas por aquele advogado que é cego, ou aquele advogado invisual, ou aquele ceguinho que tirou advocacia, depende de quem o via e a que distância, visitava a Igreja de São Sebastião da Pedreira pela segunda vez na vida.

António tinha hábitos bizarros como gostar de arte e ir a exposições, e juntara durante anos argumentos para dizer como era isso possível no seu caso, até que os abandonou porque, concluiu, quem precisa da explicação não merece ouvi-la. Passou a dizer que era bom porque muitas vezes davam croquetes e taças de espumante na inauguração.

Não se zangou com ninguém, porque António também bebia cerveja à pressão e comia caracóis como qualquer pessoa que gosta disso. Chupava o molho da espiral, depois de fisgar o bicho com um alfinete, dos corninhos doces à tripa amarga, numa esplanada ao fim da tarde, principalmente em Maio e Junho, a altura deles. Duas imperais por petisco era a sua média, e a segunda pousava-a com um suspiro, um som honesto que deixava os clientes alegres. Lambia o bigode de espuma. Às vezes, limpando o molho dos dedos aos guardanapos de papel, perguntava se algum caracol escapara de ser comido, saltando do pires cheio para o pires das cascas sem lhe passar pela boca, acabando por morrer sem utilidade.

Chocalhava as cascas. Ficaste, molusco, no teu esconderijo..., respondia António. Mas no fim deixava-o em paz: a pessoa que come vê ou não vê, mas sobra sempre um esquecido no caldo de orégãos, no fundo dos panelões que perfumam Lisboa. E bebia outra imperial em honra do caracol desconhecido.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021


PYE  - PATS 7002

Make Me An Island – If You Care A Little Bit About Me

Permitam-lhe que ele desarrume a memória e que, por uma história de nada – ou de tudo? – ponha o Joe Dolan a rodar.

Um café de província, Alfeizerão, junto a uma bomba de gasolina, uma bomba de gasolina da Mobil, que não era como as bombas de gasolina que o imaginário dos filmes americanos lhe transmitiu.

Duas, três mesas, uma jukebox a um canto, todas as sextas-feiras do último mês, de quase quarenta meses de tropa, dez tostões na ranhura da jukebox e o Make Me An Island do Joe Dolan a cantar no sonolento café, 2, 3 gins tónicos a completar o cenário.

Ele que até à data, depois de um milhão de gin-tónicos – chapelada a Mr. Humphrey Bogart – bebidos, em muitos e diversos bares, uns rascas, outros a armar ao fino, terá sempre na memória o sabor daqueles gins.

As circunstâncias fazem milagres e ele sabe que os gins eram merdosos e aproveita para  citar Nuno Júdice:  nada nos faz reviver melhor o passado do que um cheiro que em tempos lhe esteve associado.

É isso.

O gin era marca Bols, a água tónica era Canada Dry, o limão não tinha casca, o dono do café aproveitava as cascas para os martinis, o gelo tirava-o das paredes da geladeira dos gelados Olás, mas nada, que Joe Dolan e o seu Make Me An Island, o saber que, em passo de corrida, o findar da tropa se aproximava não fizessem esquecer.

Terminou a tropa ao bater do meio-dia de 30 de Setembro de 1970.

Apanhou a camioneta azul da carreira dos Claras, chegou a casa, pegou na Aida e zarpou para Os Perús, à Praça do Chile, frango assado, no dizer do escritor e jornalista Rui Cardoso Martins,  os melhores frangos assados do mundo, uma garrafa de tinto Aliança, pudim flan, Antiqua, em balão aquecido, se faz favor, e  ala que se faz tarde para  o 3º anel da Luz, que ainda não era Catedral, ver o Glorioso espetar 8 a 1 no Olimpija, uma rapaziada que em Liubilana, na 1º mão da 1ª eliminatória da Taça dos Clubes Campeões Europeus, tinha cometido a soberba proeza de empatar a um golo.

Para o informe ficar como deve ser:

O árbitro foi o Sr. Queudeville do Luxemburgo e o Glorioso alinhou com José Henrique na baliza, Malta da Silva, Humberto Coelho, Zeca e Toni (Barros entrou aos 80 m), Jaime Graça, Matine, Simões (capitão), Artur Jorge, Torres e Eusébio.

O treinador era o inglês Jimmy Hagan, o garagista.

O pantera negra meteu 5 golos, Zeca, Artur Jorge, Jaime Graça, completaram o placard.

Na jukebox de um café de província, junto a uma bomba de gasolina, Joe Dolan acabou de soltar os últimos versos take me and break me and make me an island, I'm yours.

Ainda sente o último gole de gin antes de se pôr a caminho para o último recolher do dia, no RI 5 das Caldas da Rainha, a mesma porta de armas por onde, 42 meses depois, por um 16 de Março, um grupo de militares saiu, a caminho de Lisboa, para aquilo que, ainda hoje, ninguém sabe explicar muito bem o que foi.

