Neste livro, Règis Debray faz uma citação de Lénine:
«É
menos perigoso sofreuma derrota do que ter medoi de a reconhecer, do que ter
medo de tirar dela todas as consequências, do que ter medo de tirar dela todas
as consequências… Não se deve ter medo de confessar os seus defeitos. É
necessário tirar de cada um todos os ensinamentos que comporta. Se admitirmos
que a confissão de uma derrota, tal como o abandono de uma posição, provoca nos
revolucionários desmoralização e enfraquecimento da energia na luta, é
necessário dizer que tais revolucionários não pretam para nada.»
Lembro-me
do meu pai, um marxista-leninista profundo, me dizer que era importante ler
Marx e Lénine.
De
Marx li algumas coisas, o mais importante?, João César Monteiro a dizer que
«Está tudo no Marx!» de Lénine fugazes flashs.
Apanho uma outra citação do Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura :
« Há 20 anos éramos esquerdistas, maoístas,
trotskistas, guevaristas, anarquistas; hoje somos todos neo-liberais e
post-modernos (enfim, quase todos…)
(…)
Estes tempos são tempos
de arrependidos de todos os géneros; Bob Dylan está cheio de dinheiro e usa
lentes de contacto; Regis Debray estuda Milton Friedman às escondidas, Não
transformámos o mundo nem mudámos a vida; a vida é que nos mudou a
todos (o «Che» morreu na Bolívia, baleado por um «ranger» anónimo; José Afonso
morreu de doença; e o Artur Queirós ganhou o Prémio Ibéria de Jornalismo). Foi
uma derrota sem glória pelo menos sem tanta glória como a derrota dos nossos
pais nas trincheiras de Valência, nos campos de Almeria, ou passando o
Ebro en un barquito de vela.
Os revolucionários,
mesmo os de café, são os cornudos da História; nós nem por isso. Os cafés
passaram a bancos e as namoradas com quem, de mãos dadas atravessámos os anos
da brasa sobre as barricadas do Quartier Latin ou nos jardins da Cidade Universitária,
são hoje professoras do liceu e assinantes do Círculo de Leitores.
Restam-nos alguns discos, alguns livros, algumas memórias. E nem temos uma história, uma grande história para contar aos filhos, porque os nossos filhos preferem as histórias dos campeões da Wall Street e emocionam-se mais com um «crash» da Bolsa do que com verduras românticas com «pavês», «slogans», ocupações selvagens. Elvis Presley, afinal, não era informador da CIA? João XXIII não tinha acções nas fábricas de material de guerra? Giap não tinha campos de concentração? Fidel não tinha Padilla a apodrecer numa cadeia?»
A
Biblioteca da Casa tem uma razoável quantidade de livros sobre a América
Latina, nem todos importantes, mas este livro do Debray é um excelente ponto de
discussão.
Havia
cafés, havia longas e quentes conversas sobre Fidel, o Che, havia o Carlos
Alberto, ao tempo, um especialista sobre o que se passava em toda a América
Latina, e começava, sempre, as conversas com um «o caso é o seguinte, ou seja…»
Hoje,
já não há cafés, muitos dos que se juntavam naquelas mesas, viajaram para
outras políticas, alguns já não estão entre nós.
Cuba
está prestes a ser tomada pelo amor ao dinheiro e poder de Trump, pela vingança
de Marco Rúbio, nascido em Miami, mas cujos pais saíram de Cuba quando Fidel
encerrou o quintal dos Estados Unidos e refugiaram-se na Flórida.
Agora
vou pensando que Cristo morreu, Marx também e eu próprio não me estou a sentir nada bem…
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