O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.
Vergílio
Ferreira
José
Saramago e António Lobo Antunes têm entradas sombrias, algumas a cheirar a
desprezo por todas as letras da prosa.
Porque
há pouco nos deixou, deixo aqui o que
Vergílio Ferreira, nesta terça-feira de Novembro, deixou sobre o Lobo Antunes,
em que volta a falar do Nobel da Literatura porque nunca esqueceu o que Mário
Soares um dia lhe disse: que o Nobel lhe ficaria muito bem.
Lá
fora o dia está cinzento, depois de uns estupendos dias de sol que já anunciam
a Primavera.
Uma
boa parte destes Diários são ocupados por uma certa amargura de Vergílio
Ferreira, não declarada, mas em que por sinais não ocultos, o autor vai dizendo
que o fim se aproxima.
«Apressa-te,
apressa-te, tens já poucos dias para dizeres que existes. E se tu não o
disseres, quem é que vai suspeitá-lo?»
Mas
vamos ao que o autor sentia neste dia de há 35 anos, um domingo:
Tenho reparado às vezes
que, em ritmo acelerado, o coração me para com frequência ou se suspende um
momento para depois retomar o ritmo em que bate. Arritmia? Efeito do próprio
nervosismo sem razão? Não estou curiosos de o saber. Disse-me um tipo uma vez:
as doenças do coração não se tratam, porque são um benefício da natureza.
Admito-o para minha tranquilidade»
Como fiquei um tanto ou quanto enfastiado com os 4
volumes da Conta-Corrente, nunca
comprei o 5º volume tão pouco os restantes novos volumes da obra diarística de
Vergílio Ferreira.
Mas na reedição que a Quetzal está a disponibilizar
com a obra de Vergílio Ferreira, não resisti: comprei o volume que contém os
1989 a 1992 da Conta Corrente.
«Quando é que acaba com isso? - era a
pergunta que o Lourenço me fazia. Quando ia saindo mais um volume deste diário
e ele me fazia ainda perguntas. Está por pouco, meu caro Eduardo, e agora é
mesmo de vez».
Tinha toda a razão o Eduardo Lourenço!
Tinha eu a razão por, em devido tempo, não ter
alinhado em mais volumes da Conta-Corrente,
eu que detesto ter razão.
Estes últimos diários são um desconsolo.
A mesma atitude envinagrada contra tudo e mais alguma
coisa.
Invejava os seus pares por não o tratarem com a
dignidade que entendia merecer. Visitava as livrarias, folheava livros, mas não
os comprava por os achar caríssimos. Claro que eram caros, mas se gostamos de
ler livros, teremos que fazer sacrifícios para os comprar. Sei bem do que falo.
Até os amigos não tratava bem. Um exemplo é António
Ramos Rosa: vai lendo os seus poemas, já escreveu sobre eles mas supõe que
António Ramos Rosa «jamais leu um romance
meu».
Um dia, em Tróia, Mário Soares disse-lhe que o Nobel
lhe ficaria muito bem.
No ano em que Octávio Paz venceu o Nobel, escreveu:
«Nós portugueses arrastamos connosco,
desde que me conheço, a cruz deste vexame de não existirmos para a Academia Sueca.»
Vergílio Ferreira morreu em Março de 1996.
O destino, ou o que lhe quiserem chamar, poupou-lhe a
atribuição (1998) do Prémio Nobel a José Saramago.
José Saramago e António Lobo Antunes têm citações
pífias nas 1098 páginas do livro.
Os Diários
de José Gomes Ferreira são tratados quase a pontapé e fica pela quase margem de
lhe chamar xéxé.
Vergílio Ferreira tem livros interessantes, um nome na
nossa literatura, mas no resto foi sempre assim, uma inveja que nunca conseguiu
dominar.
Talvez a solidão de Fontanelas o atormentasse, ou os
mesmos pratos do dia do Café do Zé. Talvez…
E
prontos…
Como
escrevi por aqui, lá comprei o Tomo III da Conta-Corrente do Vergílio
Ferreira que inclui os diários de 1982 a 1992, que estavam em falta na
Biblioteca da Casa.
E
vim a arrastar as 1089 páginas do livro, e na viagem de metro, de regresso a
casa, fui folheando aqui e ali, finalmente a Conta-Corrente tem um
índice onomástico.
No
que, em diagonal, fui lendo, deu para confirmar, que tinha razões suficientes,
para não ter comprado os volumes publicados na década de 90.
E
lá voaram vinte e sete euros mais setenta cêntimos!...
