domingo, 11 de janeiro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Gosta de Woody Allen.

Principalmente de alguns dos seus filmes.

Já gostou mais?

Está na livraria.

Terá que trocar um livro que lhe deram pelo Natal, mas como já o tinha, obriga-se a escolher algo.

«No Natal o prazo estende-se até 31 de Janeiro de 2006», pode ler-se no talão devolutivo.

Quer resolver a situação no momento.

Pega em Que se Passa com o Baum, primeiro romance de Woody.

Que se pode esperar?

Tudo? Nada?

À falta de outros elementos, lê a badana:

«Baum, um jornalista judeu de meia-idade que se tornou romancista e dramaturgo, vive consumido de ansiedade por tudo o que mexe. Os seus livros densamente filosóficos recebem críticas mornas, e a sua prestigiada editora nova-iorquina deu-lhe com os pés. O seu terceiro casamento está por um fio, e ele desconfia de que o seu irmão mais novo seduziu a sua mulher. Sente-se desconfortável com a relação próxima desta com o filho, um autor mais bem-sucedido do que ele, e suspeita da proximidade dela com o vizinho. Para piorar a situação, num impulso irracional, tentou beijar uma jovem e bonita jornalista durante uma entrevista — o que ela está prestes a divulgar.

Será de admirar que Baum tenha começado a falar sozinho? Desconhecidos abanam a cabeça e desviam-se dele na rua. Entretanto, descobre um segredo surpreendente que poderá provocar um terramoto se for revelado. Deverá guardá-lo para si ou contá-lo.»

O começo do livro revelam as preocupações neuróticas sobre a futilidade e o vazio da vida de Baum.

«Ultimamente, Asher Baum tinha começado a falar sozinho. Não apenas os murmúrios ocasionais de um homem que tenta clarificar os seus pensamentos ou acalmar-se antes de alguma tarefa complicada».

Ele, volta e meia, também já se apanha a falar sozinho em casa, na rua.

Lembra-se que o poeta Zé Fomes Ferreira não se importava, absolutamente nada, de ser apanhado a falar sozinho, a tropeçar, nas suas caminhadas por Lisboa.

No meio de tudo isto viu a fila para a compra de livros aumentar. Não quer dar mais voltas aos escaparates repletos de autores que desconhece por completo.

Que se lixe! O Woody sempre é um rapaz cá da casa.

Talvez não o desiluda… talvez…

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