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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

NESTE DIA


 Neste dia, ano de 1967, o tempo em que por Lisboa, arredores, aconteceram as terríveis cheias que a censura, enquanto pôde, foi escondendo, Mário Sacramento passou três dias em Lisboa, tendo sido convidado para assistir a uma recepção a Claude Roy, em casa do editor Lyon de Castro.

Na página 147 do seu Diário conta as dramáticas horas que viveu. Pelo meio tem uma frase dramática: «Cabeçalho no Janeiro: «Só o Benfica tem a bandeira a meia haste»… Desgraçado País!»


Nota do editor:

Para mais notícias sobre as inundações do ano de 1967 ver, neste blogue, a etiqueta «Inundações Lisboa 1967»

sábado, 11 de outubro de 2025

CHE


12 de Outubro de 1967

Parece que sempre conseguiram matar o Che Guevara, ao que dizem os jornais. Embora o sinta, não adiro com o mesmo sentimento que tive e tenho pelo Lumumba. É muito diferente lutar e morrer no seio do próprio povo ou agir como caixeiro-viajante da aventura revolucionária, no sei de outros. A dinastia dos Malraux nunca me foi simpática e a realidade confirma que há boas razões para isso.

Mário Sacramento em Diário

«Muitos consideram-me um aventureiro e na verdade sou-o, mas de um tipo diferente, do tipo dos que arriscam a pele para provar o que dizem.» Frase-resumo, em que há Sol e Trevas – e que incendeia a imaginação do radicalismo pequeno-burguês, neo-romântico ainda, em sua masturbação. Não basta querer a revolução. É preciso saber fazê-la.

Poema para Che Guevara escrito por Jorge de Sena:

 

Neste vil mundo que nos coube em sorte

por culpa dos avós e de nós mesmos

tão ocupados em desculpas de salvá-lo,

há uma diferença de revoluções.

Alguns sofrem do estômago, escrevem versos,

Outros reúnem-se à semana discutindo

o evangelho da semana; outros agitam-se

na paz da consciência que adquirem

com agitar-se em benefícios e protestos;

outros param com as costas na cadeia,

para que haja protestos. Há também

revoluções, umas a sério, que se acabam

em compromissos, e outras a fingir,

que não acabam nem começam. Mas são raros

os que não morrem de úlcera ou de pancada a mais,

e contra quem agências e computadores

se mobilizam de sabê-los numa selva

tentando que os campónios se revoltem.

Os campónios não se revoltam. E eles

São caçados, fuzilados, retratados

em forma de cadáver semi-nu,

a quem cortam depois cabeça, mãos,

ou dedos só (numa ânsia de castrá-los

mesmo depois de mortos) e o comércio

transforma-os logo num cartaz romântico

para quarto de jovens que ainda sonhem

com rebeldias antes de se empregarem

no assassinar pontual da sua humanidade

e da dos outros, dia a dia, ao mês,

com seguro social e descontando

para a reforma na velhice idiota.

Ó mundo pulha e pilha que de mortos vive!

 

(Em Poemas a Guevara) 


No 8º volume do seu Diário, Miguel Torga, sobre a morte do Che, colocava este poema:

 

Não choro, que não quero
Manchar de pranto
Um sudário de força combativa.

Reteso a dor, e canto

A tua morte viva.

 

A tua morte morta

Pelo próprio terror em que ficaram

À sua frente

Aqueles que te mataram

Sem poderem matar o combatente.

 

O combatente eterno que ficaste,

Ressuscitado

Na voluntária crucificação.

Herói a conquistar o inconquistado,

Já sem armas na mão


Quem te abateu, perdeu a guerra santa

Da liberdade.

Fez brilhar na manhã do mundo inteiro

Um sol de redentora claridade:

 

O teu rosto de Cristo guerrilheiro.

sábado, 4 de outubro de 2025

NESTE DIA


  Mário Sacramento foi o maior entusiasta dos Congressos da Oposição realizados, em Aveiro, nos tempos da ditadura.

    Tertúlia no Café Trianon, já desaparecido, com camaradas e companheiros.

Não neste dia, mas em 25 de Janeiro 1968, Mário Sacramento diz-nos que teve uma manhã de trabalho e uma tarde lagarteada.

