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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta

Original é o poeta

que se origina a si mesmo

que numa sílaba é seta

noutro pasmo ou cataclismo

o que se atira ao poema

como se fosse um abismo

e faz um filho às palavras

na cama do romantismo.

Original é o poeta

capaz de escrever um sismo.


Original é o poeta

de origem clara e comum

que sendo de toda a parte

não é de lugar algum.

O que gera a própria arte

na força de ser só um

por todos a quem a sorte faz

devorar um jejum.

Original é o poeta

que de todos for só um.


Original é o poeta

expulso do paraíso

por saber compreender

o que é o choro e o riso;

aquele que desce á rua

bebe copos quebra nozes

e ferra em quem tem juízo

versos brancos e ferozes.

Original é o poeta

que é gato de sete vozes.


Original é o poeta

que chegar ao despudor

de escrever todos os dias

como se fizesse amor.


Esse que despe a poesia

como se fosse uma mulher

e nela emprenha a alegria

de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

RETRATOS


Nas suas almas abertas

traziam o sol da esperança

e nas duas mãos desertas

uma pátria ainda criança.


Gritavam Neruda   Allende

deram vivas ao Partido

que é a chama que se acende

no povo jamais vencido

- o povo nunca se rende

Mesmo quando morre unido.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Nas suas almas abertas

traziam o sol da esperança

e nas duas mãos desertas

uma pátria ainda criança.

 

Gritavam Neruda Allende

davam vivas ao Partido

que é a chama que se acende

no povo jamais vencido.

- o povo nunca se rende

mesmo quando morre unido.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Alguns traziam no rosto

um rictus de fogo e dor

fogo vivo fogo posto

pelas mãos do opressor.

Outros traziam os olhos

rasos de silêncio e água

maré-viva de quem passa

uma vida à beira-mágoa.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Mas não termina em si próprio

quem morre de pé. Vencido

é aquele que tentar

separar o povo unido.

Por isso os que ontem caíram

levantam de novo a voz.

Mortos são os que traíram

e vivos ficamos nós.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que nasceram para o Chile

morrendo de corpo inteiro.

José Carlos Ary dos Santos, poema Homenagem ao Povo do Chile  de O Sangue das Palavras em Vinte Anos de Poesia

terça-feira, 18 de agosto de 2026

MEU CAMARADA E AMIGO

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva   deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.

José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

RETRATOS


 

RETRATO DE MANUEL DA FONSECA

 

Eram campos   campos   campos

abertos de humanidade

era um vento que rasgava

apenas a claridade.

 

Eram palavras jorrando

de um olhar de escaravelho

era um homem inventado

a grandeza de ser velho.

 

Era terra   fome   sede

urze   tojo   trigo   vinho

alcateia   e   almocreve

alfazema   e   rosmaninho.

 

Era um fogo aprisionado

uma explosão de romãs.

Era um menino alumbrado

entre as pernas da manhã.

 

José Carlos Ary dos Santos em Fotos-Grafias

terça-feira, 28 de abril de 2026

O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos    quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, 7 de abril de 2026

EPÍGRAFE

De palavras não sei. Apenas tento

desvendar o seu lento movimento

quando passam ao longo do que invento

como pré-feitos blocos de cimento.

 

De palavras não sei. Apenas quero

retomar-lhes o peso  a consistência

e com elas erguer a fogo e ferro

um palácio de força e resistência.

 

De palavras não sei. Por isso canto

em cada uma apenas outro tanto

do que sinto por dentro  quando as digo.

 

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.

De mim próprio matéria bruta e brava

- expressão da multidão que está comigo.

 

José Carlos Ary dos Santos 

quarta-feira, 25 de março de 2026

MINHA MÃE QUE NÃO TENHO

Minha mãe que não tenho    meu lençol
de linho    de carinho    de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância.

Ai água que não bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que eu não oiço    ai mãe    ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste?    De que Ganges?
De qual pai tão distante me pariste
minha mãe    minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho    minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila    virgem    buda    corça
ou apenas um mundo em que não entro?

