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terça-feira, 19 de maio de 2026

SOLTAS


 «Um trabalhador portuário atraca o navio de carga asiático Katra após a sua chegada à baía de Havana, em Cuba. O navio mercante atracou transportando ajuda humanitária proveniente do México e do Uruguai destinada aos cubanos que enfrentam cortes de energia e uma grave crise económica imposta pelos EUA através do criminoso bloqueio. 18 de Maio de 2026».

Em Abril Abril

1.

«No Piolho, um guia «explica» a quatro turistas a origem do nome do café: «Durante a ditadura de Salazar, este local era frequentado por muitos estudantes oposicionistas. A polícia política sabia disso e aparecia de vez em quando. Para não serem apanhados desprevenidos, os estudantes criaram um sinal de alerta: quando um agente entrava no café, começavam a coçar a cabeça como se tivesse piolhos. Daí o nome.»

Rui Manuel Amaral em  Bicho Ruim

2.

O Presidente da República convidou esta terça-feira o Papa Leão XIV a visitar Portugal já no próximo ano para assinalar "os 500 anos da formalização da Nunciatura apostólica em Portugal" e os "110.º aniversário das aparições marianas em Fátima".

3.

A Corticeira Amorim cortou mais 212 postos de trabalho em 2025, ano em que arrecadou 55,6 milhões de euros de lucro.

4.

Já está no Parlamento a proposta do Governo com meia centena de alterações e alguns recuos, face à posição inicial. Ainda assim, o documento tem por base o anteprojeto aprovado há quase um ano.

5.

A presidente da Comissão Europeia considerou esta terça-feira que a União Europeia (UE) "continuará vulnerável" enquanto depender de petróleo e gás importados, dada a crise energética causada pela guerra no Médio Oriente, apelando à eletrificação do continente.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

OLHAR AS CAPAS

Vasco Granja

Edição comemorativa no centenário do nascimento

Prefácio e organização: Cecília Granja

Edições Avante, Lisboa Novembro de 2025

A 16 de Novembro de 1954, é detido pela PIDE na sequência da apresentação do filme italiano neo-realista O Caminho da Esperança de Pietro Germi (1950), exibido no cinema Capitólio. A detenção resulta de uma denúncia, pois a receita da sessão destinava-se a apoiar os movimentos de resistência antifascista e as famílias dos presos políticos. A PIDE invade a sala, bloqueia a entrada, apreende o dinheiro e identifica várias pessoas. 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

NESTE DIA


O ano é o de 1968, estamos a 22 de Dezembro, um domingo.

Jorge de Sena faz o sumário das longas viagens que de 11 de Setembro a 22 de Dezembro fez: 70 cidades, 12 países em 4 meses.

Está em Madrid e ainda pensa ir a Santiago, Burgos, Léon, Valladolid; e é claro, 

Évora, Coimbra, Porto (e rever a Batalha e Alcobaça).

É aqui que queremos registar as agruras por que Jorge de Sena passa antes de entrar em Portugal, país que tanto ama e tantas tristezas lhe tem reservado e que o obrigou a exilar-se  primeiro no Brasil, depois na América:


«Parti às 10,45, perpassam os campos de Castela.

Viagem boa até Marvão – Beirã, por uma paisagem muito semelhante à do Alto Alentejo. Em Marvão, a polícia portuguesa  fez-me sair do comboio, pois eu figurava incrivelmente na lista das pessoas sem direito de entrada. E o chefe trouxe-me de automóvel a Valência de Alcântara, não me sendo possível nada telefonicamente de lá. Foi muito amável. Na estação de Valência, onde fiquei, foram gentis comigo, e consegui lugar para dormir na fonda da Estação. E à conta do cônsul de Portugal, Dom Ramon, telefonei para casa do Presidente Marcelo Caetano. Não estava, mas disseram-me que perto das 8 estaria. Telefonei para o Zé que saíra a esperar-me, e falei com o filho. À 8 voltei a ligar para casa do Presidente do Conselho, que pessoalmente falou comigo, dizendo que o Zé o inteirara da situação e que ia dar ordem à polícia para deixar-me entrar. E terminou dizendo: - Seja bem-vindo – Telefonei então para Marvão, a comunicar ao chefe da polícia a conversação. Irei no comboio das 5 da manhã. Mas ele recomendou-me que falasse primeiro com o chefe da C.P. aqui, a quem telefonariam a recomendação. Escrevia eu isto, telefonou ele, a dizer que estava tudo em ordem, e não havia problema nenhum. E mesmo me lembrou que eu poderia tomar um carro aqui, e ir dormir a Marvão. Mas não há necessidade desta despesa, para tomar meia hora mais tarde o mesmo Lusitânia que tomarei aqui. De resto, ao chegar à fronteira, a alfândega estaria fechada e seria impossível passar. Claro que, com a preocupação de que não me acordem, não vou dormir nada – telefonaram-me duas vezes de Lisboa, entretanto o Notícias e o Século, que, com a Sophia e o Tareco parece insistem em vir buscar-me a Marvão, às 5,50 da manhã. Insisti que não era necessário, mas ficou assim combinado.»

