domingo, 8 de março de 2026

RETRATOS


 «A melhor definição de Saramago é de Juan Marsé: “Não é um escritor, é um pregador”.

 Não, eu não sou malcriado. Conheci-o numa viagem ao Brasil. Apareceu aí uma brasileira que andou com um poeta e levou ao Brasil uma série de escritores, o Zé, o Fernando Assis Pacheco, o Saramago, o Egito Gonçalves, o Alexandre O’Neill, de quem fiquei amigo. Eu era o mais novo de todos. Eles estavam todos publicados no Brasil e eu não. No dia seguinte, aqueles velhos recebiam dez ou 15 cartas e eu zero. Nada. Com o Saramago nunca tive uma conversa. Nesse ano, era também o primeiro ano daquele grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores, e que o Zé ganhou com “Balada da Praia dos Cães”, contra o “Memorial do Convento”, e o Saramago ficou numa fúria. O Saramago achava-se mesmo um grande escritor. Eu sempre achei aquilo uma merda, ainda não o conhecia. Sempre teve mulheres de direita enquanto se afirmava comunista. Nunca correu riscos. Nunca foi preso. Nunca tive uma conversa com ele sobre livros.»

António Lobo Antunes

1 comentário:

Luis Eme disse...

É por esta "sinceridade" falsa, que eu tenho dificuldade em conviver com alguns "génios", que para se elevarem, têm de usar os outros como escadas, Sammy.

Mesmo sabendo que o José tinha muitos "ques" e gostava de andar nas ruas de nariz empinado, a história de que só gostou de mulheres de direita ou que nunca correu risco, é demasiado ofensiva e falsa...