sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

NESTE DIA


 Já se adiantou que o dia do autor que escolhemos, não é «este dia», é um outro, e pegando no 3º volume dos Cadernos de Lanzarote, vamos cair no dia 1 de Dezembro de 1995.

José Saramago escreve:

«Morreu o Fernando Assis Pacheco. A notícia abalou-me profundamente. Não éramos o que se chama amigos, mas havia entre nós relações muito cordiais, de simpatia e respeito mútuos, e a admiração que sentia por ele não a sinto por muitos. Morreu daquele coração que desde há anos o vinha ameaçando. Morreu numa livraria, provavelmente o lugar que ele próprio teria escolhido para quando tivesse de sair da vida.»

O mesmo volume dos Cadernos, José Saramago volta a Fernando Assis Pacheco e estamos a 22 de Dezembro de 1995:

«Carmélia, que veio com a mãe passar as festas connosco, trouxe-nos o último do Jornal de Letras, dedicado, em parte, a Fernando Assis Pacheco. Leio os poemas dele que lá vêm, inéditos, e irresistivelmente penso que Tolentino, se vivesse neste tempo, teria por força de escrever assim. Espero que se encontrem muito mais inéditos comos estes nos papéis que o Assis Pacheco deixou: há obras tão fecundas que continuam a crescer depois da morte do seu autor. Veja-se este soneto, por exemplo que só agora foi escrito:

 

O corpo mal talhado em cujo abdómen

cresceu um aneurisma durante anos

que por fim o condena à cirurgia

vascular de emergência transportado

 

com terror de sirenes por dois homens

de bata branca amáveis que procuram

tocar prà frente a dura traquitana

𝘷𝘢𝘪 𝘷𝘦𝘳 𝘴𝘳. 𝘗𝘢𝘤𝘩𝘦𝘤𝘰 é 𝘴ó 𝘶𝘮 𝘴𝘶𝘴𝘵𝘰

 

chega a Santa Maria gracejando

mas à vista da sala fica mudo

onde o afeitam já sumariamente

 

vinte minutos mais e o ascensor

leva o pobre do corpo até à faca

não pensa noutra coisa: o seu enterro

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