O realizador francês François Ozon, depois de Luchino Visconti em 1967, adapta O Estrangeiro de Albert Camus.
Numa
entrevista ao suplemento Ípsilon do Público, publicada em 13 de Março, François
Ozon diz:
«Em
França ainda temos medo de O Estrangeiro. O passado argelino ainda é uma coisa
complicada».
O
filme de Visconti nunca me convenceu que teve problemas e Visconti teve de viver com vários
problemas, um deles a presença da viúva de Camus que tudo vigiava para que o
texto fosse respeitado com todas as suas vírgulas.
Terei
que ir ver o filme de Ozon, partindo sempre do principio que se há romances que
não podem dar filmes, o romance de Camus, é um deles.
Pretexto
para voltar a pegar na minha velhinha edição da Colecção Miniatura nº 48,
tradução de António Quadros, capa de Bernardo Marques.
Um
dos mais memoráveis começos de livros:
«Hoje,
a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: «Sua
mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.»
E
também um grande final:
«Para
que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar
que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me
recebessem com gritos de ódio.
O
livrinho está largamente sublinhado.
A
partir do dia em que entra na prisão, Meursault conclui: « a minha casa era a minha cela, e
que a vida parava aí. No dia em que prenderam, fecharam-me primeiro num quarto
onde havia muitos detidos, a maioria deles Árabes. Ao verem-me, começaram a
rir. Depois perguntaram-me o que é que eu tinha feito. Disse que tinha morto um
Árabe e eles calaram-se todos.»

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