Curiosamente,
a minha descoberta do escritor António Lobo Antunes nasce com uma entrevista di
jornalista Carlos Miranda e publicada em A Bola de 12 de Abril de 1980, em que
o autor quando o jornal não era o pasquim que hoje é, e em que Lobo Antunes declara
a sua loucura benfiquista ao ponto de se sentar nas bancadas de gorro e
bandeira.
Li
o livro, fiquei um entusiasta-mor de Lobo Antunes e comprei, mal punham pé em
escaparate de livraria, os que se seguiram.
Mas
à medida que foram sendo publicados ia também crescendo um certo esmorecimento.
Os
livros continuavam a ser bem escritos mas tornaram-se pouco
entusiasmantes.
Passei a demorar muito tempo para que terminasse um livro. Desde Exortação
aos Crocodilos que já não os acabo – e o que detesto não conseguir
acabar um livro!... – e Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, uma
oferta natalícia, nem o iniciei.
O
novo livro chama-se Comissão das Lágrimas – Lobo Antunes
continua encontrar títulos felizes para os seus livros – e anda à volta do
período da vida política angolana, Março 1977, que envolveu Nito Alves e
Agostinho Neto.
Diz
quem já leu o livro, que Lobo Antunes continua a não fazer muita pesquisa
histórica apenas se orientando por vozes, vozes que lhe chegam, e com essas
vozes conta a história.
Não
irei comprar o livro e, como este Natal é um Natal negro, não dou prendas –
apenas a netaria está a salvo – e já declarei que também não as quero receber pelo
que nem sequer corro o risco de me ser oferecido.
Não
é que me orgulhe – nem pouco, nem muito - pela companhia, mas Clara Ferreira
Alves deixa cair, na revista Actual do Expresso,
palavras que compreendo muito bem:
Alguns livros são
ilegíveis, puro contorcionismo e acrobacia palavrosa, discursos e vozes sem
rumo nem identificação, narrativa sem estrutura, personagens apenas nomeadas
que nunca chegam a formar-se, muito menos a identificar-se fora da cabeça do
escritor. Ele sabe do que está a falar, os leitores. O escritor deixa os
livros.
Estas
palavras fazem-me lembrar o meu pai, quando dizia que, mal do escritore que tem
de ir a casa de cada leitor explicar o que escreveu, o que, no fundo, pretendeu
dizer.
Dentro
desta amargura gostaria de ressalvar que aprecia muito as crónicas do António
Lobo Antunes que as leio, com agrado e gosto, em jornais e revistas e depois,
mal sejam reunidas em livro, apresso-me a comprá-lo.
As
crónicas de António Lobo Antunes falam do quotidiano das gentes. Numa linguagem
simples (por vezes não tão simples quanto isso…), clara, bonita e terna.
É
pelas suas crónicas que ainda saúdo António Lobo Antunes.
Legenda:
pormenores – naquele tempo A Bola era um jornal de tamanho quase gigantesco,
e não deu para a minha nabice crónica o reproduzir.

.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário