Sempre entendi que quando há quem diga as coisas melhor do que possa dizer, não hesito em fazer citações.
«"Um país maluco
de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços meninos,
roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria! Do humor visionário
Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto
de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm
várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem
trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal
pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre
outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed.,
2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos,
expressaríamos decerto pior.
Dirão alguns, em tom
acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a
contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de
uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre
jeito. De pois há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto.
Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho,
anda bastante subvalorizado.»
Ana Cristina Leonardo, Público 20 de Fevereiro
«Citas muito, dizem.
Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de
autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que
se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado
pelas modas «que vêm do estrangeiro».
Gostaria de tornar bem
claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por
vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas –
isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi
expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de
evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.
Por outro lado, a
citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a
citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel
de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço
off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas
ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»
Eduardo
Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi
Legenda: Ilustração de Willard Metcaff

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