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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SOLTAS


  

Em tempos não muito distantes, as vindimas realizavam-se por finais de Setembro e iam por Outubro dentro.

E eram uma festa!

Devido às variações climáticas provocadas pelos humanos passaram a acontecer em finais de Agosto e entram por Setembro dentro.

Pedro Garcia, em crónica no Público de 4 de Setembro, fala das vindimas no seu Douro:

«Uma vindima de velório e a maldição do carvalho grande de Joseph Wayne
O abismo em que está a mergulhar a vitivinicultura, pela queda contínua do consumo de vinho, não é o fim do mundo, mas é uma boa metáfora da vida, de darmos tudo como garantido, e até do que nos espera, se seguirmos sem perceber a força e a verdade da natureza e se insistirmos em a desafiar, como estamos a fazer com a Inteligência Artificial, por exemplo, cujas infinitas possibilidades que ela nos abre dependem de mais consumo de electricidade e de água, para alimentar e arrefecer os grandes centros de dados. A IA é o novo combustível fóssil e pode ser ainda mais letal.
O leitor já percebeu que a vindimafoi um velório. Deve ser do meu natural pessimismo, que a idade vai agravando, mas colher uvas sem ver futuro no vinho não é uma tarefa agradável. E ter uvas e não encontrar quem as compre, como está a acontecer a muita gente, ainda é pior. O meu tio esteve certo no seu tempo. Hoje, não. As vinhas já não dão casas, é o contrário.»

1.

Um dia Benjamim Franklin, um dos principais Pais Fundadores dos Estados Unidos, cientista, inventor, diplomata e escritor, não esteve de modas, e disse:

«O vinho é a prova provada de que Deus nos ama e nos deseja ver felizes».

2.

Importante a opinião de João Paulo Martins, jornalista, escritor, um apaixonado por vinhos:

«O melhor vinho que bebi não foi seguramente o melhor vinho que já provei. O melhor que bebi foi-o porque eu estava no ambiente certo, com as pessoas certas, no momento certo».

3.

Tragam o vinho dos vivos, o vinho dos mortos, o vinho dos amanhãs perdidos. Não entregar o coração ao infortúnio. Nada se lucra com tristezas. O melhor remédio é pedir mais uma garrafa.

4.

Saímos de cena lembrando uma canção do filme The Young Ones, Cliff Richard com Os Shadows

«Amanhã

Por que esperar até amanhã?

Porque amanhã

Por vezes nunca vem.»

segunda-feira, 27 de julho de 2026

CONVERSANDO


Gosto mais de vinho, de gin-tónico, de espumante do que de cerveja, mas um fininho cai sempre bem principalmente em dias de canícula, e é indispensável num bife da vazia, com ovo a cavalo e batatas fritas.

Há dias dei com este pedacinho:

«Em contrapartida, se me quiserem irritar, basta servirem-me um fino sem espuma. É como beber um champanhe sem uma boa perlage, aquele fiozinho de bolhinhas de gás a subir copo acima. A espuma é um elemento vital da cerveja: reduz a oxidação e ajuda a conservar a temperatura e os aromas. Não é coisa pouca.»

Também eu me irrito com uma cerveja sem espuma e peço sempre com 2 dedos da dita.

sábado, 11 de julho de 2026

SOLTAS


«Diziam que este ia ser o mundial de futebol da vergonha, e é, por causa dos presidentes do EUA e da FIFA. Nem vale a pena recordar as razões. Personagens como Trump e Gianni Infantino, ou o nosso cruzado André Ventura, são tão coiso que todas as palavras que possamos usar acabam por sair prejudicadas na sua dignidade e importância. Vale mais recorrer ao cartoon, como o do ilustrador Vincent L'Epée para a revista satírica suíça Vigousse, em que o rosto do Presidente americano aparece em forma de sanita aberta. O tampo é dourado, como o seu cabelo.»

Pedro Garcias no Público

1.

A água é um bem precioso, quase ninguém o considera ou protege.