Claro
que terá de existir uma leitura mais serena e cuidada, mas como o livro pelo
seu peso, não o poderei colocar debaixo do braço quando saio de casa, está ali na mesa
do cantinho à espera…
Razão
tinha Seve, o viajante deste Cais, quando escreveu um postal ao editor Francisco
José Viegas responsável na Quetzal pela publicação da obra de Vergílio
Ferreira:
«Caro Francisco José Viegas
Nunca saio de casa sem levar comigo um livro. Mas hoje, com grande desilusão
minha, verifiquei que um dos grandes "escritos" da língua portuguesa
foi editado como se fosse ser vendido para a construção civil (tijolo) em vez
de o ser para quem realmente o queira ler.
Perdoe-me meu caro mas ouso perguntar: dá algum jeito levar comigo para a
praia, para os transportes públicos, para ler nos momentos livres, aquele
tijolo que deve pesar, sem exagero, uns 2/3 kilos.
É um "assassinato" a publicação desta pérola da literatura portuguesa
num calhamaço destes, sem ponta por onde se lhe pegar, absolutamente editado
para quem não gosta de ler, intransportável para quem gosta de ler.
Perdoe-me o atrevimento desta minha opinião mas não podia deixar passar em
branco esta grande "asneira" editorial, porque realmente queria
possuir estes diários do grande Vergílio Ferreira, apesar de já os ter lido
todos (8), pela Biblioteca Municipal.»
Neste
Dia, que são diversos dias, pego na Conta-Corrente de Vergílio Ferreira que, ao
longo dos volumes mostra uma admiração excepcional pelo poeta António Ramos
Rosa.
Logo
no 1º volume, página 25:
«26 de Fevereiro - Conversa pró-prandial com o Ramos Rosa num café. Que personagem curiosa este grande poeta. Claude Roy disse dele, salvo erro, que lembrava um Quixote surrado. Enganou-se de mundo, anda aqui por se ter distraído. Porque ele nasceu para viver noutro lado onde não haja regras de trânsito, de disciplina, de subsistência. De modo que faz um esforço enorme para se acomodar. Um grande achado para ele foram as práticas do ioga ou coisa que o valha. O mundo em que circula desarranja-lhe os mecanismos interiores. E toda a sua preocupação é consertá-los. Mas ele a compor e a realidade a estragar. Quando julga que venceu, fica radiante. Dias depois volta à oficina com o psíquico esmurrado. Não chegará nunca a tirar a carta de condução no mundo. Hoje trazia outra descoberta: mastigar interminavelmente um pedaço de alimento até sentir vómitos. Isso lhe afinaria o sabor para recuperar um paladar originário. E ria. E estava feliz. Nós alimentamo-nos tão estupidamente, com um paladar tão encortiçado. Ele quer restaurar cá, o sabor que deve haver talvez do lado de lá. Encantado com a descoberta. E eu com o encantamento. Adorável poeta. Extraordinário poeta.»
No mesmo 1º volume,
página 251:
«10
de Maio de 1975
A
reler poemas do Ramos Rosa. Magnífico poeta. O ar, a luz, a cal, o mar, a
árvore, a casa – mundo da discreta alegria da vida, da gratidão de viver. Uma
expressão espantosa: «uma ave subscre(ndo) o céu inteiro».
3º
volume, pág. 63
20 de Junho de 1980
4º
volume, página 413
27
de Setembro de 1983
«Telefonou
o Ramos Rosa. Eu já andava para lhe telefonar, passava-me sempre. Telefonou
ele. Que tal ia a vida? Perguntei.
Vergílio Ferreira, com a sua escrita, nunca me levou a outros horizontes. Inclino-me para que não seja bem pela sua escrita, antes pela parte política e isso, devo dizer, não abona a meu favor.
Tenho
os 4 volumes da Conta-Corrente. Já não comprei o 5º volume nem os
restantes que Vergílio Ferreira publicou.
A
Quetzal está a reeditar todos os volumes.
Acho
que vou embarcar.
Navegar é preciso!
São interessantes as observações.
Sabemos que Vergílio Ferreira sempre se interessou
por Sartre, que deixou expresso que o Existencialismo é um Humanismo mas está,
hoje, muito calor e seguiremos, antes, as breves notas que Vergílio Ferreira , fora de Sartre, neste
mesmo dia, deixou no 4º Volume da sua Conta-Corrente.
vés dos milénios. Esse ser miraculosos, na vertigem dos acasos, és tu.