Dias antes – a 18 -  escrevera que andava numa fase antidiarista.

pelo meio deixou: «Um homem só está vivo enquanto se projecta no futuro».

terça-feira, 12 de agosto de 2025

NESTE DIA


Mário Sacramento, uma vida, perseguida pela ditadura, levada da breca, teve algumas dificuldades, perigos?, em manter um jornal íntimo.

Começou-o em 10 de Junho de 1967 lembrando que faria trinta exactos anos que pela primeira vez tinha sido preso pela polícia política, então a P.V.D.E., depois Pide, por fim DGS. Terminou esse não diário, mais de reflexões e apontamentoss e não de factos, em 20 de Fevereiro de 1969.

Mas, Neste Dia, Verão de 1967, escreveu:


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

À LUPA


 O genocida Netanyahu anuncia ao mundo que, por completo, quer tomar Gaza.

Lido no editorial do Público de hoje:
«A conferência de imprensa do primeiro-ministro israelita, neste domingo ao início da tarde, é a declaração mais clara que Benjamin Netanyahu fez nos últimos tempos sobre as suas intenções e a prova de que estamos hoje muito longe dos Acordos de Oslo, entre Yasser Arafat e Yitzhak Rabin.
Há mais de 30 anos, na Noruega e sob a mediação dos Estados Unidos, chegou-se a uma solução que apontava para um processo de paz com vista, entre outras coisas, à criação de um Estado palestiniano. Na realidade, o acordo que tanto custou àqueles dois homens (a Rabin custou-lhe a vida), acabou por ser sucessivamente desrespeitado por líderes de uma e de outra parte.»

Às voltas com os diversos Diários da Biblioteca da Casa, para preencher o «Neste Dia», percorro Diário de Mário Sacramento. Em conversa com um amigo, a propósito da Guerra do Vietnam, escreve em 1968:

«Não pode ser patriota quem oprime outras pátrias».

terça-feira, 24 de setembro de 2024

COMEÇOS DE LIVROS

A Morte É Um Acto Solitário de Ray Bradbury

É um maravilhoso começo de livro

«Veneza, na Califórnia, tinha, nos velhos tempos, muito que a pudesse recomendasse a quem gostasse de estar triste. Era o nevoeiro quase todas as noites, e era, ao longo da costa, o gemer das máquinas nos poços de petróleo, e o bater da água suja nos canais, e o zumbir da areia a roçar as vidraças, quando o vento assobiava à volta das praças e ao longo das ruas desertas.

Era no tempo em que o pontão de Veneza, a cair aos bocados, morria no mar. E podia ver-se então gigantesca ossada de dinossauro, a montanha-russa, a coberto ou a descoberto, com o vaivém das marés.

No fim de um longo canal, viam-se as caravanas de um circo, decrépitas, para lá atiradas e abandonadas. E quem olhasse para as jaulas, à meia-noite, veria que lá dentro havia vida – peixes e camarões de ´+agua doce, que andavam ao sabor da maré. E tudo isto, afinal, era o circo do tempo, feito ruína, desfazendo-se em ferrugem.»

Quantos anos? Depois continuamos a recordar quem não queremos esquecer.

«Tenho tudo em meio e já não me restam muitos anos para acabar o que está e há-de vir.»

Mário Sacramento

«Morrer era agora minha liberdade, e eu tinha a vida inteira para executá-la

pormenorizadamente.»

Herberto Helder

Há dois géneros de pessoas: as que acham que tudo se passa no principio e as que acham que tudo se passa no fim. Foi isso que T.S. Eliot sobre isso escreveu: «In my beginning is my end».

Ou como diria o vagabundo no bar irlandês, acabando a última Pin:

Life is a bitch… and then you die.

Miguel Torga diz que o homem é em si uma solidão:

«Nascemos sós, vivemos sós, morremos sós.»

Uma prosa existente na papelada da casa e que não consegue saber o autor, ou os papéis de onde copiou, num guardanapo de café de bairro, a citação:

«Todos devemos deixar qualquer coisa atrás de nós, ao morrermos, dizia o meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa, uma parede ou um par de sapatos. Ou ainda um jardim plantado de flores. Qualquer coisa que a mão tocou e para onde irá a alma no instante da morte, E quando as pessoas olharem essa árvore ou essa flor que plantámos nós, estamos lá, sob os seus olhos.»

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                                                  Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                          João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Pequena viagem por alguns livros que retratam a vida sombria que os portugueses viviam antes do 25 de Abril:

1.

