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sábado, 13 de dezembro de 2025

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


 «A opinião pública europeia foi enganada durante três anos e meio sobre as causas da guerra da Ucrânia e a situação no campo de batalha. Perante a impossibilidade de sanções secundárias contra a Rússia, pressionado pela sua base eleitoral, a quem prometeu acabar depressa com o conflito (mas também pela escassez de munições), Donald Trump mudou subitamente a estratégia americana e decidiu fazer um acordo com Moscovo. Os países europeus estão em pânico, mas ajudaram a escavar o buraco onde agora se encontram presos. A Europa podia ter negociado com o Kremlin muito antes, mas insistiu em prolongar uma guerra que a Ucrânia não podia vencer. Zelensky é uma figura trágica, não tem cartas na mão, será responsabilizado pela maior calamidade sofrida pelo povo ucraniano nos últimos setenta anos; terá de aceitar a neutralidade, perdas territoriais e garantias frágeis. A alternativa a um mau acordo é a saída dos EUA do conflito, inaceitável para todos. Os europeus sabem que não podem continuar sem os americanos e terão de aceitar um entendimento com a Rússia. A realidade tem este péssimo hábito de destruir as melhores ilusões: a guerra acaba, a Rússia sai vencedora, a Ucrânia será um Estado-tampão e os líderes europeus terão de começar a explicar o que fizeram.»

Luís Naves

1.

Não temos o hábito, deveria ser uma obrigação, de conhecer a história do país, a antiga, a de tempos recentes

É necessário ler o que nos possa chegar às mãos.

Em tempos ditadura, com a morte de Salazar, sucedeu Marcelo Caetana e alguém inventou a frase «primavera marcelista»

Uma falácia, como tantas outras.

A Loja Frenesi, pelo preço de 50 euros, tem à venda «Conversas Com Marcelo Caetano» da autoria de António Alçada Baptista.

Paulo da Costa Domingos, o dono da Loja, explica:

 

«Este livro, engendrado já no declínio, senão no estertor, do regime fascista, assume o estilo de um ex-aluno «respeitador» e «admirado» em amena troca de impressões gerais com o seu antigo professor. Mas tais generalidades passam um pouco ao largo da governação de um país a ferro e fogo policial, que é o que acontece quando o poder sente o chão a fugir-lhe de debaixo dos pés. Pode dizer-se que, apesar da dissimulada ambição, Alçada Baptista – que fôra, dez anos antes, o fundador da revista O Tempo e o Modo – nunca possuiu o fulgor atrevido de um António Ferro em diálogo com Salazar, que é o que acontece quando os consensos de uma época empurram a passos desordenados para o fim.

A título de exemplo, uma passagem:

Sinto que, para Marcello Caetano, a política é muito mais uma “arte” do que uma “ciência”: uma estratégia de conter o real que resulta das concretas motivações dos homens num determinado tempo da história, no pressuposto inabalável de que eles, neste domínio, quase nunca se movem segundo as “rectas intenções”. Daí que, desgraçadamente, o fenómeno político reflicta, afinal, o denominador comum da nossa humana banalidade. Donde, a consequência duma dualidade inevitável: de um lado, um universo pessoal povoado de valores tradicionais que se reflectem num comportamento pessoal à base das “antigas virtudes”: trabalho, exigência interior, vida espiritual, honestidade pessoal, austeridade; do outro, um universo social cujas virtudes são as “virtudes” da guerra, perante um inimigo que, no seu entender, está disposto a tudo, e a quem não podemos oferecer a vantagem dos nossos princípios pessoais. E que seriam esses prin­cípios, de que o homem completamente se desinteressou, que, a serem colectivamente vividos, poderiam modificar um dia as regras dum jogo que, ainda no seu entender, os outros quiseram assim. [...]» – Alçada Baptista, há que sublinhá-lo, está a referir-se ao segundo Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa, organização para-militar émula da “juventude hitleriana...»

2.

«O Ministério da Saúde promoveu uma conferência de imprensa para falar da prevenção e tratamento, pedindo a quem não se vacinou para se vacinar e para se usar máscara em espaços fechados. Senão, o aumento de casos às urgências e respetivos internamentos levarão “à interrupção das cirurgias menos urgentes”. Xavier Barreto e Carlos Cortes criticam Governo por que isto é o que acontece todos os anos e “estamos exatamente na mesma situação”».

