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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

Margarida Ferra em Curso Intenso de Jardinagem

Legenda: fotografia de Luís Eme

terça-feira, 14 de outubro de 2025

OLHAR AS CAPAS

Curso Intensivo de Jardinagem

Margarida Ferra

Capa: Luís Henriques

&etc., Lisboa, Maio de 2010

Pause

Podiam ser versos tortos,

estas linhas, se me libertassem

de facto dos referentes

que trago na carteira,

junto ao bilhete de identidade ,

Lenços de papel.

Sempre que tento agarrar um deles,

meio segundo antes de conseguir olhá-lo,

um gancho (do cabelo, preto) prende-se

nas unhas,

em prejuízo de outros detalhes

esquecidos com uma nova precisão.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

OLHAR AS CAPAS

 

Sorte de Principiante

Margarida Ferra

Capa e ilustrações de Bárbara Assis Pacheco

&etc, Lisboa, Novembro de 2013

 

Apaixonei-me todas as vezes

 e ainda assim foram insuficientes

 para a idade e dedos que tenho.

 

Conduzo a alta velocidade,

 ignorante dos radares.

Foram pelo menos quinze,

os túneis até hoje.

 

Escapei ilesa. Frases mal pronunciadas,

suspiros demasiado presentes,

uma t-shirt usada em excesso

em dias de sono longe,

memórias inesperadas,

longas páginas de prosa,

poesia, jornalismo e catálogos

de venda postal

têm-me salvo com frequência

do abismo.

 

Ensinavas-me a viver longe e

podia acreditar em ti,

se me chamasses

assim e outros termos vulgares,

entre dois vídeos. Só que ninguém

enfrenta a câmara

antes do próximo semáforo.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

NOME COMUM: JARDIN-DOS-POETAS

 Percorria ao anoitecer os jardins 

da cidade à procura das flores

oficiais – sobem amparadas 

e perfumam com a memória 

do chá as ruas irregulares. 

Levava uma tesoura de unhas,

insuficiente e desnecessária porque

não colhia nada que fosse vivo.

Restavam-me frases livres,

páginas dobradas, cadeiras desiguais

e os pratos vazios deixados

aos gatos.

 

O primeiro poema encontrei-o 

numa dessas buscas

debaixo da árvore maior,

no ferro que sustenta a copa,

preso com uma mola da roupa.

Margarida Ferra

sexta-feira, 16 de maio de 2025

OUTRO MEDO

Vimos também da varanda do cerro

o raio que riscou a fronteira

entre os que escolheram um novo

nome e todos os outros

mulher e crianças primeiro

testemunho do que foi sendo contado.

 

A água que ouvimos passar

- depois das casas contar agora de cima -

cobre e revela as pedras do leito

olhadas por quem esteve aqui antes.

 

Apoiados no ferro longe da linha

estamos a salvo das imagens

que nos despem e fazem de nós

mães filhos tios

desses cuja morte tapam e nos mostram

 

juntando nós

deitados depois

os pontos que faltam

 

Margarida Ferra

quinta-feira, 17 de abril de 2025

JANELA

Dias depois, ainda na cama,
não conseguia escolher a melhor saída,
que chão frio podia suportar os meus pés.
O peso das tuas costas, que estavam só
do outro lado, desceu até se somar
ao meu próprio peso sobre os meus pés descalços -
e eu sem saber a que parte da casa podia ligá-los.

Uma janela surpreendente, esquadria perfeita
agora à minha direita
e ar que entrou: talvez pudéssemos
de facto ser respiráveis.

A amanhecer ao longe um azul lento e claro.
Demasiado mais claro
em muito pouco tempo,
atrás da escola, não chegaria a cegar ninguém:
as nuvens mais leves, como os pesadelos,
resgataram antes as possíveis vítimas,
inocentes não declarados que circulam sem saberem
da sua condição ou destino.

Margarida Ferra

quarta-feira, 19 de março de 2025

PREPARAÇÃO DO SOLO

Comprei finalmente
a floreira, agora suspensa
no parapeito da cozinha.
Entre o armário e o balcão,
pode ser que sirva
ainda
de lugar a andorinhas e ervas aromáticas.
O vento há-de trazer-me
tudo isso e também
escapes, monóxido de carbono.

Esgotadas as emendas
e todos os outros males,
dediquei-me
com minúcia
e seriedade
(o possível)
a criar na terra as palavras
normais que me sobravam
no fundo dos bolsos


Margarida Ferra

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

ACREDITA NO QUE QUISERES

«Mistura o que quiseres, se fores ao parque ou à rua que desce, no Príncipe Real. Põe lado a lado literatura da boa —porque alguém disse que o que é bom é azul — e política medíocre. Equilibra as marcas para não haver sobre-representação. Mistura títulos com exemplares, chancelas com selos de correio, leitores com clientes, facturação com escoamento de stock. Usa ingredientes biológicos, recicla ideias. Mistura-te com pessoas que gostam de coisas que suportas com dificuldade. Não deixes de falar com desconhecidos. Não espreites perfis. Mistura o que quiseres, podes ser duas pessoas ou mais: vender e ser vendido, escrever biografias e cortá-las até terem duas linhas — uma delas pode ser tua, os outros relatos também são falsos. Ouve e copia sotaques alheios, como se a tua família fosse outra. Mistura o que quiseres, não expliques, não te queixes, cita sem saber quem citas. Escreve sempre que precisares. Usa o imperativo na segunda pessoa quando pensas numa multidão de desconhecidos que não está  lá. Diz outra vez que preferes esse tempo e modo ao que era anterior. Trata o teu colega como gostarias que ele te tratasse a ti. Mistura casa com trabalho, caso com trabalho, costura com candura. Mistura o que cozinhas e o que temes. Vende os teus medos: faz com que não te pertençam, não vendas o que é teu. Acredita no que quiseres, esquece-te de que a tua intuição está provavelmente sempre certa. Diz que tudo é exercício: que sabes, sem anúncio, que o teu lugar já é de outra pessoa. Diz que tudo era cansaço e deseja felicidades a quem vier.»


Margarida Ferra em Sorte de Principiante

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

ESCREVE SEMPRE QUE PRECISARES


Escreve sempre que precisares de me dizer
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico.
Os legumes que trouxe ontem
não sobrevivem a mais do que uma geada,
muito menos nós.


Escreve sempre que precisares, podes
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos
se somos nós ou se somos aquelas
quatro pessoas que vão à rua

 

agora que encontraram a porta certa.

 

Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.

 

Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua,
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos,
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar,
as frases podem desviar deixas decoradas,
repetidas como mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.

 

Escreve em vez de costurares.
Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,
arranhaste sem possibilidade de cura joelhos,
cotovelos e as canelas
(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).
Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,
os meus soluços nessas curvas
a mais que não fazes na letra d:
as tuas linhas são rectas, verticais e justas,
as minhas letras são apenas caracteres.


Escreve sempre que puderes
só em vez de apenas,
recursos humanos em vez de
resíduos urbanos. Talvez sejamos mais
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.

 

Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas,
nunca trago chaves comigo.

Margarida Ferra em  Sorte de Principiante, copiado da revista Ler 

sábado, 9 de julho de 2016

MORADA


Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

Margarida Ferra 

Legenda: pintura de Kandinsky