quinta-feira, 25 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Mais do que qualquer outro pecado, devereis libertar-vos da tristeza. A tristeza não é um pecado, mas nenhum pecado endurece tanto o coração como a tristeza.

Dito hassídico citado por José Tolentino Mendonça em Que Coisa são as Nuvens

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

NOTÍCIAS DO CIRCO


Nós levamos a sério a política. Nós levamos a sério o país. Nós levamos a sério as pessoas. E é porque nos preocupamos com elas e com o seu futuro que faremos o que é difícil, que faremos o que é preciso, e esperamos que o que seja preciso e o que é difícil seja menos do que aquilo que nós podemos fazer, porque podemos fazer mais do que aquilo que é difícil, podemos também fazer aquilo que é necessário para que Portugal possa ser, como a Espanha tem vindo a mostrar, como a Irlanda mostrou também, um país em que no futuro todos querem apostar.

Pedro Passos Coelho no Pontal

OLHAR AS CAPAS


Tampo Vazio

Raul de Carvalho
Colecção Círculo de Poesia
Moraes Editores, Lisboa, Dezembro de 1975

Como me mandam sempre
fazer o que não sei...
encho-me de pavor por não saber...
Penso depois que o necessário é preencher o tempo...
É o que tenho feito.
De qualquer maneira...
De todas as maneiras.
Às vezes penso que é bom trabalhar para os outros...
Que isso nos traz um grande alívio.
Que, enquanto temos o espírito ocupado com o que sobra ou enche o espírito dos outros,
nos vamos iludindo, esquecendo...
nos vamos apoiando.
Penso que precisamos, todos, de apoio.
Que, se Deus nos falta, falta-nos tudo.
E que é compreensível recorrer,
de vez em quando,
à estricnina.
Penso que, de manhã, se está, em geral, mais desperto.
Que é a hora melhor para iludir compromissos.
Para se esquecer que se acordou, e temos...
Penso várias e uma só coisa ao mesmo tempo.
Penso que tenho tido pouca sorte mas que assim era preciso.
E se ouço passos, tremo...
Penso que gostaria, tanto!, de ler um livro...
sem pensar em mais nada.
De ajeitar, delicadamente,
o lenço a minha mãe.
De viajar.
Penso que a vida nos reserva grandes coisas,
e que ainda estais a tempo...
Dou por mim a pensar de outra maneira:
que nunca chegaremos ao fim,
que não sabemos se queremos lá chegar,
e que, se a vontade nos escapa, temos vontade de tudo menos de morrer.
Porque algo, um pequenino motivo inconsciente, uma parte, minúscula, do nosso destino,
precisa atravessar as trevas, e viver!
Penso muitas vezes se acaso ser poeta não será outra coisa,
e que os versos que escrevo bem pode ser que estejam
me enganando...
Há forças que não sei explicar.
No que sempre acredito, duvido sempre -
observo-me - estou sempre de pé atrás...
Também eu, é verdade, senti deslumbramento
pela variedade multicolor dos canteiros,
pelos reflexos e mil jogos de cor da luz sobre a folhagem...
Parecia-me que a beleza perdoava tudo e a todos conferia majestade.
Hoje penso que não: que adoeci, que fui envelhecendo, que há poucos livros úteis, que, para sobreviver, temos de trabalhar... e que o trabalho sem amor
 mata.
Não penso já no amor, penso na morte.
Não na morte que a todos nos espera, a um canto do mundo, a um momento, não na morte final estou pensando agora.
Agora e a toda a hora penso na diária morte que atravesso e se atravessa em mim.
Nessa, sim, é que eu penso; irremediavelmente.
Porque a outra morte tem remédio ou, se o não tem, paciência...
Esta, sim, é que custa.
É que custa a carregar todos os dias,
peso morto.
Peso morto em que penso
sobre o tampo limpo.
Limpo e vazio

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

SAUDADES DE D. HELDER


Anos e anos e anos de conversas com o Helder Pinho. 

Os dedos de uma mão chegam para dizer as vezes em que essas conversas não eram bem regadas.

Numa dessas noites, a conversa girava à volta do Luiz Pacheco e, a determinado ponto, o Helder deixou dito, preto no branco, que para compreender e sentir o Luiz Pacheco era preciso ter passado fome.

Ficámos a olhá-lo.

Ninguém esboçou qualquer comentário.

Quando o Helder Pinho desencantava saídas destas, ficava tão feliz como se lhe tivessem oferecido uma bicicleta pelo Natal.

Legenda: fotografia de Helder Pinho da autoria de Maurício Abreu.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


A gente que nasce e vive junto do mar é mais pura.

Herberto Helder em Os Passos em Volta

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

UMA GARGALHADA DO MEU FILHO



Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.

