quarta-feira, 9 de setembro de 2026

HERBERTIANAS

A história já aqui foi contada, mas a ela voltamos porque, muito naturalmente, é abordada na Biografia de Herberto Helder escrita por João Pedro George.

 Existe o livro, editado pelo Expresso em que são referidos os Prémio Pessoa desde 1987 a 2007.

No ano de 1994 o júri atribuiu o prémio a Herberto Helder.

«O grande interesse nesta publicação, que reúne fotos e entrevistas com os galardoados de uma década, reside no facto de testemunhar, num registo verdadeiramente patético, o embaraço dalguns membros do júri mais audazes quando, rumo a Cascais em demanda do nosso maior poeta vivo, Herberto Helder, portadores do “ouro” do Prémio Pessoa 1994, encontraram o caminho de volta na simplicidade inflexível da palavra de um pobre guardador do seu crisol: «Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...»

Era uma pipa de massa para quem tinha, por escassez de dinheiros, uma vida muito, mesmo muito difícil.

Mas Herberto Helder recusou a distinção.

António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso, tentaram demovê-lo.

Conta o António Alçada Baptista:

«O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério:

 - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Sobre o episódio do Prémio Pessoa, João Pedro Jorge coloca a viúva de Herberto, Olga Lima, a contar a cena:

«Fiquei cheia de raiva porque estávamos tesos, “Herberto, mas não temos dinheiro e estás armado em vivaço!?” Aquilo não tinha jeito nenhum, O Herberto queria era que o deixassem em sossego. Agora, os valores dos outros prémios que ele tinha recusado eram irrisórios, mas dizer que não a sete mil contos, hoje cerca de 35 mil euros? Nessa altura o Herberto disse-me: “Sei que querias, uma vida mais descansada mas, desculpa lá, eu prémios não aceito. Se querias mais convívio ou mais dinheiro, casaste com o homem errado.»

A recusa do prémio causou um circo de prosas e opiniões, algumas tocando o ridículo.

Mas João Pedro George lembra:

«Luiz Pacheco, que não se levava muito a sério, nem ele nem a estes foguetórios da cultura, adiantou uma explicação alternativa, talvez plausível: «Ele sempre disse que nunca receberia prémios, deram-lhe um balúrdio de um prémio, era dele, ninguém lhe podia levar a mal mas ele disse logo: “Não quero!”. Há uma hipótese sacana: não havia dinheiro para o prémio, então deram-no a um gajo que já sabiam que não recebia.»  

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