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quarta-feira, 27 de maio de 2026

VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS


Em Novembro de 2015, por aqui, olhámos o livro Greguerías de Ramón Gómez de la Serna, selecção e tradução de Jorge Silva Melo.

Greguerias é uma palavra que não significa nada, nem em castelhano, nem em qualquer outra língua, é um género literário inventado pelo próprio autor. Jorge Silva Melo, no prefácio, lança pistas para que possam ser aforismos, adágios, refrões, mas não é conclusivo. Pouco importa.

O que quer que sejam, merece que se apresentem algumas dessas greguerías, que também, por aqui, já foram utilizadas em alguns Postais sem Selo.


Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores.

À morte não a ouvimos, porque já na intimidade da casa anda de chinelos

Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas.

Olharam-se de janela a janela em dois comboios que iam em direcções opostas, mas tal é a força do amor que logo os dosi comboios se puseram a andar para o mesmo lado.

Às vezes, os beijos são só chewing-gum repartido.

As estrelas-do-mar são as mãos que constatam que o barco se afundou.

Sofá-cama: os sonhos ficam em baixo a conversa em cima.

O grande problema do gato é como dar futuro a esses seis gatinhos que vieram ao mundo de uma só vez.

Nervosismo da cidade: não conseguir abrir o pacotinho de açúcar para o café.

Amor é acordar uma mulher e ela não se irritar.

Escrever é que nos deixem rir e chorar sozinhos.

Quando se entorna um copo de água na mesa, apaga-se a cólera da conversa.

Velho actor: deixou uma dentadura que declamava Shakespeare.

Pôr as peúgas do avesso é ir para trás em vez de ir para a frente.

A gaivota rema ao voar.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

REOLHARES


Talvez por uns largos tempos, Jorge Silva Melo andou às voltas com A Praia de Cesare Pavese. O resultado é o filme Agosto. Tempo de Reolhar o que aqui se publicou em 2 de Agosto de 2022.


O QU’É QUE VAI NO PIOLHO?


Um atento leitor de Cesare Pavese sabe que A Praia será o menos político dos romances de Pavese.

A observação deixou-a, também, Pedro Mexia, no Expresso, quando em 2011 a Ulisseia reeditou A Praia.

Pavese resume A Praia como um relato da amizade de dois rapazes que uma mulher, casada com um deles, ao mesmo tempo une e separa.

Aparentemente nada acontece.

Quando o tempo de Verão era outro, tão lento, no devagar depressa dos tempo, para citar Guimarães Rosa: bebidas, bailes, jogos na praia, paixões de Verão, que as mães diziam que ficavam enterrados na areia, pores-de-sol, ambientes, sensações, estados de espírito, melancolias, situações de que a maior parte não se conseguem entender mas que gostamos de olhar e sentir, as aparências que revelam mais do que iludem, o carácter efémero das coisas, nostalgias de tempos perdidos, ele, Jorge Silva Melo que, naquele tempo, quando andava a ler romances arrepende-se de não ter dançado o twist e andar de carro descapotável.

No Verão todos os pecados se confundem.

Rilke dizia que só o Verão vale a pena, ou Ruy Belo, mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar caminha para o mar pelo Verão.

Jorge Silva Melo lê A Praia em 1965 e, ficou a moer por dentro que a novela poderia dar um filme.

«Sempre li Pavese com os meus “jeans”, uma camisa aos quadrados vermelha e os cigarros Porto que então fumava , entre os postais que regularmente punha no correio.»

Dessas leituras, dessas melancolias, em 1987, Jorge Silva Melo fez um filme e chamou-lhe Agosto.

 La Spiaggia, de Cesare Pavese, cuja acção se passa nos 40, na Itália do pós-guerra, e aborda a ascensão da burguesia intelectual depois de alguns anos de recuperação económica. O meu filme fala do momento em que li a novela: é mais uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se calhar, o filme que gostava de ter feito quando ainda não podia fazer cinema. E um filme que me faltou; é, talvez, o filme que gostava que a geração de João Bénard da Costa tivesse feito quando se encontravam na Arrábida.


É em A Praia  que Pavese deixa escrita a frase que pelos tempos fora tem sido repetida, e sempre continuará a ser, e que vem na pág. 154 da minha velhinha edição de bolso da Portugália Editora:

Começava a compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz.

Se fosse vivo, Cesare Pavese faria hoje 106 anos.

 E tão cedo que ele nos deixou, quando apenas tinha 42 anos, e com tanto ainda para nos dar.

Em O Diabo Sobre as Colinas escreve que da sua infância só lhe ficara o Verão, e num daqueles muitos seus dias depressivos e tristes, escreveu: basta-me a companhia do mar. Não quero ninguém. Na vida não tenho nada de meu. Deixem-me ao menos o mar.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

REOLHARES



FEIRA DO LIVRO 2022 

A APEL informou, «com entusiasmo», que a Feira do Livro deste ano realiza-se de 25 de Agosto a 11 de Setembro no Parque Eduardo VII.

A Feira do Livro, para mim, é sempre uma festa, mas gostava mais dela quando acontecia em finais de Maio, princípios de Junho.

Porque, por esses dias, os jacarandás estão lindíssimos.

O Jorge Sila Melo também só gostava da Feira do Livro em Maio:

«Eu só gosto do Parque Eduardo VII em Maio, nunca lá vou noutra altura. Mas gosto de subir e de descer, sobretudo ao sábado e ao domingo, com gente que nunca vi nas livrarias, gente que mexe em livros, dicionários tantas vezes, livros do dia, livros mais baratos, gente, tanta gente, fico sempre com a sensação que há pessoas, que os livros servem as pessoas, que os editores são gente honesta que quer um mundo melhor, gosto de coleccionar os catálogos, de marcar com cruzinha os livros a comprar, de nem sequer comprar esses mas outros que me aparecem, esquecidos, de encontrar livros insuspeitos que nem sabia estarem editados, gosto de pedir autógrafos, há muitos anos foi lá que falei com a Maria Judite de Carvalho e lhe disse quanto a admirava, gosto de ver escritores sentados, gosto dos altifalantes a anunciarem escritores e descontos, gosto das farturas que ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e até carote, não me tirem a rua dos livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar a casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII.»

Texto publicado no dia 10 de Maio de 2022

domingo, 16 de fevereiro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


 De Os Verdes Anos, filme de Paulo Rocha, com argumento de Nuno Bragança e música de Carlos Paredes, poema de Pedro Tamen, diz Jorge Silva Melo em Século Passado, memórias suas, que viu o filme no São Luiz, tinha quinze anos e nenhum outro filme  «tenha rasgado mais o céu possível do que este pequeno filme juvenil, inseguro tímido e lírico de Paulo Rocha, filme feito aos vinte e cinco anos (o Paulo nasceu em Dezembro de 1936, o filme traz a data de 1963).

Com que então, era possível? Filmar os locais que eu conhecia, filmar desencontros de amor pelo entardecer do campo grande, filmar as barracas que se construíam em cima da Avenida do Aeroporto, até perdermos a vista noutras Chelas e, agora, o parque do Rock in Rio? Filmar Floresta do Ginjal, aquela escada íngreme forrada a conchas? Filmar pessoas, como a criada eu andava pela casa dos meus pais chorando com os folhetins da rádio e aos domingos de namoro? E ver nisto, inscrever na paisagem que todos os dias eu via (a esquina do Vává…) a violência daquele final, a morte da rapariga, o rapaz que desafia a cidade?

Ele havia Salazares, a Pide era mesmo ao lado do São Luiz, a censura não estava longe, mas aquele foi um dia rasgado, puro e limpo, o dia sob a ditadura em que vi os Verdes Anos.

«É o filme que melhor dá a ver Lisboa e Portugal como espaços de frustração, espaços claustrofóbicos, sem saída, onde tudo se frustra e tudo agoniza numa morte branda», diz João Bénard da Costa, e ninguém sabe mais do que ele.

E o Paredes continua a tocar. Até ao sabugo, como o Paulo Rocha.

O Poema Possível

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

(Pedro Tamem)




domingo, 26 de janeiro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Pat Boone é um cantor do meu tempo, tempos de Paul Anka e Elvis Presley também outros.

