Mostrar mensagens com a etiqueta Amadora. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amadora. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de fevereiro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

UMA TARDE NA CAVE DO BUAL

Foi por finais de 1966, que, pela vez primeira, fui até à Amadora. Deixava-se a estação do comboio e em tudo à volta, só se viam quintas e mais quintas, e hoje deparamos com aquele triste e horrível mundo de cimento e mais cimento.

Os pais do Armindo tinham um pequeno tasco no nº 299 da Avenida Elias Garcia.

Aos almoços frequentado por operários, aos jantares por gente idosa com estatuto de comensais, tudo numa atmosfera a lembrar os romances do José Rodrigues Migueis. Foi nesse tasco que, por uma noite de ingénuas conspirações para derrubar o regime, comi a mais saborosa e suculenta mão de vaca de jardineira que em minha vida inteira ao dente me chegou. Tudo num sossego, um devagar nos tempos, rematado com um café de saco, um bagacinho caseiro, uma cigarrilha Alto.

As conversas com o Armindo eram abrangentes e, amiúde, pelo meio improvisava poemas, conversas soltas, algumas intermináveis, como uma sobre o “Herzog” do Saul Bellow, que nunca se concluiu porque, de repente, me apanhei na recruta em Tavira e nesse lapso o Armindo, para fugir à guerra colonial, deu o salto para França. Apenas um postal ilustrado de Grenoble a dizer que chegara, e depois não mais notícias do Armindo, nem do Zé Ferraz que com ele seguira viagem. Ficou o som das conversas, imagens outras, aquele vocativo que os homens dão ao que não conhecem. Também um abraço constante, nas grandes distâncias e no breve tempo.

Mais ou menos por esses tempos também frequentei a cave-estúdio-casa do pintor Artur Bual.

Uma vez, mais o Helder e o poeta e pintor Hugo Beja chegámos pelas duas da tarde e acabámos por perder o último comboio para Lisboa. Quem desfez o galho onde nos enfiámos foi o poeta~pânico Karlos Faria, que foi ter connosco à estação da Amadora onde, sentados, aguardávamos a passagem do primeiro comboio para Lisboa. Cada um dos três com um quadro que o Bual insistira que trouxéssemos.

O meu ainda hoje é presença marcante nas paredes aqui da casa.

Ao lado da cave do Bual, numa rua vulgar da Amadora, havia um tasco onde por diversas vezes o palhinhas foi-se enchendo de tintol. Cada um a pagar o seu, o do Bual foi para o rol.

O Artur Bual morreu em 11 de Janeiro de 1999. Tinha 72 anos.

Autodidacta, gostava de dizer que nunca se preocupara em aprender.

 Preocupavam-no sim, um bom bacalhau assado, um rosto de mulher, os jogos do Benfica que ouvia numa telefonia. Chamaram-lhe pintor maldito, tal como ao Luiz Pacheco chamaram escritor maldito. Não gostava de críticos e borrifava-se no que diziam. As exposições passavam-lhe ao lado.

O impulso é que é o grande estado de beleza da interioridade.

Naquela enorme tarde-noite de um Maio de 1967 não conseguimos que o Bual nos desse uma resposta sobre a sua obra. Uma apenas.

- Eh pá, não me chateiem a tola!

O Helder, on road para o excelente repórter que haveria de ser em A Capital, onde fez de tudo, até crítico gastronómico sob roupagem de Dom Pipas, cheio de ingenuidade, dizia-lhe que era uma pena ele andar a esbanjar tanto talento e o Bual, pegando no copo de tinto, a lançar-lhe um

- E se fosses chatear o c…!

Acabou por sair uma reportagem-entrevista completamente chalada, publicada no Diário de Lisboa, mais de metade cortada pela censura, e que está para aí  perdida nas caixas que hei-de um dia abrir, amanhã é que vai ser, e será o dia de são nunca à tarde, um qualquer 30 de Fevereiro.

Eu já devia ter avisado que sou um dispersivo, perguntam-me as horas começo por dizer como se fabricam os relógios na Suiça. Vim aqui para colocar um poema do Armindo Miranda sobre a velha Amadora e meti-me por becos e atalhos. e já não atino com o fim à meada. Como o paleio se foi estendendo,  o poema vai em post à parte, um golpe de asa, um terno, ao mesmo tempo cínico, pequeno retrato de uma Amadora onde um apartamento custava cento e trinta e cinco contos, “pois, pois, J. Pimenta!”, como dizia o anúncio dos Parodiantes de Lisboa.

