Dizia que, para além de escrever, não sabia fazer mais nada.
Amiúde
dizia que ninguém escrevia melhor português do que ele e acabou por citar um
crítico do El País que lhe disse:
«que daqui a cinco mil
anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão.»
Sempre
foi um tipo difícil, a idade tornou-o pior.
Numa crónica – ando a relê-las porque passaram a ser o que melhor entendia, o que mais gostava do que ultimamente publicava e lamentavelmente deixou de escrever crónicas, lamentavelmente deixaram de publicá-las em livro, falava de um almoça com amigos:
«E
às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé
Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o subúrbio do subúrbio,
depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a gente acha feio e eu acho
lindo. De onde me virá este amor sincero, genuíno, pelo que as pessoas
consideram de mau tom, leões de calcário, duendes de gesso, quadros de
queimadas, cerâmicas de casa de banho com cisnes doirados?
Quando
digo que almoço às quintas-feiras nos Moinhos da Funcheira digo que a empregada
nos trata por
-
Meu querido
nos
traz salsichas com ovos estrelados e nos sentimos indecentemente felizes
Com
pena da gente a empregada diz
-
Meus queridos
e soma-nos a conta na toalha.»
Um
dia, quando, em separado, encontrei o Zé Ribeiro eo Vitorino, perguntei:
-Então já não há
almoços com o António Lobo Antunes?
-Eh
pá!.. Tornou-se um chato!...
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