 Nasceu em Jaksonville no dia 1 de Junho de 1934 e ainda está vivo.

A rapaziada do meu tempo não simpatizava muito com ele e nunca percebi porquê e também nunca preocupei com isso.

A canção Dear John, que hoje vos trago pela manhã, conheci-a através do Pat Boone e é uma velha canção country (1953) cantada em dueto por Jean Shepard e Ferlin Husky.

Seguem as duas versões e também um velho papel rabiscado em 18 de Janeiro de 2008:

Jorge Silva Melo a páginas 226 do seu “Século Passado”, escreve: “Foi passando a vida, fomos deixando o Saldanha e agora olho para aquela praça quando por ela passo e pergunto-me se estou em Lisboa, se ainda este sítio é meu, tão meu, tão íntimo que foi. (…)

"Mas dão-me saudades fundas, apetecia-me ver o cartaz do “Exodus” subir, desenhado com perícia no atelier do Dongrie de Carvalho lá de cima do Monumental.

O cartaz do filme do Otto Premeinger não o tenho, mas tenho o tema do filme cantado pelo Pat Boone num “EP” London LES 545, também “Made in Portugal”.

Os títulos das canções estão em português: “Canção do Filme Exodus, “Esta Noite Há Luar”, “Querido João”, “Alabama”.



quarta-feira, 30 de outubro de 2024

PANCADAS DE MOLIÉRE


O meu neto mais velho comprou bilhete para o Teatro Aberto.

Mas perdeu-se no tráfego e chegou 15 minutos atrasado.

Não o deixaram entrar.

Aos filhos e aos netos fui lembrando o que o meu avô, largas vezes, me foi dizendo: «Se te marcam encontro para uma qualquer hora, estás 10 minutos antes!»

Espero bem que o meu neto tenha aprendido, de vez. a lição.

Sobre a não entrada, fora de horas, nos teatros, andei à procura de um texto, não publicado, guardado por aí.

Remonta a Novembro de 2003.

Aqui fica.

 «Veio nos jornais que houve gente escandalizada por ter sido impedida de entrar no teatro para ver a peça “Sete Minutos” que é  ponto de partida de um actor que é interrompido por um telemóvel enquanto interpreta Macbeth, que levanta questões sobre o comportamento dos espectadores, chegando tarde, atendem telemóveis ou veem mensagens.

António Fagundes, actor brasileiro, esteve em Lisboa e no Porto, para apresentar a peça.

À hora do espectáculo começar, as portas fecharam e os retardatários não puderam entrar, tal como acontece em países civilizados em que há o respeito pelos autores e pelos actores.

O «jet-set» ficou indignado e houve quem murmurasse, ou dissesse em alta voz: «estes tipos vêm do Brasil e quem pensam que são?!»

Chegam tarde ao teatro, ao cinema, aos concertos. Não é a arte, a cultura que os move antes o espectáculo pífio do chocalhar das jóias, do espanejar dos vestidos, das peles, das conversas de chacha.

Jorge Silva de Melo, sobre «Histórias do público, segundo os artistas», num inquérito no Público, de que não tenho data, já abordara o assunto.

terça-feira, 19 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL

 

                  Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                          João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Em estreita colaboração com a PIDE/DGS, a hierarquia militar mandou transferir 35 aspirantes milicianos, além de sargentos, furriéis e cabos milicianos, das Caldas da Raínha para Santa Margarida. Aí seriam interrogados e, durante 15 dias, permaneceram em completa incomunicabilidade.
O Governo, por todos os meios, tentava mostrar que a ordem, em todo o país, reinava efectivamente.

Da página 56 do livro «Século Passado» de Jorge Silva Melo retiro citação qual pedacinho de ouro:

Quando por vezes nos encontramos, rapaziada que andou por aí a plantar ideias e sonhos, ainda têm o velho torna-viagem do reconhecimento de que a longa luta do povo português contra as ditaduras de Salazar e Marcelo não poderia ter qualquer êxito sem a participação das Forças Armadas. Não concebiam ser possível, porque a sua confiança nos militares estava longe  de ser consensua. Tal como, ontem , aqui se citava o Mário Henrique-Leiria, que numa carta à sua querida Beluska, falando no episódio das Caldas, chamava-lhe uma palhaçada «porque na farda não se pode acreditar nem no boné.»

