Já se foram os dias de Portunaldo?
O poeta brasileiro Carlos
Drummond de Andrade, que gostava mesmo de futebol, dizia: «Bem-aventurados
os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da
tranquilidade.»
Já se foram os dias de Portunaldo?
O poeta brasileiro Carlos
Drummond de Andrade, que gostava mesmo de futebol, dizia: «Bem-aventurados
os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da
tranquilidade.»
Marcelo Rebelo de Sousa, assistiu em Lisboa,
à derrota de Portugal frente à Coreia do Sul, ficou muito desapontado, e com um
sorriso muito amarelinho, filosofou que «a vida é feita de pequenos desapontamentos».
«Antes ter sido agora do que noutra ocasião. Aprendemos as lições, aprendemos
como é possível neutralizar a nossa equipa. Os sul-coreanos lutaram mais pela
vitória, agora é aprender a lição e seguirmos em frente. A equipa de Paulo
Bento foi muito eficaz e nós fomos pouco eficazes. Passou, não teve
consequências, ficámos em primeiro, não jogamos com o Brasil, mas vale a
pena não repetir alguns aspetos para podermos ganhar o próximo jogo, porque o próximo
não é a feijões.
Temos uma equipa
muito boa, melhor do que a coreana, mas eles jogaram melhor do que nós. Não
basta ser melhor, é preciso jogar melhor e o Paulo Bento conhece bem o futebol
português e neutralizou bem o nosso futebol. O nosso futebol é lento, jogámos
lentamente, de uma forma que permitia a uma equipa muito rápida contra-ataques
perigosos»
Na China, cansados da política de restrições da covid-zero imposta pelo
Governo, o povo também saiu à rua por não querer usar máscaras, a exemplo dos
milhares nos estádios do Catar.
No Irão, a vitória da selecção sobre Gales tirou da cadeia setecentas pessoas presas em protestos contra o regime. No jogo seguinte, viu-se uma das imagens mais tocantes deste Mundial: um jogador iraniano em lágrimas confortado pelo sentido abraço dum rival americano que o vencera em campo, enquanto por trás dos biombos os respectivos gabinetes se digladiam mutuamente.
É o Mundial a viralizar nas redes. O seu impacto é tão grande que a
FIFA quer torná-lo bienal em vez de quadrienal, como agora. Se conseguirem, um
acto de cupidez banalizará o campeonato. O Mundial é um filão para a FIFA, mas
para o futebol é um concílio. Os executivos farão tudo para o espremer.
Entretanto, Portugal segue de vento em popa.»
Carlos Tê no
Jornal de Notícias
Segundo notícias reveladas pelos jornais e televisões portugueses, o embaixador de Portugal no Catar, foi chamado pelas autoridades daquele país, mais precisamente pelo vice primeiro-ministro, para ser confrontado com as recentes declarações do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do primeiro-ministro, António Costa, que consideraram «hostis».
Tanto Marcelo Rebelo
de Sousa como António Costa vincaram que o Catar é um país que não respeita os
direitos humanos, isto a propósito das deslocações de ambos para apoiar, in
loco, a Selecção portuguesa.
As notícias referem
ainda que o Catar só não tomará «medidas mais drásticas» devido à
«histórica amizade entre os dois países».
A política tem que
ser desempenhada por gente que se lava todos os dias, o que muito raramente se
pratica em Portugal.
A inteligência, e não
o oportunismo saloio, exigia, que ambos, não se deslocassem ao Catar para ver s
jogos da selecção.
Evitavam situações
dúbias, ao mesmo tempo, que provavelmente impediriam que gente esquisita, que
também deveria lavar-se todos os dias, nos enviassem bofetadas-mensagens-de-luva-branca.
Tudo isto ainda é
mais desastroso e lamentável, quando Marcelo e Costa, demais autoridades portuguesas, não têm olhado para as
violações que os direitos humanos e dos trabalhadores, sejam, de há alguns anos
a esta parte, violados e perpetrados por mafias das mais diversas
nacionalidades.
O Mundial foi atribuído ao Catar, uma monarquia arcaica e
repressiva, através de processos de alta corrupção que já deram origem a
diversos processos judiciais.
