quinta-feira, 19 de março de 2026

O Q'É QUE VAI NO PIOLHO?


O realizador francês François Ozon, depois de Luchino Visconti em 1967, adapta O Estrangeiro de Albert Camus.

Numa entrevista ao suplemento Ípsilon do Público, publicada em 13 de Março, François Ozon diz:

«Em França ainda temos medo de O Estrangeiro. O passado argelino ainda é uma coisa complicada».

O filme de Visconti nunca me convenceu que teve problemas  e Visconti teve de viver com vários problemas, um deles a presença da viúva de Camus que tudo vigiava para que o texto fosse respeitado com todas as suas vírgulas.

Terei que ir ver o filme de Ozon, partindo sempre do principio que se há romances que não podem dar filmes, o romance de Camus, é um deles.

Pretexto para voltar a pegar na minha velhinha edição da Colecção Miniatura nº 48, tradução de António Quadros, capa de Bernardo Marques.

Um dos mais memoráveis começos de livros:

«Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: «Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.»

E também um grande final:

«Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.

O livrinho está largamente sublinhado.

 «A mãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz».

A partir do dia em que entra na prisão, Meursault  conclui: « a minha casa era a minha cela, e que a vida parava aí. No dia em que prenderam, fecharam-me primeiro num quarto onde havia muitos detidos, a maioria deles Árabes. Ao verem-me, começaram a rir. Depois perguntaram-me o que é que eu tinha feito. Disse que tinha morto um Árabe e eles calaram-se todos.»

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