segunda-feira, 16 de julho de 2018

EM QUE A HISTÓRIA É TRANSCENDIDA


Carta de António José SaraivaSaraiva, desde Viry Chattilon, 4 de Julho de 1969, Para Óscar Lopes:

Na última carta não toquei em vários pontos, e acrescentaram-se-lhe os d carta que acabo de receber.
O primeiro ´+e que estou em más relações com o Lyon de Castro porque ele me reeditou a História da Literatura sem me prevenir e aldrabando-me quanto à tiragem. Se possível, prefiro passar os livros que lá tenho para a Inova. Mas preciso de um bom advogado disposto a conduzir-me a causa. Conheces algum?
(…)
A tua apreciação sobre o movimento académico português é justa; mas já me parece injusta a maneira como falas da insurreição de maio em Paris, abocanhada caluniosamente, ou depreciada manhosamente pelos políticos do PC. Eu fui testemunha e hoje parece-me um sonho. Foi o homem na sua pureza, na sua tensão máxima que se bateu contra a natureza naturata sob a forma social. Nunca fales de maio como quem sabe o que foi, porque é difícil explica-lo até a quem assistiu. Aqui te digo sem hesitação que foi o maior acontecimento do século XX e que as suas consequências se farão sentir ao longe no tempo. O que aconteceu em Coimbra (também falo sem saber) foi um importante acontecimento histórico nacional; o Maio de paris é um momento da história da civilização; mais: um momento em que a história é transcendida.

OLHAR AS CAPAS


 Blues Para Uma Puta Velha

Jorge Fallorca
Desenhos: André Bonito
Capa: JF/VST/PS
Edições &etc, Lisboa, Março de 2010

Este vento, o vento que sopra às revoadas mansas e pegajosas vindas do mar, é um vento cheio de cheiros que recordam histórias, cheio de histórias como um baú acabado de abrir, dos que só dão à costa trazidos pelos cheiros do vento.
Sem pianos, sem sereias.
Quando é tempo delas e o vento mas oferece, entretenho-me a descascar as ervilhas-de-cheiro dos outros cheiros todos, para dar uma volta pelo jardim-escola; outras vezes, deixo-me temperar pelo manjericão, o jasmim, a hortelã, para vogar neste vento tão pegajosos e tão atlântico até ao porto de Tânger.
Sou dos que acreditam – eu acreditei, a pés juntos, que um dia passei a estar «onde vejo o vento» -, e o vento tem-me seguido como uma sombra, fiel e dedicada, com um comportamento onde me reconheço e por isso nos confundimos; muitas vezes penso que tenho andado enganado e, afinal, não passo da sombra do que se entende como sombra.
E que ninguém se atreva a esperar por parágrafos de ferro forjado, como «sombra da minha sombra»; deixemo-los sossegadinhos para os teclados eruditos de quem gosta de se considerar e que se lhe chame escritor, debruçado sobre lombadas com malvas a aviar escrita e importância, notoriedade, sôfregos de eternidade.
Nunca me passou pela cabeça a canseira, a ansiedade que deve ser escolher a escrita por figurino, por catálogo, e continuo a escrever pelo puro prazer de escrever, sei lá se é poesia ou sei lá se é prosa, só sei que continuamos a brincar às escondidas, a curtir, quando não é uma urgência de fazer doer a alma a qualquer um.
E eu que o diga, a sério.
O vento é uma boa desculpa, podia ser um belíssimo pretexto se, entretanto, não me desse por contente com o que acabo de escrever e, precisamente por isso, vou mas é até lá fora sentar-me ao sol e deixar-me ficar só a ver o vento.
É que a escrita perde sempre piada quando a literatura começa a intrometer-se, quando permitimos que a literatura comece a meter o bedelho.

AVISO À NAVEGAÇÃO


Alto lá!
Aviso à navegação!
Eu não morri:
Estou aqui
na ilha sem nome,
sem latitude nem longitude,
perdida nos mapas,
perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu,
o perigo para a navegação!
o dos saques e das abordagens,
o capitão da fragata
cem vezes torpedeada,
cem vezes afundada,
mas sempre ressuscitada!

Eu que aportei
com os porões inundados,
as torres desmoronadas,
os mastros e os lemes quebrados
- mas aportei!

