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sexta-feira, 5 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

             Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


5 de Abril de 1974

A Rádio Renascença despediu o jornalista Rui Pedro.

Em carta assinada pelo director da estação, Padre Américo Brás da Costa, é invocada como justa causa uma entrevista que Rui Pedro deu à revista Cinéfilo, na qual o jornalista tomou uma “posição de desobediência e desrespeito à entidade patronal”, causando com isso “manifesto prejuízo moral, social e material da Rádio Renascença”.

A parte da entrevista que deixou os senhores bispos completamente fora de si, refere a resposta de Rui Pedro quando lhe é perguntado o porquê de estar ao serviço dos noticiários da Rádio Renascença:

“Entricheirar-me numa estação de rádio, evitando assim que o inimigo ocupe aquele espaço de tempo.”

Tão só. 

Ainda com a tal madrugada por chegar, Rui Pedro, declarava-se disposto a colocar um pauzinho na engrenagem do regime, antevendo metas, os grandes pequenos nadas que desbravaram os caminhos. De todos esses pequenos nada, alguns ainda por conhecer, um dia se fará a História.
A carta da Rádio Renascença enviada a Rui Pedro:


“Atendendo a que já por várias vezes foi admoestado por transgredir as normas disciplinares que regem o trabalho do noticiário da Rádio Renascença que lhe foi confiado, atendendo a que veio agora a público, numa entrevista, revelar as intenções que o levaram a introduzir-se neste serviço da estação de rádio, manifestamente contrárias à sua directriz e disciplina, que bem conhece, e a que publicamente declara que está na disposição de não acatar as normas e a disciplina de que a estação não pode abdicar, tornando-se assim uma posição de desobediência e de desrespeito à entidade patronal e causando manifesto prejuízo moral, social e material à Rádio Renascença, o conselho de gerência, tendo presente o artº 20 , da lei geral do contrato de trabalho, ao abrigo do artº 101, comunica-lhe que a partir de agora fica despedido do seu lugar de funcionário, com justa causa.”

Esta foi a Carta Aberta que a Direcção da revista Cinéfilo enviou à Rádio Renascença.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


3 de Abril de 1974

A sala do Politeama, foi pequena para conter a multidão que quis assistir à estreia de Eusébio, a Pantera Negra, filme de Juan de Orduña, que, vítima de um acidente de viação, nos primeiros dias de Fevereiro, não concluiu o filme.

Diz quem viu, que o filme é um perfeito desastre, um nítido oportunismo à volta da grandeza, da popularidade de Eusébio da Silva Ferreira.

Houve quem poupasse horas de vida em não ir ver o filme mas outros, grande parte, têm esgotado as sessões e gritam, aplaudem, assobiam como tudo estivesse a acontecer no estádio.

A agenda do Cinéfilo, coloca-o no espaço de DIA NÃO e explica a escolha desta maneira:

«Eusébio já viu e não gostou. Para nós tem o maior crédito a opinião de profissional tão competente e só lamentamos que o seu nome possa servir para avalizar negociatas deste jaez, que apelam, única e exclusivamente, para a exploração mais rasteira de um fenómeno, que interessa muita gente neste País – o desporto e os seus praticantes.
Num terreno tão propício (oh, se era!) a uma análise das implicações sociais e humanas do desporto profissional na vida de certas sociedades e com uma figura, como a de Eusébio, tão significativa da apropriação de um atleta para fins que já ao desporto não dizem respeito, que polémico filme se poderia ter feito, se os interesses em jogo não fossem movidos pela mera sede de lucro fácil. Mas, no fundo, não será isto, em grande parte, a desgraça permanente de um homem como Eusébio?»

Registam-se greves em grandes empresas como a UCAL, a Siemens, a Motra, a UTIC, a Philips.

O Sindicato Nacional dos Empregados Bancários do Distrito de Lisboa protesta contra a proibição governamental de uma assembleia geral para discussão da revisão salarial.

Há escassez de bacalhau, queixam-se os armadores. As capturas diminuem desde 1969 e a frota portuguesa já só atinge 47% das necessidade de consumo. O almirante Henrique Tenreiro, presidente da Junta Central das Casas de Pescadores e delegado do governo junto do organismo das pescas, mantém o habitual silêncio.

sexta-feira, 29 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

             Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


O que acima se vê, é um pormenor da 1ª página do semanário Cinéfilo nº 27, da semana 6-12 de Abril de 1974.

Ainda não se tinham apagado todos os sons, todos os sentimentos do espectáculo de Patxi Andión no Coliseu, e a 29 de Março realizava-se o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa, que entendera substituir a habitual “Grande Noite do Fado”,e à reportagem-crítica desse espectáculo, a rapaziada do Cinéfilo, colocava em título: EM BUSCA DA FESTA!

Que festa?

José Saramago já, anos antes, 1966, anunciava que, num qualquer dia  chegaria o DIA DAS SURPRESAS.

Entre outros participaram na festa: Carlos Paredes, José Carlos Ary dos Santos, José BarataMoura, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Manuel Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino.

O crítico e radialista Mário Contumélias estava encarregado de contar aos leitores cinéfilos, o que nessa noite iria acontecer na velha sala das portas de Santo Antão e para ele mesmo dissera que aquilo talvez redundasse numa «pepineira intragável», mas fecha a abertura do texto deste modo:

«E agora que aquilo já passou, há uns dias largos, ainda guardo em mim uma grande emoção, Fosse lá porque fosse, naquela noite no Coliseu, senti-me. E isso não nos acontece todos os dias. Isso é importante!»

Dois pormenores da reportagem:

«E entrou José Carlos Ary dos Santos. Entrou no palco entre assobios e aplausos. Pense eu o que pensar do Ary como poeta ou como declamador, a verdade é que ele tem muita força. Eu venho cá dizer poesia. Se não gostarem manifestem-se no fim.

E a malta manifestou-se. Aplaudindo o Soneto Presente. Com dois poemas, Zé Carlos, face à insistência do público, diz um terceiro, o Retrato de Alves Redol.»

«Quando, depois do Adriano acabar de cantar, José Afonso se aproximou do microfone, as palmas rebentaram.

Venho aqui cantar uma canção GRÂNDOLA, disse Zeca.

Cerraram-se as luzes, e toda a sala, todos os 5 mil, de pé entoaram em coro os versos da canção. Braços dados, corpos balanceando, pés batendo no chão.

Quando o Zeca acabou, o público ficou lá, erguido ainda, nos camarotes, na galeria, na plateia, na geral, em todo o lado onde cabia mais um.»

Naquela noite, sob forte vigilância policial e pidesca, mais de cinco mil pessoas, entoaram espontaneamente, Grândola, Vila Morena, ironicamente uma das duas canções que a censura permitiu que, nessa noite, José Afonso cantasse. A outra seria Milho Verde,
mas «Grândola», canção de José Afonso, (incluída em Cantigas do Maio , de 1971, e interpretada pela primeira vez ao vivo em Santiago de Compostela, na Galiza ) posteriormente, escolhida pelos militares do MFA como segunda senha de arranque da Revolução dos Cravos.

 Não há machado que corte a raiz ao pensamento, um entusiasmo delirante e o espectáculo a encerrar com todos os artistas participantes a cantarem, com toda a sala de pé, braços dados, Grândola Vila Morena, ao ponto de Regina Louro escrever na Flama de 12 de Abril: “Até as luzes de gala se acenderam, para esse espectáculo-participação”.

Aquela noite fazia já antever o que, uma vintena de dias depois, veio a acontecer: o consumar do grito do poeta à rapariga, para que ela não esquecesse que um dia iriam soltar a Primavera no País de Abril, o microfone que falaria numa noite às 4 e tal… a madrugada donde um país emergiu da noite e do silêncio.

sábado, 23 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


              Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


Hoje, esta viagem começa com um toque de ordem pessoal.

Apesar de diversas tentativas, não consegui bilhete para o espectáculo de Patxi Andión no Coliseu no dia 23 de Março de 1974.

A verdade: o acto de cantar é um acto que responsabiliza a pessoa que canta e os que a escutam.

Isso, e algo mais, muito mais, era Patxi Andion, o mestre que cantava com todo o mar por trás.-

Tentou cantar duas vezes em Portugal mas puseram-no na fronteira.

Mas às três foi de vez. O semanário Cinéfilo, na secção “Sete Dias da Semana”, entre outras coisas tão abonatórias como justas, dizia que era um espectáculo, pela qualidade certa, a não perder.

Uma semana depois, também no Cinéfilo, Eduardo Guerra Carneiro, escrevia sobre o espectáculo:

«Quatro mil estavam no Coliseu. Silêncio, luzes e palmas. Toda a força possível: verde que te quiero verde. Estavam todos lá. Com ele. Assim, tudo poderia estar definitivamente em tudo. Todos estarmos em tudo e todos sermos afinal tudo, maneira de dizer: todos com todos. O que sentimos ao sentirmos tudo. Sentimento total.
A palavra exacta, minuto a minuto. Não perder o sentido, a exacta procura de todos, de tudo. A calma violência da total aventura: ondas e não uniforme paisagem. Patxi junto ao mar, a pequena aldeia, a mesa de madeira, o copo de vinho tinto, o sol, a tarde, o domingo a escorrer, como azeite, sobre os homens, as coisas, as palavras. Palavras claras de Patxi que podem corresponder a um copo que se oferece, a uma fatia de pão que se recebe.
Espectáculo? Total Participação? Comoção. Plenitude, talvez. O pão a crescer na terra, o corpo a corpo da poesia e da canção. Um homem simples frente a 4 mil portugueses.»

O escritor César Oliveira também esteve nessa noite no Coliseu, e deixou registo no seu livro de memórias Os Anos Decisivos:

«Este clima que andava no ar, este “sentir na pele” de que alguma coisa teria de acontecer, a seguir ao fracasso do 16 de Março, foi exemplarmente experimentado num espectáculo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com o cantor basco Patxi AndionA sala estava, literalmente, a abarrotar. Agentes da PIDE/DGS circulavam na sala, nos corredores, na rua do Coliseu. Perto, por detrás do Teatro Nacional, carrinhas da Polícia de Choque. Patxi Andión percebeu e sentiu o clima electrizante que se viveu e “puxou” e tornou a “puxar” pelo público. Ao cantar “El Maestro” – “al explicar una guerra/siempre se muestra remiso/explicando claramente/quien venció y fue vencido” – praticamente toda a vasta sala, desde a plateia aos camarotes, balcão e geral, estava de pé, punhos erguidos, soltando-se algumas vozes em “Viva a Liberdade! Abaixo o Fascismo!” Foi, sem sombra de dúvidas para qualquer espécie, um dos momentos mais altos e com uma carga dramática e épica mais intensa que até hoje pude ver num espectáculo musical.”

Patxi Andion morreu em 19 de Dezembro de 

No jornal Público de 23 de Março de 1984, fazia-se a evocação do mesmo dia, dez anos atrás. A coordenação pertencia ao jornalista Cesário Borga que deu a palavra ao radialista e jornalista Adelino Gomes:

«Um oficial procura-me na “Seara Nova”, Alguém lhe dissera que eu tinha trabalhado na RTP e que era um homem ligado à rádio. A pergunta veio directa: “É capaz de me fazer o croquis das instalações da Televisão do Lumiar»”. Fiz um sumário das instalações e o oficial instou-me para lhe dar pormenores sobre os polícias que lá prestavam serviço e as armas que usavam, as horas do fecho da e missão, o número indispensável para pôr uma emissão, no ar, etc., etc. Foi quando lhe perguntei para que era aquilo tudo. Prontamente o oficial respondeu: “vamos dar um golpe de estado dentro de dias e precisamos de ocupar a Televisão”.

domingo, 24 de abril de 2022

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA



 

Esta foi a escolha, para o dia 24 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

 Na crítica de cinema, Eduardo Prado Coelho, um dos colaboradores do Cinéfilo, aborda Ritual, filme de Ingmar Bergman.

 Começa assim:

 «Qualquer comunicação travada entre duas pessoas parece depender sempre de um contrato implícito, que estipula a fronteira, que separa o que se pode dizer do que não se pode dizer. A comunicação autêntica corresponde ao alargar progressivo destas fronteiras. Assegura-se assim que num exame de literatura o professor me pode interrogar sobre os meus sentimentos perante um soneto de Camões, mas não pode, segundo o contrato que nos une, inquirir acerca da minha da minha vida. E assim por diante. Pois é esta mínima lei, que parece regular as relações entre as pessoas, que Bergman transgride espectacularmente no seu filme Ritual – e daí a violência.»

Para terminar a crítica, Prado Coelho escreveu:

 «Rito infindável (que apenas uma decisão formal vem fechar) – ou (como se diz num poema de Luiza Neto Jorge) “rio que só tinha de humano o ir/secando”.»

 O filme estava em exibição no Estúdio do Cinema Império.

 No Monumental podia ver-se Harry, o Detective em Acção de Ted Post com Clint Eastwood.

 «A violência transformada no mais desprezível dos espectáculos.»

 No Mundial exibia-se O Nosso Amor de Ontem de Sidney Pollack, Com Robert Redford e Barbra Streisand

 «Da história de amor filmada no mais puro estilocpublicitário ao revivalismo da América  dos anos 40, passando pela “mensagem” social e pelas vedetas sempre em grande plano, nada falta nesta superprodução medíocre, fabricada para o êxito fácil fácil e imediato. De lamentar, sobretudo, o facto de se tratar de um filme realizado por Sydnay Pollack, um dos cineastas americanos mais interessantes da última década, agora, ao que parece, promovido a funcionário conformado.»

 O Politeama continuava a exibir Eusébio, a Pantera Negra de Juan de Orduña

 «A imagem convencional do mito ou como aproveitar o futebol para lucro fácil.»

 O Cine Clube Universitário fazia exibir no cinema Paris, Ladrões de Bicicletas de Vittorio de Sica

 No Porto, o Cinéfilo aconselhava, no Estúdio, A Máscara de Ingmar Bergman, com Bibi Anderson e Liv Ullmann.

 «Não tarde a ir vê-lo. Aconselhamo-lo mesmo a vê-lo mais do que uma vez, que uma obra como Persona, não encontrará muitas vezes.»

O Cine-Clube do Porto exibia, no Batalha, O Mundo a seus Pés de Orson Welles. 

terça-feira, 17 de abril de 2018

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A sequência dosbeijos cortados pelo padre-censor, levou-me para este cartoon, publicado no Cinéfilo nº 33 de 25 de Maio de 1974, da autoria de Rui, retratando a Comissão de Censura da ditadura, durante e depois da projecção dum filme, em que gozavam à tripa forra para depois nos roubaram a beleza dos filmes.


A crónica de Carlos Pinhão, retirada do Público s/s, a tal crónica de que não consegui encontrar as pontas do novelo.



Crónica de Jorge Listopad, publicada no Diário de Lisboa de 23 de Abril de 1990.


Texto de Manuel Cintra Ferreira publicado no Público de 13 de Dezembro de 1991 referente à projecção do filme no Canal 1 da RTP.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O segundo número do, excelente, Cinéfilo, saíra no dia 11 de Outubro de 1973.

Caramba!... já lá vão 43 anos!

Não hei-de estar velho!...

Na secção Sete Dias da Semana, depois de para quinta-feira dia 11 aconselharem o Anjo Exterminado, LP de Maria Bethânia, rematavam, para sexta-feira, com o CéuAberto, filme de Howard Hawks, não esquecendo o pormenor:

…é neste filme que Hawks consegue filmar com Kirk Douglas a cena do dedo cortado que Wayne se recusara a filmar em Rio Vermelho.


Mas fica aqui a reprodução da escolha cinéfila:

Acontece que, por aqueles dias de trevas, ir às sessões da meia-noite era uma festa.

Não só pelos filmes, mas por aquilo que entendíamos como aperitivo para os ditos.

