Os dias mais
silenciosos são dias magros
como a diet coke, dias em que nem sequer notamos
os navios doentes, navios de quarentena onde,
felizmente, nunca poderíamos ter chegado a entrar,
nunca teríamos chegado a chegar
por não sermos capazes da primeira partida.
Os dias mais silenciosos não são tristes:
são de rejeitar cruzeiros fixos, pasteleiros de máscara
de ferro a fazerem bolos doentes para hóspedes doentes.
O mundo, Drummond, o vasto mundo está horrível
e tudo o que consigo é pedir um copo de branco,
Dona Ermelinda de Freitas, o mais barato na esplanada
cheia de gente espantada com ainda haver sol.
Os dias mais
silenciosos têm uma bandeira vertical,
caída de não haver vento, e muita gente
a andar de bicicleta.
Aos 40 anos, tudo o que desejo são estes dias
sem surpresa: chegar ao céu, sentar-me,
efectuar o pagamento no acto da entrega.
Filipa Leal
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