Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões, mais conhecido por Alexandre O’ Neill, nasceu em Lisboa no dia 19 de Dezembro de 1924.
Considerava-se
o maior dos poetas menores.
Antes
do resto, uma passagem pela pasta do Arquivo Cá da Casa sobre o O’ Neill.
Trata-se
de uma crítica de Eduardo Prado Coelho no Diário de Lisboa de 17 de
Abril de 1969, apresenta-se apenas um pormenor do recorte, sobre o livro de Ombrona Ombreira para que reparem no elogio do Eduardo ao O’ Neill, que entretanto
o crítico titulou como um «Livro Menor».
No
ano de 2024 Isabel Coutinho no Público pediu-nos para seguirmos O’ Neill
em tempo do seu centenário de nascimento ele que já nos deixara um poema para
que seguíssemos o cherne « desçamos ao
fundo do desejo atrás de muito mais que a fantasia e aceitemos, até, do cherne
um beijo.»
Isabel
Coutinho, no artigo do Público, lembra que nos dez anos da morte do
escritor, Vicente Jorge Silva garantia que «O’Neill é talvez o poeta
português moderno mais cruelmente injustiçado, mais esquecido e menos lido nos
anos que correm – ele que foi um dos maiores inventores de palavras, paradoxos,
trocadilhos e construções poéticas originais que este país deu à luz» e
nesse 21 de Agosto de 1996, quando morreu, também em Lisboa, Vicente Jorge
Silva rematava: «O’Neill é o nosso remorso deste Agosto, uma memória que não
é possível,deixar morrer, uma questão que Portugal tem consigo mesmo.»
E
Isabel Coutinho não deixa de lembrar Nora Mitrani, escritora búlgara que
pertenceu ao movimento surrealista francês e por quem O’Neill se apaixonou perdidamente
e para quem escreveu o poema Adeus Português, um dos mais belos poemas
da literatura portuguesa.
O’Neill
nunca mais viu Nora Mitrani.
De
França, ela convidou-o : «Vens, ficas cá e depois logo se vê».
Acontece
então que a família de O’Neill não quer que ele vá atrás da francesa, movimentando
conhecimentos junto da PIDE, pretendia que a polícia política não lhe
concedesse passaporte para viajar ao encontro de Nora Mitrani.
UM ADEUS PORTUGUÊS
Nos teus olhos
altamente perigosos
vigora agora o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
E avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
Notas:
O
título do post é tirado de uma antologia de poemas de Alezandre O’ Neill, organizada
por António Tabucchi.
«Sigamos o O’Neill!, no
ano do seu centenário» de Isabel Coutinho, Público 19 de Dezembro
de 2024.
«Alexandre O’Neill: Uma
Biografia Literária» Maria Antónia Oliveira.
O
poema Uma Vida de Cão é copiado de No Reino da Dinamarca.
O poema Um Adeus Português é copiado de No Reino da Dinamarca, que O’Neill dedica ao compositor Alain Oulman, que percorreu anos e anos para que O’ Neill escrevesse um poema para ele musicar e acabou por acontecer Gaivota.

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