E havia sempre petisco antes do raio das meias-noites.

Pare este céu aberto, o destino foi um tasco que havia frente ao Cinema Londres.

O espaço ainda lá está, mas apenas o espaço.

O resto foi a outras vidas.

Ao tempo, parece que se chamava Sobreiro, passou depois a Nova Capri, talvez tenha tido outros nomes mais, e agora é algo que dá pelo nome de Italian Burger House, que deve ser uma daquelas coisas que para aí existem, destinadas a gente que não gosta de comidinha a saber comida.

Uma equipa constituída por quem assina a prosa, mais a Aida, o Miguel, a Josefina, o Benardino e a Lena,, entrou portas dentro para umas cadelinhas, uns preguinhos com muito alho e algumas garrafas – uma por cabeça…sim, mas a Lena e a Josefina ficaram-se por duas tacinhas, o resto ficou para a outra rapaziada -  de Ponte de Lima branco, estupidamente gelado.

E foi assim, com o olho brilhante pelo Ponte de Lima, que ainda mais ressaltou toda a carga erótica de o Céu Aberto.

Ah! e aquelas cadeiras do Londres, senhores.

Saudades, só do Futuro, reclama o José Gomes Ferreira.

Uma ova, Zé Gomes, uma ova.

domingo, 7 de agosto de 2016

TODA A MEMÓRIA



Texto de Fernando Lopes, sobre o filme Hiroshima, Meu Amor de Alain Resnais, publicado no nº 1 do Cinéfilo, 4 de Outubro de 1973.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O CINEMA SOU EU


No primeiro número do Cinéfilo, livre do lápis azul dos coronéis da censura, foi perguntado a realizadores portugueses:

E o cinema em democracia, como vai ser?

Esta é a resposta do João César Monteiro:

O pequeno papelinho em que vossas excelências me inquirem, sumiu-se. Seria o vento que lhe deu ou distraída atenção?
Assim, não estou seguro de responder à pergunta que me era formulada, o que nem sequer deve constituir matéria de espanto, a não ser para quem possa ainda ingenuamente supor que iria

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O 25 de Abril de 1974 apanhou o nº 30 do Cinéfilo, referente a 27 de Abril de 1974, já fechado, razão porque não há qualquer referência à data histórica.
Apenas no nº seguinte, referente a 4 de Maio, a revista não teve intervenção da sinistra censura.
Finalmente!
Nos recados livres, ressalta a notícia da exibição do Couraçado Potemkine de cujo cartaz nafachada do Cinema Império, aqui, se fez referência.

São estes os recortes, onde se destaca um alerta contra os especuladores e os mixordeiros:




segunda-feira, 15 de junho de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Karin no final de Stromboli, a história de uma pecadora tocada pela graça, no dizer de Eric Rohmer:

Deus! Oh! Meu Deus! Ajuda-me! Dá-me força, a compreensão e a coragem.

Este é o primeiro de seis filmes que Rossellini fez com Ingrid Bergman.

Uma mulher sofreu a experiência da guerra; sai dela martirizada e endurecida, sem saber mais o que é um sentimento humano. O importante era saber se esta mulher ainda pode chorar, e o filme acaba por aí: quando caem as primeiras lágrimas.

Sobre Ingrid, João Bénard da Costa escreveu:

Por ela, os vulcões deitaram lavas.

E no tempo da sua morte:

A 29 de Agosto de 1982 – no dia em que fazia 67 anos – morreu com um cancro. Aí, o ciclo fechou-se sobre esta doce e dupla mulher que, em luz e sombra, acendeu os mais obscuros fantasmas dos nossos desejos. E julgo que posso falar não só em nome da minha vida, como em nome da vida de todos quantos – nascidos entre 1925 e 1945 – pegaram na mão dela para percorrer o mais proibido e apetecido dos quantos obscuros.

Conta-se que fez o filme sem ter um guião e apenas um bloco-notas com algumas ideias. Aconteceu um dos mais extraordinários filmes da história do cinema.

 Robert Altman também era avesso a guiões. Quando lhe perguntaram para que é que serve um guião ele respondeu: para saber se há cavalos ou não.


Em Novembro de 1973 a Fundação Calouste Gulbenkian organizou uma retrospectiva da obra de Roberto Rossellini. A ditadura marcelista estava já no seu estertor e o acontecimento faz parte da memória de cinéfilos e dos que estvam contra a ditadura. O ciclo começou no Grande Auditório, às 21,30 Horas com Roma Cidade Aberta.

Diz, quem por lá esteve, que foi das manifestações mais extraordinárias que por aquele tempo aqui aconteceram.

 Estou neste momento a olhar para a página de publicidade paga da retrospectiva, publicada em O Cinéfilo de 15 de Novembro de 1973 o onde se pode ler, para além dos filmes a exibir, indicações como programas sujeitos a alteração, o calendário da bilheteira: assinantes dia 13, Início da venda avulso dia 15, assinaturas para os 27 espectáculos 200$00, bilhetes para cada espectáculo 10$00 e ainda a classificação dos espectáculos: Grupo D (Maiores de 18 anos).

No mesmo número de “O Cinéfilo” pode ler-se: Grande número de filmes vão ser vistos, no Auditório 2 por 300 e tal privilegiados, convidados ou assinantes. À porta da Gulbenkian ficam os outros.

Nos filmes de Rossellini feitos com Ingrid Bergman é possível ver o quanto eles são verdadeiros actos de amor de um pelo outro.

Mais tarde, já não foi tanto assim.

Foi depois de ter visto dois filmes de Rossellini, que Ingrid se determinou que tinha de fazer um filme com o realizador, e escreveu-lhe oferecendo-se de corpo e alma:

Caro Senhor Rossellini,

Vi os seus filmes «Roma Cidade Aberta» e «Libertação» de que gostei muito. Se precisar de uma actriz sueca que fala muito bem inglês, que não esqueceu a língua alemã, que não é muito fluente em francês e que, em italiano, só sabe dizer «Ti amo», estou pronta a fazer um filme consigo.
Com os melhores cumprimentos,
Ingrid Bergman


Rossellini nunca tinha ouvido falar de Ingrid Bergman mas escreveu-lhe a dizer que quando entendesse poderia aparecer por Itália.

Logo que ficou livre dos compromissos que tinha entre mãos voou para Itália e apalavraram fazer um filme em tempo oportuno.

Na altura Roberto Rossellini vivia com Anna Magnani.

Conta a lenda que Ana Magnani quando soube que o próximo filme de Rossellini não constava do elenco, perguntou como era.

 Estavam num restaurante e Rossellini começou a entaramelar a língua.

 Anna Magnani não pensou duas vezes e espetou-lhe com uma travessa de esparguete na cara.

Ingrid Bergmann deixa um marido e uma filha.

Com Rossellini fará seis filmes, têm três filhos e separam-se em 1956.

sábado, 19 de abril de 2014

O CINEMA É NICHOLAS RAY!


19 de Abril de 1974

Há quem seja perentório em afirmar: o cinema é Nicholas Ray!
 Talvez por isso, e não só, se perceba o entusiasmo, a paixão, com que o escriba de serviço à agenda do Cinéfilo transmite aos seus leitores o quanto é um crime de lesa pátria não ir à sessão da meia-noite do Londres ver, rever, o Johnny Guitar de Nicolas Ray.
Faz parte das lendas da vida saudoso João Bénard da Costa, atribuírem-lhe centenas de visionamentos do Johnny Guitar.
Numa crónica no Independente, Bénard da Costa, clarificou:
Só vi o Johnny Guitar 68 vezes entre 1957 e 1988. Dá para saber de cor? Nunca se sabe o Johnny Guitar de cor. Cada vez é uma nova vez.

O ministro do interior César Moreira Baptista deslocou-se ao Porto onde deu posse ao novo Governador Civil, Mário Leal.
Na primeira página, O Século colocava uma fotografia do ministro e a legenda: Para a sua primeira deslocação ao Porto como ministro do Interior, o dr. César Moreira Baptista escolheu o mais democrático dos meios de transporte ao seu alcance: o comboio. Como um vulgar passageiro embarcou, no rápido das 8 e 40 em Santa Apolónia e, ora entretido na leitura, ora contemplando a paisagem através das amplas vidraças da carruagem, venceu, a distância, chegando ao Porto à hora do almoço, para, durante a tarde e a noite cumprir o programa oficial que ali o aguardava.

A censura determinava para os jornais que eram proibidas todas as notícias a dizer Traineiras não foram para o mar.


O ministro do Ultramar Baltasar Rebelo de Sousa, ao despedir-se de um grupo de alunas do Instituto de Odivelas, que se preparava para visitar Angola, garantiu que naquelas terras se sentiriam ainda mais portuguesas perante a lição de patritismo que as populações de todas as etnias lhes vão proporcionar, pela comunhão humana que ali se respira e pelo entusiasmo galvanizante de todos, especialmente da sua generosa e promissora juventude.

Numa reportagem na Praça de Alcântara o repórter do Diário de Lisboa registava os lamentos de uma florista de que cada vez se vendiam menos flores: Só nos sábados é que as pessoas compram um raminho para alindar as casas.
As ervilhas de cheiro vendiam-se a cinco escudos, os jarros a quinze escudos, as rosas vermelhas a vinte e cinco escudos e os cravos, de qualquer cor, vinte escudos.

Quatro mascarados, empunhando pistolas de guerra, esvaziaram os cofres da agência no Bombarral do Banco Português do Atlântico.

Os jornais conferem o habitual destaque a mais uma visita do venerando chefe do Estado Américo Tomás: sua excelência visitou a Barragem da Aguieira.

terça-feira, 15 de abril de 2014

O ROMANCE DE UM ÍDOLO


15 de Abril de 1974

Há dois dias, a sala do Politeama, foi pequena para conter a multidão que quis assistir à estreia de Eusébio, a Pantera Negra, filme de Juan de Orduña, que, vítima de um acidente de viação, nos primeiros dias de Fevereiro, não concluiu o filme.
Diz quem viu, que o filme é um perfeito desastre, um nítido oportunismo à volta da grandeza, da popularidade de Eusébio da Silva Ferreira.
Houve quem poupasse horas de vida em não ir ver o filme mas outros, grande parte, têm esgotado as sessões e gritam, aplaudem, assobiam como tudo estivesse a acontecer no estádio.
A agenda do Cinéfilo, coloca-o no espaço de DIA NÃO e explica desta maneira:
Eusébio já viu e não gostou. Para nós tem o maior crédito a opinião de profissional tão competente e só lamentamos que o seu nome possa servir para avalizar negociatas deste jaez, que apelam, única e exclusivamente, para a exploração mais rasteira de um fenómeno, que interessa muita gente neste País – o desporto e os seus praticantes.
Num terreno tão propício (oh, se era!) a uma análise das implicações sociais e humanas do desporto profissional na vida de certas sociedades e com uma figura, como a de Eusébio, tão significativa da apropriação de um atleta para fins que já ao desporto não dizem respeito, que polémico filme se poderia ter feito, se os interesses em jogo não fossem movidos pela mera sede de lucro fácil. Mas, no fundo, não será isto, em grande parte, a desgraça permanente de um homem como Eusébio?

Registam-se greves em grandes empresas como a UCAL, a Siemens, a Motra, a UTIC, a Philips.
O Sindicato Nacional dos Empregados Bancários do Distrito de Lisboa protesta contra a proibição governamental de uma assembleia geral para discussão da revisão salarial.

sábado, 12 de abril de 2014

O BUÇACO COMO REFÚGIO


12 de Abril de 1974

Sexta-Feira Santa.
Lisboa é invadida por espanhóis.
Marcelo Caetano, desde o dia 10,que se passeia, em viagem particular por alguns pontos do país, com o Prof. Lopez Rodó, antigo ministro das Relações Exteriores de Espanha.
Marcelo Caetano e o Prof. Lopez Rodó ficaram instalados no Hotel do Buçaco, local da especial preferência de Marcelo.
Foi aí que, durante os dias de Carnaval se recolheu para  meditar sobre a situação do país.

À falta de notícias, os jornais do regime enalteciam os progressos do país.
Em vários aspectos o sector industrial português tem vindo a anunciar extraordinária importância, tanto no contexto nacional como no internacional.
Entre alguns frisantes exemplos, destacam-se os empreendimentos de Sines, o da Setenave, etc. Este último (estaleiros para construção e reparação naval) arrancou com o empreendimento em Setúbal, em 6 de Abril de 1972. Estará concluído em 1975 e no primeiro trimestre de 1975 começará a construção o sector da construção naval.
São investidos cerca de três milhões de contos.
O valor da produção anual da Setenave está estimado em cinco milhões de contos.
Será um dos maiores estaleiros da Europa.
A construção de um grande estaleiro naval em Setúbal vai proporcionar enorme desenvolvimento, não só à indústria nacional, como à própria região .
Assim, 6300 empregados em variadas actividades surgirão naquela cidade até 1976. Este número tem um aspecto muito importante salientando-se a natural evolução tecnológica que daí advirá.
A cidade tem presentemente cerca de 72 000 habitantes.

A União dos Sindicatos Ferroviários deslocou-se ao gabinete do ministro do Ultramar, Baltazar Rebelo de Sousa, para lhe manifestar o seu reconhecimento pelos benefícios resultantes de alterações ao acordo Colectivo de trabalho introduzidas pelo ministro quando era titular das Corporações e Segurança Social.
Os dirigentes aproveitaram para dizer ao ministro que o governo pode contar sempre com os dirigentes corporativos dos verdadeiros ferroviários na sua política ultramarina.

Segundo a agenda do Cinéfilo, o cinema Londres exibia na sessão da meia-noite Eu Sou Bob Dylan (Don’t Look Back) do realizador D. A Pennbaker.
O grupo de teatro Comuna continuava a representar, nuns armazéns da Cervejaria Portugália, na Avenida Almirante Reis, cortesia do empresário Manuel Vinhas, a peça A Ceia com João Mota, Manuela de Feitas, Melim Teixeira, Luís Lucas, Carlos Paulo, Madalena Pestana, Francisco Pestana com sessões diárias às 21,45 horas e bilhetes ao preço de 20$00.
A celebração do acto teatral no mais depurado espectáculo que a Comuna nos apresentou até agora.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

UMA TARDE DE ROSAS


11 de Abril de 1974

Quinta-feira Santa.
Já há uma semana que o governo anunciara que durante a Semana Santa seria levantada a proibição do abastecimento de gasolina nos feriados e fins-de-semana.
Assim, grande parte dos portugueses começaram a lançar-se estrada fora para ir ao encontro dos familiares, dos folares, do vinho fino, das andanças do compasso, a tradicional visita pascal com mordomo, padre e acólitos.
Mais tarde, os portugueses irão descobrir que bem melhor seria aproveitar os dias da Semana Santa para dar um salto até ao Algarve, à neve, ao Funchal, qualquer destino…
tudo muito antes de nos virem dizer que, por mor disso e outras coisas mais, andámos a viver acima das nossas possibilidades.

A agenda do Cinéfilo chamava a atenção dos seus leitores para a transmissão – a não perder! - Canal 1 da televisão a preto e branco, pelas 22,00 Horas do Requiem de Verdi pela Orquestra e Coros da Orquestra Sinfónica de Londres, dirigida por Leonard Bernstein.

Neste dia, Miguel Torga escrevia no seu Diário:


Legenda: Pietá de Miguel Ângelo

terça-feira, 8 de abril de 2014

SERVIÇO MILITAR CUMPRIDO




8 de Abril de 1974

Corriam, tristes e cinzentos os dias de Abril de 1974

Para além da propaganda do regime, pouco mais se ia sabendo pelos jornais, rádio e televisão, porque a censura, cada vez mais, apertava o cerco a todas as notícias que informasse o povo de que não reinava a boa ordem em todo o país.

Assim, sabia-se que num torneio de atletismo realizado no Estádio Nacional, Fernando Mamede batia o record nacional e ibérico dos 2000 metros, Amália Rodrigues em digressão por Itália,  deslumbrava os italianos, a  revista Alba falava de uma intérprete tão excepcional, quanto simples e cordial, que, dada a crescente urbanização dos subúrbios, começa a estudar-se uma ampla remodelação da linha de Sintra, também a instalação do tráfego ferroviário na então chamada Ponte Salazar, a polícia visita as instalações do ABC Cine Clube porque o Governo Civil, simplesmente, pretendia um exemplar, dos respectivos estatutos, numa entrevista, publicada no Cinéfilo, o jornalista perguntava a Patxi em Andion, dera espectáculos com lotações esgotadas,  que dado o seu canto de intervenção qual o motivo por que gravava para a Phonogram, uma empresa capitalista, ao que, lucidamente, o cantor respondeu Não! Não estou a condescender. Para mim é muito importante… Se eu quero lutar contra tanques e posso conseguir um tanque, é muito melhor do que ir de mãos nuas. Se quero lutar contra o sistema, Isto implica uma utilização do sistema. Reparem que eu estou a vender à burguesia a sua própria crítica.
                                              
Cada vez mais violentamente, prosseguia a guerra colonial.

Neste nosso reino as colónias nunca foram uma questão pacífica.

Já em  A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queiroz, põe o economista Gouveia a dizer à srª D. Graça:

Tenho horror à África. Só serve para nos dar desgostos. Boa para vender, minha senhora! A África é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda duma tia velha, numa terra muito bruta, muito distante, onde não se conhece ninguém, onde não se encontra sequer um estanco; só habitada por cabreiros, e com sezões todo o ano. Boa para vender.

Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:

- O quê! Vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no mar, tanta perda de vida e fazenda?!

- Quais trabalhos, minha senhora? Era desembarcar ali na areia, plantar umas cruzes de pau, atirar uns safanões aos pretos… Essas glórias de África são balelas.

Os anúncios acima publicados, são exemplos das muitas ofertas de emprego que então se podiam encontrar nos jornais, mas contém uma condição: serviço militar cumprido.

Os jovens saídos dos liceus das escolas industriais, comerciais, confrontavam-se com o drama: as empresas admitiam trabalhadores ,mas apenas os que tivessem cumprido o serviço militar.

As famílias que tantos sacrifícios faziam para dar um curso aos filhos ficavam perante mais um gritante problema: os jovens a aguardarem incorporação no serviço militar estavam proibidos de trabalhar.

Dramas de que, possivelmente, já poucos se lembram.

Assim como de outras coisas mais!...

domingo, 6 de abril de 2014

CATÓLICAS ATITUDES!...


6 de Abril de 1974

No número de 9 de Março de 1974 o Cinéfilo fez uma entrevista a Rui Pedro, homem de teatro, de televisão, dos jornais, da rádio, que começava assim:

Partindo da tua actividade radiofónica neste momento, eis a primeira pergunta:
- Que significa para ti estares nos Serviços de Noticiários do Rádio Renascença?

Rui Pedro respondeu:

-Significa ocupar um espaço de rádio evitando assim que um inimigo ocupe aquele espaço de tempo, de trabalho que faço.

A frontalidade, a coragem de Rui Pedro, significaram o seu despedimento da emissora católica.

Por carta de 16 de Março de 1979, o Padre Américo Brás da Costa, gerente da Rádio Renascença, despedia Rui Pedro.

Na sua edição do dia 6 de Abril de 1974, o Cinéfilo denunciava a atitude católica e publicava a respectiva carta de despedimento.

Como escreveria Sophia de Mello Breyner Andresen:

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Foram estes pequenos nadas de gente como Rui Pedro, - e eram tão poucos!... - com prejuízos de ordem vária, frontalmente assumidos que, aos poucos, se transformavam em pauzinhos colocados na engrenagem do regime à espera de uma qualquer Abril, de um qualquer ano.

Pequenos nadas de que Henrique Segurado, num curto mas eficaz poema, fez a necessária apologia:

No gerador central
Bem lá no fundo
Entalada
Numa certa cavidade

A as de uma mosca

                Pequenina…

E falta a energia na cidade!

(Saibamos antever a nossa meta
No cadáver duma mosca incompleta!)

sábado, 5 de abril de 2014

ANTES E DEPOIS DE VILLAS BOAS


5 de Abril de 1974

A imagem mostra Marcelo Caetano na missa celebrada na Catedral de Notre-Dame, por alma do Presidente Pompidou.
Era este o motivo pelo qual a Censura, ontem, solicitava aos jornais, televisão e rádios, que não revelassem de imediato a constituição da delegação portuguesa às solenes exéquias do Presidente Pompidou.
Patético é o mínimo comentário que ocorre.
Sonhavam com fantasmas o tempo inteiro e desconheciam (?) que o 25 de Abril estava, quase, a bater à porta!...

Ana Paula Machado Pinto de Freitas, com 16 anos, estudante, residente no Porto, foi a vencedora do 2º Concurso da «Rapariga Ideal», organizado pela Mocidade Portuguesa Feminina.
O Secretário de Estado da Juventude e Desportos, presidiu à sessão de encerramento e, segundo a imprensa do regime, o concurso foi intensamente formativo, proporcionando simultaneamente a revelação de dons e a aquisição de novos valores, o estudo e a reflexão pessoais, aliados a uma experiência enriquecedora de vida em grupo, a análise objectiva dos problemas e o empenhamento na sua solução. Tudo isto sem perder de vista a missão específica que incumbe a cada rapariga. Já hoje como jovem e, mais tarde, como mulher, na comunidade em que se insere.
Talvez lembrar que, em 1936, Oliveira Salazar preconizava que o trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado. Uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer.

 Segundo a agenda do Cinéfilo, às seis e meia na tarde, no Cinema Monumental, numa iniciativa de Luís Villas Boas (quando se fala de jazz em Portugal há que considerar, sempre: antes e depois de Villas Boas), actuava Art Blakey, um nome incontornável do jazz dos anos 50, e não só!

Ainda, segundo o Cinéfilo, também  no Monumental, classificado para maiores de 10anos, estava em exibição Luzes da Ribalta de Charles Chaplin:
Chaplin está em Lisboa.
A cidade iluminou-se.
As «Luzes da Ribalta» acenderam-se.
É ver, meus senhores, é ver «o mais belos dos filmes», uma obra-prima no dizer de André Bazin.

terça-feira, 1 de abril de 2014

BOB DYLAN EM ALGÉS!


1 de Abril de 1974

Sir Hugh Wonther, mayor de Londres, «a mais importante figura dentro da City, a seguir à Raínha», visita Lisboa.
Recebido, pela manhã por Silva Sebastião, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, participou depois num almoço na Câmara de Comércio Luso-Britânica.
A meio da tarde, e depois de se inscrever, em Belém no livro de cumprimentos ao Chefe do Estado, Sir Hugh Woutner foi recebido em São Bento, pelo presidente do Conselho.
Segundo os jornais o encontro foi muito cordial.
Após a audiência em São Bento, Lord Mayor satisfez um desejo que formulara ainda em Londres, quando se organizava o programa desta sua visita: contactar com unidades de combate a incêndios em Portugal.
No comando do batalhão de Sapadores Bombeiros, na Avenida D. Carlos, o visitante interessou-se, vivamente, estabelecendo diálogo com a oficialidade.

O Cinéfilo neste dia, poisson d’Avril, dia das mentiras, o que lhe quiserem chamar divertia-se com os seus leitores:



Vergílio Ferreira escrevia no seu Conta-Corrente:



Enquanto no Satélite (sala-estúdio do então Cinema Monumental) o espectador de cinema podia ver Cerimónia Solene de Nagisa Oshima, classificado pela Censura para maiores de 18 anos, o Odeon esgotava sessões atrás de sessões com A Derrapagem, filme de Constantino Esteves, com Tony de Matos e Io Apolloni, com classificação para maiores de 14 anos.
O Cinéfilo fazia a sinopse:
Bom rapaz, trabalhador, honesto saído do povo para conquistar um lugar ao sol (de Angola) no seio da alta burguesia lisboeta, Tony – o da voz meiga -, entre o fato-macaco lavadinho, passado a ferro, e a camisa branca, de colarinhos engomados, descobre os estigmas da decadência moral no lar e as maravilhas da democracia capitalista nos negócios. O que vale é que tudo acaba em bem nesta fábula populista, ridícula, grotesca e híper-reaccionária, já que o melhor dos mundos nem sempre coincide com o pior dos filmes.

sábado, 29 de março de 2014

EM BUSCA DA FESTA


29 de Março de 1974

Para cima de cinco mil encheram por completo o Coliseu dos Recreios em Lisboa e assistiram a algo que lhes marcou as vidas.

Tinha acontecido o 16 de Março, a confusão instalada, alguns a dizerem dizer que estava para breve, muitos, tantas vezes esperançados e depois frustrados a não acreditarem.


Naquela noite de emoções várias, passadas as portas do Coliseu, poderíamos pensar que talvez se aproximasse, assim como o poeta dissera à rapariga, o tal dia em que a Primavera se soltaria no País de Abril.

Assim foi.

De uma vez só, ficámos a saber que o acto de cantar é um acto que responsabiliza a pessoa que canta e as que o escutam.

 Estas são as palavras introdutórias que Mário Contumélias, sobre esta noite, escreveu para o Cinéfilo de 6 de Abril de 1974

A coisa chamava-se – chamou-se o I Encontro da Canção. Estavam marcados para se encontrar com a malta o Quarteto de Marcos Resende, o duo Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, Manuel José Soares, Carlos Paredes (com Fernando Alvim); o conjunto espanhol Vino Tinto, que a televisão já vira; Pablo Guerreiro; Ary dos Santos; José Barata Moura; Manuel Freire; Fernando Tordo; José Jorge Letria; o conjunto Intróito; Adriano Correia de Oliveira; José Afonso; Ruy Mingas e Paulo de Carvalho; cá por mim fui lá, por dever de ofício, a contar com uma grande estopada. Não que, de um modo geral, eu estivesse com dúvidas sobre a importância da maioria dos convidados no contexto da nova canção portuguesa (embora não percebesse muito bem o que iriam lá fazer dois ou três dos que eram para – e acabaram por estar e não – estar presentes. Nada disso. O que eu temia era que, no meio da confusão, a coisa resultasse numa pepineira intragável. Mas fui! E agora que aquilo já passou, há uns dias largos, ainda guardo em mim uma grande emoção. Fosse lá porque fosse, naquela noite, no Coliseu, senti-me. E isso não nos acontece todos os dias. Isso é importante!