«A melhor definição de Saramago é de Juan Marsé: “Não é um escritor, é um pregador”.
Não, eu não sou malcriado. Conheci-o numa viagem ao Brasil. Apareceu aí uma brasileira que andou com um poeta e levou ao Brasil uma série de escritores, o Zé, o Fernando Assis Pacheco, o Saramago, o Egito Gonçalves, o Alexandre O’Neill, de quem fiquei amigo. Eu era o mais novo de todos. Eles estavam todos publicados no Brasil e eu não. No dia seguinte, aqueles velhos recebiam dez ou 15 cartas e eu zero. Nada. Com o Saramago nunca tive uma conversa. Nesse ano, era também o primeiro ano daquele grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores, e que o Zé ganhou com “Balada da Praia dos Cães”, contra o “Memorial do Convento”, e o Saramago ficou numa fúria. O Saramago achava-se mesmo um grande escritor. Eu sempre achei aquilo uma merda, ainda não o conhecia. Sempre teve mulheres de direita enquanto se afirmava comunista. Nunca correu riscos. Nunca foi preso. Nunca tive uma conversa com ele sobre livros.»
António Lobo Antunes

2 comentários:
É por esta "sinceridade" falsa, que eu tenho dificuldade em conviver com alguns "génios", que para se elevarem, têm de usar os outros como escadas, Sammy.
Mesmo sabendo que o José tinha muitos "ques" e gostava de andar nas ruas de nariz empinado, a história de que só gostou de mulheres de direita ou que nunca correu risco, é demasiado ofensiva e falsa...
Esqueçamos os génios, com ou sem aspas!
O Lobo Antunes escrevia bem mas, com a idade, ou lá o que fosse, foi-se tornando um tipo carrancudo. Não o conheci pessoalmente, mas sei de quem com ele lidava que assim era.
Em tempos recuados, às quintas-feiras, juntava-se com o José Ribeiro da Ulmeiro, o Vitorino num tasco nos Moinhos da Funcheira, perto da Brandoa. Ao José Ribeiro perguntei um dia pelos almoços com o Lobo Antunes , «complicaram-se», mais tarde fiz a mesma pergunta ao Vitorino: «o Lobo Antunes está um chato lixado!»
Há quem diga que há muito deixara de ter leitores para os seus romances. Por mim falo que só lhe lia as crónicas, um trabalho que ele considerava menor para compensar os tempos em que uma editora não lhe pagava, algumas autênticos poemas em prosa e fiquei muito chateado quando as deixaram de publicar em livro.
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