«Entre 1904 e 1914, entre os vinte e os trinta anos, tinha viajado por toda a Europa, durante as férias universitárias, para completar a sua educação, segundo o desejo do seu pai. Um Verão, quando voltava de Londres, ao ir embarcar em Valência para Nápoles, tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre o declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Tinha conhecido escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que governavam para os Ingleses; homens de negócios que liquidavam os seus estabelecimentos do Brasil e viviam de pequenas rendas, em cidades de província, sem finalidade. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades nascer Português. Em Lisboa, pela primeira vez na vida, tinha-se encontrado com um povo que se tinha desinteressado.» 

Roger Vailland em A Lei

2.

«Não há mais que silêncio em toda esta cidade. Silêncio e fome. Acabo de percorrer toda a Rua do Ouro e a Rua Augusta e reparei que ninguém falava. As pessoas cruzam-se em silêncio, e mesmo que se conheçam não se cumprimentam.»

Reynaldo Arenas em O Mundo Alucinante

3.

«Estamos catalogados, estamos empalhados dentro de uma redoma de vidro, mergulhados num frasco com álcool, isolados de tudo e com um rótulo debaixo dos pés. O rótulo puseram-no os outros; nós consentimos, acomodámo-nos e vamos vivendo com ele. Mas tudo pode desfazer-se dum momento para o outro. Sei o que fui, sei ainda o que sou. Mas tal não contribui em nada para o que serei. Um só gesto e os outros vêm ao museu onde estamos embalsamados, arrancam-nos o rótulo, não querem mais saber de nós, dizem que traímos. O que fomos? O que ainda ontem fomos? Os gestos que fizemos? Não. Não querem saber, Podem ter sido gestos da mais espantosa pureza, que em nada contribuem para que os outros nos perdoem. Pelo contrário. Esses gestos, pela sua própria beleza, mais ainda nos condenam, mais ainda nos enterram.»

Augusto Abelaira em A Cidade das Flores

4.

«Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!»

Mário Sacramento em Carta-Testamento 

5. 

«Nesse mesmo dia o Tinoco deu ordem à mulher-pide que não me deixasse ir à casa de banho enquanto eu não falasse e que as minhas necessidades eram feitas ali mesmo na frente deles e limpas com a minha roupa.

Foi-me novamente perguntado de não falava. Garantiram-me que ia ficar nua e que depois iam entrar os cavalheiros e sair as senhoras. Perante a minha negativa a pide Madalena começou aos pontapés e a bater-me enquanto me despia. Surge então um pide com uma máquina fotográfica. O Serra dava-me murros no queixo para eu levantar a cabeça. Tinha alucinações, não conseguia manter-me de pé.

Maria da Conceição Matos Abrantes

6

Diz-lhes que se resiste na cidade desfigurada por feridas de granadas e enquanto a água e os víveres escasseiam aumenta a raiva e a esperança reproduz-se.»

Egito Gonçalves em Notícias do Bloqueio

7.

Como hei-de amar serenamente com tantos amigos na prisão.

Fernando Assis Pacheco

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 Cronos

Cadernos de Literatura e Arte Nº 4

Direcção de Mendes de Carvalho, Eduardo Prado Coelho, Fernando Luso Soares

Colaboração de Mário Sacramento, Alexandre O’ Neill, Mário Cesariny, António Ramos Rosa, Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão. Mendes de Carvalho, Luiza Neto Jorge, Vitor Silva Tavares, Urbano Tavares Rodrigues, entre outros.

Edição de Autores, Lisboa s/d

Como tantos outros homens da minha idade, cheguei à primeira dentição intelectual bebendo o leite impoluto do ensaísmo sergiano, para depois comer o pão que o Diabo amassou. Ficou-me desse desmame um remoer de culpa absurda quando as vagas implacáveis do Realismo Ideológico começaram a espadanar sobre a sua obra a espuma amarela da Verdade Represa, pelo Sol Nascente e por outras plagas. Abrirei assim o meu exame – exame dela e meu – pondo-me a rosto com esta pergunta: Que se passou com Sérgio para que fosse, a um tempo, o Mestre inigualável de quantas gerações viram e verão na Inteligência o piloto do Mundo (mas não o seu armador!), e a Sereia que pôs embargos à derrota da nau de Ulisses?

