quinta-feira, 2 de abril de 2026

RETRATOS


A Constituição de Abril faz hoje 50 anos.

Por tudo e por nada foram dias gloriosos.

Os dias da nossa Esperança.

Para sempre!


POEMA CONSTITUINTE

 

A Constituição constitui-se de homens e mulheres

cidadãos com a mesma

dignidade social

iguais perante a lei

 

A Constituição constitui-se de homens e mulheres

antes de se estruturar

em Títulos

Capítulos

Artigos

Alíneas

 

A Constituição constitui-se pela vontade popular

empenhada livremente

na transformação da sociedade portuguesa

numa sociedade sem classes

 

A Constituição constitui-se por dentro dos braços

e das cabeças

dos homens e das mulheres livres

que constroem o socialismo

dia a dia

antes de ele ser o Artigo 2.° da Constituição

pela via democrática

 

A Constituição constitui-se de avanços projectos e lutas

no coração

que não admite recuos

nem abdica

do futuro

 

A Constituição constitui-se da força organizativa

dos que acordam

todos os dias

com um novo intento de vive

porque possuem em si próprios

a soberania

una

indivisível

 

A Constituição constitui-se dos direitos dos trabalhadores

não distinguindo

idade raça religião

ideologia

com direito ao trabalho

e à retribuição

sem aviltamento

sem exploração

com direito

à existência condigna

à realização pessoal

à higiene e à saúde

à organização

à segurança

 à educação e à cultura

ao repouso

às comissões suas

de trabalhadores

defendendo esses seus interesses

e outros

 

A Constituição constitui-se de consciências livres

antes de se cristalizar

nas palavras e nas frases

num documento lei

 

A Constituição constitui-se da liberdade de escrever

essas palavras

da obrigatoriedade de cumpri-las

porque por longos anos circularam

interditas

no sangue livre

do povo soberano

 

Constituição constitui-se das palavras

com que se escrevem os poemas

(como este)

que todos têm direito

de produzir

exprimir

divulgar

já que pela palavra

são a criação do pensamento

pela imagem

são a materialização da comunicação

por todos os meios

são a circulação da informação

a que todos os homens e mulheres

têm direito

sem impedimentos

nem discriminações

 

E porque

todos esses direitos

não podem ser impedidos

por qualquer tipo

de censura

 

a voz soberana do povo

digno e verdadeiro

far-se-á ouvir

defendendo

e

constituindo a Constituição!

 

Poema escrito por E. M. de Melo e Castro, em 1979, por ocasião do 3º aniversário da Constituição da República Portuguesa.

Legenda: Deputados da Constituinte, no final da Sessão Solene dos 50 anos da Constituição realizada na Assembleia da República.

A fotografia é de Daniel Rocha e foi tirada do Público.

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