sábado, 10 de janeiro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Folheto encontrado no interior de A Censura e as Leis de Imprensa: um dos muitos caminhos que a Seara Nova, como outras editoras, percorriam para divulgarem as suas obras, maneiras de fugir à censura, evitar, que quando a Pide invadia as editoras, existissem muitos exemplares de uma obra o menor número de livros a serem proibidos, colocados Fora do Mercado.

sábado, 11 de outubro de 2025

NESTE DIA


 

Neste Dia, não é bem neste dia, mas um dia qualquer em meados de Junho de 1957, António Borges Coelho, juntamente com outros camaradas, está preso pela PIDE, na Fortaleza de Peniche.

No seu livro, Crónicas e Discursos, António Borges Coelho conta um dos muitos episódios desse terrível, triste quotidiano:

«… todos os dias às cinco horas, desde que não estivessem de castigo, os presos tinham uma hora de convívio no refeitório. Deixavam-nos ler, jogar xadrez, escrever à família, mas conversa só por intermédio do guarda.

- Ó senhor guarda, posso perguntar…

- Pode. Mas nada de falar em política.»

Legenda: pormenor da capa, da autoria de Rui Godinho, de Crónicas e Discursos.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Chegámos ao derradeiro volume da colecção sobre o 25 de Abril que o Público, durante 10 meses andou a publicar.

Chama-se OÚltimo Dia da PIDE (26 de Abril no Porto).

Publicado em Outubro de 1974, O Último Dia da PIDE: 26 de Abril no Porto reúne um conjunto de fotografias de António Amorim, obtidas logo após o 25 de Abril. «As imagens da PIDE-DGS no Porto estão indissoluvelmente ligadas a tantos vivos e mortos que ali foram torturados. E será com a trágica recordação dessas imagens que o povo português saberá dizer não ao fascismo. O fascismo não voltará a Portugal. O fascismo não passará», escreve Raul Castro no prefácio do livro, que conta ainda com poemas de Orlando da Costa, Luís Veiga Leitão, Egito Gonçalves, Fernando J. B. Martinho, Fernando Assis Pacheco, João Rui de Sousa, Daniel Filipe, Papiano Carlos e Luísa Ducla Soares, e depoimentos de ex-presos políticos.

Há quem não saiba o que foi o 25 de Abril, há quem não saiba o que foi a Pide.

Esta Colecção ajuda a que se possa voltar a um tempo de desespero, depois a um tempo em que a esperança percorreu as ruas e praças do país.

O que éramos?

O poeta Fernando Assis Pacheco, no poema A Minha Geração, escrito em 1963, recorda o que foi esse tempo:


A minha geração é de esperança,

de trabalho e esperança, e de canções difíceis.

A minha geração escreve poemas

com o mesmo suor que ao calceteiro

corre da fronte, quando martela a rua.

 

Não deveis enganar-vos: cada verso

tem um selo fraterno caminhando

para a branca cidade sob o sol.


quinta-feira, 8 de maio de 2025

OLHAR AS CAPAS


Biografia de um Inspector da Pide

Irene Flunser Pimentel

A Esfera dos Livros, Lisboa, Outubro de 2008

Fazer uma biografia de Fernando Araújo Gouveia, elemento importante de PVDE/PIDE/DGS, polícia política do Estado Novo, pode parecer estranho. Haverá mesmo quem diga que fazer uma biografia é dar importância ou até enaltecer o sujeito biografado e que alguém tenha cometido violência sobre os outros ou crimes deveria ser remetido ao silêncio. Outros poderão aventar que o propósito é escandaloso e chocante para algumas das vítima desse conhecido inspector, elemento preponderante dos Serviços de Investigação da polícia política, que torturou inúmeros resistentes ao regime ditatorial, em particular comunistas.

