Não
havia televisão.
O
meu avô paterno era um leitor compulsivo e lia os autores franceses no
original.
Durante
um tempo, exercitava as traduções e deixou, em cadernos, a tradução de dois
livros de Anatole France: Thais e A Ilha dos Pinguins.
Uma
letra muito bem desenhada, a caneta de tinta permanente, ainda não tinha
chegado o tempo das esferográficas, e os eventuais enganos eram apagados com
borracha de tinta.
O meu avô era um simples caixeiro de praça do J. Português da Silva, estabelecimento na esquina na esquina da Rua dos Fanqueiros e percorria Lisboa de eléctrico a vender os Da Senhora da Hora
O
meu avô, Mário de seu nome, que, orgulhosamente, se apresentava como
republicano histórico, benfiquista e anticlerical, foi toda a sua vida um
simples caixeiro caixeiro-de-praça do J. Português da Silva, na Rua da Betesga,
esquina com a rua dos Fanqueiros, percorria as lojas dos bairros lisboetas
vendendo, linhas meias. lenços e panos de cozinha da Fábrica da Senhora da
Hora.
Ganhava
uma miséria e, de segunda a sábado, transportava uma enorme mala com as
amostras da fábrica da Senhora da Hora.
Mas
o meu avô traduziu:
«Apesar da diversidade
de distrações que parecem atrair-me, a minha vida só tem um objectivo. Uma
grande tendência para o acabamento de um grande desejo.
Escrevi a historiados Pinguins. Trabalhei nelka assiduamente, sem me deixar desanimar pelas dificuldades frequentes, que algumas vezes me pareceram insuportáveis.»
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