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sábado, 16 de novembro de 2024

MÚSICA PELA MANHÃ


Vasco Graça Moura disse que Pedro Homem de Melo foi um poeta demasiado mal tratado pela crítica e pelos leitores de poesia.

A Biblioteca da Casa não tem um único livro do poeta.

Mas pela casa existe esse maravilhoso Com que Voz em que Amália Rodrigues, pela mão mágica de Alain Oulman, cantou poetas portugueses e Pedro Homem de Melo, com dois poemas, está representado.


HAVEMOS DE IR A VIANA

Entre sombras misteriosas
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las.

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia.

Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento.

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.

Ciganos, verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorsos têm oitenta.

CUIDEI QUE TINHA MORRIDO


Ao passar pelo ribeiro

Onde, às vezes, me debruço

Fitou-me alguém corpo inteiro

Dobrado como um soluço


Pupilas negras tão lassas

Raízes iguais às minhas

Meu amor, quando me enlaças

Por ventura as adivinhas

Meu amor, quando me enlaças

 

Que palidez nesse rosto sob o lençol de luar

Tal e qual quem ao sol posto

Estivera a agonizar

 

Deram-me então por conselho

Tirar de mim o sentido

Mas, depois, vendo-me ao espelho

Cuidei que tinha morrido

Cuidei que tinha morrido!

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Gloria In Excelsis

Histórias Portuguesas de Natal

Apresentação e selecção de Vasco Graça Moura

Colecção Mil Folhas

Jornal Público, Porto, Dezembro de 2003

No dia seguinte, dia de Natal, era feriado, tal qual como hoje. Andava muita gente a passear nos campos, e o menino Jesus andava na estrada, a brincar com a carroça. Claro que olhava, com desconfiança, para todas as carroças que passavam, a ver se alguma delas era igual à sua. Mas nenhuma era. Foi brincando, brincando, e já se esquecia desta história toda, quando viu um homem, lá ao longe, num sítio onde andava menos gente, sentado numa pedra e a fazer riscos no chão, com uma varinha. O menino Jesus teve pena dele, quis avisá-lo e aproximou-se.

Ora, o menino Jesus falava uma língua esquisita – o aramaico – que muitos dos judeus não entendiam, e ainda hoje, segundo parece, não entendem. Mas ele não tinha culpa; era a que lhe ensinaram em pequeno, mal começara a estender os braços… Os meninos ainda se lembram de querer agarrar nas coisas que estão longe? É isso.

Aconteceu, então, que o homem não só não percebeu o que o menino lhe dizia, como se zangou e o enxotou, ameaçando-o com a vara. É claro que o menino Jesus deitou a fugir. Quando já estava suficientemente longe quis ver… E o que viu?

Ao lado do homem, parara uma carroça exactamente igual à sua, puxada por um tipo que já metera conversa com o outro sentado. E parecia que a conversa era engraçada, porque ambos se riam muito. Só da boca do que fazia de cavalo saía um fumozinho branco, que o menino Jesus muito bem conhecia.

Por tudo isto é que o Natal é pai e tem barbas brancas, para se distinguir do outro, que traz brinquedos do inferno, brinquedos que, como os meninos também sabem, são feitos neste mundo, tal qual como os outros brinquedos.

Ora como se vê por esta história, e ao contrário do que até eu próprio julgava quando comecei a escrevê-la, houve, não uma só, mas inúmeras razões, para o Natal ser pai e ter barbas brancas. Para acabar, não me perguntem de quem ele é pai. Não façam perguntas tolas, como as pessoas crescidas. Muito em segredo, sempre digo que não sei ao certo, o que sei não posso dizer… e, de resto, talvez os meninos venham a saber mais do que eu.

 

(Excerto do conto Razão de O Pai Natal Ter Barbas Brancas de Jorge de Sena).

sábado, 12 de dezembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM


Dizem que é o melhor Bolo-Rei da cidade, o da Confeitaria Nacional, casa fundada em 1829, ali à Praça da Figueira. O segredo da feitura do bolo nunca saiu portas fora.

Uma tarde, por um findar de ano, esteve hora e meia, na bicha, à espera de comprar o bolo. Não por ele mas por um amigo, chegado de Montalegre, que daquele bolo ouvira falar e nunca tinha comido. 


Para ele não há problema. Gosta tanto de Bolo-Rei que os come de um qualquer lugar: do Continente, do Minipreço, do Lidl, até da padaria aqui da rua.

Gosto de Bolo-Rei, mas se me querem ver mesmo feliz é quando o encontro fora da época. Que querem? Sempre foi assim e está velho para mudar. Também se perde por broas castelar…
Mas pode dizer que sim, que é bom o Bolo-Rei da Confeitaria Nacional, só que é uma opinião, vinda de quem vem, em que não podem ter qualquer tipo de confiança.

Está à vista o porquê.

A Guida todos os natais me diz que o melhor Bolo-Rei  é o da Pastelaria Garrett, ali para os 


estoris, na Avenida Nice nº 54, Bolo-Rei chique, chiquérrimo. Passa horas para o comprar e 
entendo, que tanta generosidade merece a pequena mentira de sempre lhe dizer que sim, é o melhor Bolo-Rei que comi até aos dias de hoje.

O sorriso dela, o entusiasmo, vale a mentira:

-Vês! Eu sempre te disse!...

E em final de prosa fica aquele poema do Vasco da Graça, no tempo em que o Bolo-Rei tinha brinde e fava e a quem saísse a fava a obrigação de em próximo Natal, ou quando calhasse, comprar o bolo:


espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos...
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.


Legenda: o anúncio da Pastelaria Garret é tirad do blogue Restos de Colecção.

 

sábado, 19 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS



Em Nome do Pai
Pequena Antologia do Pai na Poesia Portuguesa

Vários Autores
Organização: José da Cruz Santos
Prefácio: Vasco da Graça Moura
Capa: Armando Alves
Modo de Ler, Porto, Março de 2008

Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes. 

(Maria do Rosário Pedreira)

sábado, 16 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS



366 Poemas Que Falam de Amor

Antologia organizada por Vasco Graça Moura
Quetzal Editores, Lisboa, Fevereiro de 2004

Convida-me Só Para Jantar

E não queiras depois fazer amor.
Convida-me só para jantar
num restaurante sossegado
numa mesa de canto
e fala devagar
e fala devagar
eu quero comer uma sopa quente
não quero comer mariscos
os mariscos atravancam-me o prato
e estou cansada para os afastar
fala assim devagar
                 devagar
não é preciso dizeres que sou bonita
mas não me fales de economia e de política
fala assim devagar
                 devagar
deita-me o vinho devagar
quando o meu copo estiver vazio.
Estou convalescente
sou convalescente
não é preciso que o percebas
mas por favor não faças força em mim.
Fala, estás-me a dar de jantar
estás-me a pôr recostada à almofada
estás-me a fazer sorrir ao longe
fala assim devagar
                  devagar
                 devagar


 Ana Goês

domingo, 27 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Natal… Natais
Oito séculos de Poesia sobre o Natal

Antologia de Vasco Graça Moura
Capa: Graça Castanheira
Público, Lisboa, s/d

Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

(Pedro Tamen)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

EM REDOR DE LOBO ANTUNES


Outubro chegado, livro de António Lobo Antunes publicado.
E não só.
Como o Natal está aí à porta, mesmo que seja um Natal de muito pouco dinheiro, já se alinham os livros dos treinadores e jogadores de futebol, dos pivot da televisão, dos Paulo Coelho, das Margarida Rebelo Pinto, livros destinados a serem oferecidos a quem não lê livros.
 Acontece até que aquele rapaz, o Rodrigues dos Santos, acordou um destes dias com o cu virado para a lua, e, gratuitamente (?)  recebeu, um chuto, forte e colocado, de publicidade, com a Igreja Católica a arrasar o último livro, que o rapaz nem sequer sabe do que fala e esse falar tem a ver com o ter escrito que Cristo não era cristão e Maria não podia ser virgem.
Não sou tipo para odiar, mas fui coleccionando, ao longo dos tempos, alguns ódiozinhos de estimação. Para referir apenas escritores, cito três: Vasco da Graça Moura, Agustina Bessa Luís e António Lobo Antunes.
O primeiro porque sendo um belíssimo poeta, um excelente tradutor, entretém-se a fazer loas a Cavaco e ao PSD, a segunda porque sim – nunca li qualquer livro e as razões não se prendem com as qualidades da senhora que, dizem, as tem profusamente, mas por histórias que vêm muito detrás  (um dia as trarei aqui) quando nunca apoiou os seus pares na luta contra a ditadura, o terceiro por se ter tornado um chato.
Nunca percebi – não deve ser para perceber – porque Lobo Antunes passou os últimos anos a denegrir José Saramago, mas o que fez transbordar a taça da paciência foi, ter dito numa entrevista, que não tinha a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem lhe chegue aos calcanhares.

Tenho a certeza que serei lido para sempre!
Humildade e vaidade em excesso sempre me desconsertam.
Curiosamente, o meu contacto com António Lobo Antunes nasce com uma entrevista que deu ao jornalista Carlos Miranda de «A Bola», quando o jornal não era o pasquim que hoje é.
Perdi o recorte dessa entrevista, mas arrisco que terá sido no ano de 1982 porque a entrevista girava à volta do primeiro livro Memória de Elefante, a entrevista em que o autor declara a sua loucura benfiquista ao ponto de se sentar nas bancadas de gorro e bandeira.
Comprei o livro, fiquei um entusiasta-mor de Lobo Antunes e comprei, mal punham pé em escaparate de livraria, os que se seguiram.
 Mas à medida que foram sendo publicados ia também crescendo um certo esmorecimento.
Os livros continuavam a ser bem escritos mas tornaram-se pouco entusiasmantes. 

Passei a demorar muito tempo para que terminasse um livro. Desde  Exortação aos Crocodilos que já não os acabo – e o que detesto não conseguir acabar um livro!... – e Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, uma oferta natalícia, nem o iniciei.
O novo livro chama-se Comissão das Lágrimas – Lobo Antunes continua encontrar títulos felizes para os seus livros – e anda à volta do período da vida política angolana, Março 1977, que envolveu Nito Alves e Agostinho Neto.
Diz quem já leu o livro, que Lobo Antunes continua a não fazer muita pesquisa histórica apenas se orientando por vozes, vozes que lhe chegam, vozes que e com essas vozes conta a história.
 Não irei comprar o livro e, como este Natal é um Natal negro, não dou – apenas a netaria está a salvo - nem recebo prendas pelo que nem sequer corro o risco de o ter
Não é que me orgulhe – nem pouco nem muito - pela companhia, mas Clara Ferreira Alves deixa cair, na revista Actual do Expresso, palavras que compreendo muito bem:
Alguns livros são ilegíveis, puro contorcionismo e acrobacia palavrosa, discursos e vozes sem rumo nem identificação, narrativa sem estrutura, personagens apenas nomeadas que nunca chegam a formar-se, muito menos a identificar-se fora da cabeça do escritor. Ele sabe do que está a falar, os leitores. O escritor deixa os livros.
Estas palavras fazem-me lembrar o meu pai, quando dizia que, mal dos escritores que tem de ir a casa de cada leitor explicar o que escreveu, o que, no fundo, pretendeu dizer.
Dentro desta amargura gostaria de ressalvar que aprecia muito as crónicas do António Lobo Antunes que as leio, com agrado e gosto, em jornais e revistas e depois, mal sejam reunidas em livro, apresso-me a comprá-lo.
As crónicas de António Lobo Antunes falam do quotidiano das gentes. Numa linguagem simples, clara, bonita e terna.
É pelas suas crónicas que ainda saúdo António Lobo Antunes.

terça-feira, 5 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


ouviam-se os pios das gaivoats assustadas, os pios,
os pios no seu voo desconjuntado no sibilar do vento, rasgão de asas
sobre  a praia, praia triste

De um poema de Vasco Graça Moura