Penso orém de outra forma. 

sexta-feira, 2 de maio de 2025

OLHAR AS CAPAS


Elementos para a História da PIDE

2º volume

Editado pela AEPPA –Associação de Ex-Presos Políticos, Lisboa Fevereiro de 1977

Hoje, a direita fascista, que recuperou posições e reforçou o seu poder militar, após o 25 de Novembro, pretende a ilibação dos crimes da PIDE e a destruição de todas as conquistas populares destes últimos dois anos e meio, é necessário que tenhamos presente que cada pequena cedência neste campo poderá ser mais um passo no anular das conquistas do 25 de Abril e na reorganização do aparelho fascista.

A indignação que de Norte a Sul do país se faz sentir perante a farsa do “julgamento dos pides”, é um sinal indesmentível de que o ódio popular à PIDE e ao fascismo permanece bem vivo. O caso da ligação “PIDE-Empresas” é apenas um exemplo, de que só o julgamento e a condenação da PIDE e dos seus crimes, como um todo, serve os interesses do nosso povo e poderá ser uma barreira sólida contra o fascismo e as suas polícias.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

OLHAR AS CAPAS


 

Elementos para a História da PIDE

1º volume

Editado pela AEPPA –Associação de Ex-Presos Políticos, Lisboa 1976

É necessário termos ideias bem calaras sobre o que significa desmantelar uma polícia política como a PIDE, com toda a sua rede de ligações aos outros órgãos responsáveis do regime fascista que a sustentava. De facto, para poder ser julgada e condenada, a PIDE tem de ser compreendida como uma organização criminosa no seu todo.

domingo, 2 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


 PIDE/DGS : Um Estado Dentro do Estado

Fernando Luso Soares

Capa: Dorindo de Carvalho

Colecção Cadernos Portugália nº 1

Portugália Editora, Lisboa s/d

Em Conversas com Marcelo Caetano, de Alçada Baptista, podemos ler a páginas 106: - «Noutro dia, ao chegar à Covilhã, dizia-me uma das minhas tias: - Vi noutro dia o Marcelo na Televisão, e achei-o muito cansado… Fiquei tão preocupada… Diz-lhe que descanse. Depois, se ele adoece, quem é que há-de tratar de nós?»

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Mulheres Portuguesas na Resistência

Rose Nery Nobre de Melo

Capa: Henrique Ruivo

O turno seguinte trouxe-me um «pide» que me disse:

-Então a senhora já está disposta a falar, ou não? A senhora, pelos vistos está a gostar disto! É que, sabe, aqui na Polícia toda a gente fala. Quando não querem falar às boas, temos que ir por outros caminhos.

Num dia desses, o Tinoco, já sem saber como convencer a trair o meu Partido, resolveu dizer-me que o meu marido tinha resolvido abandonar o Partido porque já estava muito cansado e que me mandava dizer que me fosse também embora. Apesar de já ter a minha cabeça em água, conservei sempre o tino e soube distinguir as verdades das mentiras que me diziam. Por isso, respondi-lhe que um verdadeiro comunista, como o meu marido era, nunca daria um passo desses.

-Ah, não? Ele até escreveu uma carta repudiando o Partido…

Fiquei fora de mim e, num ímpeto, corri para ele e disse-lhe:

- Mostre-me lá essa carta. Dê-ma na minha mão.

Confesso que foi uma fraqueza que ele aproveitou logo para me dizer:

- Ah, a senhora não acredita no seu companheiro…

Deu dois murros na mesa e retirou-se, para entrar na sala momentos depois acompanhado pelo Rosa Casaco.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

domingo, 5 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS


País de Enquanto

António Modesto Navarro

Colecção n.a. orion nº 5

Notícias da Amadora Editora, Lisboa, Junho de 1975

Da casa, deste alarmar de crianças, se resolve o diálogo. É o fivar poisado enquanto as armas vão resolvendo a situação. Nos abalançamos dum lado ao outro, camaradas, fazendo as forças vivas andar atrás de n´s; deixamos um silêncio branco nos gestos enquanto os guardas vão gritando, vão batendo. Somos heróis no Rossio, pecamos por descansados 

sexta-feira, 3 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS


PIDE: A História da Repressão

Alexandre Manuel, Rogério Carapinha, Dias Neves

Capa: António Martins

Jornal do Fundão, Editora, Fundão, Junho de 1974

Ultrapassava vinte mil o total de inspectores, sub-inspectores, agentes, informadores e funcionários da P.I.D.E./D.G.S.. Este impressionante número demonstra a infernal máquina repressora mantida pelo regime fascista derrubado em 25 de Abril.

Evidentemente que o maior contingente pertencia oas informadores, esses indivíduos que nos espreitavam em todas as circunstâncias e que, a troco de miseráveis escudos, eram denunciantes.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

OUTROS MAIOS


Se agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25 não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de Maio.

Dirá então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer - obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava. Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.


Já foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores querem voltar e pedem amnistia,

 Tomás e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.


Neste dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar. Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o

assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.

Que ao longo deste texto são relembrados.

Faltava um ano para Grande Festa.

terça-feira, 30 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 30 de Abril de 1974

 Sim, amanhã é mesmo dia de festa.

Com ironia, Mário Viegas dirá que o 25 de Abril dele acabou no dia 2 de Maio.

Alguém, que não recordo agora o nome, disse que do 25 de Abril até ao 1º de Maio devo ter dormido, mas não me lembro. Na verdade, o dia mais longo da minha vida não foi bem um dia: começou naquelas horas vertiginosas do dia 25, até ao 1º de Maio, e que continuaram a sê-lo durante uns meses.

Por fim, uma outra citação anónima:

Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

Em todas os jornais podem ler-se chamadas de atenção para que, nas manifestações do 1º de Maio, o povo e os trabalhadores, tivessem cuidado com eventuais provocadores.

Esta veio publicada no Diário Popular:


Na véspera, na RTP, Sá Carneiro deu uma entrevista com um blá-blá-blá de que Mário Castrim não gostou muito, e escreveu:

Diário de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

Constante das notícias deste dia, o regresso a Lisboa, vindo do exílio, de Álvaro Cunhal.

Nas páginas interiores do República podia ler-se que certa gente começava a deixar as garras de fora.

A Junta de Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da correspondência. Essa  violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a ditadura.

Por decreto, a Junta de Salvação Nacional, dissolvia a Acção Nacional Popular e destituía o Chefe de Estado Américo Tomás e o Chefe do Governo Marcelo Caetano.

O almirante Henrique Tenreiro apresentou-se voluntariamente da Cova da Moura e ficou detido.

Na 1ª página de A Capital, uma fotografia mostrava a ex-comissária da Mocidade Portuguesa Feminina a entregar a José Manuel Tengarrinha a chave das instalações onde passaria a ficar sediado o M.D.P:


Na última página do Diário de Lisboa ficava a saber-se que o ex-pide Sachetti foi preso quando tentava passar a fronteira em Valença.

No Porto, um ex-pide suicidava-se.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

AO MEU PAI, AOS 2626 PRESOS POLÍTICOS DO FORTE DE PENICHE. PELA MEMÓRIA FUTURA

Um dos nossos mais antigos repórteres fotográficos, o Leonardo Negrão, tem por hábito publicar, a preto e branco no Facebook, imagens dos camaradas de redação, atuais e antigos, em momentos de trabalho ou convívio, numa espécie de álbum digital a que chama “Para memória futura”.

Sabemos que as memórias são diferentes de pessoa para pessoa; o que uma acha relevante, outra pode nem ter notado. Sabemos também que um país tem tantas memórias como cada um dos seus cidadãos, e que há memórias coletivas de determinados grupos de pessoas que partilharam experiências comuns. Todas estas, incluindo as das fotografias do Leonardo, constituem a história e reforçam as raízes de uma nação.

Cada vez que há tentativas de desvalorizar, contrariar ou mesmo apagar algumas dessas memórias, quem as guarda reage, naturalmente, com alguma exaltação. Sejam as daqueles que, por exemplo, viveram na ditadura sem sobressaltos, sejam as dos que nunca viveram de outra forma nessa época senão em sobressalto. Ambas merecem respeito e compreensão, mesmo sabendo que todos fizeram escolhas.