Legenda. Contra-capa de O Existencialismo é um Humanismo
Se
eu desabafasse uma vez? Não vou desabafar, mas por favor não me desafiem mais a
paciência.
O
que terá irritado Vergílio Ferreira?
Não
sabemos.
Em
1979 passa as suas férias em Fontanelas. Na véspera do dia que adiante
abordaremos, foi à praia e não tomou banho: vento frio, mar revolto.
Mas
neste dia, encontramo-lo a filosofar.
Neste Dia, no ano de 1983, um domingo, Vergílio não o
diz, mas passa férias na sua casa de Fontanelas.
Não resisto a transcrever as palavras finais que
Vergílio Ferreira escreveu no dia de ontem:
- Não leio. É um livro mau.
- Mas toda a gente diz que é bom.
- Exactamente por isso.
Mas voltemos a 14 de Agosto de 1983 e começa por
escrever:
«Deus sive natura. Hoje
apetece-me pensá-lo. Hoje apetece-me admitir esse velho monismo espi
Vergílio Ferreira, após muitas indecisões, acabou por
nos deixar, em oito volumes, as suas notas diárias.
A Quetzal está a publicar a Obra Completa de Vergílio
Ferreira.
O 1º volume que publicou, 2010, trata-se de um Diário Inédito (1944-1949), que se
encontra fora da sua Conta-Corrente,
e, segundo o prefácio de Hélder Godinho, é um texto «datado» escrito antes da
consolidação intelectual e estética de Vergílio Ferreira.
O texto foi escrito em Melo, onde nasceu no dia 28 de
Janeiro de 1916.
Diversas conversas, muito
líquidas, com o Baptista-Bastos no «Expresso-Bar», no Largo da Trindade,
levaram-me a ter uma ideia não muito clara, boa, do autor. Uma vaga ideia,
apenas isso, de lhe ouvir falar de falta de carácter. Não se deve fazer as
coisas assim…mas foi assim que se passou…
Os livros não os lera.
Algum deus disponível nos Olimpos talvez me conceda um leve perdão.
Vergílio Ferreira sempre teve a ideia de que os seus pares dele não gostavam.
Baptista-Bastos estava à
frente desses pares.
No que, provavelmente, será o último número do JL, Vergílio Ferreira, a sua obra, é tema deste JL.
A Biblioteca da Casa
apenas possui os primeiros 4 volumes da 1ª série da Conta-Corrente de Vergílio Ferreira. Não comprei qualquer dos volumes da 2ª série.
Através do JL fiquei a saber que a Quetzal já publicou – em
2 volumes – os livros da 1ª série. O volume que incluirá os livros da 2ª série
será publicado em Novembro. Irei comprá-lo.
Mas a Lupa atreveu-se em duas entradas da pré-publicação
que o JL fez do que será o 3º volume a publicar no Outono.
Sartre Por Ele Próprio
Francis Jeanson
Tradução: Vergílio Ferreira
Colecção Escritores
de Sempre nº 2
Portugália Editora,
Lisboa, Julho de 1965
Pode talvez ser-se do mesmo Partido, mas não se entrou nele pelas
mesmas razões.
Vergílio Ferreira no 3º Volume de Conta-Corrente.
Legenda: fotografia de
Eduardo Gajeiro
Diversas
conversas, muito líquidas, com o Baptista-Bastos no «Expresso-Bar», no Largo da
Trindade, levaram-me a ter uma ideia não muito clara, boa, do autor. Uma vaga
ideia, apenas isso, de lhe ouvir falar de falta de carácter. Não se deve fazer
as coisas assim…mas foi assim que se passou…
Os
livros não os lera. Algum deus disponível nos Olimpos talvez me conceda um leve
perdão.
Vergílio
Ferreira sempre teve a ideia de que os seus pares dele não gostavam.
Baptista-Bastos está à frente desses pares.
Contudo,
o começo de Para Sempre, entrou na longa lista dos meus Começos de
Livros:
« Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta – sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás que aprender? Nada mais.»
Sempre
que os encontro, guardo os Começos de Livros de que outros autores vão falando.
Fernando Pinto do Amaral, escritor e crítico literário, tem o começo de Para Sempre do Vergílio Ferreira, como um dos seus preferidos:
"Para sempre. Aqui estou."
E
explica:
«Na sua simplicidade
soberana, estas frases (ou esta frase desdobrada em duas) resumem todo o clima
deste livro em que um homem, quase no fim da vida, regressa à casa da sua
infância e aí se confronta com a solidão, com a certeza da morte e com o seu
absurdo. Uma forma como "para sempre" mergulha-nos numa eternidade
suspensa no instante em que a frase é proferida, criando um notável efeito de
repercussão que se mantém ao longo de todo o romance.»
Este não
é o dia seguinte do dia que foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
Quando é que o 25 de Abril começou a desenhar-se?
O descontentamento entre os militares face à guerra colonial estava em
crescendo.
Pessoalamente admito que o 25 deAbril despoleta no dia em que o
Decreto-Lei nº 353/73 de 13 de Julho, que se pode ver no topo do texto, e que
se transforma em pedra de toque desestabilizadora num conflito que estava
latente entre os militares das armas de infantaria, artilharia e
cavalaria.
Mas os próprios militares determinam que o “Movimento dos Capitães”
nasceu em Évora, numa reunião alargada, no dia 9 de Setembro de 1973.
Há quem tenha a opinião que o 25 de Abril começa a 23 de
Fevereiro de 1974, quando de bota-alta-de-cavalaria e pingalim, o General
António de Spínola, com chancela da “Arcádia”, publica o livro Portugal
e o Futuro.
Alguns historiadores dizem que Marcelo Caetano acabou a leitura do
livro na madrugada do dia 21 e logo admitiu o que há muito suspeitava: o regime
estava por um fio.
Artur Portela Filho, no República de 11 de Março de
1974, terminava assim uma carta dirigida ao General Spínola: «Portugal
e o Futuro surge como “o livro esperado”.
É possível, mas por quem?
Pela nossa parte o livro a
escrever não é este – é outro.
E será uma obra
colectiva.”»
Dois dias depois do levantamento de 16 de Março de 1974, protagonizado
pelas tropas do Regimento de Infantaria 5, das Caldas da Rainha, Vergílio
Ferreira, no 1º volume do seu Conta-Corrente, escreve:
«O livro de Spínola
alastrou numa revolta militar frustrada. O livro? Há um clima deinquietação, um
cansaço do provisório em que vivemos. O difícil da questão é que solução alguma
coisa se nos impõe como boa. Há que escolher a menos má. Qual? A África é dos
pretos que “exploramos” há quinhentos anos. Exploramos? Só? Mas como aguentar o
embate da separação? O recurso seria retroactivo: termo-nos preparado para
isso. Mas Salazar, como certos bichos, o que entregou foi pedra. Dizem-me: o
Marcelo quer aguentar a guerra até estarmos preparados. Mas o desgaste não vai
mais depressa que a preparação? Tentamos acumular de um lado, enquanto gastamos
do outro Qual o saldo? Entretanto, ainda se recorre à retórica imperial. “Deus
manda combater, não vencer, diz Marcelo. Mas Deus manda o que lhe mandamos
mandar. Deus de paz, Deus carniceiro, Deus celeste ou terreno. O Deus de
Marcelo não é muito inteligente. Ou estará simplesmente enrascado, sem saber o
que fazer».
Sabe-se hoje que o livro não foi escrito por Spínola, mas por um
capitão de artilharia, que mais tarde lhe escreveria também os discursos.
O Diário de Lisboa de 19 de Janeiro de 1976 publica um
depoimento do “escritor-fantasma” que considera Spínola um “vaidoso,
demagogo e intelectualmente preguiçoso, mas com uma memória notável.”
Em 19 de Agosto de 1976 escreve Meira Burguete no Diário
Popular:
«Spínola entrou (?) numa revolução (?) que quis corrigir (?) ou
destruir (‘) uma outra revolução que não teria seguido o cariz que o Spínola
queria.».
Vicente Jorge Silva no Público de 14 de Agosto de 199:
«O Marechal Spínola ficará
para a História não por qualquer feito militar de relevo ou pela sua actividade
militar mas por ter escrito um livro. O 25 de Abril não foi obra de um livro.
Mas sem esse livro e sem a assinatura do seu autor, é provável que o
sobressalto libertador que uniu então as Forças Armadas não tivesse sido
possível.»
O Marechal Costa Gomes na entrevista recolhida para o projecto de História
Oral do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coinbra,
disse:
«O General Spínola tece sempre contradições enormes entre o que julgava intimamente poder fazer e o que fazia. Interiormente, foi sempre um ditador potencial. Não evoluiu nada desde que saiu da Escola do Exército até ser governador da Guiné.»
- Mas toda a
gente diz que é bom.
- Exactamente
por isso.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente, 4º Volume
Se todo o erro não tivesse um resíduo de verdade, não
chegaria a ser um erro para ser apenas disparate.
Vergílio Ferreira em Diário Inédito
Entre muitos outros pintores, participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.
Vergílio Ferreira no seu Diário:
«Dois amigos
pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me
de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá».
De modo que também lá estive.»
Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.
O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.
Durante o dia, o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxera.
O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras notórias da ditadura eram caricaturadas.
O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor, que fazia de Cardeal Cerejeira, proferia estas palavras:
«Senhor
Presidente da República. Senhor Presidente do Conselho. Filhas, artistas e
filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca
Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode
dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea
gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a
arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se
parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.
Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos
governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do
povo, salvo seja…»
Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:
O programa que
transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens
superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu
repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.
A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .
No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:
Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.
Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um
comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo
que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.
Fontes:
Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.
Legenda:
a) Pormenor
do mural colectivo tirado de Entre as Brumas da Memória
b) Fotografia
da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974
c) Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.
Quem
me conhece sabe de uma velha frase: «Não sou alentejano mas gostava de ser.»
No
seu Diário Inédito, Vergílio Ferreira
conta uma história sobre alentejanos.
Ele
escreveu história e não anedota, note-se.
«Évora,
10 de Abril de 1949
O
meu amigo A.M. contou-me esta história:
Um
dia, num passeio pelo campo, deserto, encontrou ele um homem sozinho, sentado
numa pedra, imóvel, como abandonado ao correr do tempo.
-
Ora boa tarde. Então que faz vossemecê por aqui?
-
Que faço… Vinha com um camarada que foi aí adiante. Disse-me que demorava pouco
e já aqui estou à espera há três dias.
O
Alentejo é assim.»
Este
Diário Inédito corresponde a uma
diarística que Vergílio Ferreira escreveu entre 1944 e 1949, e que regista a
evolução do autor como futuro escritor (estes textos quase diários começam com
a idade de 26 anos e terminam aos 32 anos, a 20 de Janeiro de 1949 revela que
concluiu o romance Mudança «não sei bem se o tema interessará mas a mim
diz-me muito, talvez por ter ainda à sua roda o calor com que o escrevi») e
que se podem considerar a base dos futuros Conta-Corrente.
São
os tempos em que anda à volta de filósofos como, entre outros) Hegel, Kirkegaard,
Gabriel Marcel, Julien Benda mas principalmente Jean-Paul Sartre.
Entrada
diarística de 21 de Março de 1944:
«Curiosa é a ignorância repousada dos nossos modernistas. Eles clamam por Sartre.Mas saberão que Sartre prega a verdade feita pelas mãos de cada um? Ou já sabem que o que vale em Sartre não e o que ele prega mas o que desgraçadamente realiza? Em todo o caso, vou rachar estes tipos qualquer dia, com um artigo.»
Hoje, a Leitura recaiu sobre o Diário de Mário Sacramento.
Como
também ando a reler o Vergílio Ferreira, lembro que o Vergílio Ferreira gostava
pessoalmente de Mário Sacramento, mesmo sabendo em que ideologia velejava. Essa
simpatia seria partilhada por Mário Sacramento. A tal ponto que Vergílio
Ferreira refere, no 1º volume da sua Conta-Corrente
que, numa visita que Mário Sacramento fez a sua casa, este lhe dissera que o
incumbia de, após a sua morte, promover a publicação do seu Diário.
Após
a leitura do Diário de Mário
Sacramento, Vergílio Ferreira escreve:
«Nada
diz sobre a sua ideologia. Os comunistas chamam-lhe seu. Mas a mim me disse ele
que não era comunista, embora tivesse colaborado intensamente com eles.»
Antes
de 25 de Abril, em conversas com Mário Castrim, fiquei sempre com a ideia que
Mário Sacramento era militante comunista.
Sem
entrar em grandes controvérsias, poderei adiantar que Mário Castrim estava em
melhor posição de saber da filiação partidária de Mário Sacramento do que
Vergílio Ferreira. Ambos nasceram em Ilhavo: Mário Sacramento no dia 7 de Julho
de 1920, Mário Castrim no dia 31 de Julho do mesmo ano e, sempre que vinha a
Lisboa, Mário Sacramento encontrava-se com Castrim na redacção do Diário de Lisboa.
Vergílio
Ferreira diz que os comunistas chamam-lhe seu, que Mário Sacramento nunca lhe
disse que era comunista.
Mário
Sacramento morreu a 27 de Março de 1969.
Três
dias depois, Mário Castrim publicou, no Diário
de Lisboa, esta belíssima crónica de homenagem ao camarada e amigo: