Os
livros do António Lobo Antunes que constam da Biblioteca da Casa, acabam em
1999 com A Exortação dos Crocodilos, mas
há a acrescentar os cinco livros de Crónicas e mais não há, porque alguém, num
acto sem nome, entendeu não mais publicar as crónicas que Lobo Antunes ia
deixando em jornais e revistas
De
que músicas, de que canções, gostava António Lobo Antunes?
Teria
que percorrer os livros para encontrar algumas citações, se é que as há, não
tenho grande memória mas também há que dizer que metade, ou mais, da minha
memória está em branco.
Apenas
restavam as epígrafes, mas dos livros que a Biblioteca daCasa tem, encontrei duas: The Boxer do
Paul Simon em Fado Alexandrino e Bob Dylan, em Auto dos Danados,
por mor de uma citação de «11 Outlines Epitaphs» que é o título de um
poema escrito no início dos anos 60.
Lonely? Ah yes
But it is the flowers and the mirrors
of flowers that now meet my
loneliness
an mine
shall be a strong
loneliness
dissolvin' deep
to the depths of my freedom
and that, then, shall
remain my song.
Assim sendo, como Músicas pela Manhã, teremos The Boxer de Paul Simon.
De Dylan ficaremos com The Times They Are a changing.
No dia 19 de
Setembro de 1981, o Central Park em Nova Iorque foi palco de um enorme concerto
protagonizado por Art Gargunkel e Paul Simon.
Estima-se
que meio milhão de pessoas assistiram ao concerto. Para os restantes ficaram o
disco de vinil, o CD, o DVD, as memórias.
Os
lucros foram destinados à remodelação e manutenção do Central Park, que se
encontrava deteriorado devido à falta de financiamento municipal. O concerto e
o álbum marcaram o início de uma reunião de três anos entre Paul Simon e Art
Garfunkel.
A
Música pela Manhã recupera três canções do concerto.
E isso
entristece ainda mais os já de si tão difíceis dias.
Voltaremos a
passear nos jardins, voltaremos a sentar-nos nas esplanadas, voltaremos a
sentir o silêncio das ruas dos bairros populares?
Chegou a
Primavera, a Páscoa vem a caminho, pelo meio um qualquer puto há-de perguntar
ao pai se vai haver Natal, depois os Santos Populares, os dias de Verão e de
repente estamos à beira do Natal.
Será este o
nosso caminhar pelos dias?
Poderemos
então ouvir esta belíssima canção de um álbum dos Simon Garfunkel que tem tanto
de bom como de mau. Velhas tricas de Garfunkel com Paul Simon que os foram
cansando e levou ao fim de um duo que marcou, indelevelmente a música pop.
«Quando
estiveres esgotado e te sentires insignificante
Quando
tiveres lágrimas nos olhos, eu secar-tas-ei todas
Estarei a teu
lado
Oh, quando os
tempos estiverem difíceis
E não
encontrares amigos,
Como uma
ponte sobre águas agitadas
Eu me
estenderei.
Como uma
ponte sobre águas agitadas
Eu me estenderei.
Quando te
sentires deprimido,
Quando
andares perdido nas ruas,,
E a noite
cair de repente,
Eu
confortar-te-ei.
Estarei a teu
lado.
Oh, quando
chegar a escuridão
E a dor se
espalhar à tua volta,
Como uma
ponte sobre águas agitadas
Eu me
estenderei.
Como uma
ponte sobre águas agitadas
Eu me
estenderei.
Navega,
rapariga prateada,
Navega
Chegou a tua
vez de brilhar.
Todos os teus
sonhos vêm a caminho.
Vê como
brilham.
Oh, se
precisares de uma amigo
Eu navego
mesmo atrás de ti.
Como uma
ponte sobre águas agitadas
Serei o teu
apoio.»
(Tradução de
Ana Sousa Leal)
1.
Catarina
Pires escreveu, hoje, estas palavras no Diário de Notícias:
«Morreu um
amigo e não nos podemos abraçar.
