segunda-feira, 2 de março de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Não havia televisão.

O meu avô paterno era um leitor compulsivo e lia os autores franceses no original.

Durante um tempo, exercitava as traduções e deixou, em cadernos, a tradução de dois livros de Anatole France: Thais e A Ilha dos Pinguins.

Uma letra muito bem desenhada, a caneta de tinta permanente, ainda não tinha chegado o tempo das esferográficas, e os eventuais enganos eram apagados com borracha de tinta.

O meu avô era um simples caixeiro de praça do J. Português da Silva, estabelecimento na esquina na esquina da Rua dos Fanqueiros e percorria Lisboa de eléctrico a vender os Da Senhora da Hora

O meu avô, Mário de seu nome, que, orgulhosamente, se apresentava como republicano histórico, benfiquista e anticlerical, foi toda a sua vida um simples caixeiro caixeiro-de-praça do J. Português da Silva, na Rua da Betesga, esquina com a rua dos Fanqueiros, percorria as lojas dos bairros lisboetas vendendo, linhas meias. lenços e panos de cozinha da Fábrica da Senhora da Hora.

Ganhava uma miséria e, de segunda a sábado, transportava uma enorme mala com as amostras da fábrica da Senhora da Hora.

Mas o meu avô traduziu:

«Apesar da diversidade de distrações que parecem atrair-me, a minha vida só tem um objectivo. Uma grande tendência para o acabamento de um grande desejo.

Escrevi a historiados Pinguins. Trabalhei nelka assiduamente, sem me deixar desanimar pelas dificuldades frequentes, que algumas vezes me pareceram insuportáveis.»

 

 

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