(Do texto António Sérgio: O Ensaista e o Doutrinário da autoria de Mário Sacramento)

sábado, 1 de abril de 2023

CINQUENTENÁRIO DO III CONGRESSO DE AVEIRO


A União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) realiza, hoje Abril, em Aveiro, onde ocorreu o 3.º Congresso da Oposição Democrática, uma sessão evocativa. 

 Às 14.30 horas, sessão pública de evocação no Auditório do Centro Cultural e de Congressos de Aveiro.

Às 17.00 horas: desfile até ao cemitério local para homenagem aos democratas aveirenses (é a romagem que há 50 anos foi proibida e reprimida pela PIDE e pela polícia de choque).

Dia 4 de Abril irei publicar aqui no Cais, alguns textos sobre os Congressos de Aveiro que se encontram nos arquivos, nos livros da Biblioteca da Casa. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Este livrinho regista os discursos que foram proferidos no Porto, em Janeiro de 1969, por ocasião do 78º aniversário do 31 de Janeiro de 1891.

A Coordenação e edição pertence a Júlio Sereno Cabral e estão incluídos onze discursos proferidos por: Óscar Lopes, Joaquim Felgueiras, Velosos de Pinho, Ribeiro da Silva, Armando Bacelar, Mário Sacramento, Vergínia Moura, Alexandre Ferreira Barros, Fernanda Gonçalves, Mário Brochado Coelho.

Trata-se de uma Edição de Autor, sem indicação de data, mas supõe-se que seja Março de 1970. No prefácio, Sereno Cabral lembra Mário Sacramento que morreu a 27 de Março de 1969 e, por motivo de doença, não esteve presente nas comemorações do 31 de Janeiro desse ano, mas enviara uma mensagem que faz parte do livro.

Como epígrafe do livro, uma frase de Mário Sacramento:

«A terra de ninguém só dá cardos, se é que os dá.»

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 
É bom voltar a Mário Scaramento.

Foram os autores do neo-realismo português e italiano que me abriram os caminhos dos dias no mundo atribulado em que os li. Não foi o pouco que li de Karl Marx que me levaram a esses caminhos. Junto-lhes Albert Camus, Roger Vailland, Roger Marin do Gard, autores americanos, foram eles que me deram, sela lá o que isso for, a visão marxista do mundo.

Num livrinho de Mário Sacramento, Há Uma Estética Neo-Realismo?, lido  pr’aí em 1968, o autor coloca uma epígrafe de Almeida Garrett: «A história do mundo não é senão uma série de reacções e contra-reacções. A da literatura é o mesmo. O que unicamente fica imutável são os eternos princípios da verdade, do gosto e da razão em tudo.»

Mário Dionísio, dos mais inteligentes e claros intérpretes do neo-realismo, mas não se pode esquecer Alexandre Pinheiro Torres, lembrou Fernando Namora que já escrevera que não se pode escrever sobre camponeses que só se tinham visto da janela do comboio.

O Neo-Realismo teve entre nós imensos detractores, provavelmente o mais incompreendido dos movimentos literários do século passado. Tão adulterado, tão vilipendiado pelos que nunca puderam sentir-lhe as raízes e o significado. Ainda por aí andam uns jovens que, sem terem lido nada de nada, bolsam disparates aterradores.

Claro que a expressão neo-realismo tem hoje uma expressão nitidamente datada. Mas foi ali que aprendi parte importante dos parcos conhecimentos que tenho. Foram aqueles autores que intentaram a literatura como instrumento de luta política e ideológica, num tempo de trevas colocado em cena por um botas vindo de Santa Comba, e acolitado por uma série de gente sem escrúpulos, profundamente analfabetos, de baixíssima moral e maus. Talvez, escreveu Alves Redol, «o embalar da esperança valha mais do que o desespero da realidade desesperada»

E não esqueço uma frase do poeta Joaquim Namorado: «Nós dizíamos que éramos neo-realistas porque não podíamos dizer que éramos comunistas.»

OLHAR AS CAPAS


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Mário Sacramento: A Hora do Ensaio

Catálogo da exposição de 4 de Junho a 30 de Outubro de 2022

Curadoria: António Pedro Pita e Odete Belo

Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, Julho de 2022

Por mais realista e empenhada neste Mundo que se mostre a Arte, ela aliena o homem da realidade imediata por todo o tempo em que dura, pois, a evasão que assim lhe concede não é apenas um relaxe da atenção ou um interesse novo que se cria, mas qualquer coisa como umas asas de Ícaro com que se pode voar transitoriamente outro.