Acresce a carta que Gianni Infantino, presidente da FIFA,
enviou às selecções que estão a disputar o campeonato um comunicado, e onde se pode ler:
«Com o Campeonato do Mundo à porta e o jogo de
abertura marcado para daqui a cerca de duas semanas, a FIFA pretende que as
seleções participantes se concentrem em assuntos do futebol e não em polémicas
relacionadas com a realização da prova no Catar.
Não deixem que o futebol seja arrastado para todas as
batalhas políticas e ideológicas que existem.
Por favor, vamos agora concentrar-nos no futebol.»
Desde que o Mundial foi atribuído ao Catar, sucederam-se
as polémicas relacionadas com direitos humanos, e várias selecções como a
Dinamarca, a Austrália, a Alemanha, Os Estados Unidos, têm mostrado vontade de
ter um papel activo na luta contra a descriminação sexual e o sofrimento dos
trabalhadores migrantes que trabalharam a baixo custo na construção dos
estádios e das infraestruturas necessárias à realização do Mundial.
Como forma de protesto contra a censura da FIFA sobre a proibição da utilização de braçadeiras a favor da luta LGBTI, ontem, os jogadores alemães, taparam a boca na habitual fotografia da formação inicial. Um protesto que desafia a FIFA que, ditatorialmente teria avisado as diversas selecções que seriam severamente punidas caso infringissem as regras de moral e decência que vigoram no Catar.
Tão perto e tão longe!...
Ah!, sim… os direitos
dos trabalhadores…
Os suspeitos integram uma estrutura criminosa dedicada à exploração do
trabalho de cidadãos imigrantes, na sua maioria, aliciados nos seus países de
origem, tais como, Roménia, Moldávia, Índia, Senegal, Paquistão, Marrocos,
Argélia, entre outros, para virem trabalhar em explorações agrícolas”, refere o
comunicado. As explorações agrícolas onde estas pessoas eram alvo de exploração
situam-se em Beja, Cuba e Ferreira do Alentejo, avançou à Lusa uma fonte ligada
à investigação.»
Marcelo Rebelo de
Sousa, a caminho do 1º jogo de Portugal no Mundial da vergonha, declarou,
solenemente, a quem o quis ouvir, que, chegado ao aeroporto de Doha, desfiaria
filosofias várias, sobre direitos humanos, direitos dos trabalhadores e mais
qualquer coisa que agora não lembro…
O 25 de Abril foi no
outro século, não foi?!...
A um país que o não é, antes uma choldra,
o campeonato sujo custou 220 mil milhões de dólares e, segundo números, apenas
até 2020, do The Guardian, já tinham
morrido no Catar 6.500 trabalhadores.
Na longa conversa que manteve com João Céu e Silva,
lamentava o espectáculo de os portugueses, por ocasião do Euro 2004, seguindo
uma ideia provinciano-disparatada de Scolari, terem colocado bandeiras
nacionais nas janelas e engalanado as ruas – e o patriotismo do portuguesinho
não é assim tanto.
«Era profundamente ridículo essa quantidade de bandeiras. É aquilo a que eu chamo fogos de palha, que ardem com muita violência, queimam-se, esgotam-se e reduzem-se a cinzas em pouco.»
Já no seu livro Intermitências
da Morte, ridicularizara o facto.
