Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Gageiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Gageiro. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 30 de junho de 2025

À LUPA


 A tarefa fotográfica tinha por finalidade o enquadrar uns barcos colocados no Tejo, não lembro para que acontecimento.

Eduardo Gageiro, a determinado tempo, fez por esquecer os tais barcos e barquinhos  e esgalhou uma das mais brilhantes fotografias que consegue mostrar a solidão do homem de Santa Comba, que, vindo de Coimbra, colocou a vida dos portugueses, durante perto de meio , num inferno.

Salazar passava alguns dias de férias no Forte de Santo António no Estoril onde, por uma manhã de Agosto, caiu de uma cadeira e iniciou o seu fim.

O calista Hilário preparava-se para fazer o seu trabalho e Salazar, com o Diário de Notícias na mão, sentou-se numa cadeira de lona.

Acabou por cair e bater com a cabeça nas pedras da esplanada do Forte.

Manuel Marques, barbeiro de Salazar disse aos jornalistas que Salazar tinha a mania de se sentar atirando-se para cima das cadeiras,

O poeta António Gedeão  contou o episódio aos filhos dos seus netos:

«Costumava o nosso homem, para descansar o corpo, e especialmente o cérebro, do assédio das preocupações da governação, sentar-se, olhando o mar, no isolamento pastosos de uma esplanada do forte de Santo António do Estoril, situado na linha das praias, a pouca distância de Lisboa. Aí, só, irremediavelmente só, aconchegava-se na cadeira de repouso, cerrava as pálpebras e dormitava na paz do Senhor, embalado pelo sussurro das águas.»

Mas a Lupa acabou a deslizar por um dos Bilhetes de Colares de Mr. A. B. Kotter:

«Oh Senhor professor, por amor de Deus, quem passava o verão no Forte em 1940 eram as meninas de Odivelas, indignou-se a fiel Margarida, quebrando a regra sagrada de não falar enquanto se serve à mesa. E, perdida por cem, perdida por mil, acrescentou: «Nessa altura não iam para a praia de maminhas ao léu.»

domingo, 8 de junho de 2025

POSTAIS SEM SELO


Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara"


Sophia de Mello Breyner Andresen em Ilhas

Legenda: Fotografia de Eduardo Gageiro, Lisboa 1964

sábado, 7 de junho de 2025

POSTAIS SEM SELO


subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos, nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

António Ramos Rosa

Legenda:  fotografia de Eduardo Gageiro

sexta-feira, 6 de junho de 2025

POSTAIS SEM SELO


 Portugal tem o feitio de um caixão. Será bom apenas para nele se morrer.

Vergílio Ferreira no 3º Volume de Conta-Corrente.

Legenda: fotografia de Eduardo Gajeiro

quinta-feira, 5 de junho de 2025

POSTAIS SEM SELO


 A gente que nasce e vive junto do mar é mais pura.

 Herberto Helder em Os Passos em Volta

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

quarta-feira, 4 de junho de 2025

POSTAIS SEM SELO


É mau a gente habituar-se.

Eugène Guillevic

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro.

Mário Castrim chamou-lhe um narrador do quotidiano.

Iremos publicar algumas fotografias de Gageiro que serviram, aqui no Cais, para ilustrar «Postais Sem Selo»

REOLHARES

Naquela tarde de sábado de Março de 1967, estive na sala da Casa da Imprensa, a ouvir Eduardo Gageiro.



No dia 4 de Março de 1967, o fotógrafo Eduardo Gageiro foi o convidado dos Encontros do Diário de Lisboa – Juvenil.

Retomados a 12 de Novembro de 1966 com a presença de Eduardo Prado Coelho, depois com o jornalista Manuel de Azevedo e a 21 de Janeiro de 1967 com Fernando Lopes Graça e Dulce Cabrita.

O texto que hoje reolhamos sobre Eduardo Gageiro, foi publicado no Cais do Olhar no dia 25 de Setembro de 2016.

EDUARDO GAGEIRO (1935-2025)


 Morreu Eduardo Gageiro.

Legenda: fotografia tirada daqui.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Portugal Livre: 20 Fotógrafos da Imprensa Contam Tudo Sobre a Revolução das Flores

Textos de Adelino Gomes e Fernando Assis Pacheco

Fotografias de Abel Fonseca, Alberto Peixoto

Alfredo Cunha, António Xavier, Armando Vidal, Carlos Gil, Correia dos Santos, Eduardo Baião, Eduardo Gageiro, Fernando Baião, Francisco Ferreira, Inácio Ludgero, João Ribeiro, José Antunes, José Tavares, Lobo Pimentel Jr., Miranda Castela, Novo Ribeiro, Rui Pacheco, Teresa Montserrat

Capa: Luís Filipe da Conceição

Colecção: 25 de Abril, Os Dias da Revolução nº 1

Edição Fac-simile A Bela e o Monstro/Jornal Público

 …Foi no meio de apupos e cantos populares que o regime de Marcelo Caetano se desmoronou no Largo do Carmo, em Lisboa, sob o sol claro de uma tarde de Abril. O herdeiro de Salazar não se meteu no blindado da fuga sem uma derradeira formalidade – transmitir o poder a pessoa idónea para que não caísse na rua, como se afirma que afirmou a um interlocutor exasperado. Quanto à rua, essa, desdenhou todas as formalidades e logo ali armou a festa. Depois de tantos anos estava no seu direito.

Ter um povo, ou a parte sã de um povo, respondido à memória da violência somente com a alegria recém-descoberta, eis o que não acaba de maravilhar-me. Outros dias vieram depois, e já sabíamos que seriam ácidos e cortantes. Mas a explosão inicial continua nos meus ouvidos e nos meus olhos, intensíssima. 1385, 1640, 1910 foram assim? Permito-me duvidar.

sábado, 1 de junho de 2024

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

Não sei se José Saramago pertencia àquelas minorias que sabiam que o 25 daquele mês de  Abril iria acontecer.

Nas páginas finais daquele livro de Saramago de que poucos gostam, «Manual de Pintura e Caligrafia»«Manual de Pintura e Caligrafia», - «Mas o que é o Saramago sabe de pintura?», gracejou Mário Soares quando viu o livro nos escaparates Livraria Moraes.

36

«Começo a formar a primeira tinta na paleta. Não é uma cor intermédia que eu precise de compor e harmonizar, como as vozes do «Magnificat» de Monteverdi que neste momento enchem o atelier. Limito-me a espremer o tubo generosamente, sem poupar. Preto. Agora para revelar, não para esconder. Trabalharei todo o dia.

37 

«O regime caiu. Golpe militar, como se esperava. Não sei descrever o dia de hoje: as tropas, os carros de combate, a felicidade, os abraços, as palavras de alegria, o nervosismo, o puro júbilo. Estou neste momento sozinho: M. foi encontrar-se com alguém do Partido, não sei onde. Vai acabar a clandestinidade. O meu auto-retrato já está muito adiantado. Dormíamos em minha casa, M. e eu, quando o Chico, noctívago, telefonou, aos gritos, que ouvíssemos a rádio.

Levantámo-nos de um salto (estás a chorar, meu amor?): « Aqui Posto de Comando das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa...» Abraçámo-nos (meu amor, estás a chorar), e embrulhados no mesmo lençol, abrimos a janela: a cidade, oh, cidade, ainda noite por cima das nossas cabeças, mas já uma claridade difusa ao longe. Eu disse: ”Amanhã vamos buscar o António.” M. apertou-se muito contra mim.

”E um dia destes dar-te-ei uns papéis que aí tenho. Para leres.” ”Segredos?”, perguntou ela, sorrindo. «Não. Papéis. Coisas escritas.»

A editora Carmélia Âmbar, na longa conversa com João Céu e Silva, página 39:

«Também gosto do Manual de Pintura e Caligrafia, onde se observa como já era um esplêndido escritor apesar de não ser ainda reconhecido.»

«O romance é um bom romance», José Manuel Mendes.

«O Manual é um livro subvalorizado, passou despercebido» - Carlos Reis

«O Manuel é um grande livro, é a minha opinião.»- Baptista-Bastos

«Manual é o cadinho de elaboração de todas as tendências préficcionais de José Saramago, e daí a sua grande importância e originalidade na consideração evolutiva da sua obra.» - Maria Alzira Seixo.

Se isso tem algum valor, também gosto muito do Manual de Pintura e Caligrafia.

Pilar del Rio, numa recente entrevista a um jornal argentino:

«Naquela época, os telefones nas casas modestas costumavam estar colocados no corredor, de maneira que José Saramago deve ter saltado da cama, talvez com um mau pressentimento, para atender aquela ligação na madrugada do 25 de Abril de 1974. Foi assim, sem glamour ou outra militância, que o escritor português soube que alguma coisa acontecia no seu país, e que essa coisa poderia ser, por fim, positiva. A amiga que o avisou aproveitou o telefonema para repetir a recomendação que a rádio transmitia a todo o país: que havia um movimento em marcha, que as pessoas deveriam ficar em casa e atentas às informações que seriam dadas.»

José Saramago conversando com João Céu e Silva, deixou cair:

«Eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha também tem democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transição como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui há anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram nessa altura… Até o Melo Antunes disse «Esse tipo é parvo!» Por isso não me falem em 25 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer «25 de Abril sempre» mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendermos que são justas.»

Já a 25 de Abril de 1993, Cadernos de Lanzarote, 1º volume, escrevera:

«Carmélia telefonou de manhã, aos gritos «25 de Abril , sempre! 25 de Abril, sempre!» Lembrei-me daquela outra chamada, há 19 anos, no meio da noite, quando uma das filhas do Augusto da Costa Dias me avisou que a revolução está nas ruas, Agora, o entusiasmo de Carmélia, um entusiasmo de sobrevivente, deixou-me lamentavelmente frio».

No 5º volume dos Cadernos de Lanzarote, na entrada de 25 de Abril de 1997, José Saramago deixou escrito:

«Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…»

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL

 


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

João Pacheco, filho do jornalista, poeta e escritor Fernando Assis Pacheco, escrevia no Expresso de 26 de Janeiro: À espera da notícia. Ele fala de uma crónica do Pedro Alvim, publicada no Diário de Lisboa de 3 de Abril de 1974: «Um Campo de Neve Todos os Dias». Eu era um cliente habitual das crónicas que, naquele tempo, o Diário de Lisboa publicava todos os dias. Lembro-me desta crónica, gostava muito do Pedro Alvim, guardei a crónica. Andei agora à procura, mas não a encontro. Sirvo-me do recorte do Expresso do João Pacheco porque ele lembra que até 5 de Maio estará na Cordoaria Nacional uma exposição do Eduardo Gageiro:

«Não se sabia quando, como ou quem. Esperava-se a notícia de um golpe de Estado. Aquela primavera de 1974 arrastava-se em tons de crise, para o ditador Marcello Caetano. E o jornal “Diário de Lisboa” publicou a 3 de abril a pequena crónica “Um campo de neve todos os dias”, do jornalista Pedro Alvim. Para os censores, aquela seria prosa inócua sobre jornalismo, desencantada para resolver a falta de assunto. Já para quem tivesse o treino de ler nas entrelinhas, lá estava aquela frase inicial inteira e limpa: “Estou aqui à espera da notícia.” Sim, corria muito mal a guerra nas várias frentes africanas. Aliás, pode uma guerra correr bem? Crescia o descontentamento entre os militares, acumulava-se o sofrimento nas famílias afetadas de forma direta. E além do esforço de guerra, a economia portuguesa precisava de inventar forças para enfrentar a conjuntura mundial, com os preços do petróleo a roubar margem de manobra às pessoas, às empresas e aos Estados. Enquanto o regime fascista se preparava para dar o berro, no mesmo jornal faziam-se reportagens sobre o preço do peixe. Como se fosse um fenómeno natural, desligado da política. O último álbum gravado por Zeca Afonso antes do 25 de abril chama-se “Venham mais Cinco”. E inclui a canção ‘Nefretite não Tinha Papeira’, onde se alude aos preços das arábias, terminando com estes versos: “Os sheikes israelitas/ Já que estou com a mão na massa/ Lembram-me os sheikes das fitas/ Que dão porrada a quem passa”.