Mas alguns desses militares, vendo ou não os filmes de que falava o Jorge Silva Melo, o que,  seu íntimo, sabiam é que

                           UM GAJO TEM QUE FAZER QUALQUER COISA!

sábado, 11 de fevereiro de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ


Jorge Silva Melo tinha um jeito único para escrever obituários, jeito seu, principalmente de artistas com quem tinha trabalhado, envolvendo-os numa beleza que não sei bem definir.

Muitos desses lindíssimos obituários encontram-se nos seus livros Século Passado e A Mesa Está Posta

Sobre a morte do actor Henrique Canto e Castro, em Século Passado - «…e eu sempre gostei dele, da pessoa, e do actor» - Silva Melo vai buscar uma tarde quentíssima de Verão, saídos do São Jorge, onde viram Touro Enraivecido, em que desataram a andar, conversando sobre tudo e mais alguma coisa.

«E a certa altura, o Henrique falou-me do pai, devíamos já estar nos Restauradores, pai médico que não tinha ousado profissionalizar-se como músico, toda a vida hesitante, talvez arrependido, dizia-me o Henrique, mas que toda a vida tocou, e o Henrique e o irmão cresceram com ele a tocar-lhes o Kreisler, o Paganini, mas sobretudo, contava ele, a “Meditação” da Thais de Massenet.

Fui com o Henrique até aos barcos, ele já morava em Almada. E lembro-me que estava de sandálias. E agora que morreu, veio-me logo à memória aquele pai, médico e amador, republicano e culto, hesitante que, num terceiro andar, aos fins de tarde ou aos domingos, tocava a “Meditação”. Podem dizer que é música, sentimental, kitsch, fácil, truque, o que quiserem, que é música que defende o passado, que é música indolentemente reacionária, que é uma piroseira. Mas eu gosto da “Meditação” da Thais de Massenet.. Porque gosto de ti, Henrique Canto e Castro, actor dilacerado num tempo que o não mereceu, gosto desse pai que não ousou ser artista e toda a vida hesitou entre a família e a arte, gosto desses domingos republicanos em que o pai tocava Massenet para os filhos. E gosto de artistas que sabem mais do que os seus botões, e me falam de boxe, violino, pintura ou edições. Não há muitos,»

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

O ACASO DE UNS VERSINHOS DO ASSIS PACHECO

Estes versos do Fernando Assis Pacheco, reencontrados no poema Bah! Da Respiração Assistida, poderiam ter sido escritos por mim se acaso o talento passeasse por aqui:

                               Fora os livros não vejo

                               muita outra coisa

                               que possa chamar

                               minha propriedade

Tanto o meu avô, como depois o meu pai, poderiam ter escrito estes mesmos versos.

Uma família sem nada de seu, sem um pontinho que seja de  simpatia pelos capitalismos.

Livros e mais livros. 

Como escreveu o Jorge Silva Melo:

«E é isso mesmo esta biblioteca simples, tanto livro onde ainda vejo as mãos ansiosas folheando, os olhos ávidos, as vozes contando. E não há nada mais lindo do que sentir as sombras da vida sobre as páginas amarelecidas, sombras de vida, de dor e luz.» 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

Será este o primeiro Agosto sem o Jorge Silva Melo.

Tempo para recordar o que aqui se escreveu sobre o filme em que ele andou às voltas com Pavese:


Um atento leitor de Cesare Pavese sabe que A Praia será o menos político dos romances de Pavese.

A observação deixou-a, também, Pedro Mexia, no Expresso, quando em 2011 a Ulisseia reeditou A Praia.

Pavese resume A Praia como um relato da amizade de dois rapazes que uma mulher, casada com um deles, ao mesmo tempo une e separa.

Aparentemente nada acontece.