Texto publicado em 18 de Fevereiro de 2011

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O PIOLHO DA AMADORA


Também a Amadora tinha o seu Piolho, em contraponto ao então moderno Cine-Teatro Lido, de que falarei depois. o Piolho da Amadora era imponente, a fazer lembrar um velho Nobre falido, mas com porte. O seu nome verdadeiro era “Recreios Desportivos da Amadora”, sala do início do Séc. XX, que como disse antes, teria testemunhado espectáculos dos melhores artistas de então. A modernidade transformou a outrora sala de teatro e ópera, num cinema, mas manteve o seu interior inalterável. Lembro-me de uma sala. Já um pouco degradada, mas que mantinha o seu balcão, plateia, e ainda os camarotes e frisas, onde de quando em vez o pessoal ia, juntando-se em grupos de 5 e colocando um ar de circunstância, lá iam 5 putos para um camarote, sentados em cadeiras velhas, mas sentindo-se os Reis da Malta. Foi o primeiro cinema onde me lembro de ter ido sem a companhia da minha Mãe, com quem me habituei a gostar da 7ª Arte, é verdade que ela sempre gostou mais daquelas coisas esquisitas da “Sissi Jovem Imperatriz”, mas levava-me a ver tudo o que era filmes da Disney, especialmente ao “Condes”. Lembro-me que era um acontecimento, não se ia ao Cinema assim de qualquer forma, punhamos a roupa melhor, e lá íamos, com sorte ainda se comia um pacote de bolachas de baunilha ou um nogat. Mas a fase do Piolho foi para ver outros filmes, sendo um cinema de reposições, os primeiro filmes de que tenho memória de lá ir ver foram os do Cantiflas, as coboiadas do Trinitá, que eram, usando uma expressão do meu Pai, de “Porrada de criar bixo”. Lembro-me também de ver os “Herbies” da Carocha dos Diabos. E muitos mais ao longo dos anos, mesmo quando num último assomo de modernidade, o Piolho foi remodelado e rebaptizado de “Cine Plaza”, passando então a apresentar extreias. Um dos grandes momentos de que me recordo, foi no filme “Fuga para a Vitória” o pessoal todo da assistência a gritar “GOLO”, de cada vez que a equipa dos prisioneiros marcava, naquele espectáculo de Pelé e Ardilles. E o momento em que ainda com 10 anos conseguia entrar num filme para maiores de 12, fazendo um ar de mais velho ao estender o bilhete para o porteiro, no tempo em que eles ainda controlavam essas coisas. E depois assistir ao “Documentário”, normalmente sobre a fauna Africana e comentado com sotaque brasileiro, depois aos “Desenhos Animados”, e finalmente ao grande filme. Era mesmo um acontecimento ir ao Cinema, não sou um cinéfilo, mas sempre gostei muito de “Ir ao cinema” ! Obrigado Piolho.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

AMADORA 67


Por cento e trinta e cinco contos apenas
viva masi longe sem o saber
com rendimento assegurado
e um provincianismo convicto e suburbano
das profissões liberais
e outras que tais.
Por cento e trinta e cinco contos apenas
tenha uma neurose suburbana
com rendimento asseguarado
cheia de sol e de moscas

A vila tem
construtores civis
e outros à paisana
que fazem prédios
e filhos
suburbanos
que ouvem o programa da moda
e têm poses de filme da televisão
e têm um carro que ronca
(por causa do quinto ano)
Com risquinhos atrás e um trevo
(por causa das meninas extrospectivas
E suburbanas)

Ao domingo toma-se banho
e o relato à tarde pelo transistor
vêm os parentes de Lisboa
comem-se bolos com creme no café
dão-se estalinhos com a língua para esmoer a desgraça
tomar um galão é o que fica bem às senhoras
os cavalheiros é imperial e tremoços
há muitas alegrias de retrosaria e fanqueiro
e um Cadillac a gasóleo por causa das empreitadas

Por não poder estar à testa
Mãe extremosa trespassa
Saudade de fadista doentinho
Que chumbou a duas no sétimo
Se o comprador provar ser evoluído
Terá como brinde a voz ambígua
Última oportunidade de realizar o seu sonho por pouco dinheiro

Porque o comboio circula com atraso
grandes descontos na assinatura
agora a primeira calasse ao alcance do seu pé de meia

Porque o comboio circula com atraso
desfrute de um neo-sebastianismo
justamente concebido para o seu tamanho

Vá de comboio para o seu ninho
suburbano.

