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domingo, 7 de dezembro de 2025

quinta-feira, 10 de julho de 2025

GOSTOS


Gosto de estações de comboios, gosto de aeroportos, gostos de portos, o perfume das ruas, as palavras segredadas, a aventura necessária, o amor como um grande rio de margens verdes.

Paul Auster

Legenda: fotografia Shorpy

sexta-feira, 7 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO


A literatura é essencialmente solidão. Escreve-se em solidão, lê-se em solidão e, apesar de tudo, o acto de leitura permite uma comunicação entre dois seres humanos.

Paul Auster

domingo, 18 de agosto de 2024

CANÇÔES DE ENTARDECERES


 Esperar o crepúsculo nestas janelas.

Não todos os dias, mas quando possível.

E o possível é quando? Já agora, o impossível também entra?

Certamente haverá quem não compreenda que dois tipos, um no 2º andar, o outro no 4º andar olhem os pôr-de-sol.

Os entardeceres batem à porta em cada dia.

Para onde vão quando os últimos lampejos ficam, por momentos, agarrados no horizonte?

«Na cidade quem olha par o céu?», perguntou um dia o poeta Carlos Queiroz.

Tratado de filosofia à vista!...

Acabamos, mais cedo ou mais tarde, por acreditar no silêncio.

No filme «Smoke» de Wayne Wang, com argumento de Paul Auster,  Auggie, dono de uma tabacaria em Brooklyn, explica a Paul, cliente, escritor e fumador de «Schimmelpennincks», que todos os dias, tira fotografias na esquina da Rua Três com a Sétima Avenida, às oito da manhã.

«Quatro mil dias seguidos com todos os tipos de tempo. É por isso que nunca passo férias. Tenho de estar no meu posto todas as manhãs. Todas as manhãs no mesmo sítio à mesma hora. É o meu projecto. Aquilo que se poderia chamar a obra da minha vida.

São todas a mesma coisa. Tem aí manhãs brilhantes de sol e manhãs sombrias. Tem aí a luz do Verão e a luz do Outono. Tem aí os dias de trabalho e os fins-semana. Tem aí pessoas de sobretudo e galochas e as pessoas de cações e T-shirts. Às vezes são as mesmas pessoas, às vezes são outras. E às vezes as outras tornam-se as mesmas e as mesmas desaparecem. A Terra gira à volta do Sol e todos os dias a luz do Sol incide na Terra com ângulos diferentes.»

Auggie, quase, quase, no final do filme ainda a filosofar com Paul:

«Merda. Se não podemos partilhar os nossos segredos com os amigos, que raio de amigo seríamos.»

A conversa vai longa, chegado é o tempo de pôr a rodar uma canção que, por não mera coincidência, faz parte da banda sonora de »Smoke» e é cantada pelo Senhor Tom Waits: «Innocent When You Dream»

Somos inocentes, enquanto sonhamos?

Ou voltar ao principio do filme quando Dennis, um outro cliente da loja de Auggie, aparece com uma T-shirt com estas palavras estampadas:

 «Se a vida é um sonho, o que é que se passa quando acordo?»


domingo, 16 de junho de 2024

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Euro 2024


Quando eu era pequeno e jogava  futebol de manhã à noite, havia uma espécie de jogador odiado por todos: era o dono da bola. O dono da bola era o mais rico de todos mas, invariavelmente, dos que pior jogavam. E, assim, volta e meia, para se vingar da sua falta de jeito, o dono da bola agarrava nela, ia-se embora e acabava o jogo. Ele era o dono da bola e, por, isso, tinha o privilégio de nos poder roubar a a bola e acabar com o jogo. Assim se compensava da sua impotência.

Autor desconhecido

1.

Cerca de 5 mil profissionais do Serviço Nacional de Saúde deverão aposentar-se este ano, estima a direcção executiva do SNS.

 2.

Paul Auster

Criou um estilo, foi uma estrela e retirou-se quase em silêncio, escreveu o Público na sua 1ª página.

Também no Público, mas a 5 de Maio, Rogério Casanova:
«A morte de Paul Auster teve direito a chamada de capa nos quatro principais jornais diários nacionais, incluindo o Correio da Manhã, apesar de o autor norte-americano ter falecido após doença prolongada na sua casa em Brooklyn e não atropelado por um tractor em Penalva do Castelo.
O fenómeno não é inédito, mas é suficientemente raro (e normalmente reservado para Saramagos ou Garcias Márquez) para tornar insatisfatórias as respostas mais comuns à pergunta: “Porque é que isto é capa de jornal?” (Dia calmo? Voto evangélico? Neoliberalismo?)


3.

Vinte anos depois do Euro 2004, as câmaras que investiram na construção e na requalificação de estádios ainda devem 22 milhões de euros de empréstimos e sentenças judiciais, avança, o Jornal de Notícias. O município de Leiria tem a maior fatia em dívida (10,9 milhões), seguindo-se Coimbra com seis milhões e Braga com cinco milhões de euros ainda por saldar. Neste momento, as câmaras procuram aliar a atividade desportiva à sustentabilidade financeira, com o arrendamento de espaços a empresas e a instituições públicas a ajudar a rentabilizar, mas as situações não são todas iguais.

4.

A segurança social tem 50 inspectores para fiscalizar 2606 lares de idosos registados, e existem para realizar as inspecções 22 viaturas, das quais 17 têm uma média de 24 anos de utilização e nunca estão todas operacionais.

5.

O número de pessoas em casas sobrelotadas aumentou quase 40% em 2023, o maior salto em 20 anos;  a renda mediana das casas fixou-se em 7,71 euros por metro quadrado no último trimestre de 2023, mais 11,6% que no mesmo período de 2022; infiltrações de água, humidade e mau isolamento térmico são problemas que afectam cerca de 30% das casas dos portugueses. 

6.

«O 25 de Abril não é hoje o que sonhávamos? Sem dúvida, mas só as utopias nunca concretizadas é que não nos desiludem, e o que temos é demasiado precioso para não o celebrarmos e, sobretudo, para o defendermos…»

Esther Mucznik

sexta-feira, 24 de maio de 2024

EM MEMÓRIA DE MIM MESMO

Tão-somente ter cessado.

 

Como se eu pudesse começar

onde cessou a minha voz, eu mesmo

o som de uma palavra

 

que não consigo articular.

 

Tanto silêncio

para trazer à vida

nesta carne apreensiva, o ribombar

do tambor das palavras

na interioridade, tantas palavras

 

perdidas na amplitude do meu mundo

interior, e assim ter sabido

que apesar de mim

 

eu estou aqui.

 

Como se fosse isto o mundo.


Paul Auster, copiado daqui.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

FANTASMAS NATALÍCIOS


Passei os dias seguintes completamente desesperado, guerreando com os fantasmas de Dickens, O. Henry e outros mestres do espírito natalício. A própria expressão «contos de Natal» tinha conotações desagradáveis para mim, evocando horrorosas efusões de pieguice e melaço. Mesmo no seu melhor, os contos de Natal não passavam de sonhos de desejos realizados, de contos de fadas para adultos, e diabos me levassem se alguma vez me iria rebaixar a escrever uma coisa dessas. No entanto, como é que alguém podia propor-se escrever um conto de Natal que não fosse sentimental? Era uma contradição nos termos, uma impossibilidade, um quebra-cabeças sem saída. Era a mesma coisa que tentar imaginar um cavalo de corrida sem pernas, ou um pássaro sem asas.

Paul Auster, do Conto de Natal de Auggie Wren, em Smoke.

Legenda: imagem Shorpy

sexta-feira, 26 de junho de 2020

UMA FENOMENOLOGIA DA RESPIRAÇÃO


Fala agora, antes que seja tarde, e depois espera continuar a falar até que não haja mais nada para dizer. Afinal de contas, o tempo está-se a esgotar. Talvez não seja pior pores de lado por agora as tuas histórias e tentares passar em revista o que foi para ti viver dentro deste corpo desde o primeiro dia de que tens memória de estar vivo até ao dia de hoje. Um catálogo de dados sensoriais. Aquilo a que se poderia chamar uma fenomenologia da respiração.

Paul Auster em Diário de Inverno

terça-feira, 7 de agosto de 2018

POSTAIS SEM SELO


Somos todos estranhos para nós próprios, e, se temos alguma noção de quem somos, é só porque vivemos dentro dos olhos dos outros.

Paul Auster em  Diário de Inverno

sábado, 5 de maio de 2018

QUOTIDIANOS


Sim bebes demais e fumas demais, perdeste dentes e não te deste ao cuidado de os substituir, a tua alimentação não cumpre os preceitos do nutricionismo contemporâneo, mas se evitas a maioria das verduras é simplesmente porque não gostas delas, e achas difícil, para não dizer impossível, comer coisas de que não gostas. Sabes que a tua mulher se preocupa contigo, principalmente por causa do tabaco e da bebida, mas felizmente, até agora, nenhuma radiografia revelou qualquer tipo de estrago no fígado, e por isso persistes nos teus hábitos deploráveis, sabendo perfeitamente que acabarão por te causar danos graves, mas quanto mais envelheces menos provável te parece que alguma vez tenhas vontade ou coragem para abandonar os teus queridos charutinho, os teus frequentes copos de vinho, que ao longo dos anos tanto prazer te deram, e às vezes pensas que, se abrisses mão deles nesta idade, o teu organismo deixaria de funcionar.

Paul Auster em Diário de Inverno

sábado, 10 de fevereiro de 2018

QUOTIDIANOS


Dizia-se que as joaninhas davam sorte. Se uma delas te pousava no braço, tinhas de pedir um deseja antes que ela levantasse voo. Também os trevos de quatro folhas eram agentes de boa fortuna, e tu passaste horas da tua primeira infância de gatas na relva, à procura desses pequenos troféus, que efetivamente existiam, mas eram raros e por isso mesmo motivo de grande celebração. A primavera era anunciada pela chegada do primeiro tordo, o pássaro cinzento, de papo alaranjado que, repentina e inesperadamente, aparecia certa manhã no teu jardim, saltitando na relva à cata de insetos. A partir daí contava os tordos, tomando nota do segundo, do terceiro, do quarto, acrescentando diariamente mais tordos so rol, e quando paravas de os contar o tempo estava quente.

Paul Auster  em Diáriode Inverno

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

QUOTIDIANOS


Conversando com o teu pai em sonhos. Há muitos anos que ele te visita num quarto escuro do outro lado da consciência, sentando-se a uma mesa contigo para conversas longas e sem pressas, calmo e circunspecto, tratando-te sempre com amabilidade e bonomia, escutando sempre com atenção o que lhe dizes, mas, quando o sonho acaba e tu acordas, não te lembras de uma única palavra do que cada um de vocês disse.

Paul Auster em Diário de Inverno

terça-feira, 12 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Espero que a América sobreviva a Trump.

Paul Auster

domingo, 13 de agosto de 2017

RELACIONADOS



O aparelho de rádio tinha um caixilho de madeira e a face era como uma máscara cega, olhos e boca em panos. Havia a mesma melancolia nos brados dos relatos, nas sinfonias, nas novenas de Fátima e na voz quebrada dos discursos de estado. Como se o espírito nos desse sinal do holocausto, alheadas sobre o enlace das silhuetas: estarmos vedadas de tanta finura, veemência ou persuasão. Ainda hoje me assola a tristeza desses sons que não escuto e me temo de um rádio aberto em surdina à minha beira. Vivíamos sob esse rumor a que só mais tardiamente demos sentido, quando o hóquei patinado se tornou uma paixão cívica.

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

Rashid: é a primeira casa que vejo sem televisão.
Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.
Rashid: Mas assim não pode ver os jogos. Disse-me que era fã dos Mets
Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te?

Paul Auster em Smoke

A recordação mais antiga que tenho é a de um rádio. O meu pai chegou a casa com uma caixa, e tirou de lá de dentro uma Pilot Baby. Depois o meu pai disse que ia chegar um técnico para montar a telefonia, e nós ficámos todos muito excitados com aquilo, sobretudo uma tia minha que era um bocado nervosa. O técnico chegou, olhou para a mesa onde estava o rádio, olhou para a ficha, e disse "Isto não pode ficar aqui", e arrastou a mesa até à ficha. Depois ajoelhou-se, ligou o rádio, começou a sintonizá-lo, e ouviram-se uns ruídos estranhíssimos (imita esses ruídos). De repente a casa ficou inundada de música. Teria talvez 4 anos. Recordo-me do meu pai encostado ao rádio a ouvir música. Eu fiquei proibido de mexer no rádio, claro. 

Raul Solnado em Infância de Sarah Adamopoulos

A voz aguda do Abelaira (que anda aflito com as provas de “Enreada Amena” contou-me ontem:
- No domingo fui à “matinée” do São Jorge onde se me deparou a seguinte imagem “assombrosa” (palavra de muito agrado do Abelaira): vários espectadores, de rádio portátil na mão e auscultador no ouvido, não perdiam uma sílaba do relato do futebol. Enquanto assistiam, interessados, ao desenrolar da intriga na tela.
Meu Deus! Já não lhe basta um espectáculo. Querem dois ao mesmo tempo! E não tardará o dia em que levarão também uma televisãozinha de bolso para pôr no colo e espreitar, de vez em quando, um episódio qualquer de folhetim parvo.
Em resumo: encher a vida.

José Gomes Ferreira em Passos Efémeros, 1º Volume dos seus Dias Comuns

sábado, 24 de junho de 2017

QUOTIDIANOS


Para fazer o que fazes, precisas de caminhar. É a caminhar que te vêm as palavras, que ouves os ritmos das palavras que vais escrevendo mentalmente. Um pé à frente, depois o outro, a batida dupla do teu coração. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços, duas pernas, dois pés. Isto, e depois aquilo. Aquilo, e depois isso. A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que as palavras tenham significado, possam às vezes ter significado, é na música que os significados começam. Sentas-te à mesa para escrever fisicamente as palavras, mas na tua cabeça continuas a caminhar, sempre a caminhar, e o que ouves é o ritmo do teu coração, o batimento do teu coração. Mandelstam: «Gostava de saber quantos pares de sandálias gastou Dante enquanto trabalhava na «Commedia.» 

Paul Auster em Diário de Inverno

Legenda: La Danse pintura de  Henri Matisse

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


O futuro da América está em risco e a República está sob assalto: podemos perder a sociedade em que acreditamos.

Paul Auster

domingo, 8 de janeiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


No fundo, não acho que seja preciso qualquer especial talento para alguém subir acima do chão e pairar no ar. Todos temos isso em nós – todos os homens, mulheres e crianças – e, com bastante esforço e concentração, qualquer ser humano é capaz de repetir os feitos que eu realizei com Watt o Rapaz Maravilha. É preciso aprender a deixar de sermos nós próprios. É aí que tudo começa e daí que parte tudo o resto. Há que deixarmo-nos evaporar. Deixar os músculos ficarem inertes, respirar até sentir a alma escapar-se e depois fechar os olhos. É isso. O vazio dentro de nós torna-se mais leve do que o ar à volta. Pouco a pouco, começamos a pesar menos do que nada. Fechamos os olhos, afastamos os braços, deixamo-nos evaporar. E então, pouco a pouco, elevamo-nos do chão. Só isso.

Paul Auster em Mr. Vertigo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

terça-feira, 31 de março de 2015

POSTAIS SEM SELO


Escusado será dizer que tosses, principalmente durante a noite, quando estás deitado de barriga para baixo, e, naquelas noites em que as tuas vias respiratórias estão excessivamente obstruídas, levantas-te da cama, vais para outro compartimento e tosses furiosamente até deitares cá para fora toda a porcaria. O teu amigo Spiegelman (o fumador mais furioso que conheces), sempre que lhe perguntam por que fuma, responde invariavelmente: «Porque gosto de tossir.»

Paul Auster em Diáriode Inverno

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Palavras da tua avó para a tua mãe: «O teu pai seria um homem maravilhoso – se não fosse como é.»

Paul Auster em Diário de Inverno.

Legenda: fotografia de Darius Goore