Minha mãe que não tenho    inventa-me primeiro:
constrói a casa    a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo    que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia

segunda-feira, 2 de março de 2026

EM NOME DOS QUE CHORAM

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo

 

José Carlos Ary dos Santos

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

EPÍGRAFE

De palavras não sei. Apenas tento

desvendar o seu lento movimento

quando passam ao longo do que invento

como pré-feitos blocos de cimento.

 

De palavras não sei. Apenas quero

retomar-lhes o peso  a consistência

e com elas erguer a fogo e ferro

um palácio de força e resistência.

 

De palavras não sei. Por isso canto

em cada uma apenas outro tanto

do que sinto por dentro  quando as digo.

 

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.

De mim próprio matéria bruta e brava

- expressão da multidão que está comigo.

 

José Carlos Ary dos Santos em  Insofrimento in Sofrimento

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

TEU PAI UM POTRO DE SANGUE

Teu pai um potro de sangue

emprenhou uma gazela

tu nasceste mas exangue

a vencida foi sempre ela.

 

A pouco e pouco cresceste

nos túneis da liberdade

nos túneis porque nas ruas

era bem outra a verdade.

 

Um povo inteiro pagava

o tributo de existir

e servia a quem mandava

agonizar a sorrir.

 

Depois menino batido

por tantas feras à solta

foste aprendendo o sentido

da vingança e da revolta.

 

Em ti deitaste raiz

tronco fino mas não frágil

e inventaste um país

maior mais livre e mais ágil.

 

De tudo te disfarçaste

cigano vadio actor

mas nunca te amordaçaste

nem português nem escritor.

 

Escrevendo com sangue e letras

entraste na grande guerra

e dos operários poetas

que escreveram esta terra.

 

Hoje a luta recomeça

mas já de igual para igual

muito obrigado Bernardo

Santarém de Portugal.

 

José Carlos Ary dos Santos

 

NOTA DO EDITOR:

Este poema/canção faz parte da peça Português, Escritor, Quarenta e Cinco Anos de Idade de Bernardo Santareno, representada pela primeira vez em 5 de Julho de 1974 no Teatro Maria Matos, numa encenação de Rogério Paulo. A música é de Fernando Tordo.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

PAVANA PARA UMA TIA DEFUNTA

A cabeça de vaca da minha tia mais velha

repousa em guerra lenta no cemitério maior.

Rói-lhe o bicho das contas a fímbria da orelha.

Rói-lhe o rato da raiva as narinas sem cor.

 

Repousa em paz Raposa que na toca

fareja a galinhola e o fricassé.

Já não mija mas cheira

já não vive mas ousa

ser a santa que foi  ser o estrume que é.

 

A cabeça de vaca de minha tia refoga

nas lágrimas burguesas da família enlatada

cozinha-lhe a memória um viúvo de toga

descasca-lhe a cebola uma filha frustrada.

 

A cabeça de vaca de minha tia meneia

o sim-sim i não-não dos outros semivivos

na família a razão de se morrer a meias

é a exalação dos suspiros cativos.

 

Se não fosse o desgosto  se não fosse a gordura

o retrato na sala  o buraco no ventre

se não fosse de força tinha feito a escritura

nem sequer houve tempo para o oiro dos dentes.

 

Minha tia mastiga  minha tia castiga

na saleta do inferno as almas dos criados:

– não me limpaste o pó  a campa tem urtigas

atrasaste o jantar dos condenados.

 

A cabeça de vaca de minha tia sem nome

coze no fogo brando do que é passar à história.

Dissolve-se na boca  resolve-se na fome

Do senhor que a devora em sua santa glória.

José Carlos Ary dos Santos em Resumo

segunda-feira, 21 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Esta é a semana em que Abril faz 51 anos.

A Música pela Manhã acompanhará algumas das canções, dos acontecimentos, que marcaram aquela madrugada que esperávamos.

A velha história: todos os começos são difíceis.

Mas poderemos começar com aquela noite de 29 de Março de 1974, no velho Coliseu dos Recreios a escassos 28 dias de passarmos a ser livres.

Pegamos em O Cinéfilo nº 27, datado de 6 de Abril de 1974.