Rui Knopfli

Legenda: fotografia de George Hodan

OLHARES


Ainda se encontram terras singulares neste país. Desterradas do mundo e obrigadas a serem um mundo, criam-no à sua medida, com todo o sentido prático que a necessidade impõe, e toda a liberdade imaginativa que os lazeres permitem. O bafo de cada habitante a aquecer o vizinho, a carga de presuntos a servir de unidade monetária, a lei codificada em parábolas, histórias fantásticas em que os penedos, cansados da incómoda imobilidade milenária, mudam ardilosamente de posição, e torres de cortiços sobrepostos permitem alargar os horizontes da inquietação emparedada. O real e o irreal agasalhados no mesmo gabão. Nós sociais apertados, que nenhuma força centrífuga consegue desatar, correspondem sempre a nós cegos telúricos que a natureza não deixa desfazer. E há nem sei que sedução envolvente bessa coesa harmonia entre o antropológico e o geográfico – a eternidade humana reflectida no espelho da eternidade panorâmica.

Miguel Torga, Diário Volume X

Legenda: Fajão

O texto de Miguel Torga está datado de 21 de Julho de 1968

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO



 A memória é uma vasta ferida.

Chico Buarque em Leite Derramado

Legenda, fotografia de Ernst Haas

OLHAR AS CAPAS


Autobiografia

Mário Dionísio
Colecção Autobiografias nº 3
Edições O Jornal, Lisboa, Dezembro de 1987

Disse um dia a um jornal que os erros dos que estão mais próximos dos meus ideais, mesmo só em teoria, nunca me farão cair nos braços dos inimigos desses mesmos ideais. Disse-o então, digo-o agora. Amanhã a mesma coisa. Espero.

domingo, 21 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


O passado é um sítio muito perigoso.

Dulce Maria Cardoso

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Há mais cinema nas séries de televisão americanas do que nas salas. Grandes histórias, grandes argumentistas, grandes actores. Muitos adultos não estão interessados em ir a um filme onde se come, onde há barulho de pipocas e o sorver do fim da Coca-Cola, mensagens de telemóvel, e-mails... Não estão para isso! Portanto, não vão, ficam em casa. O cinema passou a ser um entretenimento. Deixou de ser uma sala escura, quase uma missa onde se celebrava, apagavam-se as luzes, as pessoas ficavam todas muito caladinhas. No teatro desliga-se o telemóvel e não se come. Por que hão de comer no cinema? E tudo porque o cinema é um negócio. Num bilhete de cinema, uma distribuidora ganha dois euros, o exibidor ganha um ou dois. Mas ganham na pipoca e na Coca-Cola! Querem filmes onde se possa comer e beber. E eu não sei fazer isso.

João Botelho

SEGUNDA «POESIA DE PAREDE»


Em Maio de 1967 o poeta soviético Evtuchenko esteve em Portugal.

Aquiaqui e aqui, há pormenores sobre essa historieta.

Muitos de nós embarcámos no canto de sereia.

José Gomes Ferreira foi um dos que não foi em cantigas.

Exactamente em 1967, José Gomes Ferreira entendeu escrever poemas no quarto do filho Alexandre.

Escreveu apenas duas poesias incluídas em A Poesia Continua.

E anotou:

A segunda criticava um bom poeta soviético, então de visista a Portugal – Ievtuchenko – que caíra, por inadvertência ou ignorância dos truques fascistas, na armadilha de se deixar fotografar por debaixo de um galo, espécie de brasão do S.N.I. Não pôde com certeza evitá-lo, o poeta.

É este o poema:


Meu filho, queres saber
porque recusei fazer o papel de paisagem
e não entrei no elenco
da farsa que houve aí de homenagem
a Ievtuchenko?

Primeiro: porque já estou velho para pagem.
Depois, porque quase chorei quando vi
que foram fotografá-lo
debaixo do galo
do S.N.I.

Ah! Ievtuchenko,
que pensarão das tuas fotografias
e desse galo torto
(que tão bem te define)
as raivas do coração fundo
dos presos de Caxias!

E Lenine?

Que pensará o camarada Lenine
que - sabias? -
até depois de morto
fez a revolução no outro mundo?

Conclusão, meu rapaz:
nunca queiras ser cartaz.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Lisboa.
Largo do Carmo em outros tempos.

sábado, 20 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Ah, como dói viver quando falta a esperança.

Manuel Bandeira em Obras Poéticas


Legenda: fotografia de Herbert Maeder

QUOTIDIANOS


Passagem dos concorrentes da 29ª Volta a Portugal em Bicicleta na Ponte, recém inaugurada.
Cumpria-se a 15ª etapa entre Lisboa e Estremoz que veio a ser ganha por Leonel Miranda do Sporting.
Esta 29ª Volta teve um percurso total de 2.341 quilómetros divididos por 21 etapas.
A Volta seria ganha por Francisco Valada do Benfica com 64 horas, 38 minutos e 36 segundos.
O Benfica também ganhou por equipas, seguido do Porto, do Tavira, do Sporting, da Cedemi, da Flandria e do Sangalhos.
Sérgio Páscoa do Tavira foi o vencedor do Prémio da Montanha.
Estes eram os tempos em que a Volta a Portugal era um acontecimento nacional.
Hoje, não passa de travesti de volta.