Um ensaio para o 25 de Abril, dizem os que pormaiores querem abreviar.

Sing again, Joe!

domingo, 1 de agosto de 2021

OLHAR AS CAPAS


Granta

Nº 1

Direcção e Editorial: Carlos Vaz Marques

Textos de Dulce Maria Cardoso, Valério Romão, Saul Bellow, Hélia Correia,  

                  Ricardo Felner, Fernando Pessoa, Ryszard Kapusciriski, Afonso Cruz,

                  Daniel Blaufuks, Simon Gray, Rui Cardoso Martins, Orhan Pamuk,

                  Rachel Cusk, Valter Hugo Mãe

Capa: Daniel Blaufuks

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Maio de 2013

No conceito de deus, há o horror ao seu próprio vazio, Nuns tempos comos os de hoje, a abundância de recursos preencheu o espaço em que a fatalidade e o capricho, instrumentos da infelicidade, nos atiravam de uma esquina para a outra, como tremendos bofetões divinos. Vestimos os coletes insufláveis e nada pode golpear-nos, nem a água, nem as arestas, nem sequer a idade. Corremos muito à frente do destino com os mistérios do corpo e os da alma consideravelmente diminuídos. Temos o organismo escrutinado e não somente por transparecer mas por se revelar quimicamente. Se pensarmos no tanto que sofreram os investigadores renascentistas a fim de dissecarem um cadáver, não deixaremos de nos sentir gratos pelo sorteio cronológico que pôs o nosso nascimento nesta época.

Do texto Intervencionados de Hélia Correia

domingo, 10 de agosto de 2014

AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE


Título do Expresso de 9 de Agosto de 2014.



A liquidação geral da equipa do Benfica em hasta pública é um derivado tóxico da queda do BES.


Rui Cardoso Martins no Público.

Nota do Editor: O título é roubado do primeiro livro de Manuel António Pina (1969).

quarta-feira, 11 de abril de 2012

FOLHETIM DOMINICAL


O Damião não sabe o que aconteceu ao Público onde deram início ao folhetim Unido Jamais Será de Rui Cardoso Martins. Para pôr a  serradura do gato não foi, porque para esse fim utiliza os sacos do Pingo Doce.

Mas agora folheio a edição do domingo 1 de Abril, e o episódio tem o título A Fé é Acção.

Não resisto a respigar este pedacinho:

Assim pagam, mais uma vez, os justos pelos pecadores. Aos domingos, o padre José dava missa na penitenciária e tinha sessões com os presos que pareciam sessões psiquiátricas. Era comum ter de acalmar homens que não aceitavam estar presos por assaltar uma loja, quando os que roubam milhões nos bancos, na política, andam por aí à boa vida, senhor padre!, conversas destas todos os domingos. No jornal da paróquia, a notícia sobre a conversa com os presos podia começar com o lead clássico: “Cansado, mas satisfeito, o padre José regressou ontem do seu trabalho apostólico na prisão do distrito, onde acalmou almas revoltadas com a sua situação pessoal e o estado geral do país. “Os reclusos ficam mais animados, mas por pouco tempo, terei de voltar em breve, assim Deus me dê saúde”, disse o padre José ao nosso periódico”. Cansado sim, satisfeito não. A maior parte daqueles rapazes tem razão. Um dia isto vai levar uma volta. Já o tentaste, não serviu para nada, Deus te perdoe, padre José mas a fé é acção. Tocou o telefone. A senhora da casa atendeu, resmungou, bateu à porta.
 - Um homem quer falar consigo, senhor padre. Não diz quem é.
José sacudiu as migalhas e foi à saleta. Um preso aflito. Quando pensavam em matar-se, às vezes ligavam e resolvia as coisas por telefone.
- Sim?
-Sou eu.
- Quem fala?
- Sou eu, amigo, repetiu Fernando.
- És tu…
- Ainda tens o material?

No próximo fascículo: Corações de gasolina.

A coisa continua a prometer.

Legenda: a imagem é a que ilustra o capítulo do folhetim.

sábado, 7 de abril de 2012

FOLHETIM DOMINICAL


Leio jornais emprestados, sempre atrasados, de trás para a frente, por vezes, o contrário.

Há dias em que só leio as gordas, ou artigos em diagonal.

O Público é o que bate mais vezes à porta.

 Mas tornou-se um jornal basto desinteressante, mesmo com a nova roupagem que lhe emprestaram.

Estou a passar os olhos pelo suplemento dominical da edição de 18 de Março de 2012.

Estou na pág. 40.

Fico a saber que, em outro qualquer domingo, Rui Cardoso Martins, iniciou um folhetim – Unido Jamais Será.

Não me lembro de ter visto o início da história, ou o Damião ficou com o jornal para embrulhar a serradura do gato.

O capítulo desta semana dá pelo título: Assaltar um Banco.

Rui Cardoso Martins destaca o resumo do capítulo anterior:

Marcos, Pedro e Catarina, num carro a caminho de uma casa de madeira na Margem Sul para um encontro com o tio Fernando. “Foi uma pena o 25 de Abril não ter sangue, sangue a sério.

Leio o episódio que, no final, recomenda ao leitor:

Não perca o próximo fascículo: Bofetada na Inocência.

A coisa promete.

Legenda: a imagem é a que ilustra o capítulo do folhetim.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

QUOTIDIANOS


Para que saibas, nasci no Alentejo, terra de suicídios, só colegas de turma foram dois ou três, é assunto sociológico e literário, acho eu.

- Não gosto de pessoas que se matam. Acho uma falta de educação.

O Alexandre tem um truque: os amigos não morrem, hoje é que não podem vir.

Rui Cardoso Martins em A Viagem Continua

domingo, 9 de outubro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Um lugar seguro para a dor de cada um não sei se há.

Rui Cardoso Martins

sexta-feira, 22 de abril de 2011

ESTAMOS CÁ OUTRA VEZ E É PRIMAVERA!

“Abril é o mais cruel dos meses, ouvi dizer, mas ao fim da tarde uma criança foi à varanda e informou a cidade:

- Alegrem-se, chegou a Primavera!

E pela madrugada uma discussão de pássaros nas acácias acordou-me, não quero fechar a janela do quarto até Outubro.

Vou pelo centro de Lisboa, entre Sete Rios e Campo de Ourique, há um campo aberto de espantalhos, searas de trigo duro, centeio aveia, está tudo verde na respectiva altura de sua espiga, tremocilha em flor (se a placa está certa), as pernas do aqueduto ao longe, a ETAR dos esgotos espalmada. A ponte 25 de Abril voa pela parte mais alta do Tejo, agora atenção às obras infinitas das estradas, alguém as pagará, mas quem como, como, se ninguém sabe qual é o nosso caminho?, se continuares a direito pela estrada da Europa não chegas a Roma mas a Bruxelas, a Bona, uma mão à frente, a outra atrás da banca, e eu pagarei os buracos novos, eu e todos os portugueses, menos aqueles que só recebem. Mas respira a erva fresca e lembra-te que é Primavera e entraste no Alentejo. As pessoas andam estúpidas com o que deixarão de ter, hoje isto, amanhã sei lá, só que a natureza mostra-nos como se faz, voltaram os dias dos botões nas árvores, da sementinha que estica o pescoço e de escreverem belos disparates de amor.
(…)
Lisboa. A buganvília da minha varanda, a raquítica, tenta florir. Todo o ano leva na cara com o vento fluvial de Lisboa. Agora, com o sol verdadeiro da manhã, endireita-se e borbulha magras pétalas roxas. O resto do dia vira os ramos para dentro, uns pauzinhos de aperitivo, cobertos de sal e formigas, e olha a mesa da sala. Nos últimos anos viu comer, rir, cantar, chorar sobre esta mesa e escrever como agora. Espreita-me da varanda para dentro de casa, estamos cá outra vez, e é Primavera, buganvília.”

De uma crónica de Rui Cardoso Martins publicada na “Pública” de 10 de Abril de 2011.

segunda-feira, 21 de março de 2011

OLHARES


Não devemos adiar conversas mais de vinte anos e tirei a conversa do espeto com Delmiro, o galego. O Delmiro trabalha na casa Os Perus, à praça do Chile, a vinte metros da estátua de Fernão de Magalhaes, é a cervejaria com dois grandes machos de leque aberto no “placard” da porta, mas nunca lá assou perus, só frangos.
Sao os melhores do mundo que conheço, e já dei umas voltas, sao muito anos a assar frangos, diz-se, mas aqui é uma vida. Comi no Chile, na fronteira como Peru, em Arica, ondes os pelicanos atravessam a rua fora da passadeira, os papos gigantes de escroto a abanar, e era um bom frango assado mas nao como o do Delmiro Candeira Gonzalez, o galego. Carvao com espeto: o frango sobe e desce patamares, rolando feliz nas brasas como a Terra ao Sol.
Há vinte anos vivi nesta zona onde mulheres de salto esclareciam a noite:
- Levas uma naifada nos tomates que tos abro até o pescoço...
mudei de casa sete vezes mas sempre cruzei Lisboa, uma vez por semana, pelos frangos do Delmiro. Os dias de futebol, europeus, mundiais, pedem-me frango. Nunca tivemos a conversa. Nem demos um passou-bem completo, ele estende o braço para nao me sujar, os dedos dourados de sal grosso, limao, louro e sumo picante de frango. Uma vez, Delmiro lembrou José Cardoso Pires a terminar as madrugadas na tasca ao lado, a antiga Casa dos Perus, hoje fechada, onde ele e o seu irmao poeta galego cresceram, mais nada.”

Rui Cardoso Martins, “Público”, 6 de Junho de 2010