Armindo Miranda

UMA TARDE NA CAVE DO ARTUR BUAL


Foi por finais de 1966 que, pela vez primeira, fui até à Amadora. Deixava-se a estação do comboio e em tudo à volta, só se viam quintas e mais quintas, e hoje deparamos com aquele triste e horrível mundo de cimento e mais cimento.

Os pais do Armindo tinham um pequeno tasco no nº 299 da Avenida Elias Garcia.
Aos almoços frequentado por operários, aos jantares por gente idosa com estatuto de comensais, tudo numa atmosfera a lembrar os romances do José Rodrigues Migueis. Foi nesse tasco que, por uma noite de ingénuas conspirações para derrubar o regime, comi a mais saborosa e suculenta mão de vaca de jardineira que em minha vida inteira ao dente me chegou. Tudo num sossego, um devagar nos tempos, rematado com um café de saco, um bagacinho caseiro, uma cigarrilha “Alto”.

As conversas com o Armindo eram abrangentes e, amiúde, pelo meio improvisava poemas, conversas soltas, algumas intermináveis, como uma sobre o “Herzog” do Saul Bellow, que nunca se concluiu porque, de repente, me apanhei na recruta em Tavira e nesse lapso o Armindo, para fugir à guerra colonial, deu o salto para França. Apenas um postal ilustrado de Grenoble a dizer que chegara, e depois não mais notícias do Armindo, nem do Zé Ferraz que com ele seguira viagem. Ficou o som das conversas, imagens outras, aquele vocativo que os homens dão ao que não conhecem. Também um abraço constante, nas grandes distâncias e no breve tempo.

Mais ou menos por esses tempos também frequentei a cave-estudio-casa do pintor Artur Bual.
Uma vez, mais o Helder e o poeta e pintor Hugo Beja chegámos pelas duas da tarde e acabámos por perder o último comboio para Lisboa. Quem desfez o galho onde nos enfiámos foi o poeta~pânico Karlos Faria, que foi ter connosco à estação da Amadora onde , sentados, aguardávamos a passagem do primeiro comboio para Lisboa. Cada um dos três com um quadro que o Bual insistira que trouxéssemos. O meu ainda hoje é presença marcante nas paredes aqui da casa.

Ao lado da cave do Bual, numa rua vulgar da Amadora, havia um tasco onde por diversas vezes o palhinhas foi-se enchendo de tintol. Cada um a pagar o seu, o do Bual foi para o rol.
O Artur Bual morreu em 11 de Janeiro de 1999. Tinha 72 anos.

Autodidacta, gostava de dizer que nunca se preocupara em aprender. Preocupavam-no sim, um bom bacalhau assado, um rosto de mulher, os jogos do Benfica que ouvia numa telefonia. Chamaram-lhe pintor maldito, tal como ao Luiz Pacheco chamaram escritor maldito. Não gostava de críticos e borrifava-se no que diziam. As exposições passavam-lhe ao lado.

“O impulso é que é o grande estado de beleza da interioridade”

Naquela enorme tarde-noite de um Maio de 1967 não conseguimos que o Bual nos desse uma resposta sobre a sua obra. Uma apenas.

- Eh pá não me chateiem a tola!

O Helder, on road para o excelente repórter que haveria de ser em “A Capital”, onde fez de tudo, até crítico gastronómico sob roupagem de Dom Pipas, cheio de ingenuidade, dizia-lhe que era uma pena ele andar a esbanjar tanto talento e o Bual, pegando no copo de tinto, a lançar-lhe um

- E se fosses chatear o c…!