Mário Sacramento 

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

CONVERSANDO

Hoje, a Leitura recaiu sobre o Diário de Mário Sacramento.

Como também ando a reler o Vergílio Ferreira, lembro que o Vergílio Ferreira gostava pessoalmente de Mário Sacramento, mesmo sabendo em que ideologia velejava. Essa simpatia seria partilhada por Mário Sacramento. A tal ponto que Vergílio Ferreira refere, no 1º volume da sua Conta-Corrente que, numa visita que Mário Sacramento fez a sua casa, este lhe dissera que o incumbia de, após a sua morte, promover a publicação do seu Diário.

Após a leitura do Diário de Mário Sacramento, Vergílio Ferreira escreve:

«Nada diz sobre a sua ideologia. Os comunistas chamam-lhe seu. Mas a mim me disse ele que não era comunista, embora tivesse colaborado intensamente com eles.»

Antes de 25 de Abril, em conversas com Mário Castrim, fiquei sempre com a ideia que Mário Sacramento era militante comunista.

Sem entrar em grandes controvérsias, poderei adiantar que Mário Castrim estava em melhor posição de saber da filiação partidária de Mário Sacramento do que Vergílio Ferreira. Ambos nasceram em Ilhavo: Mário Sacramento no dia 7 de Julho de 1920, Mário Castrim no dia 31 de Julho do mesmo ano e, sempre que vinha a Lisboa, Mário Sacramento encontrava-se com Castrim na redacção do Diário de Lisboa.

Vergílio Ferreira diz que os comunistas chamam-lhe seu, que Mário Sacramento nunca lhe disse que era comunista.

Mário Sacramento morreu a 27 de Março de 1969.

Três dias depois, Mário Castrim publicou, no Diário de Lisboa, esta belíssima crónica de homenagem ao camarada e amigo:

terça-feira, 19 de outubro de 2021

POSTAIS SEM SELO


Um homem só está vivo enquanto se projecta no futuro.

Mário Sacramento em Diário

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

FADO COMO NÃO HÁ OUTRO


Corre por este ano, o centenário do nascimento de Amália Rodrigues.

Desde o início deste blogue, que não houve a preocupação de registar datas, sejam elas quais forem.

À medida sabe-se lá bem de quê, vamos falando do que nos apetece falar, de quem nos apetece falar.

Falamos hoje de Amália.

Amália vista por Mário Sacramento no distante e difícil tempo de 1968.

A entrada diarística está datada de 6 de Junho de 1968 e surge a propósito de um Congresso de Radiologia, realizado na Aula Magna da Reitoria de Lisboa:

«Às tantas, mas no salão, cantou a Amália. Se bem que deteste o fado, emocionou-me. Tem nervo, tem arte – é da raça dos eleitos. Transforma em oiro o metal mais vil. Toda de negro, como manda a praxe, mas com um cinturão de oiro, a maior beleza do seu rosto está na tensão que imprime à jugular, quando canta. Nenhum outro excesso. A boca é duma sensualidade incrível – toda a boca e não o lábio inferior apenas. Alguns dentes mais escuros ou deteriorados sublinham a sua verdade. Gaforina de leoa. Simplicidade sem embustes. E muito, muito carvão nos olhos, ora extinto, ora em labaredas. Depois, o reportório, um reportório certo: «Lisboa não sejas francesa»; ou «Mulheres que lavais no rio»… Amália, comoveste-me. Sobretudo quando disseste (graciosamente, fora anunciado já) porque o Sr. Dr. Corte Real me fez radiografias de graça quando eu não tinha dinheiro com que pudesse pagar-lhas…
Até nisso fado. Mas fado como não há outro.»

O que transparece nesta opinião de Mário Sacramento é mesmo uma profunda admiração por Amália, ele que nem sequer gostava de fado.

Há alguns anos atrás, o actor Rogério Paulo divulgou que Amália Rodrigues, em tempo de ditadura, ajudava monetariamente as famílias dos presos políticos. Quando Amália morreu, José Saramago confirmou essa faceta por parte da artista.

Seria essa ajuda do conhecimento de Mário Sacramento?

O pormenor não interessa por aí além.

Em Junho de 1972, numa entrevista a Guilherme de Melo, publicada no «Notícias de Lourenço Marques», Amália disse:

«Já tenho uma idade e já cheguei a uma altura da minha vida como mulher e da minha carreira como artista em que não precisos de me agarrar às «direitas» para subir ou às «esquerdas» para me evidenciar.»

Em Amália, importa realçar a riqueza com que rodeava tudo o que interpretava, a paixão com que envolvia todas as palavras que cantava fossem em português, em francês, em espanhol, em inglês.

Um verdadeiro esplendor, uma diva.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

SOCORRENDO-SE APENAS DA MEMÓRIA...


Nunca li o livro de Mário Sacramento « Fernando Pessoa da Hora Absurda», mas aqui podem recordar uma história mirabolante de Luiz Pacheco tirada do seu «Memorando, Mirabolando» e não resisto a republicar este pedacinho desse texto:

«Nunca vi o dr. Mário Sacramento, apenas fotos suas nos jornais. Durante a atribulada edição do livro, que demorou anos [entre 1953 e 1959], apenas nos correspondíamos por carta e ele tanto me remetia o original e provas de Aveiro como do Forte de Caxias, nas muitas perseguições que a PIDE lhe moveu.»
Paulo da Costa Domingos, na Frenesi Loja, acrescenta:

«Consta – o que torna este ensaio acerca da obra de Pessoa uma obra de culto – que o Autor, à falta de livros de apoio na cadeia, o terá redigido socorrendo-se apenas da memória para as citações que justificam o seu raciocínio e o ilustram.»

quinta-feira, 11 de julho de 2019

PRAÇA DA CANÇÃO


No dia 2 de Maio de 1974 chegou do exílio, em Argel, bateu à porta do PS que lhas escancarou.
Com ele vinha outro exilado, Fernando Piteira Santos, a quem um dia perguntaram porque se não tinha filiado no Partido Socialista e aquele que perguntou, ouviu a resposta: “Porque sou socialista”. 

No prefácio à 2ª edição de Praça da Canção, Mário Sacramento lembrava  a  notícia-crítica que escrevera, em 1965:

«Não me levem a mal se, apoiado num livro que pode considerar-se de estreiam, me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português.»

Numa carta datada de 12 de Fevereiro de 1973, Carlo Vittorio Cattaneo  contava a Jorge de Sena:

«No encontro romano, Alexandre O’ Neill, aos que lhe pediam uma opinião sobre Manuel Alegre (que conta muitos admiradores em Itália) respondeu muito duramente que Alegre não é um poeta ou, no máximo, pode-se-lhe chamar poeta somente porque escreve versos. Você também é desta opinião? A resposta interessa-me precisamente por causa do sucesso que Alegre tem com os leitores italianos.»

Em carta, datada de 7 de Março de 1973, Jorge de Sena responde:

«O que o O’Neill disse do M. Alegre é a opinião que eu também tenho. Não direi que o homem não é poeta, mas é sem dúvida um poeta muito menor. Não entendo o sucesso italiano dele, a menos que seja pelo tom «popular» e «engagé» que ele mistura muito bem para cantigas à guitarra.»

Carlo Vittorio Cattaneo publicará em 1975 «La Nuova Poesia Portoghese» e em Janeiro de 75 lembra a Jorge de Sena: «Manuel Alegre, se bem que poeta medíocre, me serve como exemplo de poesia política.»

A antologia dos poetas traduzidos por Vittorio Catttaneo inclui Herberto Helder, Ruy Belo, Pedro Tamen, Manuel Alegre, Armando Silva Carvalho, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, Nuno Guimarães, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães, Nuno Júdice.

domingo, 8 de julho de 2018

MAS LÁ QUANTO A DOUTRINA...