Falta água em Almada.

O jornal coloca em título:  

«O Governo não pode esconder-se atrás da incompetência da autarca»

O Correio da Manhã publicou uma crónica:

«Foi tudo lamentável no maldito baile de máscaras ocorrido ontem em Almada. Claro que a responsabilidade por uma situação tão grave quanto a falta de água é necessariamente da autarquia. A presidente da câmara fica na galeria dos piores autarcas da democracia ao sujeitar a população a viver semanas sem água, sem qualquer plano para evitar o pior, sem a mínima noção do que é preciso fazer, pelos vistos com o drama ainda longe do fim. Mas a forma como o Governo procurou desligar-se do problema, endossando a culpa ao poder camarário, dessa forma partidarizando o drama da falta de água, não foi bonito. A saída de cena da ministra do Ambiente, quando Inês de Medeiros procurava fugir às perguntas dos jornalistas, abandonando a presidente da câmara à sua sorte, não foi uma cena edificante. Naquela circunstância, exigia-se trabalho de equipa, um plano de contingência imediato. As torneiras vão continuar sem água à espera de obras, muito bem. E o abastecimento de emergência? E o pedido de ajuda aos bombeiros para distribuírem água à população? E a solidariedade inter-regional, a articulação de um sistema de transporte de líquido de outras paragens? Até no Algarve, no pico da seca, entretanto minimizada pelas chuvas, e com a pressão do turismo no máximo, foi possível criar abastecimentos de emergência. O Governo não pode esconder-se atrás da incompetência da autarca de Almada. É sua máxima responsabilidade o bem-estar das populações.»

2.

«O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, admitiu numa entrevista ao Financial Times que o rearmamento europeu é uma excelente notícia para os EUA, uma vez que sustentará 195 mil empregos na indústria bélica americana.»

Lido em Abril,Abril

 

Legenda: fotografia de Luís Eme 

sábado, 25 de abril de 2026

RETRATOS


«A minha ria é a do Douro do vinho e também a dos muitos cursos de água do Alvão, serra que avisto desde casa e em cujos lameiros verdejantes esvoaçam borboletas de todas as cores, como a muito ameaçada borboleta-azul-das-turfeiras. No último domingo, segui-lhes o rasto, desfrutando da sua beleza efémera e dos mistérios de outras espécies que habitam o mesmo espaço, como a minúscula orvalhinha-redonda (Drosera rotundifolia L.), uma plantinha carnívora com lindas folhas em roseta que segregam uma substância viscosa para capturar insectos. Mesmo ao lado, a aldeia de Lamas de Olo seguia na sua pacatez bucólica, já sem casas de colmo. É pena. Deviam ter preservado, bem à vista, pelo menos uma ou duas como testemunho histórico, para se perceber melhor a paisagem da miséria daquele outro tempo.

A ria de David Lopes Ramos, saudoso colega e amigo, era a de Aveiro e na sua criação os barcos coloridos ainda não transportavam turistas, só moliço para adubar as terras de areia. Era a mesma exótica pobreza de Lamas de Olo e do resto do país, sobretudo do interior, vivida com medo e sem esperança. Num caso como no outro, emigrar era o grande desígnio.

No dia 24 de Abril de 1974, tal como Vasco Lourenço e Melo Antunes, duas figuras centrais do golpe e da posterior democratização do país, David Lopes Ramos estava em S. Miguel, Açores, a cumprir o serviço militar, como aspirante a oficial miliciano. Era ajudante de Vasco Lourenço e, de algum modo, também lhe somos credores de podermos viver hoje em liberdade, sem medo de regedores, de bufos da PIDE e da própria; e até de podermos dizer mal de quem nos devolveu a dignidade e o sonho, como faz frequentemente o falso cristão e proto fascista André Ventura, um filho ingrato da democracia.

Mal recebeu de Melo Antunes o célebre telegrama enviado por Otelo — “Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25, 3 da manhã. Um abraço primo António.” —, Vasco Lourenço chamou alguns colaboradores, entre os quais David Lopes Ramos, a quem, depois do jantar, perguntou: “Ó Ramos, você sabe rezar?”. “Porquê? Porque me pergunta isso?”, respondeu-lhe David. “Porque, se soubesse, mandava-o rezar!”, acrescentou o capitão. “Não me diga! Não me diga que é hoje!”, exultou David, a tremer. “Sim, sim, é esta noite. Vamos embora preparar tudo…”, confirmou-lhe Vasco Lourenço. Em memória de David, o aspirante Ramos da Revolução de Abril

A partir das 3 da manhã, David Lopes Ramos foi para o quartel e, contou Vasco Lourenço, “ficou agarrado à rádio, a ouvir tudo o que era possível e a fazer-me relatórios da BBC, das rádios portuguesas, etc.”. Nessa noite, o aspirante Ramos teve uma outra tarefa: acordar Melo Antunes, que fora dormir para o casarão da sogra. “Eu fartei-me de telefonar toda a noite, e nada. A certa altura, disse ao David: ‘Vá lá a ver se o consegue acordar e se o traz’. Bem, atirou-lhe pedras contra a janela, acordou a vizinhança toda, mas o Melo Antunes só me apareceu pelas sete ou oito da manhã, finalmente acordado pelo telefone, que tocou toda a santa noite!”, recordou Vasco Lourenço.

Todos sabemos o que se passou em Lisboa e o que veio a seguir. Por intervenção de Melo Antunes e Vasco Lourenço, David Lopes Ramos viria a integrar o Movimento das Forças Armadas, tendo sido o adido de imprensa de Vasco Gonçalves nos quatro governos provisórios que este general liderou, entre Julho de 1974 e Setembro de 1975. Nesse tempo, era a David que todos os jornalistas recorriam e “por quem tinham uma grande consideração e respeito”, como recordou ao PÚBLICO o jornalista António Borga.

Após a queda do V Governo, David Lopes Ramos ingressou no Diário de Notícias (DN). Por pouco tempo: ele e outros jornalistas foram afastados logo a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Saiu do DN, mas nunca mais abandonou o jornalismo. Esteve ligado à fundação do jornal Diário e viria, mais tarde, a integrar a equipa inicial do PÚBLICO, primeiro como subeditor de secção Cultura, depois como editor da Sociedade e finalmente como crítico de gastronomia e vinhos, primeiro na revista de domingo e a seguir no suplemento Fugas, onde se consagrou como um dos mais respeitados e reputados críticos de gastronomia e de vinhos do país.

David Lopes Ramos morreu no dia 29 de Abril de 2011 e já não viveu para assistir à tentativa de reescrita da História por parte da direita extremista, e não só. Imagino o que teria dito e pensado se tivesse assistido ao debate televisivo entre Pacheco Pereira e o líder do Chega e à tentativa deste de colocar no mesmo patamar os 48 anos da ditadura com os excessos e desvios dos 19 meses que separaram o 25 de Abril de 1974 do 25 de Novembro de 1975 — e até dos anos seguintes. Excessos e desvios próprios de qualquer revolução e que a consolidação do processo democrático foi corrigindo. Com uma irónica excepção: os únicos crimes violentos, com mortes, que ficaram sem castigo até hoje, é bom lembrá-lo, foram cometidos por grupos ou movimento de direita, como o MDLP, a que pertencia um dos ideólogos do Chega, Pacheco Amorim.

André Ventura também deve colocar David Lopes Ramos no mesmo saco dos “criminosos” da Revolução de Abril. Mas o líder do Chega teria de nascer três vezes ou mais para poder equiparar-se-lhe em honestidade, correcção e bondade. Mais do que um grandíssimo jornalista e crítico gastronómico, David era um homem intrinsecamente bom. Tê-lo conhecido e ter sido seu amigo foi uma das grandes dádivas que o jornalismo me deu.

