Gosta
de Woody Allen.
Principalmente
de alguns dos seus filmes.
Já
gostou mais?
Está
na livraria.
Terá
que trocar um livro que lhe deram pelo Natal, mas como já o tinha, obriga-se a
escolher algo.
«No
Natal o prazo estende-se até 31 de Janeiro de 2006», pode ler-se no talão
devolutivo.
Quer
resolver a situação no momento.
Pega
em Que se Passa com o Baum, primeiro romance de Woody.
Que
se pode esperar?
Tudo?
Nada?
À
falta de outros elementos, lê a badana:
«Baum, um jornalista
judeu de meia-idade que se tornou romancista e dramaturgo, vive consumido de
ansiedade por tudo o que mexe. Os seus livros densamente filosóficos recebem
críticas mornas, e a sua prestigiada editora nova-iorquina deu-lhe com os pés.
O seu terceiro casamento está por um fio, e ele desconfia de que o seu irmão mais
novo seduziu a sua mulher. Sente-se desconfortável com a relação próxima desta
com o filho, um autor mais bem-sucedido do que ele, e suspeita da proximidade
dela com o vizinho. Para piorar a situação, num impulso irracional, tentou
beijar uma jovem e bonita jornalista durante uma entrevista — o que ela está
prestes a divulgar.
Será de admirar que
Baum tenha começado a falar sozinho? Desconhecidos abanam a cabeça e desviam-se
dele na rua. Entretanto, descobre um segredo surpreendente que poderá provocar
um terramoto se for revelado. Deverá guardá-lo para si ou contá-lo.»
O
começo do livro revelam as preocupações neuróticas sobre a futilidade e
o vazio da vida de Baum.
«Ultimamente, Asher
Baum tinha começado a falar sozinho. Não apenas os murmúrios ocasionais de um
homem que tenta clarificar os seus pensamentos ou acalmar-se antes de alguma
tarefa complicada».
Ele,
volta e meia, também já se apanha a falar sozinho em casa, na rua.
Lembra-se
que o poeta Zé Fomes Ferreira não se importava, absolutamente nada, de ser
apanhado a falar sozinho, a tropeçar, nas suas caminhadas por Lisboa.
No
meio de tudo isto viu a fila para a compra de livros aumentar. Não quer dar
mais voltas aos escaparates repletos de autores que desconhece por completo.
Que
se lixe! O Woody sempre é um rapaz cá da casa.
Talvez não o desiluda… talvez…
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