«E cá voltamos nós ao modo josé. O modo josé, pelos vistos, é a pederneira dos poetas quando vêm para o espelho.
Rememoras e futuras, o mal é esse.
José, na pastelaria da esquina há um pide a fazer horas, e acolá, como
veio anunciado na imprensa, à hora xis o burro Canário desce à cidade
transportando uma bomba em forma de miosótis, enfiada no cu. Claro, tu já nem
pestanejas. Chegas-te ainda mais ao espelho, fechas-te com ele, de ti para ti.
Com raiva.
Os censores?, perguntas daí a nada ao espelho. Não dão sinal , os
censores?
Não te preocupes. Não te ouvem por enquanto, têm outras vidas.
De resto quem te ouve? Quem dá crédito à tua liberdade? Vamos, fuma,
José. Pensa bem esse cigarro. Mede e golpeia a memória, repisa nos teus avisos
enquanto o cabelo te embranquece. Olha, é entardecer. E está tão claro.
Aí, nesse espelho, há um não sei quê de pobre diabo no cidadão que te
faz frente, aferrado a um orgulho de pataco. Orgulho? Pior para ele, que pouco
fez para mudar. Razão? Vigilância? Está bem, deixa-o dizer.
Deve andar nos cinquenta, mais ano, menos ano, e se calhar é por isso
que sonda com tamanha inclemência. Cinquenta, meio século de vislumbrada
malícia de si mesmo e de nicotina. Cancro apalavrado, ai coitadinho. De quando
em quando noto-lhe talvez um perpassar de ironia a traquinar-lhe no rosto, mas
se o tem é luz breve e para mais magoada. Não dá sequer para temperar o ar endurecido
que há nele e que provém mais do desalinho e do à-balda que doutra coisa. No
resto, pouco a acrescentar. Visagem martelada, máscara prevenida, assimetrias
de quem se talhou ao azar – e disse. Acta est fabuka, se assim me posso
exprimir.
É este o homem que te contempla, José. Que te fuma. Que te duvida.»
José Cardoso Pires em E Agora, José?

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