segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Um dia de Julho de 1968, José Cardoso Pires numa entrevista, a Mário Ventura, disse:

«Sou um escritor que pensa muito com o aparo.»

Exactamente 18 títulos em 50 anos!

Em Lavagante, José Cardoso Pires aborda o ambiente opressivo de Portugal no início dos anos 60, marcado pela censura e a acção policial. A história, que se desenrola num contexto de perseguições e prisões políticas, acompanha o romance entre um médico oposicionista e uma jovem estudante, destacando a influência da repressão na vida privada e nos relacionamentos pessoais. O livro utiliza a imagem do lavagante — um crustáceo — para ilustrar a natureza primitiva e a falta de refinamento do país.

Uma pré-publicação começou por ser publicada na revista O Tempo e o Modo, nº 11 do ano de 1963, como excerto de um futuro livro de Cardoso Pires, o que não veio a acontecer.

Mais tarde, Nelson de Matos, em Fevereiro de 2008, nos 10 anos da morte de José Cardoso Pires publicou o livro na sua nova editora - Edições Nelson de Matos, teve sete edições.

Em Setembro de 2025 a Relógio d’Água, que está a publicar a obra completa de José Cardoso Pires, publicou Lavagante

O livro, provavelmente, estará datado, nunca teve revisão de Cardoso Pires, mas está lá  o timbre da prosa que sempre o caracterizou.

Páginas a reter, principalmente no Capítulo XI, uma Lisboa a viver na dita «primavera marcelista», após um 1º de Maio em que a polícia de choque exerceu a costumada violência, perseguindo barbaramente os manifestantes:

«No dia 2 de Maio, quarta-feira, e para ser mais exacto, num fim de tarde, Cecília saiu do metropolitano nos Restauradores e dirigiu-se a certo snack-bar da rua da Prata.

De pois meses e meses de chuva cerrada, a Primavera, com uma persistência vegetal, secreta, conseguia vencer o manto húmido que pesava sobra a cidade. Nas últimas semana, o ar estava ligeiro, aliviado, e era Primavera, finalmente a Primavera, tal como costumava chegar a Lisboa depois de muitas hesitações e de muito trabalho para vencer as nuvens da costa.

As pessoas mal dão por isso. Um belo dia sentem a necessidade de olhar o céu, vêem azul, um azul fino, alegre, e dizem: “ Já sei.”. Depois descobrem as pombas do Rossio e as colinas pousadas diante do rio, cobertas de uma luz macia, feminina; descobrem uma nova expressão no andar das mulheres e um novo perfume – nelas e na cidade. E todos regressam mais tarde aos autocarros e a casa. É isso a Primavera: um novo sentido no olhar, uma nova velocidade. “Já sei”, dizem as pessoas.»

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