Quando o tempo de Verão era outro, tão lento, no devagar depressa dos tempo, para citar Guimarães Rosa: bebidas, bailes, jogos na praia, paixões de Verão, que as mães diziam que ficavam enterrados na areia, pores-de-sol, ambientes, sensações, estados de espírito, melancolias, situações de que a maior parte não se conseguem entender mas que gostamos de olhar e sentir, as aparências que revelam mais do que iludem, o carácter efémero das coisas, nostalgias de tempos perdidos, ele, Jorge Silva Melo que, naquele tempo, quando andava a ler romances arrepende-se de não ter dançado o twist e andar de carro descapotável.

No Verão todos os pecados se confundem.

Rilke dizia que só o Verão vale a pena, ou Ruy Belo, mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar caminha para o mar pelo Verão.

Jorge Silva Melo lê A Praia em 1965 e, ficou a moer por dentro que a novela poderia dar um filme.

«Sempre li Pavese com os meus “jeans”, uma camisa aos quadrados vermelha e os cigarros Porto que então fumava , entre os postais que regularmente punha no correio.»

Dessas leituras, dessas melancolias, em 1987, Jorge Silva Melo fez um filme e chamou-lhe Agosto.

 La Spiaggia, de Cesare Pavese, cuja acção se passa nos 40, na Itália do pós-guerra, e aborda a ascensão da burguesia intelectual depois de alguns anos de recuperação económica. O meu filme fala do momento em que li a novela: é mais uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se calhar, o filme que gostava de ter feito quando ainda não podia fazer cinema. E um filme que me faltou; é, talvez, o filme que gostava que a geração de João Bénard da Costa tivesse feito quando se encontravam na Arrábida.

Mas esse tal João Bénard da Costa percebe o recado, e de Agosto dirá: os anos 60 da Arrábida, que Jorge Silva melo imortalizou no seu belíssimo Agosto, ainda lhe revelaram coisas, a ele, que mais nenhum sítio de Portugal lhe podia revelar.

De novo, Jorge Silva Melo a falar de Agosto:

É um filme que tem saudades de um tipo de cinema que existia e era exibido em Lisboa.Um cinema que eu vi no Condes com salas cheias, que os meus pais viram, que as pessoas normais iam ver. Isto é, o cinema dos amores na praia. Esse género de filmes nunca foi feito em Portugal e este meu tem saudades desses filmes do tempo em que sonhávamos com as raparigas de «Vespa» na praia.

O meu filme fala do momento em que li a novela; è mais uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se calhar, o filme que gostaria de ter feito quando ainda não podia fazer cinema porque foi um livro que mais me marcou depois de O Estrangeiro do Camus.

Todos pensamos que aquela prosa impessoal e tão tocante foi escrita apenas para cada um de nós, que foi um sussurro que nos chegou de Itália, um segredo que nos contaram, que foi realmente só para nós.

A minha primeira leitura de A Praia foi encantadora, apressada como sempre são as minhas primeiras leituras de alguns livros, a que depois tenho, naturalmente, de voltar.

E volto até que os olhos me doam.

Gosto do filme do Jorge Silva Melo.

Gostaria de vos dizer o porquê, mas faltam-me unhas...

É em A Praia  que Pavese deixa escrita a frase que pelos tempos fora tem sido repetida, e sempre continuará a ser, e que vem na pág. 154 da minha velhinha edição de bolso da Portugália Editora:

Começava a compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz.

Se fosse vivo, Cesare Pavese faria hoje 106 anos.

 E tão cedo que ele nos deixou, quando apenas tinha 42 anos, e com tanto ainda para nos dar.

Em O Diabo Sobre as Colinas escreve que da sua infância só lhe ficara o Verão, e num daqueles muitos seus dias depressivos e tristes, escreveu: basta-me a companhia do mar. Não quero ninguém. Na vida não tenho nada de meu. Deixem-me ao menos o mar.

terça-feira, 10 de maio de 2022

FEIRA DO LIVRO 2022


A APEL informou, «com entusiasmo», que a Feira do Livro deste ano realiza-se de 25 de Agosto a 11 de Setembro no Parque Eduardo VII.

A Feira do Livro, para mim, é sempre uma festa, mas gostava mais dela quando acontecia em finais de Maio, princípios de Junho.

Porque, por esses dias, os jacarandás estão lindíssimos.

O Jorge Sila Melo também só gostava da Feira do Livro em Maio:

«Eu só gosto do Parque Eduardo VII em Maio, nunca lá vou noutra altura. Mas gosto de subir e de descer, sobretudo ao sábado e ao domingo, com gente que nunca vi nas livrarias, gente que mexe em livros, dicionários tantas vezes, livros do dia, livros mais baratos, gente, tanta gente, fico sempre com a sensação que há pessoas, que os livros servem as pessoas, que os editores são gente honesta que quer um mundo melhor, gosto de coleccionar os catálogos, de marcar com cruzinha os livros a comprar, de nem sequer comprar esses mas outros que me aparecem, esquecidos, de encontrar livros insuspeitos que nem sabia estarem editados, gosto de pedir autógrafos, há muitos anos foi lá que falei com a Maria Judite de Carvalho e lhe disse quanto a admirava, gosto de ver escritores sentados, gosto dos altifalantes a anunciarem escritores e descontos, gosto das farturas que ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e até carote, não me tirem a rua dos livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar a casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII.»

segunda-feira, 25 de abril de 2022

NO IMPONDERÁVEL AZUL CELESTE


 É, andei por aí.

 Com gente, procurando gente, pontes e vales, tem sido assim esta vida. E houve aquele dia, 25 de Abril de 1974.

 Dizem que por um Abril houve uma revolução, outros dizem que houve um golpe de estado, outros ainda que houve uma abrilada, sucederam coisas gritadas nas ruas, outras soavam nas sombras clandestinas.

 Na escola disseram aos miúdos que tinham que ir para casa, estava a acontecer qualquer coisa em Lisboa.

 Que comemoramos hoje? Que resta daquele dia?

 O chefe de redacção telefonou ao repórter, gritou-lhe: Salta da cama. A Revolução está na rua e é precisos escrevê-la!

 Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que hoje não posso ver nenhum sinal, daquilo que o 25 de Abril trouxe.

 Podemos saudar o desespero que nos invadiu perante algo que falhou?

 Estragaram a tua festa pá!, cantaram no outro lado do Atlântico.

 Houve quem dissesse que as revoluções são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, e quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

 O 25 de Abril é um dia e são dias. É daquelas datas que se constelam que estão antes de hoje, que hoje ecoam ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje.

 Quase sem darmos por isso, milhares de pessoas invadiram as ruas, ofereceram pão e cravos aos soldados, deram as mãos, sorriram, dos olhos saltavam sonhos e esperanças.

 Alguém perguntou como era possível tanta e tanta gente quando meses antes, semanas antes, dias antes, eram tão poucos aqueles que apareciam para escrever palavras de ordem nas paredes da cidade, colar cartazes, distribuir uns panfletos impressos a stencil…

 Será a memória curta? Apaga-se com facilidade?

 O apagamento de memória é chocante.

 Deste dia até ao 1º de Maio, é provável que muitos devem ter dormido, mas não se lembram bem. Uma semana de loucura já ninguém me tira, posso não ser feliz mas poucos chegaram tão perto disso a que chamam felicidade.

 É preciso ter vivido os anos terríveis, o tempo do desprezo, um tempo de ratazanas, para que aquele dia tivesse sido o que foi, um navio de sonho, uma nave de loucos, protagonistas duma enorme esperança, depois figurantes de um grande desencanto.

 Terá sido assim há tanto tempo?

 A ditadura acabou por ser derrubada por militares que antes desprezávamos.

 Dezassete horas e 45 minutos bastaram para abater um regime que oprimiu o povo português durante 47 anos, 10 meses, 34 dias e algumas horas.

 Teremos feito tudo para que as novas gerações fossem mais felizes?

 Vale a pena assinalar a data quando nos esquecemos de ensinar a importância que aquele dia nos trouxe? Olham-se as pessoas de hoje, os jovens de hoje, formam um grupo largo e variado mas, olhando bem, estamos todos muito mal no retrato de conjunto…

 Algures, numa dobra da história, alguma coisa falhou. O cantor, de viola às costas, acabou por dizer que houve alguém que se enganou.

