O Último Dia da Pide (26 de Abril no Porto)
Prefácio: Raul
Castro
Edição do
Movimento Democrático no Porto
Colecção 25 de
Abril Os Dias da Revolução nº 9
Edição
fac-simile A Bela e o Monstro/Rapsódia Final/Jornal Público, Lisboa Agosto de
2025
Naquele sinistro casarão, que faz esquina da Rua do
Heroísmo com o Largo de Soares dos Reis (agora Largo de Catarina Eufêmia), e
onde muitas pessoas mudavam de passeio para se afastarem da sua proximidade,
funcionou, durante longos anos, a Delegação no Porto da PIDE, a que Marcelo
Caetano, numa mera mudança de designação, passou a chamar DGS. A PfDE-DGS do
Porto tinha duas entradas : uma pelo Largo de Soares dos Reis, com escadas de
passadeira e contínuos fardados, era a entrada para «inglês ver», a entrada
«oficial», onde eram atendidos os que ali eram chamados ou iam tratar de qualquer
problema de passaportes, nomeadamente os estrangeiros; a outra era a face real
da PIDE, na Rua do Heroísmo (e nunca o nome de uma rua foi tanto o símbolo dos
que lá entravam e conseguiam resistir às torturas), um portão de ferro, com uma
pequena porta de entrada, a dois palmos do chão, que só se abria para deixar
entrar os presos ou os seus familiares, que os iam visitar, e que estabelecia
contacto com o átrio de acesso às prisões (celas, quartos e salas) e ao curto
lanço de escadas de acesso, pelo lado real, do edifício onde funcionavam todos
os departamentos da PIDE-DGS, desde as salas de escuta telefónica e gravações,
até aos gabinetes dos chefes, inspectores e director, e àqueles, no último
andar, onde os presos eram interrogados e torturados. Quem entrava pela escada
de passadeira do Largo de Soares dos Reis, e assim não passava desta parte do
edifício, nunca podia fazer ideia de tudo aquilo que constituía a verdadeira
PIDE, e que estava para lá daquela fachada. Esta série de fotografias da Delegação
no Porto da PIDE-DGS, obtidas logo após o 25 de Abril, desde a complicada
aparelhagem de escuta telefónica e gravação, os montes de livros apreendidos,
as pastas de processos individuais, que vão até ao número 53067, o enorme
ficheiro de 80 gavetas, o parlatório das visitas, o arsenal de armas
amontoadas, o luxo do gabinete do director contrastando com a pobreza
rudimentar das saias dos presos, até aos relatórios, meio calcinados, de
gravações telefónicas, o envelope apreendido duma carta, agentes da PIDE-DGS
ocultando as caras, já conduzidos sob prisão, a alegria da saída dos presos e a
essa extraordinária imagem de um soldado erguendo um ramo de cravos no meio da
alegria de milhares de populares, que, até à hora da rendição da PIDE, apoiaram
as Forças Armadas, estando sempre a seu lado, constituem imagens que se não
podem esquecer. Sem serem tudo o que era a sede da PIDE no Porto — basta
lembrar a falta de fotografias das celas subterrâneas onde os presos, às
escuras ou com a escassa luz dos estreitos postigos gradeados à altura das
pernas de quem passava na Rua do Heroísmo, cumpriam longos períodos da chamada
incomunicabilidade, com um balde a substituir as funções de retrete,
constituem, porém, um primeiro documentário sobre as instalações da PIDE-DGS
que ilustra os brutais e maquiavélicos métodos de actuação desta polícia do
fascismo português, que foi um dos seus órgãos fundamentais para a implantação
e a sobrevivência do regime de domínio violento das mais reaccionárias camadas
do grande capital monopolista sobre o povo português, durante quarenta e oito
anos.
(Do Prefácio de
Sem comentários:
Enviar um comentário