A seu pedido, David Lopes Ramos foi cremado e parte das suas cinzas foram depositadas no cemitério de Pardilhó, Estarreja, a sua terra natal, e onde na próximo sexta, dia 1 de Maio, alguns amigos e a família irão fazer uma romagem. “O meu irmão faz-me muita falta”, suspira Arménio, o seu único irmão, 70 anos, cara chapada de David no que este tinha de mais virtuoso. A outra parte das cinzas foi espalhada na sua adorada ria de Aveiro, a que sempre voltava, para recordar os seus mortos e partilhar com os vivos o prazer simples de uma caldeirada de enguias, um peixe grelhado acabado pescar pelos artesãos da arte Xávega ou um galo caseiro assado no forno.

Um brinde à sua memória! E viva o 25 de Abril!»

Pedro Garcias no Público

segunda-feira, 23 de março de 2026

À LUPA


«Quem terá sido o assessor que aconselhou António José Seguro a andar com cara de governante em tempo de catástrofe, sempre grave e rígido? Cavaco era assim e vejam como acabou. Em todo o caso, gostei de saber que o novo Presidente serviu um vinho pouco conhecido no jantar oficial da tomada de posse. Chama-se Serra P e é produzido pelo próprio Presidente. É um luxo termos um vitivinicultor em Belém.

O vinho de Seguro, os lobos de Hollywood e a bulha no Chega
De certeza que o vinho foi oferta da casa, para poupar no orçamento da Presidência e mostrar que o país não vive só de Barca Velha ou Pêra-Manca. Há mais país e vinho no jardim. Imagino o que estarão a pensar alguns leitores: “Lindo começo, ao primeiro jantar oficial serve logo o seu vinho e não o esconde de ninguém. Já parece o Trump.” Mas não há razão para tanto. Seguro é assim, um rural honesto e simples, desses vitivinicultores que se orgulham das suas raízes e têm brio no que fazem. Quando recebem alguém em casa, não vão comprar frango assado ao Continente ou bacalhau com natas ao Pingo Doce. Cozinham algo especial e servem o seu melhor vinho. Por norma, perguntam: “É bom, não é?” Foi o que aconteceu, aposto. Além do mais, e para que não houvesse dúvidas, Seguro já tinha passado o negócio do vinho e do turismo para os filhos.»

Pedro Garcias no
Público

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A TRETA MICHELIN


«Por regra, a essência do gosto da saudade está nas comidas de casa e da família. São as memórias dessas comidas que carregamos toda a vida e que vamos tentando passar às gerações seguintes.

Um conjunto de restaurantes pode colocar um país no mapa turístico. Porém não faz uma cozinha. Que receitas já saíram do espaço Michelin para o dia-a-dia dos povos? O melhor é darmos à cultura Michelin a importância merecida e que não é tanta como a que os chefes, críticos, influenciadores e políticos lhe atribuem»

Pedro Garcias de uma crónica no Público.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

HAVIA DE LHES BATER À PORTA


Os saloios engravatados colocaram o vinho em preços proibitivos.

Os chefs vampiros – eles comem tudo enão deixam nada -  inventaram restaurantes, criaram coisas a que chamam alta comida.

Agora nesses restaurantes não se bebe vinho, apenas água, alguma cervegita.

Segundo há dias revelava o Público, os restaurantes da alta engravatada  trabalham, quando trabalham, apenas para pagar contas, empréstimos ao banco.

Pedro Garcias em crónica no Público:

«O que está a acontecer com a restauração vai repetir-se mais cedo ou mais tarde com a hotelaria nacional. O boom de novos hotéis e os altos preços praticados, em particular em regiões com maior procura turística, não vai acabar bem. Quando ir jantar fora ou dormir num hotel se torna num luxo inalcançável para a população local, a tempestade futura está garantida.
Para muitos restauradores, como se vê, o futuro já chegou, e a culpa talvez não seja da economia. Talvez seja mais do deslumbramento que o turismo trouxe ao país e da tal cultura Michelin. Uma cultura mais ou menos sublimada na ideia de que um restaurante só poderá aspirar ao estrelato pneumático se apostar no requinte da comida, do espaço e do serviço. Na busca desesperada por uma estrela, muitos chefes e empresários fazem investimentos loucos e levam o serviço a um nível quase ridículo, muitas vezes com mais funcionários na cozinha e na sala do que clientes. Como é óbvio, os preços dos menus têm que ser muito altos.»

domingo, 25 de janeiro de 2026

A TRANSFORMAÇÃO DE MONTENEGRO EM RÃ


 «Nessa altura, André Ventura ainda não tinha nascido e Luís Montenegro estava a entrar para a escola primária. Duas décadas e meia depois, o primeiro faz o que quer do segundo — goza-o, insulta-o, humilha-o, age como Trump com os seus críticos —, e, mesmo assim, o segundo anui e baixa a cabeça. Colocar o líder do Chega no mesmo plano de António José Seguro diz tudo sobre Montenegro. Nem sabe o que aí vem. Um dia, muito em breve, acorda, olha-se ao espelho e vê uma rã, acabada de ser engolida e cuspida por um Ventura de peito feito com a honrosa derrota que o espera na segunda volta das eleições presidenciais. Nem o PS lhe valerá, porque o líder socialista também acredita que o partido acaba de ressuscitar. Os passistas, esses, assistem de camarote, como escorpiões em pedra bolideira. Quando atacarem, depois de darem corda ao bicho, talvez já seja tarde até para eles.»

Pedro Garcias na crónica do Público de 24 de Janeiro

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A PASTORAL AMERICANA DE TRUMP


 «A pastoral americana de Trump é uma boa porcaria. Não difere muito da pastoral americana retratada por Philip Roth no livro com o mesmo nome. Mas enquanto o segundo se esforçou por desmontar o mito do sonho americano e da suposta grandeza da América, o primeiro sonha com o regresso da América dominadora e temida, numa idealização puramente narcísica de um reizinho com o cérebro de uma criança. E usa a força e o medo para o conseguir. Que cerca de metade dos americanos o apoiem é a prova de que a tal América idílica é mesmo um mito.

Como isto está, até apetece fugir para um lugar remoto, sem comunicações e acesso a notícias. Mas talvez não seja uma ideia muito corajosa. Neste tempo de fanfarronice, ganância e pirataria, vale a pena continuar a resistir. Até porque há uma certeza que nos dá algum consolo: tanto Trump como Putin e todos os ditadores também terão o seu dia. No mínimo, morrerão.»

Pedro Garcias no Público de 10 de Janeiro

sábado, 8 de junho de 2024

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Vinhos e Aguardentes de Portugal

Anuário 99/2000

IVV – Instituto da Vinha e do Vinho

Coordenadora: Maria José Cruz

Lisboa, 2000

“Não quero salvar o passado. Pretendo apenas conquistar o futuro”.

Em 2000 assinala-se um século da edição do livro “O Portugal Vinícola”, obra monumental de Cincinnato da Costa, ilustrada com aguarelas de Roque Gameiro

Obra de referência técnica fundamental na caracterização das castas tradicionais portuguesas, manteve ao longo do século o mito de livro raro e valiosos, que constitui, mo seu aparecimento na Exposição Universal de paris de 1900, um relevante elemento de divulgação de  “um dos primeiros e melhores países produtores de vinho”.

Este é outro livro que se encontra no Outro Lado das Estantes da Biblioteca da Casa.

Um enorme livro, publicação anual, com 526 páginas, profusamente ilustrado, onde estará tudo o que sobre Vinhos e Aguardentes de Portugal se pode encontrar.

Uma Bíblia? Uma Enciclopédia?

O que for será!

Alexandre Dumas dizia que o vinho é a parte intelectual de uma refeição.

Louis Pasteur: «O vinho é a mais sã e higiénica das bebidas.»

João Paulo Martins: «O melhor vinho que bebi não foi seguramente o melhor vinho que já provei. O melhor que bebi foi-o porque eu estava no ambiente certo, com a as pessoas certas, no momento certo.»

