O gosto pelas Crónicas, o desejo único de que o espírito de Abril se mantenha pelos tempos fora, «Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados Sociais, os Estados Corporativos e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem não quiser sair, fica aqui!», Salgueiro Maia ainda em 24 de Abril de 1974:
«Tinha nove anos. Os meus pais eram comunistas: «a
nossa senha é Salgado Zenha», naturalmente. Levava para a escola primária dos
Olivais autocolantes com um Z.
Desde cedo, aos seis anos, que ia a pé para a escola,
quinze minutos de deslocação com um colega e amigo. Éramos miúdos e estávamos
por todo o lado, por toda a cidade.
Lá estava a inscrição na parede ao pé de casa: «Não à
lei Barreto/77». Havia política por todo o lado. Hoje também há, mas é mais
invisível, mais elitista, menos democrática. E isto já não é bem um país, como
sabeis, dada a perda, sempre reversível, de soberania. Ainda é uma pátria. Mas
não há crianças nas ruas, aos bandos. Envelhecer deve ser isto. Prossigamos.
Os meus colegas de direita tinham todo o tipo de
bugigangas do Freitas do Amaral, dizia-se que era a primeira campanha «à
americana». Na sua autobiografia, Freitas do Amaral, já agora, usa o termo
neoliberal para descrever as suas orientações e as do seu CDS. Sim, sou um
respigador destes usos de uma palavra que alguns ainda rejeitam de forma
ignorante.
Invejava os meus amigos de direita secretamente. Uma
vez fui passar a tarde a casa do Pedro e fomos com a mãe dele às compras. De
passagem, fomos dizer olá à avó, que estava a trabalhar numa sede de campanha
do Freitas, ali na Cruz de Celas. A avó queria dar-me um sortido kit de
campanha: «este menino é do Zenha», antecipou a mãe. Pois sou, confirmei, como
se uma meta-preferência ético-política contrariasse a preferência imediata pela
cor, pelo plástico.
Irritava-me o hino de Freitas do Amaral, o do «prá frente
Portugal», que me ficou no ouvido até hoje, tal como o do «pão, paz, povo e
liberdade» do cavaquismo ascendente. O Rafael, o meu melhor amigo, era do PSD e
eu, aparentemente, tinha-o apodado de «fascista» quando soube disso, no dia em
que nos conhecemos, fazia três anos. Conta essa história até hoje, mas eu não
me lembro. A memória depende de outros, como tudo na vida. Aprende-se,
imitando, claro.
Lembro-me de ir a um entusiasmante comício de Salgado Zenha, que julgo ter sido no Teatro Avenida. Estava a abarrotar. Agitei uma bandeira com alegria, como ainda hoje gosto tanto de o fazer. O Teatro já não existe, substituído há muito por um mamarracho hediondo.
Lembro-me de se achar que Maria de Lurdes Pintassilgo
só servia os interesses da candidatura de Soares. Soares, esse sim, era odiado.
O meu pai tinha sido advogado sindical na última década antes das eleições, a
da queda brutal do peso dos salários no rendimento nacional depois do grande
avanço do glorioso PREC.
Chorei no domingo da primeira volta, sempre tive a
lágrima fácil: «perdeu-se uma batalha, mas não se perdeu a guerra», consolou-me
o meu pai, ao mesmo tempo que dizia que jamais votaria em Soares. «É claro que
vamos votar no Soares», disse a minha mãe, antecipando a deliberação coletiva
proferida por Álvaro Cunhal.
Andei então com um autocolante de Soares e tive mais
companhia no recreio nessa altura. A seguir, logo em 1987, Soares foi Soares,
nunca se pôde confiar nele, realmente. Mas a unidade possível era função do
inimigo principal num tempo antes deste terrível consenso neoliberal. O
neoliberalismo era só um movimento entre outros, não era ainda o regime europeu
que Soares sempre endossou, retórica à parte.
E ainda não vi o documentário na RTP da autoria de Ivan
Nunes e de Paulo Pena, de que já me falaram, sobre as eleições de 1986. Vou
agora ver, provavelmente com melancolia de esquerda.
Antes, porém, há que dizer e redizer, sem qualquer
melancolia: «com o povo, por Abril, por Portugal». Sim, muito obrigado, António
Filipe, por esta campanha imprescindível. Poder e razão não são sinónimos e
nunca esta distinção foi tão importante. Pode perder-se e ainda assim ter
razão, muitas razões.
Agora, vou votar no candidato que não se chama
Ventura. Pensarei em Cunhal e no meu pai. Não é difícil votar. Difícil foi
conquistar o sufrágio universal. E aí os comunistas foram, como sempre,
imprescindíveis.
A vida, a luta e a resistência não terminaram no
passado domingo, nem terminarão no dia 8. É papel dos democratas rejeitar
Ventura, mas a luta não se esgota aí. De facto, continua a ser imprescindível
derrotar o consenso neoliberal, desde logo tendo presente que rejeitar Ventura,
não é apoiar as ideias de Seguro.
A luta social terá de se intensificar e muito. Os
perigos para a democracia não se encontram apenas em Ventura, mas nos projetos
mais vastos de exploração, desde logo no pacote laboral. Sabemos quem continua
a ser imprescindível para derrotar tudo isso.»

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