Macário Contumélias, a quem foi dado reportar o acontecimento, escreveu assim:

«A coisa chamava-se – chamou-se o I Encontro da Canção. Estavam marcados para se encontrar com a malta o Quarteto de Marcos Resende, o duo Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, Manuel José Soares, Carlos Paredes (com Fernando Alvim); o conjunto espanhol Vino Tinto, que a televisão já vira; Pablo Guerreiro; Ary dos Santos; José Barata Moura; Manuel Freire; Fernando Tordo; José Jorge Letria; o conjunto Intróito; Adriano Correia de Oliveira; José Afonso; Ruy Mingas e Paulo de Carvalho; cá por mim fui lá, por dever de ofício, a contar com uma grande estopada. Não que, de um modo geral, eu estivesse com dúvidas sobre a importância da maioria dos convidados no contexto da nova canção portuguesa (embora não percebesse muito bem o que iriam lá fazer dois ou três dos que eram para – e acabaram por estar e não – estar presentes. Nada disso. O que eu temia era que, no meio da confusão, a coisa resultasse numa pepineira intragável. Mas fui! E agora que aquilo já passou, há uns dias largos, ainda guardo em mim uma grande emoção. Fosse lá porque fosse, naquela noite, no Coliseu, senti-me. E isso não nos acontece todos os dias. Isso é importante!»
Para cima de cinco mil encheram por completo o Coliseu dos Recreios em Lisboa e assistiram a algo que lhes marcou as vidas.

Tinha acontecido o 16 de Março, a confusão instalada, alguns a dizerem dizer que estava para breve, muitos, tantas vezes esperançados e depois frustrados a não acreditarem.

Naquela noite de emoções várias, passadas as portas do Coliseu, poderíamos pensar que talvez se aproximasse, assim como o poeta dissera à rapariga, o tal dia em que a Primavera se soltaria no País de Abril.

Assim foi.

De uma vez só, ficámos a saber que o acto de cantar é um acto que responsabiliza a pessoa que canta e as que o escutam.


Vou assinalar três passos da reportagem do Mário Contumélias:

1.

«Carlos Paredes Guitarra foi recebido com gritos isolados de «Tira a gravata, pá». Mas veio a música, e aquela sim, não era comercial, ou por outra, aquela era para ouvir com todo o corpo.

Os Verdes Anos foram impostos pelo público, muito mais maduro do que se pensaria.



2. 

E entrou, /De pé como um poeta ou um cavalo/, José Carlos Ary dos Santos. Entrou no palco entre assobios e aplausos. Pense eu o que pensar do Ary, como poeta ou declamador, a verdade é que ele tem muita força (aquela força que havia de faltar a Fernando Tordo). Eu venho cá dizer. Se não gostarem manifestem-se no fim.

E a malta manifestou-se. Aplaudindo o Soneto Presente. Com dois poemas, Zé Carlos, face à insistência do público, diz um terceiro, o Retrato de Alves Redol.



3.

«Quando, depois de Adriano acabar de cantar, José Afonso se aproximou do microfone, as palmas rebentaram. Venho aqui cantar uma canção, a GRÂNDOLA, disse Zeca.

Cerraram-se as luzes, e toda a sla, todos os 5 mil, de pé, entoaram em coro os versos da canção. Braços dados, corpos balanceando, pés, batendo no chão.

Quando o Zeca acabou, o público ficou lá, erguido ainda, nos camarotes, na galeria, na plateia, na geral, em todo o lado onde cabia mais um.»

segunda-feira, 1 de abril de 2024

SONETO PRESENTE

Não me digam mais nada senão morro

aqui neste lugar dentro de mim

a terra de onde venho é onde moro

o lugar de que sou é estar aqui.

 

Não me digam mais nada senão falo

e eu não posso dizer eu estou de pé.

De pé como um poeta ou um cavalo

de pé como quem deve estar quem é.

 

Aqui ninguém me diz quando me vendo

a não ser os que eu amo os que eu entendo

os que podem ser tanto como eu.

 

Aqui ninguém me põe a pata em cima

porque é de baixo que me vem acima

a força do lugar que for o meu

 

José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

FÉRIAS

Era uma rosa azul de água amarrada
Um palácio de cheiros  um terraço
E uma jarra de amigos derramada
Da casa até ao mar  como um abraço.

Era a intensa e clara madrugada
Com cigarras dormindo no regaço
E a ampulheta do sono defraudada
No tempo cada dia mais escasso.

Era um país de urzes e lilases
De tardes sonolentas espreguiçando
Um aroma de nardos pelo chão

E bandos de meninas e rapazes
Correndo amando rindo e adiando
A minha inexorável solidão.

José Carlos Ary dos Santos de O Sangue das Palavras em Vinte                                                            Anos de Poesia


domingo, 30 de abril de 2023

LABIRINTOS DE SONHO


Tempos de Primavera. Corria o mês de Outubro do ano de 1971.

Talvez ninguém pensasse que teríamos de entrar pela Europa dos comércios.

 As palavras publicitárias de José Carlos Ary dos Santos para a publicidade da lã virgem portuguesa:

Minha lã meu amor

Meu livre movimento

Minha festa de cor

Meu novelo de vento

 

Minha lã meu amor

Meu sol de formosura

Meu nilho de calor

Meu toque de ternura

domingo, 23 de abril de 2023

OUTROS QUOTIDIANOS


 Aquando da morte de Joaquim Pessoa, em buscas na net, encontrei no blogue «Ié-Ié» esta curiosa história que, aparentemente, deverá marcar o aparecimento público de Joaquim Pessoa:

«O Trio Araripa, de que falou no post do Paulo de Carvalho, fez-lhe recordar uma velha história.

No século passado, fez parte de uma lista candidata à Direcção do Sindicato dos Trabalhadores de Terra da Marinha Mercante, Aeronavegação e Pesca.

Escolhido para Presidente da Mesa da Assembleia Geral encontrava-se Luiz Villas-Boas que entendeu que se deveria encerrar a campanha eleitoral com um convívio musical.

Ele trataria de tudo.

Numa tarde de domingo conseguiu juntar na “Guilherme Cossoul”, José Carlos Ary dos Santos, Carlos Paredes, Fernando Tordo e o Trio Araripa.

Segundo Villas-Boas, o Trio Araripa fazia ali a sua estreia e era constituído por José Eduardo, Emílio e João. Navegavam, principalmente, na área jazzistica.

Ary dos Santos, pela primeira vez, recitaria, “Bandeira Comunista”.

Uma figura tímida, praticamente desconhecida, que não estava no programa, e que também recitou poemas. Tratava-se do Joaquim Pessoa.

O convívio acabou no bar da “Guilherme Cossoul” e não pode esquecer essa força da natureza que era Ary dos Santos. Acompanhava lulas recheadas com “gin-tonic” e pelo meio recitava poemas e contava histórias deliciosas.

Tempo, agora, para uma chapelada a esse extraordinário Vilas, outra força da natureza, que nos deixou em 1999, um companheiro bem-humorado, com uma cultura musical, simplesmente de arrasar.

Não tem qualquer tipo de dúvidas em afirmar que a História do Jazz em Portugal está balizada com um “antes de Villas-Boas”e um “depois de Villas-Boas”. »

domingo, 26 de dezembro de 2021

SONETO PRESENTE

Não me digam mais nada senão morro

aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que fôr o meu


José Carlos Ary dos Santos em Resumo

quarta-feira, 17 de março de 2021

O MEU É TEU


O meu é teu. O teu é meu
e o nosso é nosso quando posso
dizer que um dente nos cresceu
roendo o mal até ao osso.

O teu é nosso. O nosso é teu.
O nosso é meu. O meu é nosso,
e tudo o mais que aconteceu
é uma amêndoa sem caroço.

Dizem que sou. Dizem que faço,
que tenho braços e pescoço
- que é da cabeça que desfaço,
que é dos poemas que eu não ouço?

O meu é teu. O teu é meu
e o nosso, nosso quando posso
olhar em frente para o céu
e sem o ver galgar o fosso.

Mas tu és tu e eu sou eu
não vejo o fundo ao nosso poço,
o meu é meu, dá-me o que é teu
depois veremos o que é nosso.

José Carlos Ary dos Santos

Legenda: pintura de Alice Jorge

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

IN MEMORIAM


                                                          Requiem aeternam dona reis,

                                                          Domine, et lux perpetua

                                                          luceat eis

 

Que a terra lhe seja pesada.

Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,

Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta

E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento

E arrase com ela a memória gravada

Na lembrança demente dos que o choram.

 

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,

Cheio de ossos e uivos

E garfos aguçados

E que reparta o medo com o primeiro intruso

E o vento se insinue pelas portas fechadas

E rasteje no quarto

E suba pela cama

E lhe entre no olhar como estiletes de aço

Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,

Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,

Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.

 

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,

Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!

 

Que o nome que era o seu o persigam os ecos,

O gritem no deserto as gargantas com sede,

O murmurem no escuro os mendigos com frio,

O clamem na cidade as crianças com fome,

O soluce o amante de súbito impotente,

O maldigam no exílio as almas sem descanso

 

Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,

A pálpebra doente,

O vómito de sangue..

 

Que o gesto que era o seu o imitem as mães

Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,

O desenhem a lume os braços amputados,

O perpetue o esgar dos jovens mutilados,

O dance o condenado que morre na fogueira.

 

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco

A arma do ladrão

A marca do vencido.

 

Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,

A máscara de sal,

A vingança do pobre.

E que o Exterminadsor, no seu trono de enxofre,

O faça tilintar os guizos da tortura

Até que o mundo o esqueça

E mais ninguém o chore.

 

José Carlos Ary dos Santos de A Liturgia do Sangue em Vinte Anos de Poesia

quinta-feira, 23 de julho de 2020

CONVERSANDO


De muito novo comecei a ler Alves Redol e sempre gostei do que li. 

Como hábito antigo, para além de ler as obras dos autores de que gosto, sempre me habituei a ler o que sobre esses autores está escrito.

No caso de Redol, li o que Alexandre Pinheiro escreveu em Os Romances de Alves Redol, e no caso de A Barca dos Sete Lemes, que é o livro de hoje, recordo:

«A Barca dos Sete Lemes é um belo título para um livro, mas aquele que mais estaria de acordo com o seu conteúdo seria então: «A Arte de Transformar Um Homem do Povo num Carrasco.»

Do que li, há a conclusão de que Alves Redol era um homem de carácter, um homem ávido de gente.

Ou como escreveu José Gomes Ferreira::

«Senhores e senhoras: o segredo da Arte de Redol resume-se nesta frase: amou verdadeiramente o povo.»

Carlos de Oliveira deixou escrito em O Aprendiz de Feiticeiro:

«Quem fala do povo com a paixão obsidiante de redol, a sua teimosia, os seus momentos de grandeza, incomoda e vive na incomodidade. Isto explica, julgo eu, certos preconceitos políticos e literários, certo musgo que a humidade circunstancial (às vezes sem querer, mas outras de propósito) tentou gerar em torno de uma obra notável sob vários aspectos: autenticidade, fôlego, importância histórico-literária.

José Cardoso Pires estava em Londres quando Redol morreu:

«Esta manhã chegou-me o telegrama da Edite. Morreu o Redol. Fiquei diante da janela do quarto, a olhar, ou a não olhar, sei lá, o pátio coberto de neve - e tudo branco, tudo puro, o nada, e a notícia ali na minha mão a dizer-me que tínhamos' perdido o nosso velho António, o nosso querido e paciente amigo.
Não adianta, bem sei, desabafar-se assim. Mas na morte de qualquer escritor português digno há sempre um remorso do tempo, sempre. Há um outro cancro que vem detrás e que é a injustiça e o suportar em silêncio. E esse mal, quando não vence uma verdade interior, mata primeiro do que o vírus decretado pelas certidões de óbito.
As vezes que falámos nisto, eu e o Redol. Ainda há pouco, numa carta em que se despedia de mim para sempre, lá vinha esta verificação magoada e terrivelmente simples: «Sou um dos que vai morrer na incomunicabilidade com o seu tempo».

Grande parte da sua obra, redol escreveu-a durante as horas dos seus frugais almoços ou durante as viagens de comboio entre Vila Franca de Xira e Lisboa.

Mário Dionísio chamou-lhe um operário das letras e José Carlos Ary dos Santos deixou este magnífico retrato:

Porém    se por alguém não foi ninguém
cantou e disse flor canção amigo
a si o deve.    A si e mais a quem
floriu cresceu    cantou lutou consigo.

Homem que vive só    não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo    com todos    ficar vivo.

Nado-vivo da morte.    É isso.    É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer.    E dar por isso.