Pedro Garcias numa das sua crónicas no Público:

«A felicidade à distância de um copo de vinho ou de um beijo na boca de seis segundos
Nos últimos dois anos, resolvi conceder a mim mesmo pausas prolongadas de consumo e de exposição ao mundo social do vinho. Recuei para voltar a sentir o prazer de beber um bom vinho em família e com os amigos, sem me preocupar em descobrir as mil e uma nuances da bebida. Bebido assim, sem exibicionismos e excessos, como mero auxiliar do convívio humano, o vinho é mesmo uma bebida extraordinária, um dos melhores remédios contra o tédio e a angústia existencial.
A felicidade à distância de um copo de vinho ou de um beijo na boca de seis segundos
Perante o destino conhecido, há quem beba para esquecer e fugir à consciência clara e insuportável da nossa finitude. Mas não era bem essa a função que Omar Khayyam atribuía ao vinho. O vinho como analgésico leva quase sempre à adicção. Quando o tédio é o próprio vinho, mais vale beber água. O programa do poeta persa era outro e mais simples: se vais ter que morrer, se a vida é um instante fugidio, então não desperdices nada do que te possa fazer feliz.

Numa taberna pedi a um velho que me informasse sobre aqueles que morreram.

Respondeu-me:

Não voltarão. É tudo o que sei. Bebe vinho.» 

domingo, 2 de junho de 2024

OS PORTUGUESES ADORAM SER ENGANADOS

 Uma mania tão velha quanto eu: acumular jornais, revistas a um canto e depois, lentamente. lê-los.

O final da crónica de Pedro Garcias no «Fugas» do Público de 27 de Abril intitulada «Ripley, Il cielo in una stanza de Mina e a dissimulação de Bugalho»:«Ripley, Il cielo in una stanza de Mina e a dissimulação de Bugalho»:


«Nem de propósito, Luís Montenegro sentenciou esta semana Sebastião Bugalho como o cabeça de lista da AD às próximas eleições europeias, apresentando-o como um jovem “disruptivo”, “conhecido” e “talentoso”. Lembrei-me logo de Mr. Ripley. Mas, ao contrário deste, a dissimulação em Montenegro não tem nenhuma piada, é demasiado óbvia. Escolheu Bugalho por ser um conhecido e bem aparentado comentador televisivo, não por qualquer ideia que o jovem que lutou para ser velho antes do tempo possa ter sobre a Europa. Com esta escolha, Montenegro deixou bem clara a importância que dá às eleições europeias (é pouca ou nenhuma), mostrou-se tão “pipi” como o que criticava no orçamento do anterior Governo e ainda sujeitou Rui Moreira ao vexame público, para não ter que enfrentar alguns sociais-democratas do Porto.

Ripley, Il cielo in una stanza de Mina e a dissimulação de Bugalho
Cá para nós: Moreira, o “príncipe” do Porto, fez por merecer a humilhação, perante as suas evasivas, a sua soberbazinha e o que jurara, que nunca trocaria a Câmara por nada, embora toda a gente soubesse que abandonaria o barco mal tivesse a possibilidade de ser presidente do F.C. Porto (Pinto da Costa ainda pensou nele como delfim, mas mudou de ideias) ou assumir um cargo político relevante. Bugalho, por seu lado, mostrou uma vez mais o poder da SIC (Emídio Rangel é que tinha razão). Sebastião comeu a papa a toda a gente: ele nunca quis ser jornalista; na verdade, nunca foi um verdadeiro jornalista. Ele sempre trabalhou para uma carreira política. Era o seu sonho e confessou-o várias vezes. Os portugueses adoram ser enganados.»

segunda-feira, 20 de maio de 2024

ASSIM VÃO AS NOSSAS GENUIDADES...

