Abordamos a página 15 de Biografia de Herberto Helder, em que João Pedro George aborda indícios do gosto de Herberto pela Arquitectura e copiamos:
«Talvez
Herberto se tenha fixado na notícia sobre Os Arquitectos São Poetas Também, o
título e o lema da exposição do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, sobre
José Ângelo Cottinelli Telmo (que além de arquitecto era cineasta, bailarino,
poeta e autor de banda desenhada, fotógrafo, ilustrador e músico).
Conhecendo-se
a sua ligação à arquitectura (trabalhou com Tomás Taveira no atelier do
arquitecto Francisco da Conceição Silva, tendo colaborado no projecto da loja
Valentim de Carvalho, em Cascais, e conviveu de perto com José Trofa Real,
quando vivia em Angola, e pensando na sua poesia escreveu uma «Ode aos
Arquitectos.
Herberto concordaria, decerto, com o texto que
apresentava a exposição:»Cotinelli Telmo – autor do Padrão dos Descobrimentos –
reclamava para os arquitectos o direito e a liberdade de afirmarem a sua
subjectividade, de fintarem a racionalidade, de contornarem imposições
imperialistas. E resumia o modo como entendia a arquitectura: em comunhão com
todas as artes, com todas as disciplinas.»
Pensando
na arquitectura, Herberto terá idealizado o poema Prefácio, primeiro poema de
A Colher na Boca, publicado em 1961 que na publicação de Poesia Toda, editado
pela Plátano Editora, aparece no conjunto Ofício Cantante.
É
este o poema:
«Falemos
de casas, do sagaz exercício de um poder
tão
firme e silencioso como só houve
no
tempo mais antigo.
Estes
são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo
com ironia e doçura no fundo
de
um alto segredo que os restitui à lama.
De
doces mãos irreprimíveis.
–
Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as
casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a
boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.Digamos que descobrimos
amoras, a corrente oculta
do
gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos
corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável
das fontes –
pensamentos
nas pedras de alguma coisa celeste
como
fogo exemplar.
Digamos
que dormimos nas casas, e vemos as musas
um
pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas,
e temos memória
e
absorvente melancolia
e
atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.Estas são as casas. E se
vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos
um pouco, e muito, com tais arquitectos
que
não viram as torrentes infindáveis
das
rosas, ou as águas permanentes,
ou
um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
–
Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos
muitos sentidos dos meses,
dizendo:
aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para
que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?
Alguém
trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém
viera do mar.
Alguém
chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém
lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
–
Estas casas serão destruídas.
Como
um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no
seu casamento solar, assim
se
esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando
a demorada cabeça para os rios misteriosos
da
terra
onde
os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas,
as caras ardendo nas velozes
iluminações.
Falemos
de casas. É verão, outono,
nome
profuso entre as paisagens inclinadas
Traziam
o sal, os construtores
da
alma, comportavam em si
restituidores
deslumbramentos em presença da suspensão
de
animais e estrelas,
imaginavam
bem a pureza com homens e mulheres
ao
lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando
uns nos outros –
comovidos,
difíceis, dadivosos,
ardendo
devagar.
Só
um instante em cada primavera se encontravam
com
o junquilho original,
arrefeciam
o resto do ano, eram breves os mestres
da
inspiração.
–
E as casas levantavam-se
sobre
as águas ao comprido do céu.
Mas
casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce
e obsessiva – tudo isso
está
longe da canção que era preciso escrever.
–
E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.
Falemos
de casas, da morte. Casas são rosas
Para
cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
Nos
abandona para sempre.
Casas
são rios diuturnos, nocturnos rios
Celestes
que fulguram lentamente
Até
uma baía fria – que talvez não exista,
como
uma secreta eternidade.
Falemos
de casas como quem fala da sua alma,
Entre
um incêndio,
Junto
ao modelo das searas,
na
aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e
morrer com um pouco, um pouco
de
beleza».
Legenda: capa de A Colher na Boca de Herberto Helder, editado pelas Edições Ática em 1961, tirada da Internet.

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