Bíblia: um livro religioso
inventado.
Barbara Reis
Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos da margem do rio Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a mim, que quero bem às pessoas, a mim, que amo a humanidade.
Prefiro ter à mão agulha e linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar que o intelecto tem culpa de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair antes.
Prefiro falar com os médicos de outras coisas.
Prefiro as velhas ilustrações tracejadas.
Prefiro o ridículo de escrever poesias ao ridículo de não as escrever.
Prefiro no amor os aniversários que não são redondos, para festejar todos os
dias.
Prefiro os moralistas que não me prometem nada.
Prefiro uma bondade perspicaz a uma demasiado crédula.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas dos Grimm às primeiras páginas.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com a cauda não cortada.
Prefiro os olhos claros, porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não mencionei a muitas outras também aqui não
mencionadas.
Prefiro os zeros desordenados aos alinhados numa quantia.
Prefiro o tempo dos insectos àquele sideral.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar por quanto ainda nem quando.
Prefiro tomar em consideração até a possibilidade de que o ser tenha uma
razão.
Wislawa Szymborska
Este poema foi publicada pela jornalista Bárbara Reis no Público de 12 de Setembro de 2026.
«Os
12 jornalistas que estão há seis meses a fazer a revista Visão a
partir de casa querem comprar o título, que vai ser vendido em leilão, e
precisam de 200 mil euros. Em sete dias, conseguiram 55% do objectivo.
Liguei ao Fernando Alves, rei da palavra e que no início dos anos 1980 ajudou a
fundar a TSF como cooperativa de jornalistas, e disse-lhe o nome da campanha de
angariação de fundos da Visão: MIL.
– Mil?
–
Movimento Imprensa Livre.
–
Belo nome. Eles são uns heróis. Estes 12 são mais de mil.»
Lembrando
esse trabalho dificílimo que os resistentes jornalistas da Visão estão a
realizar, para não deixarem morrer a revista, comprei-a no dia 8 de Janeiro.
Em
homenagem ao trabalho dos jornalistas, recortei o trabalho do chefe Luís de
Jesus e adianto a minha «receita», mesmo minha, para Camarões à Brás.
Ingredientes
Azeite
Cebolas
Alhos
Pimento
vermelho
Camarões
Cozidos
Farinheira
Ovos
Batatas
Queijo
picado
Coentros
Azeitonas
Refogo
em azeite cebolas , em boa quantidade, até ficarem translúcidas, juntamente com alhos picados.
Junto
pimento vermelho cortado aos bocadinhos, 1 farinheira sem pele e desfeita, as gambas , não
muito grandes, já cozidas, que se vendem em qualquer grande superfície, batatas, cortadas em palha, fritas e envolvo tudo em ovos mexidos com queijo ralado,
deixando-os cremosos, nunca secos.
Finalizo com folhas de coentros espalhadas pelo petisco e azeitonas.
Dicas:
Nunca
uso batatas fritas palha de pacote.
Não menciono quantidades, deixo o assunto à vontade do freguês.
«Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental —
uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a
dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O
absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro.
Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do
rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu
sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem
há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha
mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a
minha consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu.
Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo
partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às
nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu
sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem;
estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha
imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu
estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro"
ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles,
por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a
brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe
jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão
saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável
é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e
passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é
inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma
grande vontade de chorar.
Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no
correio, amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases
e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas isso nada roubará à
sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas noticias são estas. Há também o estado de
guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da
Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um
abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não
muito diferentes destes.
De que cor será sentir?
Milhares de abraços do seu, sempre muito seu
Fernando Pessoa
P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a,
vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes
tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes
sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com
todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são
tão características...
Você acha-me razão, não é verdade?»
1.
Cada vez mais pessoas em situação de sem-abrigo procuram as urgências hospitalares em busca de um teto, alimentação, higiene, entre as quais imigrantes e moradores que perderam a casa ou o quarto onde viviam por dificuldades financeiras.
2.
Odeiam
trabalhadores.
Greve na CP.
Tiveram todo o
tempo para resolver as justas reivindicações dos trabalhadores.
Ocuparam os seus
tempos em tratar dos assuntos dos homens do dinheiro.
Agora dizem que
os trabalhadores são uns ingratos, uns irresponsáveis por terem marcado greves
para o tempo de eleições…
Ouvir Luís
Montenegro, com o seu cínico sorriso dizer: "um dia, temos de pôr cobro a
isto!", é de de colocar um cidadão no limiar do vómito.