3.

Hoje, em Portugal, 1,9 milhões de pessoas, cerca de 18,6% da população , estão em «risco de pobreza e exclusão social», de acordo com o INE.

4.

«Número de pensionistas a trabalhar está a subir e já é de 10%
O número de pensionistas que decidiram adiar a reforma para além da idade legal, ou continuar a trabalhar depois de se reformarem, aumentou, nos últimos sete anos, de forma significativa em Portugal. Um fenómeno que mostra não só o impacto das medidas de incentivo ao prolongamento da vida activa, como também a forma como, num cenário de desemprego baixo, se assiste actualmente a um reforço da procura por trabalhadores com idades mais avançadas.

Os dados fazem parte do retrato publicado esta sexta-feira pelo Banco de Portugal sobre “os pensionistas de velhice em Portugal”, que revela, na análise realizada desde 2018, para além da manutenção de tendências de passado como a existência de uma forte desigualdade entre os homens e as mulheres no valor das pensões recebidas, a concretização, igualmente, de mudança significativas em diversas áreas.»


Ségio Aníbal no Público

5.

Nos primeiros dez meses do ano a PSP detectou em média 26 condutores por dia a conduzir com excesso de álcool no sangue.

domingo, 2 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


 PIDE/DGS : Um Estado Dentro do Estado

Fernando Luso Soares

Capa: Dorindo de Carvalho

Colecção Cadernos Portugália nº 1

Portugália Editora, Lisboa s/d

Em Conversas com Marcelo Caetano, de Alçada Baptista, podemos ler a páginas 106: - «Noutro dia, ao chegar à Covilhã, dizia-me uma das minhas tias: - Vi noutro dia o Marcelo na Televisão, e achei-o muito cansado… Fiquei tão preocupada… Diz-lhe que descanse. Depois, se ele adoece, quem é que há-de tratar de nós?»

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

OS DIAS VISTO DO CAFÉ DO MONTE

«O divertissement implica tempo, claro. Um tempo parado, contemplativo, contrário ao tempo da aceleração exponencial. E as brincadeiras dos cães lembraram-me agora uma história. Uma história por demais conhecida. Contava-a António Alçada Baptista.

Andava o Padre Anchieta por terras do Brasil. Com pressa no chegar, pede o jesuíta aos índios que lhe transportam a tralha que sejam despachados no passo. O destino fica longe, a dias de caminhada. No primeiro dia os índios foram céleres, assim como no segundo. Inesperadamente, ao terceiro descansaram. Surpreendido, pergunta-lhes o padre pelo motivo da pausa. A explicação chegou rápida e era simples: “Temos vindo demasiado depressa e a nossa alma ficou para trás. Temos de esperar por ela para podermos continuar”.»


Ana Cristina Leonardo numa das suas crónicas no Público 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

OLHAR AS CAPAS

Natal

 Antologia de contos natalícios

Organização de Mário Braga e Afonso Botelho

Capa e ilustrações: Helena Sá

Editora Arcádia, Lisboa, Novembro de 1978

 Em 1934, passámos a véspera de Natal num velho vagão onde viajavam três cães perdigueiros, um hortelão de frades e uma criada de servir, a Rata, que estreava uma peineta nova, dessas que havia com aplicações de turquesa fingida. Não havia transportes e, pouco antes da meia-noite, meu pai lembrou-se de visitar a família, que não era numerosa e por isso lhe dava pena deixá-la, à ceia, na vasta mesa toda mordida por golpes de canivete que até parecia obra de talha. Sujeitámo-nos pois àquela viagem no correio da noite que, além do mais, ia cheio até aos tejadilhos. Alguns preferiram o furgão; levava caixotes de passas de Alicante e uma urna para um morto, coberta com um pano encerado, como se fosse destinada aos abismos do oceano. A Rata persignava-se e rezava umas estropiadas letanias que ela sabia. O hortelão, o Miguel Cunha, era da minha terra – o maior mentiroso, o mais famoso gastador de petas lá do sítio. Nunca vi tal arte feiticeira, tal cordura bem-falante em tecer fantasias. Aos poucos, íamos com ele na legenda dos assuntos e, se um céptico nos cortasse o passo, éramos como mastins sobre a sua lucidez idiota. Porque ao pé do Miguel Cunha, tão generoso a contar-nos novelas, casos tortos, extraordinárias missões do bicho homem, todos os outros eram tolos e leigos no sentimento de urdir a vida.

O comboio, na noite clara, soltava fagulhas verdes e douradas. Víamos o rasto delas pelas portas que iam meio abertas. Eu tinha nesse ano umas luvas de lã de punhos altos, de alpinista, e os dedos estavam vidrados pelo frio.

 

Agustina Bessa-Luís do conto O Correio da Noite

domingo, 29 de abril de 2018

DÊEM O PRÉMIO A OUTRO!



A Frenesi Loja tem à venda (30 euros, portes incluídos) uma edição comemorativa dos dez anos do Prémio Fernando Pessoa, profusamente ilustrado a cor, encadernação editorial em tela gravada a ouro na pasta anterior e na lombada, com sobre capa impressa, folhas-de-guarda impressas.

«O grande interesse nesta publicação, que reúne fotos e entrevistas com os galardoados de uma década, reside no facto de testemunhar, num registo verdadeiramente patético, o embaraço dalguns membros do júri mais audazes quando, rumo a Cascais em demanda do nosso maior poeta vivo, Herberto Helder, portadores do “ouro” do Prémio Pessoa 1994, encontraram o caminho de volta na simplicidade inflexível da palavra de um pobre guardador do seu crisol: «Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...»


«Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pela sua obra que, segundo o júri, iluminava a língua portuguesa.

Uma pipa de massa para quem tinha uma reforma curta.

Mas Herberto Helder recusou a distinção.

António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso, tentaram demovê-lo.

Conta o Alçada Baptista:

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério:

 - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito.

Eu só lhe disse:

- Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais.»

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO


Aqui na Bica tenho o Tejo à janela e o elevador à porta. Ter uma janela com o Tejo à frente é um gozo porque a gente, logo pela manhã, lava o olhar naquelas águas e vê passar os cacilheiros.

António Alçada Baptista em O Mistério de Lisboa, Relógio D’Água, Lisboa 1993

domingo, 9 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO


Fica-me a imagem dos bombeiros voluntários e dos seus capacetes amarelos, a entrarem no fogo, indiferentes à fadiga e ao perigo. São homens simples: operários, comerciantes, empregados, que deixam o trabalho e acodem ao fogo mal se ouve o silvo da sirene.

António Alçada Baptista em Um Olhar à Nossa Volta, Editorial Presença, Lisboa Outubro 2002.

terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER (1930-2015)


Corria o Natal de 1970 e eu encontrava-me na Livraria Portugal à procura de um livro para oferecer a mim mesmo.

Herberto Helder apenas o conhecia de nome, referido nos suplementos literários que, uma vez por semana, os jornais publicavam.

A capa colorida da 3ª edição de Os Passos em Volta de Herberto Helder, publicado pela Editorial Estampa, chamou-me a atenção.

Peguei-lhe e os olhos caíram logo nas palavras iniciais.

Gosto imenso de começos de livros. Nem todos ficam para a minha história.

Este ficou.

- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio.

Herberto Helder morreu ontem.

Tinha 84 anos.

Fugia de holofotes, multidões, mediatismos.

Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pela sua obra que, segundo o júri, iluminava a língua portuguesa.

Uma pipa de massa para quem tinha uma reforma curta.

Mas Herberto Helder recusou a distinção.

António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso, tentaram demovê-lo.

Conta o Alçada Baptista:

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério:

 - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito.
Eu só lhe disse:

- Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais.

Em Julho do ano passado publicou o seu último livro.

O título diz tudo: Morte Sem Mestre.

Um escritor como Herberto não necessita de palavreado encomiástico.

Porque sempre o considerou inútil e perene de hipocrisia.

Não gostava de dar entrevistas, nem de se deixar fotografar.

Foi um Natal feliz aquele de 1970.

Gosto de poetas misteriosos.

Gosto de autores que não consigo entender.

Sempre passos em volta.

Em volta sabe-se lá de quê.

Maria Teresa Horta:

Quantas vezes me prendi eu nas malhas envolventes da poesia de Herberto Helder e senti medo de não ser capaz dos seus poemas.

Luna Levi sobre Photomaton e Vox:

Devorei-o de um fôlego, num acesso de bebedeira deslumbrada.

É suficiente.

O resto é pegar nos seus livros.

Alguns de há muito esgotados.

Mas, certamente, irão ser reeditados.

Não os percam!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

PEQUENAS FORMAS DE RECUSA E COMPROMISSO


O que me parece necessário é procurar as razões profundas que levaram a sociedade portuguesa, sobretudo as suas elites, a submeterem-se inteiramente a um regime que afinal mostrou serem muito mais frágeis os alicerces em que assentava o seu poder.
Eu sei que, nestas épocas da história, nomeadamente quando não se vive em situação de miséria e opressão extremas, não se pode contar com epopeias. Mas julgo que não se pedia muito: não se pedia para enfrentar os tanques russos como na Hungria de 56 ou na Checoslováquia de 68. Pediam-se coisas acessíveis, pequenas formas de recusa e compromisso tão simples como a assinatura de uma revista ou a compra de um livro. Parece que as pessoas preferiram jogar na bolsa, indiferentes a coisas tão importantes como o facto de deixarem, durante doze anos, os seus filhos mergulhados numa guerra absurda, entre o absurdo de matar e o absurdo de morrer.

António Alçada Baptista em Pesca à Linha

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

MEDOS


O medo era tal que as pessoas nem o disfarçavam. Quando assinei um papel contra a guerra colonial, recebi um telegrama a louvar a minha coragem assinado por «um anónimo do Porto» e, uma vez, encontrei um na rua que se me dirigiu e disse: «Dou-lhe os meus parabéns pela sua revista. Sabe, eu não sou assinante mas compro sempre nas livrarias, porque tenho medo que vá lá a Pide buscar o ficheiro dos assinantes

António Alçada Baptista em Pesca à Linha

domingo, 21 de dezembro de 2014

OS SLOGANS PUBLICITÁRIOS DO O'NEILL


Nos tempos da ditadura salazarista, nomes consagrados da intelectualidade, fizeram da publicidade um modo de arredondar os escassos ordenados que usufruíam.

Por lá andaram, entre outros, Alves Redol, Orlando da Costa, Carlos Eurico da Costa, Mário Henrique Leiria, Luís Sttau Monteiro, José Cardoso Pires, Bernardo Santareno, José Carlos Ary dos Santos e Alexandre O’Neill.

Ary dos Santos e O’ Neill terão sido dos mais imaginativos.

Numa entrevista, O’Neill explicou-se:

Ser «copy-writer» é uma actividade engraçada pelo lado da invenção de «slogans», por exemplo. Só é chata quando o cliente não percebe as nossas intenções e acha que está tudo mal. O jeito para o jogo de palavras, trocadilhos, etc., vive comigo há muito tempo e tem-me prejudicado razoavelmente na poesia, embora agora já esteja melhorzinho. Eu descobri a publicidade através do cinema publicitário. Propus uma vez a alguém (por brincadeira, claro) que oferecesse um «slogan» ao Metropolitano de Lisboa. O «slogan» era: «Vá de metro, Satanás!» Esta brincadeira ia-me custando o emprego. Mas também fiz um, a sério, que foi muito conhecido e ainda hoje é usado (que pena não o ter registado!): «Há mar e mar / há ir e voltar.» Os bêbados pegaram logo nele, o que é uma verdadeira consagração: «Há bar e bar / Há ir e voltar…»

Mas naquele tempo, muito poucos estavam preparados para as ousadias, quer de Ary, quer de O’Neill e alguns dos slogans acabaram por ficar no papel.

Alguns slogans de Alexandre O’Neill:

Há mar e mar, há ir e voltar (Para o Instituto de Socorros a Náufragos).

Com colchões Lusospuma não se dá só uma (censurado, aparentemente pelo proprietário da fábrica.)

Bosh é Brom  acabou por ficar Bosh é Bom.

Gazcidla na cozinha é um descanso, virou Gazcidla, o gás da cidade.

Parker preenche em silêncio o seu papel

A Segurança Volta Sempre (Para a Rodoviária Nacional).

Ruy Belo no seu livro de ensaios Na Senda da Poesia destaca um outro slogan de O’Neil:

Estruturalistas de todo o mundo, congregai-vos.

António Alçada Baptista em Pesca à Linha conta que o Há mar há ir e voltar tinha uma outra versão que não foi utilizada: Passe um Verão desafogado.

Alexandre O’Neill votava no Partido Socialista e inventou um slogan, também não utilizado:

Ele não merece, mas vota no PS.

Um poema que pode ser um slogan:

Se acha que a vida não é boa
utilize gás da companhia
o combustível de Lisboa.

Legenda: pintura de Claude Monet

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

QUOTIDIANOS


Não vou publicar o texto. Pergunto-me porquê? Não é evidentemente por ter sido a história de um fracasso. Sou obrigado a reconhecer que os fracassos nunca me impressionaram muito e que a minha vida, no fundo, tem tido alguns fracassos de que tirei proveito e maturidade.

António Alçada Baptista em Pesca à Linha

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

QUOTIDIANOS


Sinto que vivo debaixo do peso da minha memória, que é ela que me identifica e, de certo modo, me condiciona. Por isso, o tempo é a minha matéria e o meu enigma. Se pensasse nisso a sério acho que a coisa que mais devia recear seria a amnésia pois, nesse dia, a minha vida inteiramente se apagaria e não sei se seria possível recomeça-la a partir de uma nova folha em branco. Felizmente, a antevisão da amnésia não está entre as minhas ansiedades preferidas. Restam-me outras ansiedades: tenho medo de ficar patetinha e senil e angustia-me a ideia de me meterem numa daquelas máquinas que prolongam o coma por meses e meses a fazem a angústia dos parentes mais próximos. Por favor, não me prolonguem o coma. A gente tem que morrer com alguma qualidade de vida.

António Alçada Baptista em Pesca à Linha

Legenda: imagem de Sétimo Selo, filme de Ingmar Bergman

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

DESPEDIDAS...


Hoje no Metro entre a Alameda e as Olaias, uma jovem, já não tão jovem quanto isso, conversa ao telemóvel – bem alto para toda a carruagem ouvir:

- O que te digo é que este ano foi péssimo, mas o próximo vai ser muito pior!...

- ?
- É como te digo…

- ?...

- Janto e enfio-me na cama, não quero saber de mais nada…

Miguel Torga, em Milão, no último dia do ano de 1932:

Não se pode dormir com tanta gente lá fora, aos uivos, a festejar o ano novo. Como se fosse possível um ano novo rer melhor do que o velho!

Vergílio Ferreira, no findar de 1978:

Estava eu a querer saber o que vou fazer este ano. Não sei.

António Alçada Baptista, em Dezembro de 1984:

Olho para o novo ano com fé e esperança. O meu incansável de sobrevivência faz-me recordar mais as alegrias que tive do que as tristezas. O que é que querem que eu faça? Gosto de viver e detesto a existência em forma de lamúria.

sábado, 19 de março de 2011

QUOTIDIANOS


Há aquele poema do Alexandre O’Neill que diz que o medo vai ter tudo e é isso que o medo quer. 

O medo do medo.

A luta contra Salazar e Caetano está cheia de histórias, umas pequenas, outras grandes.

António Alçada Baptista esbanjou a herança que lhe deixaram na criação da “Moraes Editora” e da revista “O Tempo e o Modo”.

Um dia contou esta pequena história:

“A situação do medo era tal que as pessoas nem o disfarçavam, achavam-no natural. Lembro-me que uma vez, alguém me encontrou na rua, deu-me os parabéns pela existência de “O Tempo e o Modo” e disse-me: “Sabe, eu não sou assinante, eu compro sempre nas livrarias porque tenho medo que um dia vá lá a PIDE buscar o ficheiro dos assinantes.”