terça-feira, 24 de março de 2026

NESTE DIA


Tempos da adolescência em que desatei a ler desalmadamente , e sem qualquer critério, os livros da Biblioteca da Casa: Eça, Camilo, Torga, outros.

Já o disse por aqui, Miguel de Torga não me trouxe o entusiasmo que outros autores me deram. Nunca o li com aquela paixão, aquele gosto, o que lhe quiserem chamar.

Foi um homem difícil, muitas vezes desagradável com os seus pares. Não autografava os seus livros, conta-se que terá recusado fazê-lo a Mário Soares, pois não abria excepções fosse a quem fosse, mas Mário Soares terá encontrado um livro em que Torga escrevera palavras a Maria Archer e confrontou-o com isso, mas Torga não se desmanchou e respondeu-lhe que as pernas de Maria Archer não se comparavam com as suas.  

José Saramago gostava de o ter conhecido melhor, Mário Cláudio escreveu que Torga foi «um solitário voluntário, um exilado no próprio país».

Morreu a 17 de Janeiro de 1995 com 87 anos.

Hoje, pego no último volume, que é 16º, do seu Diário.

Estamos no dia 9 de Dezembro de 1993 e Miguel Torga escreve:

«Coimbra, 9 de Dezembro de 1993 – E chega ao fim, com este volume, um livro que comecei a escrever um pouco estouvadamente há sessenta anos, e acabo agora com mais assento. Como é sabido ninguém conhece o dia de amanhã, e, pelo que me diz respeito, fui um mártir dessa incerteza. E iniciei o presente tomo quase seguro de que o não terminaria. O resultado está à vista: um estendal de dúvidas e gemidos. Mesmo assim, talvez valha a pena que se junte aos outros, como seu natural remate Mais do que páginas de meditação, são gritos de alma irreprimíveis dum mortal que torceu mas não quebrou, que, sem poder, pôde até à exaustão. E se despede dos seus semelhantes sem azedume e sem ressentimentos, na paz de ter procurado vê-los e compreendê-los na exata medida. E que confia no juízo da posteridade, que certamente lhe vai revelar os muitos defeitos e ter em conta as poucas virtudes. De alguma coisa me hão-de valer as cicatrizes de defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo.»

E já que por aqui estamos, registe-se, possivelmente, o seu último poema, escrito em 10 de Dezembro de 1993:

Requiem por Mim

«Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que dele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.»

1 comentário:

Luis Eme disse...

Não é um autor fácil, mas adorei ler "Os Bichos" (acho que no final da adolescência), que voltei a ler mais tarde e continuou a não me desiludir...

Os diários são retratos de época importantes, apesar de estarem cheios de "fel", Sammy.