Nuno Rogeiro aproveitou o seu programa Leste-Oeste, na SIC, para falar de uma outra guerra: a do vinho do Porto. Alguém lhe encomendou o sermão e o comentador fez-lhe a vontade, avançando com números e explicações próprias de quem está na praia errada, como dizer que, “quando o mosto começa a fermentar, o chamado generoso”. Ora, chama-se “generoso”, ou fortificado, ou vinho fino ao vinho já aguardentado. Mas tudo bem. Tirando alguns lapsos, desculpáveis, uma vez que o vinho do Porto é mesmo um mundo demasiado complexo, Nuno Rogeiro levantou uma questão importante, que os decisores do vinho do Porto gostam de manter debaixo do tapete: como é possível continuar a produzir um vinho com denominação de origem controlada, único no mundo, que leva na sua composição um quarto de vinho proveniente de Espanha ou de França em forma de aguardente?
O Douro é como uma senhora distinta que se deixou levar por maus caminhos
Cada pipa de vinho do Porto (550 litros) leva cerca de 120 litros de aguardente e essa aguardente é quase toda comprada fora do Douro e de Portugal. Onde está a genuinidade do vinho?»

Pedro Garcias, crónica do Público de 4 de Maio de 2024-05-20

Legenda: imagem tirada de A Publicidade em Portugal Através do Bilhete Postal

sexta-feira, 8 de março de 2024

POSTAIS SEM SELO


Pode não parecer, mas os vinhos e a política têm muitas coisas em comum. A mentira é uma delas. 

Pedro Garcias no Público

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

E UMA CRISE À PORTA...



 O que nos vai valendo é o turismo e, por via dele, a restauração, onde se vendem os vinhos de maior valor acrescentado. Graças aos visitantes, estamos quase a aproximar-nos dos 70 litros/ano por cada português. Tem sido sempre a subir. É bom para o negócio, apesar de não ser uma boa estatística para um país com elevadas taxas de alcoolismo.

Só que o turismo pode estar a cegar-nos, impedindo-nos de ver a bolha em que vivemos também no vinho. Não há milagres: quando o dinheiro começa a faltar para a comida, o vinho é o primeiro a sofrer. Vêm aí tempos difíceis, embora ainda não seja o diabo, espero. Se empobrecermos só um bocadinho e com saúde já não será mau. Antes de nos queixarmos, convém olhar à nossa volta. Antes um pouco de austeridade e umas cubas a abarrotar de vinho do que um míssil transviado.

Pedro Garcias de uma crónica  no Público

sábado, 16 de setembro de 2023

FASCÍNIOS DO VINHO

«Ainda assim, já chorei com o vinho. Nuns casos porque me emocionei com o seu carácter e pureza, noutros pelos efeitos do álcool. Um dos grandes fascínios do vinho é o de ser um belo catalisador da memória e da lucidez. Pela sua mão, resgatamos vivências memoráveis e tornamos mais crua a nossa humanidade. Tanto pode deixar-nos angustiados como momentaneamente felizes. Com frequência, costumo ir de um estado ao outro. E é quando chego àquele ponto de euforia sentimental que, sem saber bem se é de alegria ou se é de tristeza, por vezes colapso.»

Pedro Garcias, de uma crónica no Público.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Um copo de vinho por dia pode reduzir o a risco de demência.

Pedro Garcias de uma crónica no Público.

Legenda: Cartaz da Junta Nacional do Vinho, 1937

sábado, 22 de abril de 2023

POSTAIS SEM SELO

O problema é mesmo do país e, sendo assim, está em todos nós. Quem nunca pediu um favor ou meteu uma cunha, ou se calou perante um abuso, que levante o braço!

Vou beber um copo, para a realidade não ser tão dolorosa.

Pedro Garcias 

domingo, 26 de fevereiro de 2023

CONVERSANDO


 Porque hoje é domingo.

E o que faz ele ao domingo?

Antes de o obrigarem a poupanças energéticas, o almoço de domingo era sempre um assado no forno.

Agora entretém-se  a ler a crónica  de Pedro Garcia no Fugas do Público.

A de ontem metia futebol e vinhos de Colares.

Durante muitos anos passou fins de semana e férias em Almoçageme.

O pai normalmente, ao lanche, matava, no Café do João, uma garrafinha de Colares branco com uma torrada aparada e mais mais para o final da garrafa, chegava um sandes de presunto em pão saloio.

O João nem sempre arranjava Colares e o pai ficava-se com um honesto Beira-Mar da velha António Bernardino Chitas.

A Biblioteca da Casa tem os livros do Eça bem como toda uma série de livros sobre o autor e em que se destacam Livros e Roteiros sobre os comeres e os beberes que abundam na sua obra, todos eles da autoria de Dario Castro Alves, um brasileiro que se encantou com a obra de Eça de Queiroz.

 Estes livros são um divertimento, ainda possíveis de serem encontrados nas feiras livrescas de ocasião, que se fazem em alguns bairros de Lisboa, também em  alfarrabistas.

Esses livros são 

Era Porto e Entardecia

Roteiro de Os Maias de Eça de Queiroz e de Todas as Comidas e Bebidas no Romance.

Era Tormes e Amanhecia 1º Volume e  2º Volume

 Mas vamos então ao final de crónica que Pedro Garcias escreveu no Fugas do Público:

«Quando chegámos aos tintos, para acompanhar um cozido, desiludimo-nos logo com um Dão pelo qual tínhamos muito afecto e a seguir com o mesmo Colares de 1980, que estava tão defeituoso como os que tínhamos bebido no Chiado. E foi aí que o meu amigo lembrou Eça de Queirós, julgando ser este pouco amigo dos vinhos de Colares e, pelos vistos, com razão. Para o comprovar, leu um excerto de O Mandarim, na voz do personagem Teodoro:

«Ah!, que dia! Jantei num gabinete do Hotel Central, solitário e egoísta, com a mesa alastrada de Bordéus, Borgonha, Champagne, Reno, licores de todas as comunidades religiosas - como para matar uma sede de trinta anos! Mas só me fartei de Colares. Depois, cambaleando, arrastei-me para o lupanar! Que noite!».

Eu e outro amigo comensal, benfiquista tão antiportista que é incapaz de pronunciar o nome do FC Porto, franzimos o sobrolho. Ambos percebêramos na descrição um elogio, não uma crítica aos Colares. Num exercício hermenêutico, lemos e relemos aquela passagem e a verdade é que, com um pouco de favor, a interpretação pode dar para os dois lados. Certamente que, ao escrever “mas só me fartei de Colares”, Eça queria dizer que, de entre tantos vinhos bons, só se tinha saciado com Colares, ao ponto de ficar tão radiante que foi acabar a noite a um lupanar (bordel). Fartar tinha ali o significado de saciar. Morra Marta, morra farta! Mas ao terminar a frase sem um ponto de exclamação, recurso que usara antes e depois daquela frase, também deixava no ar a possibilidade de só se ter fartado, no sentido de fastio, com os Colares - daí ter ido afogar as mágoas em colo feminino. Um ponto de exclamação acentuaria o sentido de agrado e acabaria com as dúvidas.

A tese do meu amigo sportinguista podia ganhar força nesta passagem de O Primo Basílio: «Ele teve um sorriso infeliz. - Cear! Se se podia chamar cear ir ao Grémio rilhar um bife córneo e tragar um Colares peçonhento!». Mas, se não bastassem as muitas garrafas de Colares que Eça de Queirós bebeu ao longo da vida em borgas com os amigos, há um trechinho n' Os Maias que equivale a uma verdadeira declaração de amor aos famosos e cada vez mais escassos vinhos de areia. Numa carta interesseira ao tio Guimarães, o rico e gordo Dâmaso Salcede escreve: “O meu querido tio sabe como eu gosto de si, que até estava o ano passado com tenção, se soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de Colares”.

Meia pipa é muito vinho. Dava para o homem se fartar. Julgo que o meu querido amigo sportinguista andou durante muito tempo enganado com os Colares de O Mandarim.»