 A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém.

 Naqueles dias, quase poderíamos dizer que a paisagem mudara para sempre.

 As paisagens até podem mudar, o resto… o resto… o resto… é uma chatice… um busílis de questão…

 O escritor perguntava e respondia: para que serve a utopia? Serve para que eu não deixe de caminhar.

 Um dia voltaremos a encontrar-nos todos no imponderável azul celeste.

 E recomeçamos a busca dum país liberto, duma vida limpa e dum tempo justo.

 Mas será que ainda verei alguém desenhar os nomes daqueles que, na sombra, nos lixaram a festa?

 

Montagem concedida com textos de:

 Jorge Silva Melo, Virgílio Martinho, Baptista-Bastos, José Saramago, Rui Cardoso Martins, Chico Buarque, Manuel António Pina, Manuel Gusmão, Rodrigues da Silva, João Gobern, José Mário Branco, Eduardo Galeano, Mário Dionísio, Cristina Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

Legenda: pintura de Vieira da Silva

quarta-feira, 23 de março de 2022

AS LÁGRIMAS DO JORGE


Em alguns filmes, Jorge Silva Melo chorava que nem uma Madalena.

Deixou escrito que no 2º Balcão do S. Luiz chorou com Chá e Simpatia de Minelli.

Ao ver, ao rever, vezes sem conta, O Vale Era Verde de John Ford, chorava.

Acabava de ver os filmes e um mundo de lágrimas envolvia-lhe os sentidos.

«Mas vê-se sempre O Vale era Verde, de maneira diferente porque de todas as vezes se chora de maneira diferente. Já ao ver este filme, chorei infâncias perdidas, quando mais para aí me dá o sentimento; ou a morte dos pais; ou a miséria da mina, ventre infernal do capitalismo; ou a honra dos trabalhadores; ou a coragem das mães; ou as refeições em silêncio; ou o casamento da irmã; ou as longas doenças da infância com os primeiros romances lidos na cama; ou  a chegada da Primavera, ou o cheiro a sabão azul e branco, o acreditar que “um homem não chora”, o acreditar no silêncio dos homens e na determinação das mulheres, na honra, no valor do trabalho, no fluir inexorável da vida, na impossibilidade do regresso, na consciência da luta. E também nos aventais brancos, nas grandes almofadas, no banho na celha, na água a ferver...»

Sobre O Vale Era Verde escreveu João Bénard da Costa:

«Não há filme que me faça mais saudades.»

 Augusto M. Seabra, no texto sobre a morte de Jorge Silva Melo, publicado no Público, deixa nas entrelinhas que os jornais deixaram de lhe publicar as crónicas porque invariavelmente estavam envolvidas em tons de lamúria.

 Sabemos como cegos e ingratos é essa malta dos jornais que preferem cronistas que não dizem nada, que nem escrever sabem.

domingo, 20 de março de 2022

APROVEITANDO A VIOLÊNCIA DA MORTE


Francisco Frazão, Director Artístico do Teatro Bairro Alto no Público de 16 de Março. 

E SE A PRIMAVERA FOSSE O TAL MOTIVO A INVENTAR?


Como disse o poeta Ruy Belo:

E eu chego e sento-me ao lado da primavera.

E seria o tempo do Jorge Silva Melo começar a falar dos jacarandás nas ruas de Lisboa.

sábado, 19 de março de 2022

EM NOME DOS ADJECTIVOS


Um capítulo do seu interessantíssimo Século Passado, um livro tão ignorado por críticos – há crítica de livros? – também por leitores, chama-se Mesmo Agora Que Anoitece e por lá existe uma crónica que Jorge Silva Melo publicou mo saudoso Mil Folhas do Público de 20 de Janeiro de 2001. Começa assim:

«Têm má fama os adjectivos. Incitados a não os usar à toa, os jornalistas abrem um leque restrito que muda como os stocks da Zara.»

