Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.
Margarida
Ferra em Curso Intenso de Jardinagem
Legenda: fotografia de Luís Eme
Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.
Margarida
Ferra em Curso Intenso de Jardinagem
Legenda: fotografia de Luís Eme
Curso Intensivo de Jardinagem
Margarida Ferra
Capa: Luís Henriques
&etc., Lisboa, Maio de 2010
Pause
Podiam ser versos tortos,
estas linhas, se me libertassem
de facto dos referentes
que trago na carteira,
junto ao bilhete de identidade ,
Lenços de papel.
Sempre que tento agarrar um deles,
meio segundo antes de conseguir olhá-lo,
um gancho (do cabelo, preto) prende-se
nas unhas,
em prejuízo de outros detalhes
esquecidos com uma nova precisão.
Sorte de Principiante
Margarida Ferra
Capa e
ilustrações de Bárbara Assis Pacheco
&etc,
Lisboa, Novembro de 2013
Apaixonei-me todas as vezes
e ainda assim
foram insuficientes
para a idade e
dedos que tenho.
Conduzo a alta velocidade,
ignorante dos
radares.
Foram pelo menos quinze,
os túneis até hoje.
Escapei ilesa. Frases mal pronunciadas,
suspiros demasiado presentes,
uma t-shirt usada em excesso
em dias de sono longe,
memórias inesperadas,
longas páginas de prosa,
poesia, jornalismo e catálogos
de venda postal
têm-me salvo com frequência
do abismo.
Ensinavas-me a viver longe e
podia acreditar em ti,
se me chamasses
assim e outros termos vulgares,
entre dois vídeos. Só que ninguém
enfrenta a câmara
antes do próximo semáforo.
Percorria ao anoitecer os jardins
da cidade à procura das flores
oficiais – sobem amparadas
e perfumam com a memória
do chá as ruas irregulares.
Levava uma tesoura de unhas,
insuficiente e desnecessária porque
não colhia nada que fosse vivo.
Restavam-me frases livres,
páginas dobradas, cadeiras desiguais
e os pratos vazios deixados
aos gatos.
O primeiro poema encontrei-o
numa dessas buscas
debaixo da árvore maior,
no ferro que sustenta a copa,
Vimos também da varanda do cerro
o raio que riscou a
fronteira
entre os que escolheram
um novo
nome e todos os outros
mulher e crianças
primeiro
testemunho do que foi
sendo contado.
A água que ouvimos
passar
- depois das casas
contar agora de cima -
cobre e revela as
pedras do leito
olhadas por quem esteve
aqui antes.
Apoiados no ferro longe
da linha
estamos a salvo das
imagens
que nos despem e fazem
de nós
mães filhos tios
desses cuja morte tapam
e nos mostram
juntando nós
deitados depois
os pontos que faltam
Margarida
Ferra
Dias depois, ainda na cama,
não conseguia escolher a melhor saída,
que chão frio podia suportar os meus pés.
O peso das tuas costas, que estavam só
do outro lado, desceu até se somar
ao meu próprio peso sobre os meus pés descalços -
e eu sem saber a que parte da casa podia ligá-los.
Uma janela surpreendente, esquadria perfeita
agora à minha direita
e ar que entrou: talvez pudéssemos
de facto ser respiráveis.
A amanhecer ao longe um azul lento e claro.
Demasiado mais claro
em muito pouco tempo,
atrás da escola, não chegaria a cegar ninguém:
as nuvens mais leves, como os pesadelos,
resgataram antes as possíveis vítimas,
inocentes não declarados que circulam sem saberem
da sua condição ou destino.
Margarida Ferra
Comprei finalmente
a floreira, agora suspensa
no parapeito da cozinha.
Entre o armário e o balcão,
pode ser que sirva
ainda
de lugar a andorinhas e ervas aromáticas.
O vento há-de trazer-me
tudo isso e também
escapes, monóxido de carbono.
Esgotadas as emendas
e todos os outros males,
dediquei-me
com minúcia
e seriedade
(o possível)
a criar na terra as palavras
normais que me sobravam
no fundo dos bolsos
Margarida Ferra
«Mistura o que quiseres, se fores ao parque ou à rua que desce, no Príncipe Real. Põe lado a lado literatura da boa —porque alguém disse que o que é bom é azul — e política medíocre. Equilibra as marcas para não haver sobre-representação. Mistura títulos com exemplares, chancelas com selos de correio, leitores com clientes, facturação com escoamento de stock. Usa ingredientes biológicos, recicla ideias. Mistura-te com pessoas que gostam de coisas que suportas com dificuldade. Não deixes de falar com desconhecidos. Não espreites perfis. Mistura o que quiseres, podes ser duas pessoas ou mais: vender e ser vendido, escrever biografias e cortá-las até terem duas linhas — uma delas pode ser tua, os outros relatos também são falsos. Ouve e copia sotaques alheios, como se a tua família fosse outra. Mistura o que quiseres, não expliques, não te queixes, cita sem saber quem citas. Escreve sempre que precisares. Usa o imperativo na segunda pessoa quando pensas numa multidão de desconhecidos que não está lá. Diz outra vez que preferes esse tempo e modo ao que era anterior. Trata o teu colega como gostarias que ele te tratasse a ti. Mistura casa com trabalho, caso com trabalho, costura com candura. Mistura o que cozinhas e o que temes. Vende os teus medos: faz com que não te pertençam, não vendas o que é teu. Acredita no que quiseres, esquece-te de que a tua intuição está provavelmente sempre certa. Diz que tudo é exercício: que sabes, sem anúncio, que o teu lugar já é de outra pessoa. Diz que tudo era cansaço e deseja felicidades a quem vier.»
Escreve sempre que precisares de me dizer
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico.
Os legumes que trouxe ontem
não sobrevivem a mais do que uma geada,
muito menos nós.
Escreve sempre que precisares, podes
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos
se somos nós ou se somos aquelas
quatro pessoas que vão à rua
agora que encontraram a porta certa.
Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.
Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua,
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos,
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar,
as frases podem desviar deixas decoradas,
repetidas como mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.
Escreve em vez de costurares.
Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,
arranhaste sem possibilidade de cura joelhos,
cotovelos e as canelas
(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).
Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,
os meus soluços nessas curvas
a mais que não fazes na letra d:
as tuas linhas são rectas, verticais e justas,
as minhas letras são apenas caracteres.
Escreve sempre que puderes
só em vez de apenas,
recursos humanos em vez de
resíduos urbanos. Talvez sejamos mais
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.
Escreve sempre que precisares de uma
porta
onde caibas,
nunca trago chaves comigo.
Margarida Ferra em Sorte de Principiante, copiado da revista Ler