E não espereis de mim a paz…

Aviso à navegação:
Não espereis de mim a paz!

Que quanto mais me afundo
maior é a minha ânsia de salvar-me!
Que quanto mais um golpe me decepa
maior é a minha força de lutar!

Não espereis de mim a paz!

Que na guerra
só conheço dois destinos:
ou vencer - ai dos vencidos! -
ou morrer sob os escombros
da luta que alevantei!

                   - (Foi jeito que me ficou
                     não me sei desinteressar
                    do jogo que me jogar.)

Não espereis de mim a paz,
aviso à navegação!

Não espereis de mim a paz
que vos não sei perdoar!

Joaquim Namorado em Novo Cancioneiro

domingo, 15 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


São as dúvidas o que temos de mais íntimo. 

Albert Camus

TENS IMPORTÂNCIA PARA ALGUÉM?


1 de Janeiro de 1946

Também este ano acabou. As colinas, Turim, Roma. Esgotaste quatro mulheres, publicaste um livro, escreveste belos poemas, descobriste uma nova forma que sintetiza numerosos filões (o diálogo de Circe?. És feliz? Sim, és feliz. Tens força,  tens génio, tens que fazer. Estás só.
Neste ano, roçaste o suicídio por duas vezes. Todos te admiram, te cumprimentam, bailam em volta de ti. E depois?
Nunca lutaste, lembra-te. Nunca lutarás. Tens importância para alguém?

Cesare Pavese em Ofício de Viver

ELEGIA MÚLTIPLA I


Como se poderia desfazer em mim a tua nobre cabeça, essa
torre deslumbrada pelo mudo calor dos dias, pelo
brilhante gelo nocturno? É pela cabeça
que os mortos maravilhosamente pesam
no  nosso coração. Essas flores intangíveis para as quais
temos medo de sorrir, as armas
lavradas, as liras que estremecem e pendem
sobre os rios agitados das coisas. Só o amor as abre
e vê sua confusa e grave geografia, as fontes
livres de onde os pensamentos crescem
como a folhagem iluminada das antigas idades
do ouro.

Eu próprio levanto minha exígua cabeça de vivo,
procuro colocar-me num ponto irradiante
da terra, olhar de frente
com toda a inspiração do meu passado, e estar
à altura dos mortos, na zona
esplêndida e vasta
da sua nobreza - receber essa espécie de força
indestrutível
que envolve a cabeça montada sobre os dias e dias,
de que as rosas bebem  o jeito aéreo e a boca
a delicadeza misteriosa.

Existem árvores cercando os animais sonhadores, o grande
arco das eras com os fogos rápidos
presos como campânulas, e a fixa vontade
do homem ardendo e gelando
no tempo. À beira dos rios canta-se ou deixa-se
que as mãos se gastem, deslumbradas
do seu poder, da sua grande miséria
como um sonho. Um nome, contudo, existe
suspenso sobre as estações do ano. Essa cabeça
dos mortos - a tua cabeça aérea como o verde
das pedras ou o movimento
das corolas frias,
essa cabeça sumptuosa, rodeada de estreitas
víboras -
sobe do nosso, do meu coração, até que a minha
mesma cabeça
nada mais seja que a possessiva, doce cabeça
dos mortos.

Herberto Helder de A Colher na Boca em Poesia Toda 1º Volume

sábado, 14 de julho de 2018

AS CORDAS DE PAREDES


Nesta cidade sem música
o homem da guitarra gritava o seu segredo
com as mãos em desalinho.

Cristais de crispação
jorravam de uma lua baça
ou quentes do forno da madeira
do linho.

Aí vai a minha vida.
E o homem vergado sobre si, enrolado e mudo,
bordava-se nas suas cordas de aço
macias de suor e livres
do fracasso.

Nesta cidade de ventre abandonado ao vento
mais perverso
ele é uma raiz, uma toalha de água
leve tremor de pálpebras
que retine feliz
no rosto da nossa mágoa.

Colhemos a sonora fruta
que ele deixa tombar das mãos.
E como um rapazinho amedrontado
o homem da guitarra
ainda está aí
à espera de nós, da voz,
de outra cidade.
Talvez de outros irmãos.