Por tudo isto, quando se olha para os 2626 nomes de ex-presos políticos talhados numa pedra à entrada do Forte de Peniche, antiga cadeia do Estado Novo, transformado em Museu da Resistência e Liberdade, inaugurado neste sábado, e se pensa no que sofreu cada um deles e delas (há duas mulheres, cuja história é contada, nesta edição, pela nossa jornalista Alexandra Tavares-Teles) qualquer silêncio que se pretenda impor sobre as memórias destas pessoas, das suas famílias, é, tão-só, indigno.

Não digo isto porque entre esses 2626 nomes está o do meu pai, nem porque só quase adulta me descobri, em memórias escritas num diário, como a menina de 3 anos que acordava todos à noite com os seus gritos de pesadelos e obrigava todos os que com ela compartilhavam uma casa para filhos de presos políticos a procurar, antes de adormecer, “animais maus” debaixo da sua cama.

Nesse diário, escrito por uma mulher que se tornou depois pedagoga e estudiosa destes traumas dos filhos da ditadura, a interpretação é de que os tais bichos simbolizavam os PIDES que eu tinha visto a irem buscar o meu pai a casa.

Não sei. Sei que os pesadelos não me deixaram muitos anos, mas aprendi a enfrentá-los e a vencê-los. Acredito que outros filhos e pais de presos políticos também o tenham conseguido. A maioria dos nomes registados na tal pedra  à entrada da antiga cadeia - que alguém, que não respeita a memória, queria transformar em hotel - são de portugueses comuns, mas também há cerca de uma centena de estrangeiros, espanhóis principalmente, mas também angolanos, moçambicanos, goeses e até alemães. Todos ali estiveram encarcerados pelo seu pensamento, porque escolheram enfrentar os monstros.

É essa resistência que, individual ou coletiva, jamais deverá ser esquecida - mesmo se há quem, como é caso dos representantes da Iniciativa Liberal na manifestação do 25 de Abril na Avenida da Liberdade, não tenha encontrado nada mais apropriado como palavra de ordem, num dia em que se celebra o fim de um regime que perseguiu, torturou e matou comunistas (ou os que eram tidos como tal), e num local onde muitos dos sobreviventes dessa perseguição se reúnem a celebrar, que “comunismo nunca mais”.

Num país no qual uma lei aprovada em 1997 para permitir aos presos políticos da ditadura, e aos que viveram na clandestinidade, pudessem contabilizar esse tempo para efeitos de pensão nunca foi regulamentada, o mínimo de reparação devida a quem gastou anos, por vezes décadas da sua vida, nos calabouços do Estado Novo é respeito pela sua coragem e sacrifício.

Além da sua disruptiva e oportuna declaração sobre o dever de reparação histórica pelos desmandos do Império português, Marcelo Rebelo de Sousa parece ter sentido a necessidade de sublinhar que esse respeito é um fator essencial da preservação da memória coletiva do país.

O Presidente da República podia só ter estado na inauguração oficial do Museu da Resistência, proferido palavras de circunstância. Mas escolheu esperar a inauguração protagonizada pelas centenas de resistentes, ex-presos políticos e respetivas famílias, que decorreu mais tarde.

Quem o viu, de cravo vermelho ao peito, à porta do Forte de Peniche - a mesma porta por onde, 50 anos antes, saíram em liberdade os últimos detidos -, seguindo depois, anónimo (não quis câmaras), na massa anónima que entoava a Grândola Vila Morena, sentiu que também ele, humildemente, queria render homenagem a quem ali tanto sofreu. E cantou com eles a música histórica de Zeca Afonso. Para e pela a memória futura.

Valentina Marcelino, hoje, no Diário de Notícias

Legenda: fotografia da Ordem dos Arquitectos Secção Regional Sul.

O memorial, com 21 metros de largura, 4 metros de altura e com cerca de 40 toneladas, localiza-se na entrada interior da fortaleza e contém a inscrição de 66 mil carateres que escrevem os nomes de 2510 presos políticos.

No topo do memorial, está gravada uma frase do historiador e escritor António Borges Coelho, também ele preso político em Peniche:

"Nomeai um a um todos os nomes
Lutaram e resistiram
A liberdade guarda a sua memória nas muralhas desta fortaleza"

O memorial com o nome de todos os que por ali passaram, foi um projeto desenvolvido pelo Atelier AR4 Arquitetura e executado pela Frademetalúrgica.

domingo, 28 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 

 28 de Abril de 1974

 Os portugueses viviam o seu primeiro domingo em Liberdade.

 Na 1ª página do “Diário de Lisboa” reproduzia-se um “poster” de João Abel Manta.

«Esta é a reprodução de um “poster” que apresentamos nas páginas centrais da nossa edição de hoje. O “poster” alusivo ao actual momento político português, é da autoria de João Abel Manta, artista que, por motivos demais conhecidos, há tempo não publicava qualquer trabalho no nosso jornal.»

Na redacção do Diário de Notícias, as janelas ainda não tinham sido escancaradas. Na 1ª página podia ler-se:

 “Serenidade e expectativa nos territórios do Ultramar”

 Na 7ª página um telegrama da “France Press”, proveniente de Montreal, revelava que Agostinho Neto, em nome do MPLA, não aceitava a proposta do General Spínola com vista à formação de uma Federação. O MPLA classificava a proposta como fascista, nazi e salazarista e reafirmava que a luta sempre foi por uma libertação completa e, apenas, neste princípio se dispunha a encetar negociações com Portugal.

 Na página 3, “A Capital” avançava que tudo levava a crer que o 1º de Maio iria ser decretado, pelas Forças Armadas, Feriado Nacional. O pedido fora formulado por Francisco Pereira de Moura, na reunião que, na véspera, a CDE mantivera com o General Spínola.

Na pág. 14 era publicada esta fotografia.

 A legenda dizia que “um elemento anónimo do 1º Comité de Acção Popular, baptiza a ponte sobre o Tejo.”

 O corpo da notícia esclarecia que o “Comité de Acção Popular” nascera espontaneamente, e propunha-se realizar uma série de acções com vista à eliminação de símbolos do regime derrubado a 25 de Abril.

A alteração do nome de Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril era o primeiro desses actos.

A propósito deste acontecimento, um oficial, não identificado, da Junta de Salvação Nacional, declarou: “estamos aqui, não para desrespeitar os mortos mas pare defender os vivos.”

 Na Junta de Salvação Nacional, também as janelas estavam por escancarar!


Esta é a capa do nº1 do ano I de A Época.

Barradas de Oliveira é demitido de director do jornal Época, que ontem não saiu para as bancas. 

Depois de populares terem, anteontem, tentado destruir as instalações do jornal, que era um sustentáculo da ditadura, o Conselho de Redacção nomeou José Manuel Pintasilgo, chefe de redacção de ex-Época, como director do jornal, que passa, a partir de hoje, a publicar-se com o nome de A Época.

Começam a esboçar-se os primeiros sinais de camaleonismo.

Atente-se no final da sua declaração de princípios:


Uma notícia quase perdida no volume noticioso dos dias:

«Os desertores do Exército apelam para uma amnistia que lhes permita regressar a Portugal.»

Destaque na 1ª página de O Século para a prisão de Silva Pais, o tenebrosos ex-director da PIDE-DGS.

sábado, 27 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 27 de Abril de 1974

A  imprensa diária continuava a publicar notícias, fotografias, reportagens sobre o Movimento dos Capitães, a libertação dos presos políticos, o desmantelamento da PIDE/DGS, bem como reacções internacionais aos acontecimentos verificados no país.

 Título da 1ª página do “Diário de Lisboa”:

“170 Pides nas celas de Caxias.”

Em baixo, à direita, uma fotografia com a seguinte legenda:

“Máscaras de medo, de terror caracterizavam os Pides ao darem entrada nos camiões que os conduziram da Rua António Maria Cardoso para a prisão de Caxias – medo e terror que durante largos anos se comprazeram em espalhar no povo indefeso e nos estoicamente lutavam para restituir a Portugal a justa liberdade”.

Neste sábado, o “Expresso” fazia, após os acontecimentos do dia 25, a sua primeira edição. 

Em editorial declarava que “não precisamos fazer meia volta como tantos outros (…) continuaremos, portanto, naturalmente, pelo mesmo caminho. Aceitando sem reticências o desafio necessário que a nova situação política nos lança. Participando na batalha contra os outros necessários desafios. Lutando por que o país e cada um dos seus cidadãos saibam adaptar-se e beneficiem da mudança que já estamos a viver.”