Muitos meses depois, já em 53, liberto pois de qualquer disciplina partidária, fiz uma série de oito conferências na Associação de Estudantes da Facul­dade de Ciências de Lisboa, por iniciativa da sua secção cultural.
Público crescente. Pois sou infor­mado de que, enquanto falava, naquele silêncio ávi­do e colaborante que é o prémio maior para qual­quer orador, se bichanava na sala a deitar por fora: «Um tipo bestial. E pena como se portou quando esteve preso. Meteu muita gente dentro». Era in­fantil. Quem me conhecia, e muitos me conhe­ciam, sabia perfeitamente que eu nunca estivera preso.
A verdade é que nenhuma organização tem cul­pa dos seus doentes nem até dos seus períodos de crise sobretudo com dirigentes importantes na ca­deia. O que não obsta a que a bola de neve comece a tentar formar-se.
Não me passou despercebido, já três anos anda­dos e o tosco processo concluído, o tipo de objec­ções que o Mário Sacramento e o meu velho ami­go Óscar Lopes acharam por bem fazer — só eles e só então — a algumas teses expostas n' A Paleta e o Mundo, não se esquecendo ambos de informar os respectivos públicos de que o autor mudara de doutrina e que, embora muito isto e mais aquilo, abandonara «o caminho comum». Quanto a «ca­minho comum», na acepção que lhe davam, era já mais que evidente. Mas lá quanto a doutrina...
Havia muita coisa por detrás, que talvez nem eles conhecessem. Pormenores de importância, ou­so pensar. E, porque a história das ideias, dos paí­ses, dos partidos, finalmente das pessoas, também de pormenores se faz, espero ainda contar os que comigo se prendem (se prenderam) quando tiver espaço para tanto. Não tem pressa. E talvez — é a minha vez de o pensar — não seja o melhor mo­mento para. Resta saber se alguma vez o será.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio na Praia Grande. Fotografia de sua filha Eduarda Dionísio retirada do catálogo Passageiro Clandestino

sábado, 7 de julho de 2018

COMO AS COISAS MUDARAM AÍ EM PORTUGAL...


Carta de António José Saraiva, Paris Maio de 1969, para Óscar Lopes:

Li o teu artigo do (Mário) Sacramento, e o simples aparecimento dele em letra de forma mostra como ss coisas aí mudaram de Setembro para cá. O Sacramento é um exemplo muito típico do comportamento dos intelectuais em Portugal, mas pergunto a mim mesmo em que medida esse comportamento deve ser erigido em regra geral. Sem dúvida que os intelectuais não podem alhear-se do destino colectivo, mas talvez isso não implique que eles devam desempenhar um papel que prejudique a realização da sua vocação específica. Escrever um ensaio ou um romance ou realizar uma investigação pode ser muito mais importante do que participar numa comissão, até porque ao nível da criação científica, filosófica, ou estética se podem pôr problemas que não cabem no dia a dia dos compromissos, das declarações e das tácticas.
O problema, reconheço, não é simples, até porque a nossa elaboração teórica é feita da substância da nossa vida prática e quotidiana. Mas nem toda a prática é política: há problemas de relação com nós mesmos, de relação com o nosso próximo e de relação com isso a que se chama «Deus» (que talvez seja só o limite matemático do Eu, lá onde ele não é só um Eu individual) que não se podem pôr facilmente em termos «políticos» e que no entanto exigem expressão e realização. O teu ideal de uma concretização permanente das nossas aspirações mais fundas em termos de atitudes práticas não cabe evidentemente em congressos e reuniões.
E, alguns intelectuais portugueses parece-me evidente que esse empenhamento, nos termos em que se faz, leva a uma amputação das virtualidades intelectuais e à simplificação fanatizante dos problemas. O (António) Sérgio escapou a isso porque recusou sempre arregimentar-se e porque apresentou as suas atitudes como a manifestação de um dever moral que estava muito acima da prática.


Legenda: Mário Sacramento

terça-feira, 1 de maio de 2018

RELACIONADOS


Mário Sacramento morreu, em Aveiro, em 27 de Março de 1969.

Notícia do Diário de Lisboa de 13 de Julho de 1970:

Uma comissão composta por diversas personalidades locais pediu a quem de direito que consagrasse a memória de um homem justo e superior, incluindo o seu nome na toponímica da cidade. Julgamos saber que há poucos dias, o Município pediu esclarecimentos sobre a obra de Mário Sacramento em prol da sua cidade, para assim julgar da justificação para que uma rua de Aveiro tenha o seu nome.

Notícia do Diário de Lisboa de 13 de Novembro de 1970:

A Câmara Municipal de Aveiro acaba de indeferir o pedido apresentado por vasta comissão para que o nome de Mário Sacramento fosse dado a uma artéria condigna da cidade. Segundo julgamos saber a recusa baseia-se na “falta de oportunidade” e na inexistência de méritos que justifiquem a homenagem. A decisão foi tomada por unanimidade assinando a sentença o próprio presidente do Município Dr. Artur Alves Moreira.


Diário de Lisboa 29 de Março de 1975