Armando Silva Carvalho em Lisboas

sexta-feira, 13 de julho de 2018

UM POEMA QUE EU FIZ QUASE A ASSOBIAR


A “Pedra Filosofal”, a que a imprensa se refere frequentemente, foi, não propriamente o poema por si só mas ele e a música do Manuel freire, um dos acontecimentos mais notórios destes últimos anos, entre nós. Aliás foi um dos poemas que eu fiz quase a assobiar e daqueles que menos gosto. Quando Manuel Freire o musicou e o cantou em público pela primeira vez, na televisão, em 1969, a aceitação popular foi unânime, e daí até hoje, quase trinta anos depois, ainda a canção, e o poema, continuam a ser aplaudidos com entusiasmo "um dos mais importantes temas do momento a que se chamou da «nova canção portuguesa» ou, mais simplesmente, das «baladas» que haveriam de transformar-se na canção de intervenção que antecedeu a actual Música Popular portuguesa”. (Jornal Sete, de 16.VII.1985).

Rómulo de Carvalho em Memórias

DE QUE ARMAS DISPOREMOS


 De que armas disporemos, se não destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Hélia Correia

quinta-feira, 12 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


De um Brasil-Chile, escreve Nelson (Rodrigues), no dia seguinte, no jornal O Globo: "Garrincha foi a maior figura do jogo, a maior maior figura da Copa do Mundo e, vamos admitir a verdade última e exasperada: a maior figura do futebol brasileiro   desde Pedro Álvares Cabral." O jogo foi há 56 anos mas, por cá, não há meio de sabermos ver os factos com esta objetividade.

NOTÍCIAS DO CIRCO


É com esta capa que o diário espanhol Marca assinala o adeus de Cristiano Ronaldo ao Real Madrid.

«Não haverá outro igual. Cristiano, a lenda dos 451 golos, está de partida», lê-se na manchete.

A capa ilustra os 451 golos apontados por Cristiano em 438 jogos oficiais ao serviço do clube.

Cristiano Ronaldo é jogador da Juventus para as próximas quatro épocas, depois de o clube italiano e o Real Madrid terem acertado a transferência do internacional português por 117 milhões de euros com um ordenado de 30 milhões de euros anuais. 

Ou seja, 3425 euros por hora.

Entretanto os trabalhadores da FIAT, proprietária da Juventus, que não são aumentados há 10 anos, avançaram para uma entre as 22 horas de domingo 15 de Julho e as 18 horas de terça-feira 17 de Julho.

«É justo? É normal uma pessoa ganhar milhões, enquanto milhares de famílias não conseguem sequer chegar ao meio do mês? Somos todos empregados do mesmo dono, mas a diferença de tratamento não pode ser aceite. Os trabalhadores da FIAT deram à empresa uma fortuna nas últimas três gerações, mas em troca recebem apenas uma vida de miséria. A empresa deve investir em carros que garantam o futuro de milhares de pessoas, em vez de enriquecer apenas uma. Esse deve ser o objetivo, uma companhia que coloca os interesses dos seus empregados em primeiro lugar. Se não for assim, então é porque preferem o mundo do futebol, do entretenimento e tudo o resto», lê-se num comunicado da Unione Sindicale di Base.

Esta posição dos trabalhadores levou a Juventus a cancelar a mega apresentação que estava a preparar, em pleno estádio,  para a recepção ao jogador.

O espectáculo foi, entretanto, cancelado.

Num palavrado aos solavancos, invocam problemas logísticos, de segurança, um blá-blá-blá que não convence ninguém.

Mas a real razão prende-se com as possíveis reacções que os trabalhadores da FIAT poderiam exercer criando situações confrangedoras que poderiam ficar fora de controlo.

A apresentação de Cristiano Ronaldo acontecerá, apenas, em conferência de imprensa e numa ida ao relvado do estádio para as fotografias da praxe.

RICARDO REIS QUE VAI À POLÍCIA...



Quem disser que a natureza é indiferente às dores e preocupações dos homens, não sabe de homens nem de natureza. Um desgosto, passageiro que seja, uma enxaqueca, ainda que das suportáveis, transtornam imediatamente o curso dos astros, perturbam a regularidade das marés, atrasam o nascimento da lua, e, sobretudo, põem em desalinho as correntes do ar, o sobe-e-desce das nuvens, basta que falte um só tostão aos escudos ajuntados para pagamento da letra em último dia, e logo os ventos se levantam, o céu abre-se em cataratas, é a natureza que toda se está compadecendo do aflito devedor. Dirão os cépticos, aqueles que fazem profissão de duvidar de tudo, mesmo sem provas contra ou a favor, que a proposição é indemonstrável, que uma andorinha, passando transviada, não fez a primavera, enganou-se na estação, e não reparam que doutra maneira não poderia ser entendido este contínuo mau tempo de há meses, ou anos, que antes não estávamos nós cá, os vendavais, os dilúvios, as cheias, já se falou o suficiente da gente desta nação para reconhecermos nas penas dela a explicação da irregularidade dos meteoros, somente recordemos aos olvidadiços a raiva daqueles alentejanos, as bexigas de Lebução e Fatela, o tifo de Valbom, e, para que nem tudo sejam doenças, as duzentas pessoas que vivem em três andares de um prédio de Miragaia, que é no Porto, sem luz para se alumiarem, dormindo a esmo, acordando aos gritos, as mulheres em bicha para despejarem as tigelas da casa, o resto componha-o a imaginação, para alguma coisa há-de ela servir-vos. Ora, sendo assim, como irrefutavelmente fica demonstrado, percebe-se que esteja o tempo neste desaforo de árvores arrancadas, de telhados que voam pelos ventos fora, de postes telegráficos derrubados, é Ricardo Reis que vai à polícia, de alma inquieta, a segurar o chapéu para que o tufão lho não leve, se vier a chover na proporção do que sopra, Deus nos acuda. É do sul que o vento se desmanda, pela Rua do Alecrim acima, sempre é uma beneficência, melhor que a dos santos, que só para baixo sabem ajudar. Do itinerário já temos roteiro suficiente, virar aqui na igreja da Encarnação, sessenta passos até à outra esquina, não tem nada que enganar, outra vez o vento, agora soprando de frente, será ele que não deixa andar, serão os pés que se recusam ao caminho, mas horas são horas, este homem é a pontualidade em pessoa, ainda as dez não deram e já entra aquela porta, mostra o papel que daqui lhe mandaram, queira comparecer, e compareceu, está de chapéu na mão, por um instante grotescamente aliviado de não o estar incomodando o vento, mandaram-no subir ao primeiro andar e ele foi, leva a contrafé como uma candeia que vai adiante, apagada, sem ela não saberia aonde encaminhar-se, onde pôr os pés, este papel é um destino que não pode ser lido, assim como o analfabeto a quem mandassem ao carrasco levando uma ordem, Cortar a cabeça ao portador, ele vai, talvez cantando porque lhe amanheceu bem o dia, também a natureza não sabe ler, quando o machado separar a cabeça do tronco se revoltarão os astros, tarde de mais. Está Ricardo Reis sentado num banco corrido, disseram-lhe que esperasse, agora desamparado porque lhe levaram a contrafé, há outras pessoas por ali, fosse isto um consultório médico e estariam conversando umas com as outras, o meu mal é dos pulmões, o meu é do fígado, ou dos rins, onde seja o destes não se sabe, estão calados, se falassem diriam.

José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis

O ANTI-HERÓI


é que não estou nada interessado
mas mesmo nada
em ser herói

os heróis vêm     o heróis váo

quanto muito sobra deles uma estátua
w.c. para um cão

tenho muito mais interesse em estar vestido
na ganga colectiva dos sem nome
dos que lutam e calam
dos que lutando falam

com a avença de todos
contra o selo da fome

herói fica narciso sobre sépia
herói só tem cabeça de perfil

e eu não quero estar sozinho neste morse
sou o fácies de um corpo vezes mil

não
agradecido e obrigado
dispenso o medaçhão

prefiro estar aqui     ali     na multidão

do lado onde se sabe
que uma nação se faz da soma exacta
do povo que nela cabe

quarta-feira, 11 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Enigma do Sapato Holandês

Ellery Queen
Tradução: Lino Vallandro
Capa: Cândido Costa Pinto 
Colecção Vampiro nº 14
Livros do Brasil, Lisboa, 1948

O alter ego do Inspector Richard Queen, que apresentava surpreendentemente contraste com a sua disposição costumeira, lépida e prática, frequentemente o levava a emitir observações didácticas sobre a criminologia em geral. Essas reflexões professorais eram habitualmente dirigidas a seu filho e sócio nas investigações criminais, Ellery Queen, nas ocasiões em que ambos se encontravam tomando qualquer alimento diante da lareira da sala de estar, e sós, sem contar com a sombra fugidia de Djuna, o espectral garoto cigano que lhes tendia às necessidades domésticas.
- Os primeiros cinco minutos são os mais importantes – dizia severamente o velho; - lembra-te disso. – era o seu teme predilecto. – Os primeiros cinco minutos podem poupar-nos uma porção de incómodos.
E Ellery, criado desde a meninice num regime de conselhos detectivescos, resmungava, chupava o cachimbo e cravava os olhos no fogo, imaginando quantas vezes um investigador teria a fortuna de encontrar-se no local dum crime dentro de trezentos segundos após a sua perpetração.
Expressava, então, as suas dúvidas, e o velho assentia tristemente com a cabeça – sim, não era muito frequente deparar-se tamanha sorte. No momento em que o investigador chegava ao local, já o rasto estava frio, muito frio. De modo que se fazia o possível para compensar a maliciosa lentidão do destino, - Jjuna, dá cá o meu rapé.

JÁ ESTOU A FICAR VELHO



Já estou a ficar velho, ainda que tenha
esta figura fixa sem idade,
e me mantenha em forma o aparelho
a que todos aqui somos sujeitos:
a correria cega, a suspensão elástica,
o salto em trave e trampolim de folhas,
e outras altas artes de ginástica.
Mas eu bem sei sentir além da aparência,
e já me aconteceu, ao visitar o canto
onde o mundo se acaba em chão de areia,
ali ver o meu fim anunciado.
Quando em tranquilo pouso assim medito,
peso, e calculo tudo aquilo
que não fiz, e não tive, e não alcanço
com o rosto extravagante que me deram,
já tudo bem pensado considero
se não devo encontrar algum consolo
na ciência que conduz o feiticeiro,
e acreditar também, como me diz,
que é, esta vida, emaranhada teia
de mal fiado, mal dobado fio,
e a morte tão somente um singular casulo
de onde sairei transfigurado.
Mas não sei de que valha imaginar
um outro ser incólume e perfeito
que da minha substância seja feito
e tome, noutro mundo, o meu lugar;
se me não lembra, como serei eu?
Se for quem sou, ainda que mude a capa,
há-de voltar aqui, onde hoje estou,
viver o mesmo instante, e ver
escapar-lhe das mãos o que me escapa;
veloz embora, e exímio no salto,
o que hoje perco, há-de então perdê-lo,
e faltar-lhe outra vez o que me falta.


António Franco Alexandre

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 10 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO



Lê-se para ter prazer. Lê-se para ter inquietação.


José Cardoso Pires

UM DIA DESTES PIFO...


Curta carta de Mário-Henrique Leiria para a «Querida menina», enviada de Carcavelos a 28 de Setembro de 1974, data da hipotética manifestação da maioria Silenciosa orquestrada por Spínola.
As breves linhas falam do momento político, mas não abordam a cena circense de Spínola:

Por enquanto estou aceitando a Junta de Salvação nacional. Por enquanto, é o que digo. Porque não sei o que vai ser concretamente. Estou esperando o melhor. Mas não acredito em míticos, nunca acreditei. E então em generais, muito menos. Veremos…
Trabalha-se…
Tentar reorganizar o PC e legalizá-lo. Veremos, também.
No Mário Soares é que francamente, não vale a pena. Já começou a falar demagogicamente, como nos anos 20. Benza-os Deus… mas comigo não.
Isabel, isto é importante, pelo menos para nós que vivemos aqui..
Não tenho tempo para mais. Estão à minha espera, já aqui ao lado para uma reunião. Amanhã tenho mais e um dia destes pifo. Não faz mal; pifar é bom, quando temos uma realidade.

OS TEMPOS NÃO


Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

Manuel António Pina em Poesia Reunida

segunda-feira, 9 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


 A vida espera todos aqueles que amam o selvagem odor a mar e a menta que ela tem entre os seios.

Pablo Neruda em Odes Elementares

ZAIN


Lembra-te da palavra que me deste.
Quando estou derrotado
vem ele e me consola.

De esperança me falaste
 foi então
que me outra vez nasci.