Aproximam-se os 50 anos da revolução que trouxe a democracia a Portugal. E somos confrontados com muitas imagens daquele “dia inicial inteiro e limpo”, relatado por Sophia de Mello Breyner. Naquele dia “emergimos da noite e do silêncio”. E esta é uma imagem que dá a noção da originalidade da revolução portuguesa. A qualidade popular deste dia inicial nasceu da desobediência, quando o que poderia ser apenas um golpe militar se transformou numa revolução também do chamado povo. O autor desta imagem chama-se Eduardo Gageiro, tem 88 anos e é um enorme repórter fotográfico. Até 5 de maio, podemos ver em Lisboa 170 imagens de Gageiro, na exposição “Factum”, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional. Espalhem a notícia.»

Eduardo Gageiro, um brilhantíssimo fotógrafo deste nosso país, tão triste de esquecer gente, de esquecer  os seus melhores.

Ele também esperava a notícia. Como tantos outros e não eram assim muitos. Melhor: não eram aquele rio de gente,e que no 25 de Abril, desaguou nas ruas a gritar por Liberdade, Democracia…

terça-feira, 27 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ATÉ MAIO


27 de Abril de 1974.

O terceiro dia da nossa vida em liberdade.

Todos os jornais dão conta das reuniões que vão ocorrendo, no Palácio da Cova da Moura, com a Junta de Salvação Nacional, das manifestações de apoio ao Movimento das Forças Armadas, que vão acontecendo por todo o País.

1.

Mas a ÚNICA notícia é apenas uma:

Após demoradas negociações são libertados os presos políticos que se encontravam no Forte de Peniche e em Caxias. Os presos tinham decidido que ou saiam todos ou não saia nenhum.

2.

Anuncia-se que está prevista para amanhã a chegada a Lisboa de Mário Soares e que os bancos reabrirão na segunda-feira dia 29.

 3.

No topo a 1ª página de A Capital que na sua página 4 noticia que o presidente da assembleia nacional, Engº Amaral Neto cancelou a reunião marcada para este dia e aguarda, apenas, que a Junta de Salvação Nacional decrete a dissolução da assembleia.


4.


Diário Popular dava conta que, em Beja, foi preso pela polícia, um homem que ostentava um cartaz a pedir a extinção da PIDE.


5.

Destaque na página 14 para a reunião que a Conferência Episcopal iniciou, no dia 23, em Fátima, ainda em tempo de ditadura, e que teve o encerramento ontem ao final da tarde.

Os senhores bispos mudaram de agulha e emitem um comunicado em que formulam votos para que os acontecimentos destes dias contribuam para o bem da sociedade portuguesa, na justiça, na reconciliação e no respeito

por todas as pessoas. Apelam para a virtudes cívicas dos católicos e demais portugueses de boa vontade. E rezam a Deus pelo povo de Portugal.

A conferência aproveita para se solidarizar com o Bispo de Nampula, expulso de Moçambique, nos primeiros dias de Abril, pela ditadura.


Essa solidariedade teria sido bem-vinda aquando dos acontecimentos, que também envolveram a expulsão de diversos missionários acusados de atentados e de se oporem à guerra colonial.

Mas apenas um beato silêncio.

Profundo foi também o silêncio que os senhores bispos mantiveram, durante quarenta e oito anos, com um regime que oprimia e perseguia um povo e mantinha em África uma guerra  que matou, estropiou milhares de portugueses e africanos.

6.

O República revelava que no Forte de Caxias estavam presos 228 membros da Ex-PIDE-DGS e que ainda continuavam à solta mais de dois mil agentes.


Oportuna a entrevista que na página 13, do República, o desembargador Rocha Cunha concedeu a Fernando Assis Pacheco.

 Está por fazer a história da participação dos juízes dos Tribunais Plenários.

 Pior ainda o sabermos que, após o 25 de Abril, esses mesmos juízos foram integrados no sistema judicial sem nunca terem sido responsabilizados e julgados. Eles foram protagonistas do aparelho repressivo da ditadura.

 Uma impunidade que há-de estender-se aos agentes da PIDE-DGS e outros servidores do Estado Novo.

 Não por uma questão de vingança, apenas por uma questão de justiça.

 Na sua página de espectáculos o jornal avisava que, por motivos óbvios, não era possível publicar a programação da RTP:


7.

Como os restantes jornais, O Século noticiava o assalto que populares fizeram ao edifício do jornal Época, que não se publicou neste dia, e que obrigou à intervenção de elementos das Forças Armadas.

Face a este incidente, e outros que iam acontecendo, como a invasão das instalações da A.N.P., a Junta de Salvação Nacional emitia um comunicado:


Na página 7,  publicava-se uma fotografia de Eduardo Gageiro  que registava o momento em que um membro da PIDE-DGS era preso.

Esta fotografia correrá mundo.


Também a notícia da morte do poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. O poeta que tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto, e não resistiu à emoção de ver cair a ditadura.



8.

Fotografia na última página do Diário de Lisboa.


No Largo da Misericórdia, o povo largou fogo a um automóvel da PIDE, ontem á tarde. Três agentes transportavam-se nele quando, cerca do meio-dia, foram identificados por populares arrastados para junto do pelourinho do largo e desramados pelo Exército. O povo queria linchá-los, tendo sido contido só a muito custo pelo capitão e pelos poucos soldados que os guardavam.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

PARA SOPHIA


Gosto da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, principalmente os poemas onde entram a Grécia e o mar, mas não daquela feliz maneira com que gosto de outros poetas aqui da casa.

Sophia faria ontem 100 anos.

Luís Eme, no seu excelente Largo da Memória, dedicou-lhe um poema.

Um poema bonito, simples, e sabemos como a simplicidade é tão difícil.  

«O mar azul e branco
torna-se mais expansivo,
e tocante,
depois de sentir
a luminosidade,
o perfume
e o encanto
das tuas palavras...»

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

quarta-feira, 25 de abril de 2018

EI-LA A CIDADE


Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias durou a barbárie salazarenta/marcelista, o tempo do desprezo, como lhe chamou Mário Dionísio.

Éramos um país que vivia debaixo de um atraso sem medida, tempos terríveis que só quem neles viveu tem a justa medida – quem passa por elas é que sabe!

O avô senta o neto nos joelhos e conta: foi assim.

Acreditávamos.

Tão só.

Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

A festa foi bonita, pá.

Manuel António Pina:

Durou, o sonho, só uma semana, mas esse é um património que ninguém nos tirará. Na tarde do 1º de maio, já nos confrontávamos uns com os outros.
De então para cá, tem sido o que se sabe. Carlyle escreveu que as revoluções são sonhadas por idealistas, realizadas por radicais, e que quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

Quarenta e quatro anos sobre a madrugada que esperávamos, lembrando Sophia, quando emergimos da noite e do silêncio.

Também escreveu José Saramago:

Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fossemos nós a «fazê-lo» diferente.

Ao longo destes anos, tenho vindo a ouvir os que, a partir de um certo tempo, sempre anunciarem que o 25 de Abril se tornaria num 5 de Outubro.

Nunca acreditei e ainda não vi a possibilidade de isso vir a acontecer.

Gente que pensa que a memória do 25 de Abril é algo difuso, que com o tempo se tornará insignificante, gente que advoga o silêncio como um argumento.

Serenamente vos digo:

Não há nenhum 25 de Abril em que não me venha à memória, o 1º poema de Canto e Lamentação na Cidade Ocupada, incluído em  A Invenção do Amor e Outros Poemas, de Daniel Filipe lido, relido vezes sem conta, nos tais tempos difíceis:

 Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

domingo, 22 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Acreditávamos – era isso. «Porque há-de haver um futuro melhor» (como escrevíamos em dedicatórias nos livros oferecidos), porque era preciso conquistá-lo… e era possível.


Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

sábado, 25 de novembro de 2017

ATÉ NA MORTE É TRISTE SER-SE MISERÁVEL


Nós não diríamos: foram as cheias, foi a chuva. Talvez seja mais justo afirmar; foi a miséria, miséria que a nossa sociedade não neutralizou, que provocou a maioria das mortes. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre por ser.

Citação de «O Comércio do Funchal», retirada do texto de Joana Pereira Bastos c/ Joana Beleza e José Pedro Castanheira, fotografia de Eduardo Gageiro, publicado na revista do Expresso de 12 de Novembro de 2017. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

FOI HÁ 50 ANOS




Já está à venda uma nova edição de O Canto e as Armas de Manuel Alegre, comemorativa dos 50 anos da 1ª edição.

No meu exemplar pode ler-se:

Este livro edição do autor foi composto e impresso em Novembro de 1967 na Tipografia do Carvalhido no Porto.

A capa, composta a partir de uma fotografia de Eduardo Gageiro, não tem indicação de autor.

Deste livro, Adriano Correia de Oliveira, retirou poemas, musicou-os, e ao álbum não teve qualquer dúvida em dar-lhe o mesmo nome do livro.

A primeira faixa do álbum, E de Súbito um Sino, é também o primeiro poema do livro, cujos primeiros versos são ditos pelo actor Ruy Mendes:

Eis como tudo
entra de súbito
pelas palavras:
a terra e o mar
as mãos e as vozes.
Tua guitarra
 povo. Teu génio.

E o teu silêncio
É de súbito um sino
Tocado pelo vento

Em todas as aldeias do meu sangue.


Poemas e canto que marcam toda uma geração, e não só uma geração, diga-se.

Esta nova edição de O Canto e as Armas tem prefácio de Mário Cláudio.

Que começa assim:

O convívio com um texto no espaço que o justifica, quando não resulta de um privilégio da nossa escolha, poderá corresponder a uma consequência da força das circunstâncias. Calhou-me dialogar com O Canto e as Armas nas bolanhas da Guiné onde cumpria a minha comissão de serviço militar obrigatório, e no verbo «cumprir», e no adjectivo «obrigatório », não pouco se insinuará do animus que terá comparecido à leitura. Não se tratando de uma proposta «neonefelibata», igual às que aliás informavam boa parte da poesia que nesse tempo se ia escrevendo na chamada «Metrópole», o texto de Manuel Alegre engastava o «espírito» no exacto lugar que o segregara, e onde o subscritor destas linhas se encontrava. Eu estava numa guerra, e numa guerra injusta, na qual muitos se envolviam desmotivadamente, como estaria qualquer leitor de Moby Dick a bordo de um baleeiro de Nantucket, e em busca do Leviatã branquíssimo, ou de Guerra e Paz na estepe gelada da Campanha da Rússia, e sob o comando de Napoleão. E quanto ao vocabulário estruturante de toda a obra literária, eis que coincidia ele com o que por então povoava a nossa fala quotidiana, percorrida por «bazucas e morteiros e estilhaços», por «granadas», e por «metralhadoras». Não me recordo de outro livro, a não ser talvez o de Job, eleito em momentos de infortúnio, que se me tenha amassado tão imediatamente no sangue.
Mas O Canto e as Armas assegurar-nos-ia ainda, a muitos, e a mim também, a permanência de um horizonte longínquo, o da terra europeia que nos fora berço, evocando o regaço da Mãe superlativa, por quem clama ao que se diz cada soldado antes de ascender a herói ou, o que valerá o mesmo, ao plano de quem «jaz morto e arrefece». Era a absoluta ruralidade que investia por aquelas páginas, conforme à grande paisagem, natural e humana, que a desertificação não avassalara ainda, e que haveria de enquadrar os anos seguintes. Despertavam de facto por ali criptomnésias de um pequeno paraíso agro-pastoril, «arados» e uma «espiga», ou «uma flor de verde pinho», a pontuar «oitenta e nove mil quilómetros quadrados».

Alguns dos poemas de Praça da Canção, como os deste livro, registam o aparecimento de um tal País de Abril, adivinhações, sonhos de Manuel Alegre.

É em O Canto e as Armas que está Poemarma, onde a dado ponto se pode ler:

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Assim foi, como alguns, cada vez menos, se lembram.

domingo, 1 de janeiro de 2017

TRADUZIR-SE



Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

domingo, 25 de setembro de 2016

UM RAPAZ DE SACAVÉM, UM HOMEM DO MUNDO




No dia 4 de Março de 1967, o fotógrafo Eduardo Gageiro foi o convidado dos Encontros do Diário de Lisboa – Juvenil.
Retomados a 12 de Novembro de 1966 com a presença de Eduardo Prado Coelho, depois com o jornalista Manuel de Azevedo e a 21 de Janeiro de 1967 com Fernando Lopes Graça e Dulce Cabrita.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


A gente que nasce e vive junto do mar é mais pura.

Herberto Helder em Os Passos em Volta

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro