quinta-feira, 5 de março de 2026

VELHOS RECORTES

Curiosamente, a minha descoberta do escritor António Lobo Antunes nasce com uma entrevista di jornalista Carlos Miranda e publicada em A Bola de 12 de Abril de 1980, em que o autor quando o jornal não era o pasquim que hoje é, e em que Lobo Antunes declara a sua loucura benfiquista ao ponto de se sentar nas bancadas de gorro e bandeira.

Li o livro, fiquei um entusiasta-mor de Lobo Antunes e comprei, mal punham pé em escaparate de livraria, os que se seguiram.

Mas à medida que foram sendo publicados ia também crescendo um certo esmorecimento.

Os livros continuavam a ser bem escritos mas tornaram-se pouco entusiasmantes. 
Passei a demorar muito tempo para que terminasse um livro. Desde  Exortação aos Crocodilos que já não os acabo – e o que detesto não conseguir acabar um livro!... – e Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, uma oferta natalícia, nem o iniciei.

O novo livro chama-se Comissão das Lágrimas – Lobo Antunes continua encontrar títulos felizes para os seus livros – e anda à volta do período da vida política angolana, Março 1977, que envolveu Nito Alves e Agostinho Neto.

Diz quem já leu o livro, que Lobo Antunes continua a não fazer muita pesquisa histórica apenas se orientando por vozes, vozes que lhe chegam, e com essas vozes conta a história.

Não irei comprar o livro e, como este Natal é um Natal negro, não dou prendas – apenas a netaria está a salvo – e já declarei que também não as quero receber pelo que nem sequer corro o risco de me ser oferecido.

Não é que me orgulhe – nem pouco, nem muito - pela companhia, mas Clara Ferreira Alves deixa cair, na revista Actual do Expresso, palavras que compreendo muito bem:

Alguns livros são ilegíveis, puro contorcionismo e acrobacia palavrosa, discursos e vozes sem rumo nem identificação, narrativa sem estrutura, personagens apenas nomeadas que nunca chegam a formar-se, muito menos a identificar-se fora da cabeça do escritor. Ele sabe do que está a falar, os leitores. O escritor deixa os livros.

Estas palavras fazem-me lembrar o meu pai, quando dizia que, mal do escritore que tem de ir a casa de cada leitor explicar o que escreveu, o que, no fundo, pretendeu dizer.

Dentro desta amargura gostaria de ressalvar que aprecia muito as crónicas do António Lobo Antunes que as leio, com agrado e gosto, em jornais e revistas e depois, mal sejam reunidas em livro, apresso-me a comprá-lo.

As crónicas de António Lobo Antunes falam do quotidiano das gentes. Numa linguagem simples (por vezes não tão simples quanto isso…), clara, bonita e terna.

É pelas suas crónicas que ainda saúdo António Lobo Antunes.

Legenda: pormenores – naquele tempo A Bola era um jornal de tamanho quase gigantesco, e não deu para a minha nabice crónica o reproduzir.

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