Lembremos as palavras de Saramago:
«Um dia, uma senhora em estado de viúva recente, não encontrando outra maneira de manifestar a nova felicidade que lhe inundava o ser, e se bem que com a ligeira dor de saber que, não morrendo ela, nunca mais voltaria a ver o pranteado defunto, lembrou-se de pendurar para a rua, na sacada florida da sua casa de jantar, a bandeira nacional. Foi o que se costuma chamar meu dito, meu feito. Em menos de quarenta e oito horas o embandeiramento alastrou a todo o país, as cores e os símbolos da bandeira tomaram conta da paisagem, com maior visibilidade nas cidades pela evidente razão de 3estarem mais beneficiadas de varandas e janelas que o campo. Era impossível resistir a um tal fervor patriótico, sobretudo porque, vindas não se sabia donde, haviam começado a difundir-se certas declarações inquietantes, para não dizer francamente ameaçadoras, como fosse, por exemplo, Quem não puser a imortal bandeira da pátria à janela da sal casa, não merece estar vivo, Aqueles que não andam com a bandeira nacional bem à vista é porque se venderam à morte, Junte-se a nós, seja patriota, compre uma bandeira, Compre outra, Compre mais outra, Abaixo os inimigos da vida, o que lhes vale a eles é já não haver morte. As ruas eram um autêntico arraial de insígnias desfraldadas, batidas pelo vento, se este soprava, ou, quando não, um ventilador eléctrico colocado a jeito fazia-lhe as vezes, e se a potência do aparelho não era bastante para que o estandarte virilmente drapejasse, obrigando-o a dar aqueles estalos de chicote que tanto exaltam os espíritos marciais, ao menos fazia com que ondulassem honrosamente as cores da pátria. Alguma raras pessoas, à boca pequena, murmuravam que aquilo era um exagero, um despropósito, que mais tarde ou mis cedo não haveria outro remédio que retirar aquele bandeiral todo, e quanto mais cedo melhor o fizermos, melhor, porque da mesma maneira que demasiado açúcar no pudim dá cabo do paladar e prejudica o processo digestivo, também o normal e mais do que respeito pelos emblemas patrióticos acabará por converter-se em chacota se permitirmos que descambe em autênticos atentados contra o pudor, como os exibicionistas de gabardina de execrada memória. Além disso, diziam, as bandeiras estão aí para celebrar o facto de que a morte deixou de matar, então de duas uma, os as retiramos antes de que com a fartura comecemos a embirrar com os símbolos da pátria, ou vamos levar o resto da vida, isto é, a eternidade, sim, dizemos bem, a eternidade, a mudá-los de cada vez que os apodreça a chuva, que o vento os esfarrape ou que o sol lhes coma o colorido. Eram pouquíssimas as pessoas que tinham a coragem de pôr assim, publicamente, o dedo na ferida, e um pobre homem houve que teve de pagar a antipatriótico desabafo com uma tareia que, se não lhe acabou ali mesmo com a triste vida, foi só porque a morte havia deixado de operar neste país desde o princípio do ano.
José Saramago em
As Intermitências da Morte, página 26.
Que sabemos nós do trabalho escravo migrante que se pratica
em Portugal?
Os diversos trabalhos agrícolas, apanha do tomate, dos
morangos, da azeitona, de quase tudo, empregam trabalhadores «pago»s
miseravelmente, «vivendo» em habitações sem o mínimo de condições de habitualidade,
explorados por máfias nacionais e internacionais.
Que sabemos dos quase três mil timorenses, chegados a
Portugal nos últimos meses, que pagaram a mafiosos para virem trabalhar e nem trabalho
nem réstea de uma mínima esperança em dias melhores e, agora arrastam-se, dia e noite, pelo Rossio, pelo Martim Moiniz?
Sim, preocupamo-nos com a exploração dos trabalhadores migrantes
no Catar, mas que sabemos realmente do que se passa aqui, mesmo ao nosso lado?
Como disse Marcelo: «… mas, enfim, esqueçamos isso…», nada que um golo do Ronaldo não faça olvidar, ainda mais, toda esta miséria!
Esqueçamos lá essa treta de ter os pés assentes no chão!...
«O Catar não respeita os direitos humanos. Toda a construção dos estádios e tal..., mas, enfim, esqueçamos isto. É criticável, mas concentremo-nos na equipa.»
Marcelo Rebelo de Sousa, ontem, no final do jogo Portugal-Nigéria.
Tudo aponta que
Portugal vença a modesta Macedónia do Norte, mas não gostaria de ver Portugal naquele Campeonato do Mundo no Catar, gostaria mesmo que esse
campeonato não acontecesse.
Aquele campeonato só
acontece porque os trogloditas árabes encheram a FIFA e a UEFA & Cª Lda, de
toneladas e toneladas de dólares.
Nunca houve uma
investigação rigorosa ao modo como um Campeonato do Mundo aparece plantado no Catar.
No decorrer da
construção dos estádios, das estradas, dos hotéis e sabe-se lá mais o quê, já
morreram perto de 7.500 trabalhadores migrantes que ali chegaram provenientes
dos países pobres da Ásia e de África. e que estão a trabalhar em condições de
segurança e higiene verdadeiramente deploráveis um atentado aos direitos humanos.
Se os jogadores de
futebol, os treinadores, pensassem em algo mais que o dinheiro, deveriam
juntar-se, e numa forte manifestação, de recusa em estarem presentes naqueles
estádios de autêntica vergonha.