Maria Archer nasceu em Lisboa a 4 de Janeiro de 1899 e morreu, também em Lisboa, a 23 de Janeiro de 1982.
Só terminou a escola primária aos 16 anos, tendo para isso que insistir com
seus pais, que achavam desnecessária a sua formação.
Escritora, lutadora
pelos direitos humanos.
Perseguida pela PIDE,
foi obrigada a refugiar-se no Brasil. Depois do 25 de Abril regressou a
Portugal com poucos meios de subsistência. O país, já democrático, negou-lhe a
dignidade, o respeito, tudo o que lhe era devido pelas causas por que se bateu.
Merecia que lhe dessem algo mais do que lágrimas de crocodilo, e até essas
faltaram. Regressou pobre do Brasil, mas não queria caridadezinha, queria o
respeito a que tinha direito por ter ajudado, pela sua atitude cívica e de
escritora, a liquidar um regime opressivo e senil.
Morreu só, no Asilo
de Santa Maria de Marvila.
Consideraram-na uma das principais mulheres escritoras portuguesas, talvez a grande ficcionista da primeira metade do século passado.
Disse João Gaspar Simões, em 1930:
«Não conheço mesmo outra
(escritora portuguesa) que à audácia dos temas e das ideias alie uma expressão
tão enérgica e pessoal. O seu estilo respira força e solidez.»
Considerou ainda que apenas dois nomes eram dignos de emparceirar com os escritores homens: Maria Archer e Irene Lisboa.
Maria Archer, uma prosa elegante, século passado, uma prosa amável.
Recordo-me de ter
lido este «Casa Sem Pão.
Por motivos que desconheço,
o livro, quando fechei a cada do meu pai, não estava nas estantes.
A edição que hoje aqui
se recorda, é o 3º volume da Colecção
Censura no Feminino que o jornal Público
tem vindo a publicar em edições fac-símile.
Foi o segundo livro
de Maria Archer proibido pela PIDE.
A obra foi proibida
aquando da sua publicação, em 1947, vindo a ser autorizada, embora com cortes,
12 anos depois.
O censor-leitor foi o capitão Rodrigues de Carvalho que não tem dúvidas em «achar perniciosa a divulgação deste livro sob o ponto de vista da moral social.» e para que não existam quaisquer dúvidas junta ao processo, «um relato desenvolvido com as transcrições dos passos mais escabrosos.»
Uma parte imoral, assim considerada pelo capitão-censor, aparece na pág. 60:
«Os passos de Felismina soam na passadeira do corredor. A chave da
porta do seu quarto corre na fechadura. As duas raparigas fecham-se mais no
silêncio e dobram-se sobre o bordado. Ambas pensam no pai e em Felismina, um
homem e uma mulher fechados à chave no mesmo quarto, a despirem-se, a dormirem
na mesma cama.. Ambos pensam em que seu pai, metido com uma mulher no quarto,
está fazendo uma coisa vergonhosa, e em que Felismina não é uma pessoa de
sentimentos. A Clarisse ensaia, timidamente, uma censura, em voz quase imperceptível:
- Casam-se para fazerem porcarias…