Também em editorial, o “Diário de Notícias” dedica-se, à moralidade, ao perfeito cinismo, ou o começar de pôr água na fervura do caldo, género portem-se bem meninos, que isto não é o da Joana:

“O que os Portugueses não devem entretanto perder de vista é que para se ter liberdade é preciso merecê-la. Cada um de nós tem de provar por si que é digno dela, adquirindo hábitos de tolerância e respeito pelo próximo que andam muito esquecidos. Só por esse modo poderemos triunfalmente refutar o argumento dos que negam ao povo português a maturidade necessária para ser livre”

Na sua página 5 dava conta da romaria que ia acontecendo pela rua onde reside Spínola:

 “Milhares de pessoas de todas as camadas sociais têm-se dirigido à residência do general Spínola, na Rua Rafael de Andrade, dando àquela artéria um movimento sem precedentes. A intenção é sempre, de saudar o presidente da Junta de Salvação Nacional e de lhe manifestar a sua adesão.”

Na sua 1ª página “O Século” noticiava que Mário de Soares partiria de Paris de comboio, estando prevista, para domingo a sua chegada a Santa Apolónia.

Após demoradas negociações, são libertados os presos políticos que se encontravam nas prisões da PIDE. Os presos tinham decidido que ou saiam todos ou não saia nenhum.

Palavras de Hermínio Palma Inácio, ao sair da prisão de Caxias, captadas para uma reportagem publicada na página 5:

 “Isto é maravilhoso!.. Sabemos ainda pouco sobre os objectivos da Junta… Oxalá não seja só uma liberdade de doze meses.”

Noticiava, ainda “ O Século” que grupos de populares invadiram as instalações da Comissão de Exame Prévio, ex-Censura, destruindo mobiliário e vasta documentação e colocava um apelo do capitão Salgueiro Maia, pedindo aos populares que não  destruíssem arquivos de valor histórico inestimável.

Pelas ruas da cidade os populares começavam a caça aos pides, publica-se uma fotografia que ficou para a História. Da notícia retiro este pormenor: “entretanto eram presos vários agentes da DGS entre os quais um morador no Bairro Espírito Santo em Odivelas, que foi denunciado por uma senhora. Trazia uma pistola de guerra nas “roupas íntimas inferiores.”

Em “Ultimas Notícias” referia-se que o embaixador de Portugal no Brasil, José Hermano Saraiva” dirigiu-se pela rádio e televisão à comunidade portuguesa:

“O processo que o país atravessa é pacífico, sem violências, e representa um caminho em busca da solução dos seus problemas, disse.

A página desportiva, falando do regresso da equipa do Sporting, tinha este curioso título: 

A eliminação da Taça das Taças esquecida na Cortina de Ferro por razões óbvias.

O jogo realizara-se em Magdeburgo, na então chamada Alemanha Oriental.

Como os restantes jornais, O Século noticiava o assalto que populares fizeram ao edifício do jornal Época, que não se publicou neste dia, e que obrigou à intervenção de elementos das Forças Armadas.

Face a este incidente, e outros que iam acontecendo, a Junta de Salvação Nacional emitia um comunicado: 

 Noticia “A Capital” que foram demitidos os governadores de Angola, Moçambique e Guiné, nomeados novos comandos para as regiões militares, GNR e PSP, as tomadas de posição de diversos sindicatos, que no Técnico reabria a Associação de Estudantes bem como a reunião da Junta de Salvação Nacional com a CDE, a Sedes, a Convergência Monárquica e directores dos diversos órgãos de informação.

A CDE fazia-se representar por Francisco Pereira Moura, José Manuel Tengarrinha, Herberto Goulart, Pedro Coelho e Gilberto Ramos, a Sedes por Sá Borges, Magalhães Mota, Teodoro da Silva, A Convergência Monárquica por Rodrigo Montezuma, Pedro Paiva Pessoa e João Vaz Serra e Moura.

Exilado no Brasil o Prof. Rui Luís Gomes anunciou o imediato regresso a Portugal.

Na primeira página o “Diário Popular” informava que os bancos reabriam ao público na segunda-feira, enquanto na pág. 17 realçava um comunicado da assembleia da Conferência Episcopal da Metrópole. Os senhores bispos, tão silenciosos em tempo de ditadura, entenderam formular votos para o bem-estar da Sociedade portuguesa.

 Diário Popular dava conta que, em Beja, foi preso pela polícia um homem que ostentava um cartaz a pedir a extinção da PIDE.


A edição do “República” salientava que ainda continuavam à solta, e armados, mais de dois mil agentes da PIDE/DGS.

Na sua agenda de  espectáculos, podia ler-se a seguinte nota:

“Como os nossos leitores se têm apercebido, a programação da RTP foi profundamente alterada, não sendo ainda possível a organização de horários. Aconselhamos portanto a manterem os aparelhos ligados para a captação de qualquer informação importante ao País.”

No meio da alegria generalizada, a notícia da morte do poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. O poeta que tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto, e não resistiu à emoção de ver cair a ditadura.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25

A fotografia mostra a decisão de Mário Viegas na sua Auto-PhotoBiografia (não autorizada), quando determina que o seu 25 de Abril foi de curta duração.

 No dia 25 de Abril de 1974, quando o Movimento dos Capitães saiu para as rua, já os matutinos estavam em fecho de edição. Alguns ainda conseguiram colocar uma pequena notícia, a informação possível, na 1ª página, mais tarde fariam 2ª e 3ª edições. Os vespertinos tiveram mais desenvolvimento, mas só no dia seguinte, as notícias, as reportagens, os comentários conseguem um outro tipo de desenvolvimento.

Em alguns jornais poderia ler-se a frase histórica: «não terem sido visados por qualquer comissão de censura.

Os acontecimentos ocorridos na véspera são referidos: a rendição de Marcelo Caetano, a apresentação, madrugada alta, através da RTP, da Junta Nacional de Salvação, a rendição da PIDE/DGS, a libertação, em Caxias, dos presos políticos, a partida de Marcelo Caetano e Américo Tomás para a Ilha da Madeira.


Aos poucos, a rotina do quotidiano entra na normalidade.

Caminha-se para os empregos, para as escolas, para as fábricas, os mesmos passos, os mesmos rostos, mas têm uma outra vivacidade, um outro fulgor.

O Diário de Lisboa é o único que puxa para a primeira página a grande notícia do dia: a libertação dos presos políticos.

No miolo da reportagem uma pergunta óbvia, uma resposta com o seu quê daquilo que mais tarde irá acontecer:

- O que vão fazer aos pides, pergunta o repórter ao comandante dos páras.

- Temos que ter compaixão e humanidade para com eles, respondeu-nos o capitão.


Na página 15 do República uma pequena, mas lamentável, notícia dá conta de que, apesar da intervenção dos militares, não foi possível salvar muitos arquivos e documentos da Censura que o povo lançou à rua e foram destruídos.

Aqueles documentos eram parte da nossa história.

Estava lá nesse momento, assisti ao crime, mas como se poderia tê-lo evitado?

Quarenta e oito anos de ódio e repressão sobre um povo, cegam, pesam muito.

Na sua 3ª página “O Século” noticiava que, presidida pelo engº Amaral Neto, e com a presença de 38 deputados, reunira o plenário da Assembleia Nacional.

A sessão demorou quinze minutos e, não mais, como Nacional, voltaria a reunir.

Também em O Século, a primeira fotografia publicada na imprensa da prisão de três pides, passos iniciais do que vai ficar a ser conhecido como a «caça ao pide.»

Num Diário de Noticias, de que não possuímos a data, uma História de Joaquim Santos da Póvoa de Santo Adrião:

«Exm.º Senhor Director-Geral,
Informo V. Exª que ontem, dia 25 de Abril de 1974, vários funcionários faltaram ao serviço, invocando ter ocorrido uma revolução no País.
Esclareço que esta revolução não foi autorizada superiormente, não vendo qualquer justificação para as faltas, tanto mais que o serviço se atrasou consideravelmente.
Como na legislação vigente não estão previstas faltas pelo ocorrência de revoluções, submeto o assunto ao alto critério de V. Exª, na certeza de que o mesmo merecerá a atenção devida.
Lisboa, 26 de Abril de 1974
A Bem da Nação
O Chefe da 3ª Secção
Ambrósio Silva»