Acabou por sair uma reportagem-entrevista completamente chalada, publicada no “Diário de Lisboa”, mais de metade cortada pela censura, e que está para aí  perdida nas caixas que hei-de um dia abrir, amanhã é que vai ser, e será o dia de são nunca à tarde, um qualquer 30 de Fevereiro.

Eu já devia ter avisado que sou um dispersivo, perguntam-me as horas começo por dizer como se fabricam os relógios na Suiça. Vim aqui para colocar um poema do Armindo Miranda sobre a velha Amadora e meti-me por becos e atalhos. e já não atino com o fim a meada meada. Como o paleio se foi estendendo,  o poema vai em post à parte, um golpe de asa, um terno, ao mesmo tempo cínico, pequeno retrato de uma Amadora onde um apartamento custava cento e trinta e cinco contos, “pois, pois, J. Pimenta!”, como dizia o anúncio dos “Parodiantes de Lisboa”.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A MINHA AMADORA

Apesar de ter nascido em Lisboa, vivi na Amadora a maior parte da minha vida, passei lá a minha infância, lá me tornei adolescente de lá saí para a tropa, para me fazer homem como então se dizia, e lá ficaram as minhas memórias. Aquilo que nós somos, a nossa personalidade convicções e modo de estar perante a vida, é uma soma das vivências que temos, do meio onde crescemos, das várias influências que vamos sofrendo. Eu sou claramente um Amadorense de gema, com bastante orgulho nisso, tenho orgulho da Amadora onde vivi, que já só existe na memória de quem lá viveu, mas no fundo também todos nós somos uma espécie de iceberg, onde o presente é o que está visível, e as memórias são a grande parte que está submersa, mas sem elas o presente não faria sentido, tal como sem a parte submersa o pico do icebergue afundaria.
Vem isto a propósito da minha Amadora natal, uma terra vulgarmente desconsiderada, associada negativamente à sua anterior denominação de “Porcalhota”, designação que ao que parece até teve origem no nome do antigo nobre que ocupou as terras onde hoje é a Falagueira. Desde o início do séc.. XX que a Amadora tem a designação actual, como se tornou destino de férias das famílias abastadas de Lisboa, e onde algumas até se começaram a estabelecer e a aparecerem os primeiros negócios e indústrias, clip_image004moveram influências para alterarem o nome da terra, que era motivo de alguma chacota. E a Amadora era na época uma terra de burgueses e intelectuais, tendo, a par da sua lenta alteração de zona marcadamente rural para uma actividade industrial, desenvolvido uma actividade sócio-cultural ímpar. Foi construída uma sala de espectáculos, que mais tarde deu origem a um cinema de que falarei em próxima oportunidade, mas esta sala, impulsionada pelo grande industrial da época Santos Mattos, apresentou espectáculos com as maiores celebridades europeias da época, tanto a nível de Teatro como de Óperaclip_image006. Foi na Amadora, segundo reza a História, que surgiu o primeiro aeródromo de Portugal, e onde esteve instalado primeiro grupo de esquadrilhas aéreas, e onde se iniciaram algumas das mais importantes travessias transatlânticas. Foi também na Amadora, associada ao já referido Recreios da Amador, que clip_image008surge o primeiro rinque destinado à prática de Hóquei em Patins, construído em Portugal Continental, pois já existia um em Lourenço Marques. E foi esta Amadora que cresceu e deu origem ao grande pólo industrial em que se tornou em meados do séc.. XX, fazendo parte da outrora famosa Cintura Industrial de Lisboa, e que atraiu milhares de operários vindos do interior, especialmente do Alentejo, dando origem a uma explosão demográfica. Esta alteração da classe de habitantes da então vila da Amadora, transformou também a sua personalidade colectiva, dando a burguesia intelectual lugar ao operário, tendo sido durante décadas palco de lutas políticas, sendo uma zona de grande implantação dos ideais de esquerda, e onde o PCP teve grande implantação, antes do 25 de Abril de 1974 por ser o único que afrontava o regime no interior de Portugal, e mesmo depois da revolução, onde o chamado Município de Abril, por ter sido o primeiro Concelho criado após 1974, foi claramente uma terra de Esquerda, tendo este domínio da esquerda na condução dos seus destinos terminado apenas em 1997. As minhas memórias remontam ao início da década de 70 do século passado. E é dessas que falarei em próximas ocasiões.