Eis a minha canção
na casa onde moro.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

HÁ UM RIO OCULTO DE LÁGRIMAS


Há um rio oculto de lágrimas correndo entre mim e o mundo.
Nem sei qual de nós dois chora.
A versão sonora do filme ainda não foi revelada
e os fantasmas fazem gestos como se falassem,
mas só chega até nós o silêncio.
Apago no vidro do relógio as lágrimas de ninguém
e os ponteiros sorriem:
estão parados e só as lágrimas caminham à volta do mundo.
Um rio de lágrimas dentro e fora do mundo,
um rio de lágrimas que não lava o sofrimento de ninguém
e vai descendo contra a mão a calçada do tempo.

(1955)

Adolfo Casais Monteiro em Cadernos do Meio Dia nº 1

POSTAIS SEM SELO



Porque não é na juventude que nos formamos, maldita maldição: é no resto da vida (que não é nenhum cruzeiro mas trambolhões e solavancos) que em nós fazemos as rugas.

Jorge Silva Melo em Século Passado

domingo, 8 de julho de 2018

MAS LÁ QUANTO A DOUTRINA...


Muitos meses depois, já em 53, liberto pois de qualquer disciplina partidária, fiz uma série de oito conferências na Associação de Estudantes da Facul­dade de Ciências de Lisboa, por iniciativa da sua secção cultural.
Público crescente. Pois sou infor­mado de que, enquanto falava, naquele silêncio ávi­do e colaborante que é o prémio maior para qual­quer orador, se bichanava na sala a deitar por fora: «Um tipo bestial. E pena como se portou quando esteve preso. Meteu muita gente dentro». Era in­fantil. Quem me conhecia, e muitos me conhe­ciam, sabia perfeitamente que eu nunca estivera preso.
A verdade é que nenhuma organização tem cul­pa dos seus doentes nem até dos seus períodos de crise sobretudo com dirigentes importantes na ca­deia. O que não obsta a que a bola de neve comece a tentar formar-se.
Não me passou despercebido, já três anos anda­dos e o tosco processo concluído, o tipo de objec­ções que o Mário Sacramento e o meu velho ami­go Óscar Lopes acharam por bem fazer — só eles e só então — a algumas teses expostas n' A Paleta e o Mundo, não se esquecendo ambos de informar os respectivos públicos de que o autor mudara de doutrina e que, embora muito isto e mais aquilo, abandonara «o caminho comum». Quanto a «ca­minho comum», na acepção que lhe davam, era já mais que evidente. Mas lá quanto a doutrina...
Havia muita coisa por detrás, que talvez nem eles conhecessem. Pormenores de importância, ou­so pensar. E, porque a história das ideias, dos paí­ses, dos partidos, finalmente das pessoas, também de pormenores se faz, espero ainda contar os que comigo se prendem (se prenderam) quando tiver espaço para tanto. Não tem pressa. E talvez — é a minha vez de o pensar — não seja o melhor mo­mento para. Resta saber se alguma vez o será.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio na Praia Grande. Fotografia de sua filha Eduarda Dionísio retirada do catálogo Passageiro Clandestino

DITOS & REDITOS


O cinema marca – e muito.

Quem muito fala tem voo curto.

Neste mundo ninguém está livre de sarilhos.

Quem pisa a flor da abóbora não lhe provará a sopa.

Tudo o que se deseja com bastante força é obtido.

A estupidez é uma cegueira do espírito: não mata, mas dificulta!

A música, até os cegos entendem!...

Quando em dúvida, deixa-te estar quieto.

ESTE POEMA RESPIRA



Este poema respira. Em seus flancos
circula o sangue por artérias novas.
Rasgo-lhe a boca e beijo-o. Dou-lhe os olhos
selvagens e esta inocência que é

a sua vida eterna. Entre os salgueiros
esconde o corpo e o sexo recentes.
Há um cheiro a resina, um cheiro vivo
a sémen, sangue, suor, a flor carnívora.

Este poema é macho. Olhai seus músculos
retesos, suas ancas, seus artelhos,
seu sexo erecto, seu púbis, seus mamilos.

A primeira seta do sol fere-lhe os olhos.
Vede-o agora de rosto entre as mãos limpando
a sujidade materna com o seu pranto.

José Terra