OLHAR AS CAPAS


A Fenda Erótica

Hélia Correia
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, Março de 1988


Eu era rapazinho quando Maruja entrou na minha vida. Apareceu a morar com os avós num andar do meu prédio. E era ruiva, via-se que ninguém conseguia domar aquela imensa rama de cabelos que chispava, feroz, em torno da pele melada e dos olhos muito azuis. Usava golas brancas, quadradas sobre as costas, de modo a por assim exibir prova das suas ascendências marinheiras. O pai, contava ela, morrera num naufrágio, deixara-se afundar com o navio. E ela própria já dera a volta ao mundo. Sobre a mãe não falava e, como tinha o dom tão raro nas crianças de inspirar confiança e esfriar tentativas de mais intimidade, nunca nenhum de nós lhe perguntou por ela. À Maruja, as perguntas que podiam fazer-se eram sobre piratas ou ruelas chinesas – jamais sobre a família ou hábitos domésticos.

O FAROL CHAPMAN


O Sol pôs-se; o crepúsculo desceu sobre as águas e surgiram luzes ao longo das margens. O farol Chapman, uma engenhoca de três pernas erguida num baixio lamacento, brilhava intensamente. Luzes de navios moviam-se no passo navegável – um grande vaivém de luzes para cima e para baixo. E para oeste, a montante, o local da cidade monstruosa continuava sinistramente assinalado no céu: uma caligem ensimesmada à luz do Sol, um clarão lívido sob as estrelas.


Legenda: pintura de Harry Russell

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


O tempo, neste caso, não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não são nada. Ser artista é não contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva, que resiste, confiante, aos grandes ventos da Primavera, sem temer que o Verão possa não vir. O Verão vem. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão calmos como se tivessem na frente a eternidade. Aprendo-o todos os dias à custa de sofrimentos que bendigo: a paciência é tudo.

Rainer Maria Rilke em Cartas a um Poeta

O HOMEM QUE SEMPRE CALÇOU BOTAS


Primeira página do Notícias de Portugal, 20 de Agosto de 1966, boletim semanal de propaganda da ditadura.

A fotografia mostra o general França Borges, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a entregar a Salazar a medalha de gratidão da cidade.

A história regista que Salazar nunca foi um entusiasta da construção da Ponte Sobre o Tejo.
Nota-se-lhe o ar de frete a receber a benesse.

Mas o regime entendeu que teria de existir mais uma vassalagem ao ditador.

A medalha foi entregue no Forte de Santo António da Barra, em S. João do Estoril, local que Salazar sempre escolheu para passar alguns dias de férias.

Foi neste forte que Salazar, no dia 3 de Agosto de 1968, caiu de uma cadeira, bateu com a cabeça no chão e a ditadura encetava os primeiros dias do resto da sua tenebrosa existência.

UMA MISSA NEGRA


Tirado da badana de Missa in Albis de Maria Velho da Costa

OLHAR AS CAPAS


Missa in Albis

Maria Velho da Costa
Círculo de Leitores, Lisboa s/d

Sabes tu, Ir-me em Guarda, o que é viver dez anios agarrado ao gargalo da Glenfiddich? Todas as mulheres se me lembram fermento de aveia, nem uma pouca de louro para a testa. Caçadoiras caçantes. E dizia eu, no posfácio de Z., que, matar-me: nem aos poucos, nem aos muitos.
É meio-dia e meia Jack Daniels. O esmalte foi-se. Fiquem os dedos. Maria S.: Você tem pouca paciência com os meus lutos. Qual Imogen:
«Perder duas misses escrevedoiras é azar; três é desleixo, Aleixo.» Parafraseava; simile modo me pôs a escavadoira Royal ladeada de cravos verdes. Eu? de Óscar Selvagem? A ideia há-de haver de ter vindo de mano Salvador: - Aleixo, tanta força para rimar com desfecho. «Quem não pode arreia», disse-lhe eu como se nele isso não fosse um hábito; professor monge, o sacana: ter tudo. ‘Pera aí, Belinha. Pois «Quem não tem competência não se estabelece», dixit chulo à puta-atraso-vida.
Aprendi, tarde. Lisboa esmaga quando não esborrata.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Um imenso fastio de tudo.
Basta de palavras. Um gesto. Não escreverei mais.

Últimas palavras de Cesare Pavese em Ofício de Viver.
Palavras escritas no dia 18 de Agosto de 1950.
No dia 27, suicidou-se.

OLHAR AS CAPAS


Buridan

José-Augusto França
Capa: Paulo Sousa sobre óleo de Vespeira
Quetzal Editores, Lisboa, 2002


- O Sebastião está como aquele burro da fábula, do Buridan, sabe? (o Mota não entendeu sequer o nome), que tinha fome e sede e não foi capaz de se decidir pela comida ou pela água que lhe ofereciam. E morreu à míngua…

A DEFESA DAS ESPÉCIES


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...