Mais a meio há este delicioso pedacinho:

«Teria eu lido o Gatsby, se Fitzgerald não lhe tivesse aposto o Great?Enseada, se não me perguntasse por que é que Abelaira lhe chama Amena? O Anjo, não fosse ele Ancorado? As Palavras, não as anunciasse Maria Judite como Poupadas? O Dia, não o pintasse Mário Dionísio de Cinzento? Como veria eu o mundo da colonização se Shakespeare não o entrevisse "admirável" (brave) e "novo" (new)? Teria eu sido tingido pela soturnidade e pela melancolia de Lisboa/Cesário se o desejo de sofrer não fosse subitamente absurdo? Teria ultrapassado o primeiro parágrafo de Moby Dick sem o damp, drizzly November in my soul ("desperta na minha alma um Novembro brumoso e húmido" na tradução de Alfredo Margarido)? Andaria eu de Gomes Leal no bolso sem o Bela, dizia eu, fria como o luar / sobre o dorso luzente e excepcional dum peixe?

O que fazem estes adjectivos raros, justapostos, cruzados, intrigantes? Atrasam a narrativa, demoram o pensar, fazem cair sobre as coisas ou a acção a poeira da incerteza. Não serão, assim benvindos ao mundo da notícia, que se publicita mundo de contagem de caracteres, impessoal, sem voz. Sem o desequilíbrio destas pobres palavras, o que seria da literatura.

Ai, não fosse Furioso o Orlando!

quarta-feira, 16 de março de 2022

A FAZER-SE TARDE...


«E está a fazer-se tarde, que estamos todos muito velhos.»

Jorge Silva Melo em Século Passado

Legenda: pintura de Wilfrid de Glehn

terça-feira, 15 de março de 2022

JORGE SILVA MELO (1948-2022)


Morreu Jorge Silva Melo.

«E, andei por aí. Com gente, procurando gente, pontes e vales, tem sido assim esta vida.»

Palavras quase no findar do seu «Século Passado».

Tiago Rodrigues ao saber da morte de Jorge Silva Melo:

«É como se tivesse ardido a nossa mais esplêndida biblioteca, como se tivesse ruído o nosso mais fulgurante teatro.»

Legenda: fotografia de Augusto Brásio tirada de «Século Passado».

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

POSTAIS SEM SELO


Quando estiveres aborrecido, senta-te num café com vidros grossos que impeçam que até ti chegue o som da rua. E olha para as pessoas que passam. Quando retirares um elemento da vida — o som, neste caso — vês que tudo é uma dança sem fim, insólita, completamente conjugada.

Jacques Tati, citado por Jorge Silva Melo em Século Passado

Legenda: pintura de Vincent Giarrano

quarta-feira, 21 de julho de 2021

IREI POR SETEMBRO, NUNCA EM AGOSTO!


A 92.ª edição da Feira do Livro de Lisboa vai realizar-se entre 26 de Agosto e 12 de Setembro, no Parque Eduardo VII.

Sempre me lembro da Feira por Maio e Junho.

Mas, a exemplo do ano passado, a pandemia manda-nos o evento para Agosto e Setembro.

O único problema que a nova data tem, é que esse não é o tempo dos jacarandás.

Livros e jacarandás é um gosto de muita gente.

Jorge Silva Melo, por exemplo:

Eu só gosto do Parque Eduardo VII em Maio, nunca lá vou noutra altura. Mas gosto de subir e de descer, sobretudo ao sábado e ao domingo, com gente que nunca vi nas livrarias, gente que mexe em livros, dicionários tantas vezes, livros do dia, livros mais baratos, gente, tanta gente, fico sempre com a sensação que há pessoas, que os livros servem as pessoas, que os editores são gente honesta que quer um mundo melhor, gosto de coleccionar os catálogos, de marcar com cruzinha os livros a comprar, de nem sequer comprar esses mas outros que me aparecem, esquecidos, de encontrar livros insuspeitos que nem sabia estarem editados, gosto de pedir autógrafos, há muitos anos foi lá que falei com a Maria Judite de Carvalho e lhe disse quanto a admirava, gosto de ver escritores sentados, gosto dos altifalantes a anunciarem escritores e descontos, gosto das farturas que ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e até carote, não me tirem a ruados livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar a casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII."