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domingo, 12 de maio de 2024

COMEÇOS DE LIVROS


A minha vida de leitor está repleta de grandes livros, de grandes começos.

Há dias, reparei que Moby Dick ainda não tinha entrado em Olhar as Capas.

Espanto dos espantos.

Já lá mora e agora entra nos Começos de Livros.

Lamentavelmente perdeu-se – onde? Como? - a velha edição, comprada pelo meu pai, da Moby Dick da Estúdios Cor. A que hoje faz parte da Biblioteca da Casa é uma edição da Unibolso, mas mantém a tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves.

É um enorme começo de livro de um fascinante livro, um clássico da literatura.

«Tratem-me por Ismael. Há alguns anos – não interessa quantos – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre que a minha alma se transforma num Novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar diante de agências funerárias e a marchar na esteira dos funerais que cruzam o meu caminho; e, principalmente, quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar os chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua – percebo então que chegou a altura de voltar para o mar, tão cedo quanto possível. É uma forma de fugir ao suicídio.»

Sempre guardei – está devidamente sublinhado -  aquele:

«Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que sinto na minha alma a humidade e a chuva de Novembro, sempre que minha hipocondria me domina de tal modo que é necessário um forte princípio moral para me impedir de sair deliberadamente para a rua e socar metodicamente o chapéu das pessoas - … então considero que é a altura de fazer-me ao mar e o mais depressa possível.»

Um grande livro e não poderá ser esquecido o filme que John Huston realizou em 1956. Uma daquelas tarefas julgadas quase impossíveis mas de que o velho John Huston, se sai mito bem, tal como Gregory Peck no papel do capitão Ahad, para nunca se deixasse de ouvir a perna de pau a bater no convés do navio Pequod.

Também não se pode esquecer, logo a abrir o livro, a Etimologia fornecida pelo defunto contínuo de uma escola elementar:

«O pálido contínuo! Bem me recordo dele, com a roupa, o coração, o corpo e o cérebro a largar o último fio… Sacudia sem cessar o pó dos seus velhos léxicos e das suas velhas gramáticas, com um lenço bizarro, cujo padrão, como por escárnio, representava as joviais bandeiras de todas as nações do mundo. Adorava espanar a poeira dos velhos calhamaços; aquilo era uma maneira subtil de não esquecer que também se havia de transformar em pó.»

O capitão Ahab impõe à sua tripulação a concretização do seu maior desejo – destruir a grande baleia branca. Sob o seu rígido comando a missão comercial do Pequod é alterada tornando-se uma missão de vingança.
Para Ahab, o monstro que destruiu o seu corpo não é uma criatura, mas sim o símbolo de algo desconhecido.
Sem medo das catástrofes naturais, dos maus presságios ou mesmo da morte, Ahab impele o seu navio em direcção ao perigo.

O capitão Ahab, lembra à sua tripulação que o objectivo da viagem comercial vai ser alterada e passa a ser uma demanda vingativa, a caça à baleia branca que o tinha deixado sem uma perna e que agora era uma perna que tinha sido confecionada a bordo com um pedaço de osso polido da queixada de um cachalote.

Mais à frente, páginas 310 surge-nos o avisos:

Não há portanto nenhum meio de saber-se como é a baleia sem irmos cacá-la. Simplesmente isso corresponde ao risco de uma pessoa ser esmagada pelo peso da sua curiosidade e depois arrastada para o fundo do mar. Portanto, aconselho ao leitor que modere a sua curiosidade a respeito das baleias.»

O livro está largamente sublinhado. Numa das margens a observação: ler o Sermão de Jonas na baleia. «O Senhor fez com que um grande peixe engolisse Jonas, e ele ficou dentro do peixe três dias e três noites».

Mas fiquemo-nos com o capitão Ahab monologando, páginas 167, com o seu cachimbo, recordando eu velhas frases lidas aqui e ali: «um fumador de cachimbo nunca está só», ou este pedaço de prosa do jornalista António Carvalho: «Quando os meus filhos nasceram, o fumo do meu cachimbo recebeu-os uma a um, como uma nuvem de boas vindas. Uma nuvem feita de imaginação e de sonho. Todas as minhas casas ficaram impregnadas desses odores – a cada um o seu perfume. Mais tarde quando me separei, os meus filhos confessavam-me que sentiam a falta do cheiro do meu cachimbo. Pelo menos ficou-lhes o meu rasto… Efémero, como qualquer fumo…»

Mas regressemos ao monólogo do capitão:

«Ahab ficou por um momento debruçado sobre a amurada, e depois, como já era seu costume recente, chamou um dos marinheiros de quarto e mandou-o buscar ao camarote o cachimbo e o banco de marfim. Acendendo o cachimbo na lâmpada da bitácula e colocando o banco a barlavento, sentou-se a fumar.

Duranta alguns momentos saíram da sua boca constantes e densas baforadas de fumo que o vento lhe arrojava à face.

«Porque será – monologou ele – que este fumo perdeo condão de ma calmar? Oh! meu cachimbo, triste vida a minha se os teus encantos se perderam! Aqui tenho estado eu a fumegar sem prazer – a fumar sem dar por isso, contra o vento; e soltando fumaças nervosas como uma baleia moribunda, cujos derradeiros jacto são mais violentos e cheios de agonia. Que se passa contigo, meu cachimbo? Foste criado para tranquilizar, para lnçar suaves vapores brancos para o meio de tranquilos cabelos brancos e não para as ásperas madeixas cor de ferro do teu amo. Não mais fumarei…

Lançou ao mar o cachimbo ainda aceso; o lume silvou nas ondas e no mesmo instante a ressaca do navio lançou para o largo a bolha que assinalava o ponto onde o cachimbo se tinha afundado.»

Legenda: Gregory Peck no filme Moby Dick de John Huston

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

... E MUITO MAIS VINHO TINTO

Em 1986, Manuel S. Fonseca esteve três meses em Los Angeles e esse tempo permitiu-lhe «estudar Coppola e ouvir John Huston, esse Hemingway do cinema, já de garrafinha de oxigénio, a dizer que, a mudar alguma coisa na sua vida, teria bebido muito menos uísque e muito mais vinho tinto.»

sábado, 5 de março de 2022

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Recentemente comprou livros que já leu, mas não os leu bem.

Falta-lhe concentração, falta-lhe paciência, faltam-lhe coisas a que não consegue dar nome.

Será que há livros que não querem ser lidos?

Passou parte da tarde a rever – quantas vezes já? – Prizzi's Honor, filme de John Huston com Jack Nicholson e Kathleen Turner, Angelica Huston.

«Irene – Bela família a sua! Seja como for, gosto do seu casaco.

Charlie – Gosta? Um casaco assim daria bastante nas vistas em Nova Iorque, sabe? O meu pai diz sempre que mais vale dar nas vistas pelo sério que somos, do que pelas roupas, pelos carros, ou pelos anéis de diamantes.

Irene – Vamos?»

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Isto é o Inverno que nos trouxe um frio de rachar, como o lisboeta que sou, há muito não lembrava.

Folheando José Rodrigues Miguéis:

«Esta manhã assim que abri os olhos, ouvi um piano que enchia a casa de sonoridade: Chopin, uma mazurca, e tocada por mão de mestre. Foi uma coisa que sempre me dispôs bem para todo o dia, acordar a ouvir música.»

Leio este pedacinho do mestre e pergunto-lhe se em vez de uma mazurca de Chopin, não poderá ser um Nocturno, o no. 1 op. 9, tocado, com mestria, pela Maria João Pires?

1.

Percorreu os natais suficientes para saber de ciência certa, que nunca lhe aparece no sapatinho o que queria. Sonhou discos e livros, filmes também, uma caixa de esplêndidos robustos Cohiba, algumas garrafas de gin, mas que ninguém se atreve a oferecer, escudados naquele princípio de, dizem, o mais certo é teres tudo, ou então são coisas que fazem mal à saúde…
Por isso, todos os anos, toma as suas precauções e oferece-se a si mesmo as costumeiras prendas, as que nunca lhe provocam o que quer que seja: nem surpresa, nem desilusão…

No Natal de 97, comprou o duplo CD que Maria João Pires gravou para a Deutsche Grammophon com os Nocturnos de Chpin.

2.

The Dead, filme de John Huston.

Aquele jantar de Natal que reúne a Gente de Dublin com que John Huston se despediu do número dos vivos. Foi numa cadeira de rodas, com uma garrafa de oxigénio ao lado, que o filme foi rodado. Morreu entretanto e seria um dos seus filhos a terminar o filme.

Não haverá outro jantar como aquele na história do cinema. Só mestres são capazes destas coisas. Festa de Babette à parte porque isso é uma outra história. Talvez o jantar na colónia francesa no Apocalypse Now, versão remix, se assemelhe um pouco, o  jantar em que Coppola exigiu que os vinhos estivessem à temperatura em que devem ser bebidos.

Revendo o filme de John Huston, i maginei a lareira que não tenho, mas gostava de ter. Sentado a olhar o lumi, como dizem os alentejanos, um charuto, um gin. Folhear um livro ao acaso, talvez Memorial do Convento, largamente sublinhado, reler algumas passagens, talvez esta:

«… só uma mulher que está deitada num restolho com um homem em cima de si, cuida ver qualquer coisa a passear no céu, mas julga serem visões próprias de quem está a gostar tanto.»

Se bem se lembram, Blimunda e Baltasar, estavam a ser sobrevoados pela Passarola de Bartolomeu de Gusmão.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

DA MEMÓRIA DE UM LARGO E DOS FUMOS QUE DEIXOU DE FREQUENTAR...


Na meia dúzia de blogues em que, com mais assiduidade, vai viajando, há um que frequenta desde tempos bem recuados: o Largo da Memória de Luís Eme, jornalista, escritor e guardador das margens do Tejo.

Começou pelo agrado das fotografias e acabou a gostar do que lá por se escrevia.

Quando fumava cachimbo, cigarrilhas e charutos, gostou de ter lido no Largo esta pérola. 

Não por picuinhice, mas por um certo rigor, lamenta ter perdido a data em que foi escrita:

«Nunca tinha ouvido um elogio tão forte e sentido, a um não fumador activo, pelos frequentadores do seu escritório.

Embora ele nunca fumasse, nunca proibiu ninguém de fumar no seu espaço de trabalho e local de abrigo e de escrita, nem mesmo depois das proibições oficiais e da "publicidade assassina" nos maços de cigarro.


Depois de escutar os amigos, quase sem jeito, desculpou-se que sempre gostou do cheiro do tabaco.


Mas do que ele gosta muito, muito mais do que do cheiro do tabaco, é da liberdade.»

Esse inebriante cheiro da liberdade.

Os fumos, os gins...

Rigorosas instruções médicas, não lhe permitem fumar o cachimbo, as cigarrilhas, os charutos. 

Tem dias, não muitos, em que não consegue resistir…

O Gainsbourg tem uma canção em que diz que Deus é um fumador de Havanos e o Eça de Queiroz em AIlustre Casa de Ramires tem esta tirada:

«Mas reparando que escolhera um charuto, distraidamente o trincara:
- Oh! Perdão, minha senhora… ia fumar sem saber se V. Exª…
Ela saudou descendo as longas pestanas:
- O cavalheiro pode fumar; o Sanches não fuma, mas eu até aprecio o cheiro»

O cheiro do charuto incomodava a mulher de Groucho Marx.
Um dia disse-lhe:
- Ou eu os charutos!...
- Então ficamos bons amigos!

Legenda: Edward G. Robinson no filme Key Largo, um delicioso filme negro de John Huston

domingo, 16 de setembro de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


As terríveis saudades que tenho em ver um filme «noir» numa sala de cinema.

Claro que os tenho por aí em DVD mas, desculpem, não é bem a mesma coisa.

Aliás como todos os filmes, que obrigatoriamente foram criados para serem vistos numa sala escura.

Filmes negros é uma das minhas pancadas cinematográficas. É mais que um género, é uma obsessão.

Mais obsessões?

Juntem-lhe westerns, musicais, o cinema, enfim.

Mas estávamos nos filmes negros:

A Sede do Mal de Orson Welles, com Charlton Heston, Janet Leigh, Marlene Dietrich, Orson Welles,

O Terceiro Homem de Carol Reed com Alida Valli, Joseph Cotten, Orson Welles,

A Relíquia Macabra de John Huston com Humphrey Bogart, Elisha Cook, Mary Astor, Peter Lorre,

O Crepúsculo dos Deuses de Billy Wilder com Erich von Stroheim, Gloria Swanson,

A Dama de Xangai de Orson Welles com Orson Welles, Rita Hayworth, Everett Sloane, Glenn Anders,

Laura de Otto Preminger com  Gene Tierney, Dana Andrews, Cliffton Webb,

Key Largo de John Huston com Humphrey Bogart, Edward G. Robinson, Lauren Bacall, Lionel Barrymore, Claire Trevor,

Pagos a Dobrar de Billy Wilder com Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson,

À Beira do Abismo de Don Siegel com Humphrey Bogart, Lauren Bacall,

Tantos e tantos outros, mas não estou a esquecer Chinatown, de Roman Polanski, tanto de talento como de execrável, com  Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston e que tem uma das mais célebres frase do cinema, dita por John Huston,  no papel de Noah Cross:

«Sou respeitável, sou velho. Os políticos, os prédios feios e as putas tornam-se sempre respeitáveis se viverem muito tempo". 

domingo, 14 de janeiro de 2018

FOI HÁ 61 ANOS!


Não temos razões para ter pena dele, mas sim de nós, porque o perdemos.

John Huston, durante o serviço fúnebre.

domingo, 1 de outubro de 2017

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A publicação da capa de O Falcão de Malta, serve para reproduzir uma ida ao piolho já aqui publicada:

Não vi Relíquia Macabra no piolho.

Penso que a primeira vez que o vi, das muitas que já levo, terá sido num dos muitos cinemas de “reprisse” lá do bairro, não lembro qual.

O filme, realizado por John Huston em 1941, encontra-se catalogado nos chamados “film noir”.

A expressão “fim noir” é usada para descrever os filmes americanos da década de 40 e começo da de 50, produzidos em Hollywood, nos quais era retratado o sub mundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Filmes cujos heróis, bem como os maus, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, fortemente ligados ao passado e a borrifarem-se para o futuro. Passam-se quase sempre de noite e são filmados a preto e branco. Também há “films noir” a cores mas isso é uma outra história.

Esta designação de “film noir” apanhei-a já em tempos recentes, porque nos meus tempos do “Cine-Oriente”, para a malta da rua os filmes eram policiais ou de gangsters, de índios e cowboys, e tudo o resto, musicais incluídos, eram filmes de manteiga que víamos sem qualquer brilhozinho nos olhos.

Claro que o cinema não seria aquilo que hoje é, se não houvesse “film noir”. 
Grande parte dos filmes do meu panteão encontram-se aqui. 

Uma das características destes filmes são os seus personagens. Gente que entra, gente que sai, uns regressam outros não. Perco-me sistematicamente nos enredos e isso é um enorme gozo. Mesmo já tendo visto o filme, e avisado que estou, perco-me, e de caminho descubro, um prazer dentro de outros prazeres, coisas que me tinham escapado.

O Falcão de Malta é uma estatueta negra, perseguida por um bando de malfeitores, de “valor incalculável”, na expressão de Mr. Gutman.


Um tesouro pelo qual vale a pena matar. Sam Spade, um detective privado já curtido pelo tempo, com o seu solitário código de ética. Um bizarro ladrão chamado Joel Cairo, um homem gordo que dá pelo nome de Gutman e Brigid O'Shaughnessy, uma bela e traiçoeira mulher cuja lealdade muda com um tilintar de moedas.


O filme é a adaptação de um livro de Dashiel Hammett, O Falcão de Malta,cuja tradução portuguesa, de Baptista de Carvalho, é o número 34 da Colecção Vampiro. Por aqui existe também uma edição de “A Regra do Jogo”, traduzida por Helena Domingos, número 2  da Série Negra.

O livro começa assim:

O rosto de Samuel Spade era longo e ossudo e o seu queixo formava um pronunciado V, sob o V mais suave da boca. As narinas abriam-se, também sob a forma de um V mais pequeno. Os seus olhos verdes claros rasgavam-se horizontalmente, em forma de amêndoa. Sobranceiras a um nariz aquilino, viam-se duas rugas paralelas donde emergiam espessas sobrancelhas cuja configuração era, uma vez mais, a de um V bem vincado caprichosamente invertido. O cabelo castanho claro tinha como fronteira uma testa alta a despida de rugas sobre a qual avançara, como um istmo original, uma porção de cabelo que formava assim, no centro, um “bico de viúva”. À primeira vista, Spade tinha o aspecto agradável de um demónio saxão. Naquele momento, inquiria de Effie Perine.

- Que se passa, meu amor?

O The Times Lierary Suplement considerou que O Falcão de Malta não é apenas a melhor história de detectives que alguma vez lemos; é um romance extraordinariamente bem escrito, enquanto que o The Boston Globe considerava que Dashiel Hammett é um mestre das histórias de detectives, sim, mas também um escritor dos diabo  e o The New York Times que a prosa de Hammett é limpa e totalmente excepcional. As suas personagens são as mais perspicazes e concisamente definidas da ficção americana.


No filme de Huston, são soberbas as interpretações de Humphrey Bogart e Mary Astor,  mas é justo salientar o desempenho de Peter Lorre na pele de um amaricado Joel Cairo.

O filme tem excelentes diálogos, Na lista do American Film Institute para as cem melhores linhas de diálogo da história do cinema, há uma citação para Relíquia Macabra, quando no final o idiota inspector de polícia, depois de prender Brigid, pega na estatueta negra, vira-se para Sam e pergunta:

“É pesada. O que é?”
Sam Spade responde-lhe:
- É aquilo de que são feitos os sonhos.
Fiquemos com dois deliciosos diálogos do filme. O primeiro entre Sam Spade e Mr. Gutman, o outro entre o mesmo Sam e Brigid, quando ele lhe diz que sabe que ela matou o seu sócio e a vai denunciar à polícia:

Gutman – É um homem reservado?
Sam – Não, gosto de falar.
Gutman – Desconfio dos homens reservados. Normalmente escolhem mal a altura para falarem e dizem disparates. Falar é uma coisa que não se faz judiciosamente a não ser que se pratique muito. Se quiser podemos falar. Digo-lhe desde já que sou um homem que gosta de falar com um homem que gosta de falar.
Sam – Óptimo. Vamos falar do pássaro negro?
Gutman – É o homem certo para mim. Nada de rodeios: direito ao assunto. Falemos do pássaro negro. Pois, como sabe, no auge da acção os homens tendem a esquecer o que é melhor para eles e deixam-se levar pelas emoções.”

 “Sam – Se tiveres sorte, daqui a vinte anos sais da prisão, e nessa altura volta para mim. Espero que não te enforquem por esse pescoço lindo.
Brigid – Não vais…
Sam – Vou pois, meu anjo. Deves apanhar prisão perpétua e se portares bem, sais daqui a vinte anos. Estarei à tua espera. Se te enforcarem, hei-de sempre lembrar-me de ti.
Brigid – Sam, não digas isso nem a brincar. Por um momento assustei-me. Pensei que ias mesmo… Fazes coisas tão estranhas e imprevisíveis!
Sam – Não sejas tola. Vais mesmo dentro. Mataste o MIles e vais pagar por isso.
Brigid – Como podes fazer-me isso. De certeza que o Archer não significava tanto para ti como…

Sam – Ouve, não vale a pena. Nunca vais compreender-me, mas vou tentar uma vez. Quando o colega de alguém é morto, esse alguém tem de fazer alguma coisa. Não interessa o que se pensava dele. Era colega, e há que fazer qualquer coisa e acontece que estamos na actividade de detectives. Quando alguém da organização é morto é mau deixar-se o criminoso fugir. É mau para toda agente. É mau para todos os detectives. Se tudo isto não significa nada para ti, então esquece tudo e ficamos assim; não faço o que queres, porque eu o quero também apesar das consequências, e porque estás a contar que eu o faça, tal como contaste com os outros também.

Brigid – Terias feito isso se o falcão fosse verdadeiro e tivesses recebido o dinheiro que esperavas?

Sam – Não penses que sou tão malandro como se pensa. Esse tipo de fama talvez fosse bom negócio, chamando trabalhos que pagassem bem e tornando mais fácil lidar com o inimigo mas muito dinheiro teria sido mais peso do teu lado da balança.
Brigid – Não esperas que o que estás a dizer seja razão suficiente para me mandares prender.

Sam – Deixa-me acabar, depois falas. Não tenho razão nenhuma para acreditar em ti e se eu te deixasse escapar terias sempre algo de que me  acusar sempre que quisesses como tenho agora contra ti, não sei se um dia não me darias um tiro. Tudo isso pesa de um lado. Nem todos estes factores são importantes. Não discuto isso. Mas vê quantos são. E do outro lado, o que é que temos? Que tu talvez gostes de mim e que eu talvez goste de ti.

Brigid – Sabes se gostas de mim ou não?

Sam – Talvez. Vou ter noites horríveis depois de te mandar prender mas isso passa.

Brigid – Se gostasses de mim, não precisavas de mais pesos desse lado”.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


«Faço um filme só com uma ruga de Bogart» - citou John Huston.

Dinis Machado  em O Lugar das Fitas.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não vi Relíquia Macabra no piolho. 

Penso que a primeira vez que o vi, das muitas que já levo, terá sido num dos muitos cinemas de “reprisse” lá do bairro, não lembro qual.

O filme, realizado por John Huston em 1941, encontra-se catalogado nos chamados “film noir”.

A expressão “fim noir” é usada para descrever os filmes americanos da década de 40 e começo da de 50, produzidos em Hollywood, nos quais era retratado o sub mundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Filmes cujos heróis, bem como os maus, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, fortemente ligados ao passado e a borrifarem-se para o futuro. Passam-se quase sempre de noite e são filmados a preto e branco. Também há “films noir” a cores mas isso é uma outra história.

Esta designação de “film noir” apanhei-a já em tempos recentes, porque nos meus tempos do “Cine-Oriente”, para a malta da rua os filmes eram policiais ou de gangsters, de índios e cowboys, e tudo o resto, musicais incluídos, eram filmes de manteiga que víamos sem qualquer brilhozinho nos olhos.

Claro que o cinema não seria aquilo que hoje é, se não houvesse “film noir”.

Grande parte dos filmes do meu panteão encontram-se aqui.

Uma das características destes filmes são os seus personagens. Gente que entra, gente que sai, uns regressam outros não. Perco-me sistematicamente nos enredos e isso é um enorme gozo. Mesmo já tendo visto o filme, e avisado que estou, perco-me, e de caminho descubro, um prazer dentro de outros prazeres, coisas que me tinham escapado.

O Falcão de Malta é uma estatueta negra, perseguida por um bando de malfeitores, de “valor incalculável”, na expressão de Mr. Gutman.

Um tesouro pelo qual vale a pena matar. Sam Spade, um detective privado já curtido pelo tempo, com o seu solitário código de ética. Um bizarro ladrão chamado Joel Cairo, um homem gordo que dá pelo nome de Gutman e Brigid O'Shaughnessy, uma bela e traiçoeira mulher cuja lealdade muda com um tilintar de moedas.


O filme é a adaptação de um livro de Dashiel Hammett, O Falcão de Malta, cuja tradução portuguesa, de Baptista de Carvalho, é o número 34 da Colecção Vampiro. Por aqui existe também uma edição de “A Regra do Jogo”, traduzida por Helena Domingos, número 2  da Série Negra.


O livro começa assim:

O rosto de Samuel Spade era longo e ossudo e o seu queixo formava um pronunciado V, sob o V mais suave da boca. As narinas abriam-se, também sob a forma de um V mais pequeno. Os seus olhos verdes claros rasgavam-se horizontalmente, em forma de amêndoa. Sobranceiras a um nariz aquilino, viam-se duas rugas paralelas donde emergiam espessas sobrancelhas cuja configuração era, uma vez mais, a de um V bem vincado caprichosamente invertido. O cabelo castanho claro tinha como fronteira uma testa alta a despida de rugas sobre a qual avançara, como um istmo original, uma porção de cabelo que formava assim, no centro, um “bico de viúva”. À primeira vista, Spade tinha o aspecto agradável de um demónio saxão. Naquele momento, inquiria de Effie Perine_
- Que se passa, meu amor?

O The Times Lierary Suplement considerou que O Falcão de Malta não é apenas a melhor história de detectives que alguma vez lemos; é um romance extraordinariamente bem escrito, enquanto que o The Boston Globe considerava que Dashiel Hammett é um mestre das histórias de detectives, sim, mas também um escritor dos diabo  e o The New York Times que a prosa de Hammett é limpa e totalmente excepcional. As suas personagens são as mais perspicazes e concisamente definidas da ficção americana.


No filme de Huston, são soberbas as interpretações de Humphrey Bogart e Mary Astor,  mas é justo salientar o desempenho de Peter Lorre na pele de um amaricado Joel Cairo.

O filme tem excelentes diálogos, Na lista do American Film Institute para as cem melhores linhas de diálogo da história do cinema, há uma citação para Relíquia Macabra, quando no final o idiota inspector de polícia, depois de prender Brigid, pega na estatueta negra, vira-se para Sam e pergunta:


“É pesada. O que é?”

Sam Spade responde-lhe:

- É aquilo de que são feitos os sonhos.

Fiquemos com dois deliciosos diálogos do filme. O primeiro entre Sam Spade e Mr. Gutman, o outro entre o mesmo Sam e Brigid, quando ele lhe diz que sabe que ela matou o seu sócio e a vai denunciar à polícia:

Gutman – É um homem reservado?

Sam – Não, gosto de falar.

Gutman – Desconfio dos homens reservados. Normalmente escolhem mal a altura para falarem e dizem disparates. Falar é uma coisa que não se faz judiciosamente a não ser que se pratique muito. Se quiser podemos falar. Digo-lhe desde já que sou um homem que gosta de falar com um homem que gosta de falar.

Sam – Óptimo. Vamos falar do pássaro negro?

Gutman – É o homem certo para mim. Nada de rodeios: direito ao assunto. Falemos do pássaro negro. Pois, como sabe, no auge da acção os homens tendem a esquecer o que é melhor para eles e deixam-se levar pelas emoções.”

 “Sam – Se tiveres sorte, daqui a vinte anos sais da prisão, e nessa altura volta para mim. Espero que não te enforquem por esse pescoço lindo.

Brigid – Não vais…

Sam – Vou pois, meu anjo. Deves apanhar prisão perpétua e se portares bem, sais daqui a vinte anos. Estarei à tua espera. Se te enforcarem, hei-de sempre lembrar-me de ti.

Brigid – Sam, não digas isso nem a brincar. Por um momento assustei-me. Pensei que ias mesmo… Fazes coisas tão estranhas e imprevisíveis!

Sam – Não sejas tola. Vais mesmo dentro. Mataste o MIles e vais pagar por isso.

Brigid – Como podes fazer-me isso. De certeza que o Archer não significava tanto para ti como…
Sam – Ouve, não vale a pena. Nunca vais compreender-me, mas vou tentar uma vez. Quando o colega de alguém é morto, esse alguém tem de fazer alguma coisa. Não interessa o que se pensava dele. Era colega, e há que fazer qualquer coisa e acontece que estamos na actividade de detectives. Quando alguém da organização é morto é mau deixar-se o criminoso fugir. É mau para toda agente. É mau para todos os detectives. Se tudo isto não significa nada para ti, então esquece tudo e ficamos assim; não faço o que queres, porque eu o quero também apesar das consequências, e porque estás a contar que eu o faça, tal como contaste com os outros também.

Brigid – Terias feito isso se o falcão fosse verdadeiro e tivesses recebido o dinheiro que esperavas?
Sam – Não penses que sou tão malandro como se pensa. Esse tipo de fama talvez fosse bom negócio, chamando trabalhos que pagassem bem e tornando mais fácil lidar com o inimigo mas muito dinheiro teria sido mais peso do teu lado da balança.

Brigid – Não esperas que o que estás a dizer seja razão suficiente para me mandares prender.
Sam – Deixa-me acabar, depois falas. Não tenho razão nenhuma para acreditar em ti e se eu te deixasse escapar terias sempre algo de que me  acusar sempre que quisesses como tenho agora contra ti, não sei se um dia não me darias um tiro. Tudo isso pesa de um lado. Nem todos estes factores são importantes. Não discuto isso. Mas vê quantos são. E do outro lado, o que é que temos? Que tu talvez gostes de mim e que eu talvez goste de ti.

Brigid – Sabes se gostas de mim ou não?

Sam – Talvez. Vou ter noites horríveis depois de te mandar prender mas isso passa.

Brigid – Se gostasses de mim, não precisavas de mais pesos desse lado”.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Todos os anos, na ressaca natalícia, recorro à melancolia, à poesia, à beleza do filme de John Huston “The Dead”. Não me perguntem porquê.


O enredo do filme salta de um conto de James Joyce, “The Dubliners”, adaptado por Tony Huston e que em Portugal se chamou “Gente de Dublin”.

Aquele jantar de Natal com que John Huston se despediu do número dos vivos.

Foi numa cadeira de rodas, com uma garrafa de oxigénio ao lado, que rodou o filme e, certamente, sabendo que não o iria concluir, teve a seu lado o filho Harry Huston que, após a sua morte, o concluiu.

Manuel Cintra Ferreira, numa das "Folhas da Cinemateca”, deixou escrito: “Se um filme pode conceber-se como um “testamento”, “The Dead” talvez seja o melhor exemplo disso. É um filme de despedida, contando também a história de uma despedida. Um adeus melancólico de alguém que apreciou bem a vida, e a refeição simboliza bem o prazer de viver que possuiu Huston. É também um adeus a tudo o que amou: a Irlanda, os amigos, o cinema. A este último dá uma das suas obras maiores e a mais perfeita. À sua amada Irlanda oferece o seu olhar sobre o maior escritor do país, James Joyce e para fazer o filme reuniu à sua volta a família (Angelica, Tony e Danny) e os amigos, actores de cinema e de teatro irlandeses (do Abbey e do Gate Theatre).”



José Saramago disse um dia que “o Natal é uma borbulha consumista que nos separa do Apocalipse”, mas se ainda não repararam, digo-vos agora que faltam 353 dias para que volte a ser Natal.

Tempo para, à maneira de Nick Hornby, valendo estas coisas o que valem, deixar-vos  a lista dos meus cinco filmes de Natal:

1)      “A Loja da Esquina”,“The Shop Around The Corner”, 1940, Ernest Lubitsch
2)      “Não Há Como a Nossa Casinha”, “Meet Me In St. Louis”, 1944,Vincente Minnelli
3)      “Gente de Dublin”, “The Dead”, 1987, John Huston
4)      “A Taberna do Irlandês”, “Donovan’s Reef”, 1963, John Ford
5)      “Do Céu Caiu Uma Estrela”, “It’s a Wonderful Life”, 1946, Frank Capra