sexta-feira, 27 de março de 2026

DAS CITAÇÕES


 Sempre entendi que quando há quem diga as coisas melhor do que possa dizer, não hesito em fazer citações.

«"Um país maluco de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços meninos, roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria! Do humor visionário
Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos, expressaríamos decerto pior.

Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre jeito. De pois há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizado.»

Ana Cristina Leonardo, Público 20 de Fevereiro

«Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi

Legenda: Ilustração de Willard Metcaff

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