Ele quereria
risos mais do que choros. Beijos e abraços. Copos. A celebração da vida e os
amigos, que são muitos, todos juntos nela. Mas os tempos que vivemos, fechados
em casa, proibidos de tocar, beijar, abraçar, obrigam-nos a adiar um até amanhã
como deveria ser. Que adeus é possível nestes tempos de Covid-19?»
2.
O Grupo
Jerónimo Martins apresentou lucros de 433 milhões de euros no fecho das suas
contas referentes a 2019.
3.
Maioria das
multas aplicadas a banqueiros fica por pagar.
4.
O lucro da
Galp em 2019 foi de 560 milhões de euros.
5.
Título de um
artigo (não lido) de Teresa de Sousa no Público:
«São as grandes crises que fazem os
grandes líderes».
Suponho que
Marcelo Rebelo de Sousa não esteja no barco.
Rodrigo Alves
Taxa, jurista, escreve no jornal «I» algo parecido:
«Os
grandes e verdadeiros líderes revelam-se nos momentos de aflição, de aperto e
de medo».
Mas aqui sei
que fala do Presidente da República:
«Marcelo Rebelo de Sousa é
politicamente, repito, politicamente, uma fraude. Uma fraude. (Pese embora eu
próprio nele tenha votado para a Presidência, o que, na verdade, ainda me
legitima mais a escrever o que escrevo.) Toda a postura de Marcelo Rebelo de
Sousa quanto à covid-19 foi verdadeiramente inaceitável e ridícula. Diria mesmo
inenarrável. Um líder, um verdadeiro líder, não pode abandonar o povo e
enclausurar-se no seu castelo de cristal como fez Marcelo. Perguntar-me-ão: mas
não é normal o Presidente ter medo do coronavírus? Claro que é. Eu também
tenho. Por mim, pela minha família, pelos meus amigos, por todos nós.
Perguntar-me-ão ainda: mas o Presidente não deveria ter ido fazer o teste?
Obviamente que devia.»
6.
Por tempo
indeterminado a programação da Antena 2 está sujeita a um plano de contingência,
assim como na maioria das estações de Rádio nacionais.
7.
Um homem, com
cerca de 50 anos, matou a tiro a mulher e de seguida tentou suicidar-se. O
crime ocorreu em Nogueira do Cravo, concelho de Oliveira do Hospital. Segundo
os jornais apuraram, o homem é motorista de mercadorias e o casal tinha já um
historial de violência doméstica há vários anos.
8.
Dir-me-ão que
não é o livro mais indicado para os dias que correm: Ensaio Sobre a Cegueira de
José Saramago.
Talvez seja
verdade, é um livro de leitura muito incómoda, mas é um livro impressionante
«Estamos cada vez mais cegos porque cada
vez menos queremos ver.»
Foi isso que
nos aconteceu.
Não quisemos
saber do meio ambiente, outras coisas assobiámos para o lado ante todos os avisos que pessoas
responsáveis foram declarando.
O raio de um
vírus colocou-nos, agora, em sentido e obrigou-nos a uma descida aos infernos.
«Haverá um governo, disse o primeiro
cego. Não creio, mas no caso de o haver, será um governo de cegos a quererem
governar cegos, isto é, o nada a pretender organizar o nada, Então não há
futuro, disse o velho da venda preta, Não sei se haverá futuro, do que agora se
trata é de saber como poderemos viver neste presente, Sem futuro, o presente
não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a
conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade, o resultado
está à vista, qual de nós se considera ainda tão humano como antes cria ser.»
9.
Em Portugal há
1020 casos confirmados e 6 mortes.
A Itália
ultrapassou a China em número de mortes: 3.405.
A Espanha tem
um registo de 2.200 mortes.
No mundo há
272.042 casos confirmados e 11.299 mortes.
10.
Há pouco, nova
declaração de António Costa ao país.
«Vai ser um trimestre muito duro!».
Medidas
concretas ainda a conta-gotas.
O executivo
trabalhará durante o fim-de-semana para trabalhadores e empresas ficarem saber
com o que podem contar.
Chegou a
Primavera, mas com ela também chegou a chuva.
Continuaremos
a ficar em casa.
«A
primeira regra é não embirrarmos uns com os outros», disse o médico Constantino Sakellarides.
O poeta António
Reis, dizia que «é o único dia que não repetimos e que dura menos.»
É este
enlanguescer da natureza, este vago sofrer do fim do dia. Cores fabulosas, um
fulgor que não conseguimos definir, que andam pelo cor-de-rosa, violeta,
cor-de-laranja, cor de fogo. Um deslumbramento.
O meu pai gostava
das canções do Simon and Garfunkel.
Quando íamos ao
cinema, tínhamos preferência pelo Apolo 70, pela projecção, o som, a comodidade
da sala e dava para petiscar no «snack», e sempre com um salto à livraria e à
discoteca.
Numa dessas
idas, tinha acabado de sair um «Best do Art Garfunkel» e o meu pai não
hesitou: comprou-o de imediato.
Acabou por se
apaixonar por «Bright Eyes» que não conhecia.
Logicamente «Bright
Eyes» teria de entrar numa das cassettes que lhe fui gravando.
Por «Bright
Eyes», há uma passagem deliciosa no «Alta Fidelidade» de Nick Hornby:
- Não és mesmo capaz de ver a diferença entre «Bright
Eyes» e «Got To Get You Off My Mind»?
- Claro que sou. Uma é acerca de coelhos e a outra tem
uma banda de metais a tocá-la.
- Qual banda de metais. É uma secção de instrumentos de sopro. Porra!
- Seja lá o que for. Eu percebo porque preferes o
Solomon ao Art. Eu compreendo, a sério. E se me pedissem para dizer qualquer era
o melhor dos dois escolhia o Solomon sem hesitar. É genuíno, e negro, e
lendário, e essas coisas todas. Mas gosto de «Brighr Eyes». Acho que tem uma
melodia bonita, e além disso, estou.me nas tintas. Há tantas outras coisas para
nos preocuparmos. Bem sei que pareço a tua mãe a falar, mas isto são apenas
discos de música pop, e quem é que se importa realmente que um seja melhor do que
o outro, tirando tu e o Barry e o Dick? Para mim, é como discutir a diferença
entre o McDonalds e o Burger King. Tenho a certeza que há-de haver uma
diferença, mas quem é que vai ralar-se a descobrir qual é?
A canção do Solomon Burke não entrou em nenhuma cassette para o meu pai, fugia um tanto ou quanto aos seus padrões de gosto musical.
O poeta polaco
Zbigniew Herbert teve o cuidado de dizer a si próprio: «deverás ir tranquilo
ao teu próprio funeral.» Razão suficiente para que, quando a dita lhe bater à porta, deixar recado
aos amigos e familiares:
Embarquem no cacilheiro da rota da Trafaria, onde o Tejo se faz ao mar, a meio
caminho, despejem as cinzas, de quem muito gostou de andar por aqui, depois
almoço na Antiga Casa Marítima: filetes de tamboril, arroz de
feijão, salada, não se esqueçam de pedir para a cozinheira lançar uma boa mão
cheia de coentros, vinho da casa.
E não se ponham com veleidades, com mariquices, com isto, com aquilo, porque
ele está a espreitar dos bastidores.
Também na morte é importante saber dar uma festa, disse aos netos a rainha-mãe,
devoradora de gin-tonic, viciada em corridas de cavalos, que também adorava uma
boa cachimbada.
»A história dos homens é desde sempre mistério de vida e de morte. Choramos
os nossos mortos e outros chorarão a nossa morte. Assim se faz o nosso caminhar
sobre a terra.» Ficou-lhe gravada uma frase do jornalista Victor da Cunha Rego: «uma
pessoa preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida.». Foi em Setembro do ano de 1977, na casa que, então, o pai tinha em
Almoçageme, que se lembra de ter pensado, pela primeira vez, no assunto.
Tinha despachado o «Alta Fidelidade» do Nick Hornby, num só
fôlego.
Há por lá uma passagem em que Hornby escreve:
«Não há propriamente muitas canções pop acerca da morte: pelo menos canções
boas. Talvez seja por isso que eu gosto de muita pop e acho a música clássica
um bocado tétrica. Havia aquele instrumental do Elton John, “Song for Guy”, mas
não passava de umas marteladas no piano que tanto podiam ser ouvidas no
aeroporto como no mosso funeral.
- Vamos lá pessoal, as cinco melhores canções pop sobre a morte.
- Genial – diz o Barry. – Uma lista de Homenagem ao pai da Laura. Fixe. “Leader
of the Pack”. O tipo morre a andar de mota. E a seguir temos “Dead Man’s Curve”
dos Jan e Dean, e “Terry” da Twinkle… e aquela do Bobby Goldsmoro, “ And Honey,
I Miss You”…
- E que tal “Tell Laura I Love Her”? Ia ser um êxito.
Ainda bem que a Laura não está aqui para ver como nos divertimos à custa do pai
dela.
- Já resolvi que música vou querer no meu. “One Step Beyond”, dos
Madness. “You Can’t Always Get What You Want”.» À noite, debaixo da parreira de uva americana, ou morangueira, sentindo o
aroma, ouvindo o silêncio dos ralos e das cigarras, lembra-se de lhe ter
contado o episódio e, ao mesmo tempo, perguntado, que música ele escolheria.
Uma pausa muito grande, e depois a resposta:
O Requiem de Mozart.
Passados meses, pensando que a morte é o único destino que temos assegurado,
por mera brincadeira, começou a alinhar uma cassette (os CDs eram, ainda, uma
miragem) de músicas e canções para serem ouvidas antes de o fogo o devorar.
Ainda nem sequer tinha chegado ao princípio dos princípios e desistiu.
Os amigos não mereciam tal castigo.
Mas algum toque teria que existir.
Foi quando concluiu que bastava uma única canção: «Bye, Bye Love»,
na versão, ao vivo, de Simon and Garfunkel, «bye, bye love, bye, bye
happiness.» Esperança para o futuro: a de aprender a morte serena, a que contemplava a
luz no musgo daquela parede da casa de Almoçageme, a parede junto ao celeiro,
onde o Marcolino guardava as maçãs reinetas, as batatas, as cebolas, as
enxadas, o aroma das uvas americanas, ou morangueiras, o silêncio dos ralos e
das cigarras.
Nunca aprendemos tudo sobre despedidas e o grande problema é que o tal dia,
dura uma eternidade.
Entrada para uma solicitação do poeta José Gomes Ferreira:
«Enterrem também comigo na cova, Graças a um novo invento de gravação magnética nas pedras Música de Bach e de Mozart É o único ar Que os mortos podem enigmaticamente respirar»
O meu pai, essencialmente, tinha gosto pela música clássica,
daí que a esmagadora maioria da sua discoteca tivessem esse toque.
Gostava de outras músicas, tinha algumas dessas músicas, mas
eram uma mera excepção.
Gostava de algumas canções que, tanto eu como o Luís Miguel Mira, volta e meia, lhe dávamos a ouvir.
Um dia pediu-me se lhe gravava umas cassettes com essas
músicas.
Assim aconteceu.
O tempo adulterou todo esse material gravado, hoje completamente
inaudível, aontecendo também que algumas dessas cassettes perderam-se.
Há dias lembrei-me que seria gratificante voltar a buscar
essas canções e colocá-las por aqui.
Será uma escolha aleatória, baseada nos apontamentos que
deixei na contra capa das cassettes, também na hoje curta memória das canções que
gravei para o meu pai.
Começarei por aquela canção que acabou por dar origem ao pedido:
El Condor Pasa ,que pertence ao folclore peruano e para a qual Paul Simon escreveu um poema.
Prefiro ser um pardal do que um caracol, prefiro ser um martelo do que
um prego, se eu apenas pudesse certamente o faria.