Ver/Ouvir aquele
ministro da tutela, Miguel Pinto Luz, completamente histérico: «Isto é política
partidária, eleitoral que o Governo fez "tudo para evitar" a
paralisação.
O pretexto para,
mais uma vez, se atacar o direito à greve é a paralisação de comboios provocada
pela adesão a uma série de paragens convocadas por 16 organizações sindicais da
CP, umas filiadas na CGTP-IN, outras na UGT, outras sem filiação em qualquer
central sindical.
3.
«É o imigrante mais antigo que recusa admitir direitos
aos novos imigrantes; é o trabalhador mal pago que acredita que os pobres que
recebem subsídios o estão a extorquir; é o branco que não aceita ver os negros
fora dos musseques; é o homem macho que não suporta que as mulheres ganhem
poder.
Em 50 anos de Democracia fizemos muito, mas muito
ficou por fazer. Faltou educar a sociedade na ideia de cooperação entre todos e
de abertura aos outros, e de uma saudável desconfiança em pregadores fáceis que
vendem ilusões com os nossos ressentimentos. Não seremos capazes de reconhecer
no que falhámos?
Pensar no que podemos e devemos fazer para contrariar esta deriva ideológica e moral em que vivemos, levar a nossa capacidade crítica ao fundo dos problemas criados, compreender que ser radical é ir à raiz dos problemas e que não o ser é colher passivamente os frutos que deixámos semear, é isto o que se pede aos responsáveis políticos. E tudo o resto será chover no molhado.»
Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias.
4.
Por fim
Alguém um dia
afirmou que um canal de televisão tanto pode vender sabonetes como presidentes.
Interessante o artigo de Bárbara Reis no Público de hoje:
«João Pinhal, da Universidade Nova de Lisboa, trouxe luz para o debate sobre
papel dos media na ascensão do Chega.
Pinhal, que tem 20 anos, contou, uma a uma, todas as entrevistas que as televisões públicas e privadas fizeram ao líder do Chega, André Ventura, e ao líder do PSD, Rui Rio ou Luís Montenegro, entre Outubro de 2019 e Junho de 2024 (este período inclui os primeiros meses de Montenegro como primeiro-ministro).
Os números dos 57 meses desde que Ventura foi eleito pela primeira vez mostram
que o líder do Chega deu 61 entrevistas e o líder do PSD deu 42. Os números
falam por si:
SIC+SIC Notícias: 15 entrevistas a
Ventura; nove ao líder do PSD.
TVI+ TVI24+CNN: 29 a Ventura; 17 ao líder do
PSD.
CMTV: 12 a Ventura; seis ao líder do PSD.
RTP e RTP3: cinco a Ventura; dez ao líder do PSD.
Estas são entrevistas a sós, em estúdio, ou com Ventura convidado para debater ou comentar algum tema da actualidade. Excluem os debates das campanhas eleitorais.A Lupa que, apanha frases, pequenas histórias, hoje estendeu-se um pouco para o além. O além é um muito interessante artigo de Bárbara Reis, publicado no Público de 10 de Maio - O Papa matemático: o que tem Deus que ver com números?
Interessantes também, alguns dos mais de 40 comentários que os
leitores quiseram deixar.
Citações de Bárbara
Reis:
«Não fiquei maravilhada, mas aviso que não vou sequer tentar explicar porque é
que, tendo o ateísmo como único pedigree, dei por mim comovida ao
ouvir em directo a frase "Habemus Papam".
Há cinco séculos que a frase é precedida por “eu vos anuncio uma grande
alegria” e o facto é que, ainda sem saber quem era o sucessor de Francisco,
fiquei alegre.
Ora, isto não faz sentido. Porque é que sinto alegria e comoção com o anúncio
de um novo Papa? Tem que ver com o ritual e tudo isso, com certeza. Talvez
também, hoje mais do que no passado, tem que ver com o legado de Francisco, que
transformou a vida de homossexuais e divorciados crentes que, com ele, passaram
a sentir que têm um lugar à mesa.»
Comentário de um leitor:
«Está enganada Bárbara Reis. A pergunta não é “o que fez o jovem padre Robert Prevost licenciar-se em Matemática?. A pergunta correcta é o que leva um jovem matemático a fazer um mestrado em Teologia e decidir ser padre?»
Um outro comentário:
«Em matéria de Deus e de religiões, prefiro ater-me à máxima do ateu e prémio Nobel da Literatura, José Saramago: Deus não existe; até porque, se existisse, seria um ser malévolo. Eu concordo: que Deus todo poderoso e amante de todos permitiria toda a miséria e sofrimento que assolam as suas criaturas?»
Houve um tempo, longo tempo mesmo, em que lia o jornal, quase sempre o Diário de Lisboa, e numa sebenta colava recortes, o jornalisticamente chamado «cola e tesoura», fazia o resumo do dia com notícias locais, nacionais e do mundo, frases e tudo o que me ocorria registar.
Um trabalho que muito me divertiu.
Quando,
para outras vidas, deixei a casa do meu pai, essas sebentas ficaram na
despensa. Passado algum tempo, um domingo em que por lá almocei, perguntei à
minha mãe onde estavam as caixas. Deitou-as fora porque pensou que eram lixo. «Mas
podia ter-me perguntado». Não lhe ocorrera…
Estou a olhar
para o Público de hoje, nº 12.740, preço: 2,10 euros, e lembrei-me de voltar ao velho exercício.
Uma 1ª página é
sempre uma 1ª página e, enfastiado, noto que o grande destaque vai para algo
que me leva a pensar que há ali publicidade paga, sem que isso esteja
mencionado. E, no entanto, há a invasão da Ucrânia, a continuação dos
genocídios em Gaza perpetrados por Israel.
Na página 2, na
habitual coluna que regista o que é «sim» e o que «não», o jornalista José J.
Mateus dirige os seus «nãos» paraNetanyahu e Meloni:
Uma frase do
actor Jeff Bridges na, pág. 3, secção «Importa-se de Repetir?»:
«Eu não acho que nós saibamos sempre quem realmente somos».
Da pág. 4 a 7
uma reportagem de Joana Gorjão Henriques:
«Nem só pessoas
de minorias se sentem ameaçadas pela Administração Trump. Três casais, uma mãe
e um académico contam porque escolheram viver em Portugal».
Nas páginas de «Opinião» o destaque vai para José Pacheco Pereira – Camilo e a ignorância agressiva:
e Bárbara Reis –Sobressalto Cívico tarda em
Chegar:
Na pág. 14 e 15
uma entrevista com o ex-deputado do PSD Fernando Negrão em que se diz que Luís
Montenegro devia ter vendido a empresa antes de assumir funções e acaba
fragilizado por tudo o que aconteceu, mas foi arrogante e quis ir a eleições.
Ana Margarida
Alves na pág. 21 lembra que, em 2023, as mulheres ganharam menos 12,5% do que os
homens.
Na página de
Desporto ainda se anda à volta com o jogo de amanhã em que Portugal, para chegar
à Final Four, terá que, face ao resultado de Copenhaga, vencer a Dinamarca por
dois golos.
Na página 47,
Pedro Guerreiro, correspondente do Público nos Estados Unidos aborda a alta
publicidade que, em plenos jardins da Casa Branca, Donald Trump, ao lado de
Elon Musk, fez dos automóveis da Tesla.
No suplemento
Fugas, que se publica aos sábados, o grande destaque vai para o caldo de
noodles, um «punk rock da cozinha japonesa» que invadiu Portugal.
«Há dez anos, os
primeiros fanáticos apresentaram o ramen aos portugueses. Hoje não faltam nas
taças fumegantes. Fomos saber o que torna um ramen perfeito: o rigor, sim, mas
também a imaginação.»
Volta a não se ler a referência: «Publicidade Paga».
Que não se perca a habitual e bem humorada crónica de vinhos de Pedro Garcias, a de hoje sobre as taxas que Trump quer impor aos vinhos europeus:
Ler também uma
reportagem que lembra 7 Razões porque vale a apena visitar a Irlanda, mesmo
a chover.
Esta é a biografia de Margarida Perdigão postada pelo Centro
Nacional de Cultura:
«Maria Madalena Bagão da Silva Biscaia de
Azeredo Perdigão licenciou-se em Matemática (1944), em Coimbra, e concluiu o
Curso Superior de Piano (1948) do Conservatório Nacional, seguindo depois
estudos de aperfeiçoamento em Paris. Na Emissora Nacional, foi responsável pelo
programa radiofónico A Música e os Seus Sortilégios.
Ingressou na Fundação Calouste Gulbenkian em 1958 e até 1974 dirigiu o seu
Serviço de Música, criando os Festivais de Música (1958-1970), a Orquestra
(1962), o Coro (1964) e o Ballet Gulbenkian (1965). Entre 1978 e 1984,
convidada pelo ministro Sottomayor Cardia, dirigiu o Gabinete Coordenador do
Ensino Artístico do Ministério da Educação para definir uma proposta de um
Plano Nacional de Educação Artística. Em 1983, organizou o I Festival
Internacional de Música de Lisboa. Em 1984, regressou à Gulbenkian, para criar
o ACARTE- Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte que
dirigiu até 1989, ao mesmo tempo que criou o CAI – Centro Artístico Infantil da
Fundação Gulbenkian, tendo concretizado três edições dos Encontros ACARTE –
Novo Teatro/Dança da Europa (1987, 1988 e 1989). Foi condecorada com a Ordem do
Infante D. Henrique e as insígnias da Ordem do Cavaleiro da Legião Francesa.
Casada com José de Azeredo Perdigão, presidente da Fundação Gulbenkian,
Madalena Azeredo Perdigão desenvolveu um diversificado trabalho em prol da
cultura portuguesa durante o Estado Novo e o período democrático.».
Hoje, relemos um artigo que Bárbara Reis
publicou no Público de 17 de Junho de 2023, em que entre outras coisas, pergunta:
«Sabia que em 1974 quiseram sanear Madalena Perdigão da Gulbenkian porque ela era “incompetente” e 2Fascista”? Se não sabia, não está sozinho.»
«Outra pergunta: pensa que os colóquios a celebrar 100 anos disto e daquilo só servem para elogiar os mortos? Se sim, está enganado.
Um exemplo: foi preciso um colóquio sobre os 100 anos do nascimento de Madalena de Azeredo Perdigão (1923-1989) para eu aprender que nos anos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), a era da pré-democracia portuguesa, ela foi insultada e chamaram-lhe tudo e mais alguma coisa.
Desconhecia a história e só sabia sobre Madalena Perdigão aquilo que sabem muitos dos que eram adolescentes nos anos 1980: que era culta, moderna, vanguardista e enérgica, que trouxe o melhor do mundo para Portugal, que acreditava na importância da educação artística e musical, que ajudou a criar a orquestra, o coro e o ballet Gulbenkian, que inventou o Jazz em Agosto e os Encontros Acarte.
Logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, houve uma “campanha de imprensa hostil” contra Madalena Perdigão, com “ataques injustos, tendenciosos e assentes em informação falsa ou parcelar”, escrevem Rui Vieira Nery e Inês Thomas Almeida em Vamos Correr Riscos. Textos escolhidos de Madalena de Azeredo Perdigão, acabado de editar pela Fundação Calouste Gulbenkian e Tinta-da-china.
Um é o Manifesto
sobre a situação da música em Portugal, publicado no Diário de Lisboa a 14
de Maio de 1974 e assinado por 50 pessoas, entre as quais Fernando Lopes Graça,
António Victorino d'Almeida, Sequeira Costa, Filipe de Sousa, Jorge Peixinho,
Manuel de Lima, Mário Vieira de Carvalho, Manuel Jorge Veloso, Francisco
D’Orey, Olga Prats, João José Cochofel, Francine Benoît, António de Oliveira e
Silva, Maria Regina de Vasconcelos, Clotilde Rosa, etc. — é assim que está
assinado.
No colóquio, José Sasportes disse que não queria “entrar numa zona infecta, em
parte estimulada pelo Partido Comunista e pelo controleiro do sector
intelectual — ‘controleiro do sector intelectual’, belo título de glória — que
me diziam ser Mário Vieira de Carvalho”.
Não queria, mas entrou. Disse que, na altura, “o Carvalho” escreveu no Diário de Lisboa “artigos em termos tão falsos e
imperdoáveis como os que se podem ler nos relatórios soviéticos para isolar
compositores como Shostakovich ou eliminar o encenador Meyerhold”.
E rematam dizendo que é urgente acabar com “o escândalo” de manter a Gulbenkian
“nas mãos de uma ‘clique’ fascista”.
António Pinto Ribeiro disse no colóquio que Madalena Perdigão foi “a mais importante programadora cultural da segunda metade do século XX”. Sabendo tudo o que sabemos dos excessos, loucuras e erros do PREC, ingenuamente pensava que Madalena Perdigão, matemática, pianista, cosmopolita e “agitadora cultural”, tinha sido poupada às injustiças primárias do PREC. Estava enganada.»
A releitura deste artigo de Bárbara Reis tem o intuito de marcar alguns dos episódios negros que o PREC trouxe, vindos de pessoas que admiramos e situávamos longe de estarem de acordo com propósitos, não só injustos, como caluniosos.
Diga-se, por fim, que o sinistro Mário Vieira de Carvalho acabou por deixar o Partido Comunista e partiu para outros ventos, outras aventuras.