terça-feira, 17 de março de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Quando por nós descobrimos algo que nos agrada e acompanha pela vida, isso tem outro valor, um valor superlativo.

Jorge Luís Borges dizia que a existir um paraíso, teria a forma de uma biblioteca.

No seu Último Caderno Saramago deixou escrito:

«Continuarei a dizer que a literatura não muda o mundo, mas cada vez maisb vou tendo razões para acreditar que a vida de uma pessoa pode ser transformada por um simples livro».

Como é que Saramago descobriu as palavras?

Em livros, em entrevistas deixou expresso como aconteceu essa descoberta.

Na longa conversa que manteve com a Juan Arias, disse:

«Não tive um livro meu até os dezoito anos e, mesmo assim, os livros que tive, os que comprei, comprei com o dinheiro que um colega mais velho que eu me emprestou. Creio que foram uns trezentos escudos, o que equivaleria a um euro e cinquenta centavos. Com isso pude comprar alguns livros.(1) Antes, eu já havia lido muitíssimo nas bibliotecas públicas, lia de noite. Depois de jantar ia andando, apesar de ficar longe de casa, até a Biblioteca do Palácio Galveias, e até a hora de fechar lia tudo o que podia, sem nenhuma orientação, sem ninguém que me dissesse se aquilo era muito ou pouco para mim. Lia tudo o que me parecia interessante. Os nossos autores eu conhecia pelas aulas, mas tudo o que tinha a ver com autores de outros países, nada, não tinha a menor ideia, mas depois você vai se dando conta de que existe um senhor que se chama Balzac e outro Cervantes, et cetera. Pouco a pouco ia entrando por esse bosque e encontrava frutos que depois fui assimilando, cada um à sua maneira». 

Não chegou à Universidade, mas as respostas encontrou-as nos livros em que tinha  começado a estudar, e quando trabalhava, como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis, utilizou o período nocturno da Biblioteca de Galveias para uma procura de respostas às perguntas que. no dia-a-dia lhe ocorriam.

Como deixou escrito em A Caverna:

«Felizmente, existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro? Que ensinava a cozer os barros, e o livro finalmente convocado, aparece, está aqui nas mãos de marta enquanto o pai e o livro, finalmente convocado, aparece.»

Sem comentários: