quinta-feira, 26 de março de 2026

CONVERSANDO

Dizia que, para além de escrever, não sabia fazer mais nada.

Amiúde dizia que ninguém escrevia melhor português do que ele e acabou por citar um crítico do El País que lhe disse:

«que daqui a cinco mil anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão.»

Sempre foi um tipo difícil, a idade tornou-o pior.

Numa crónica – ando a relê-las porque passaram a ser o que melhor entendia, o que mais gostava do que ultimamente publicava e lamentavelmente deixou de escrever crónicas, lamentavelmente deixaram de publicá-las em livro, falava de um almoça com amigos:

«E às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o subúrbio do subúrbio, depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a gente acha feio e eu acho lindo. De onde me virá este amor sincero, genuíno, pelo que as pessoas consideram de mau tom, leões de calcário, duendes de gesso, quadros de queimadas, cerâmicas de casa de banho com cisnes doirados?

Quando digo que almoço às quintas-feiras nos Moinhos da Funcheira digo que a empregada nos trata por

- Meu querido

nos traz salsichas com ovos estrelados e nos sentimos indecentemente felizes

Com pena da gente a empregada diz

- Meus queridos

e  soma-nos a conta na toalha.»

Um dia, quando, em separado, encontrei o Zé Ribeiro eo Vitorino, perguntei:

-Então já não há almoços com o António Lobo Antunes?

-Eh pá!.. Tornou-se um chato!...

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