quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Por feitio, os publicitários são uns exagerados.
Mas não neste cartaz que anuncia o concerto de Charles Aznavour, no próximo sábado, em Lisboa, chamando-lhe Uma Lenda Viva.
O cantor tem 92 anos e prossegue a sua volta ao mundo mostrando as suas canções: novas e velhas.
É obra.
No dia dos seus 89 anos disse:
Terei ainda durante muito tempo força para me aguentar em palco?

A resposta tem vindo a ser dada com os seus sucessivos concertos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Às vezes escondemos os nossos sonhos por baixo da realidade.

Patti Smith


Legenda; não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OS NOSSOS SONHOS POR BAIXO DA REALIDADE


Quando as pesadas cortinas se abriram e a luz da manhã inundou a pequena área da sala de jantar, ocorreu-me que, sem qualquer dúvida, nós às vezes escondemos os nossos sonhos por baixo da realidade.

Patti Smith em M Train

RECADOS


Na revista Ler nº 38 Primavera/Verão 1997 abordava meio século do movimento do surrealismo em Portugal, mais concretamente em Lisboa.

«Foi uma explosão de Liberdade. Isso não é coisa que se esqueça, irmãos! E eles, digo: o Cesariny, o Lisboa, o Seixas, o António Domingues, noutra banda o António Pedro, o França, o O’Neill, Moniz Pereira, tinham que lutar em duas frentes: a do regime e seus acólitos (pide, fachos) e a dos neo-relaistões e seus próceres, já lançados na correria para o sucesso e as coroas, as massinhas.»

Mas, neste artigo, Luiz Pacheco fala particularmente do Mário-Henrique Leiria:

«Não referi atrás um nome principal: Mário-Henrique Leiria. Propositadamente, deixei-o esquecido. Mas a fingir. O Mário morreu em 1980. Não sei quem, nem como, nem para quê, teceram-lhe uma legenda de morte na miséria, no abandono. Não dei por tal. Da última vez que o visitei na Vivenda Xavier, em Carcavelos, estava doente, acamado. Mas dotado do humor mordaz que sempre lhe conheci. Rimo-nos muito, como de costume. Não viveria no luxo, tão-pouco caíra no lixo. Diminuído no físico, alerta e destro no espírito. E com obra feita e com obra por publicar. O Mário-Henrique Leiria, em matéria escrita, é o único surreal que resistiu e ganhou público. As várias, sucessivas edições dos seus livros na editorial estampa, os Contos do Gin-Tonic e os Novos Contos do Gin, será a melhor prova de que ele atingiu uma massa de leitores muito mais novos, aos quais o Surreal e surrealismo lisboeta ou estranja, é mera etiqueta a desprezar. Mas não já o feroz humor, o total non-sense das historinhas que o Mário foi colhendo numa vivência de trota-mundos e Aventura sem igual nos companheiros de 1947. E uma turbulência revolucionária – quem, agora, o poderá capazmente recordar? Viajou, lutou, terá andado metido em múltiplas causas perdidas, pois tal era o seu feitio e o seu destino. Há dois livros dele que prefiro e, até, pensei em reeditar. São obras únicas: Conto de Natal e Lisboa ao Voo do PássaroOra, por mão do Artur Manuel do Cruzeiro Seixas recebi há pouco uma edição espanhola, bilingue, e lindíssima, do poema Claridade Dada pelo Tempo. A ser editada como convinha, era mister, o Leiria e nós merecíamos, custava uma fortuna. Mesmo assim, é livro a ler, a ter no recanto dos reservados preciosos. O Mário-Henrique, com uma personalidade vincada e nada disposto a grupelhos e mentores, em 1947 e nos anos seguintes, ficou Bastante isolado. Que se fale nele, portanto. E noutro morto, também votado ao silêncio: o suicida João Rodrigues que tem, segundo suponho, por aí família e ninguém lhe liga nenhuma.»

ENTÃO, É NATAL!



Mais uma colectânea de Canções de Natal.
Uma selecção de primeira água do programa de rádio Smooth FM.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


No parapeito da janela, as eternas violetas que regava dia sim, dia não, esperavam pela sua discreta atenção.

OS QUINTAIS DAS TRASEIRAS


Às oito e vinte abria a porta da rua e por ela saía rumo ao Liceu normal de Pedro Nunes. O percurso era sempre feito a pé, estivesse sol intenso ou fosse chuva torrencial. E era ainda bastante longo, desde a rua Sampaio Bruno, em Campo d’ Ourique, até à Av. Pedro Álvares Cabral, na Estrela.
À hora de almoço o mesmo trajecto. Exactamente o mesmo trajecto sem qualquer desvio, mas em sentido contrário. Vinha sempre almoçar a casa. Passada uma hora tornava a sair com o mesmo destino. Às seis e meia da tarde, em ponto, estava a meter a chave à porta, uma das chaves do molhinho de chaves que se ouvia tilintar ainda ele vinha a dobrar a esquina da Rua Coelho da Rocha para a Sampaio Bruno. Talvez significasse, esse antecipado tilintar, alguma pressa que teria em chegar a casa, em sentir-se envolvido nesse espaço aconchegado, arrumadíssimo, que era o seu pequeno escritório. No parapeito da janela, as eternas violetas que regava dia sim, dia não, esperavam pela sua discreta atenção.
Ali ficava, em silêncio, a escrever. A telefonia, sempre no mesmo posto, vertia baixinho.
Às oito em ponto jantava-se. Conversava-se, então, e muito! E era bom quando de verão se abria a janela da casa de jantar que dava para os quintais das traseiras e ouvíamos, como numa reza prévia, como uma oração, as conversas das vizinhas, de janela para janela, sempre e sempre àquela hora.
A comer e a conversar, ali estávamos à mesa mais ou menos uma hora. Era como a presença do verão – a época do ano que Rómulo mais gostava – por ali, pendurado das janelas das traseiras, mais ou menos pouco tempo.


Legenda: fotografia Mapio

ACHAM MESMO QUE PAULO MACEDO É COMPETENTE?



Pedro Tadeu no Diário de Notícias

QUOTIDIANOS



O poeta polaco Zbigniew Herbert teve o cuidado de dizer a si próprio: «deverás ir tranquilo ao teu próprio funeral.»

Razão suficiente para que, quando a dita lhe bater à porta, deixar recado aos amigos e  familiares:

Embarquem no cacilheiro da rota da Trafaria, onde o Tejo se faz ao mar, a meio caminho, despejem as cinzas, de quem muito gostou de andar por aqui, depois almoço na Antiga Casa Marítima: filetes de tamboril, arroz de feijão, salada, não se esqueçam de pedir para a cozinheira lançar uma boa mão cheia de coentros, vinho da casa.

E não se ponham com veleidades, com mariquices, com isto, com aquilo, porque ele está a espreitar dos bastidores.

Também na morte é importante saber dar uma festa, disse aos netos a rainha-mãe, devoradora de gin-tonic, viciada em corridas de cavalos, que também adorava uma boa cachimbada.

»A história dos homens é desde sempre mistério de vida e de morte. Choramos os nossos mortos e outros chorarão a nossa morte. Assim se faz o nosso caminhar sobre a terra.»

Ficou-lhe gravada uma frase do jornalista Victor da Cunha Rego: «uma pessoa preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida.».

Foi em Setembro do ano de 1977, na casa que, então, o pai tinha em Almoçageme, que se lembra de ter pensado, pela primeira vez, no assunto.

Tinha despachado o «Alta Fidelidade» do Nick Hornby, num só fôlego.

Há por lá uma passagem em que Hornby escreve:

«Não há propriamente muitas canções pop acerca da morte: pelo menos canções boas. Talvez seja por isso que eu gosto de muita pop e acho a música clássica um bocado tétrica. Havia aquele instrumental do Elton John, “Song for Guy”, mas não passava de umas marteladas no piano que tanto podiam ser ouvidas no aeroporto como no mosso funeral.

- Vamos lá pessoal, as cinco melhores canções pop sobre a morte.


- Genial – diz o Barry. – Uma lista de Homenagem ao pai da Laura. Fixe. “Leader of the Pack”. O tipo morre a andar de mota. E a seguir temos “Dead Man’s Curve” dos Jan e Dean, e “Terry” da Twinkle… e aquela do Bobby Goldsmoro, “ And Honey, I Miss You”…


- E que tal “Tell Laura I Love Her”? Ia ser um êxito.


Ainda bem que a Laura não está aqui para ver como nos divertimos à custa do pai dela.


- Já resolvi que música vou querer no meu. “One Step Beyond”, dos Madness. “You Can’t Always Get What You Want”.»


À noite, debaixo da parreira de uva americana, ou morangueira, sentindo o aroma, ouvindo o silêncio dos ralos e das cigarras, lembra-se de lhe ter contado o episódio e, ao mesmo tempo, perguntado, que música ele escolheria.

Uma pausa muito grande, e depois a resposta:

Requiem de Mozart.

Passados meses, pensando que a morte é o único destino que temos assegurado, por mera brincadeira, começou a alinhar uma cassette (os CDs eram, ainda, uma miragem) de músicas e canções para serem ouvidas antes de o fogo o devorar.

Ainda nem sequer tinha chegado ao princípio dos princípios e desistiu.

Os amigos não mereciam tal castigo.

Mas algum toque teria que existir.

Foi quando concluiu que bastava uma única canção: «Bye, Bye Love», na versão, ao vivo, de Simon and Garfunkel, «bye, bye love, bye, bye happiness.»

Esperança para o futuro: a de aprender a morte serena, a que contemplava a luz no musgo daquela parede da casa de Almoçageme, a parede junto ao celeiro, onde o Marcolino guardava as maçãs reinetas, as batatas, as cebolas, as enxadas, o aroma das uvas americanas, ou morangueiras, o silêncio dos ralos e das cigarras.

Nunca aprendemos tudo sobre despedidas e o grande problema é que o tal dia, dura uma eternidade.

Entrada para uma solicitação do poeta José Gomes Ferreira:

«Enterrem também comigo na cova,
Graças a um novo invento de gravação magnética nas pedras
Música de Bach e de Mozart
É o único ar
Que os mortos podem enigmaticamente respirar»

Texto encontrado em Ié-Ié

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Nesta vida é mais fácil morrer do que viver.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Leio no Diário de Notícias-online:


Curiosamente, o meu pai ensinou-me que os bons vinhos devem aparecer nos começos e não nos finalmente.

Mas isso são outras histórias que ao Circo nada dirão!

ENTÃO, É NATAL!


Eram discos como estes que, pelo Natal, se encontravam nos escaparates das discotecas na baixa lisboeta.
Ella Fitzgerald e Perry Como a cantarem o Natal, foi uma oferta do meu amigo Nuno Potes que tem loja de discos, em segunda mão, ali na Rua Actor Vale.
Saudosista por teimosia, fico sempre maravilhada com estes discos.
Não me venham com Cds ou o que quer que seja.
É o vinil, meus amigos, o vinil é que é!




OLHAR AS CAPAS


Léah

José Rodrigues Miguéis
Capa: Bernardo Marques
Colecção Latitude nº 24
Estúdios Cor, Lisboa, Fevereiro de 1958

Olho cá de cima esta Avenida, que foi pacata e alheia ao mundo, e quase nem a reconheço. Se quer que lhe diga, chego a ter saudades. Antigamente havia uma 79 honestidade quase dolorosa em tudo isto, um recato nas aparências. Isto era provinciano mas sincero. Entrou aqui um fungo misterioso. Muita cara nova, outros costumes, quartos de aluguel, casas suspeitas. Mães de família com meias de nylon que saem sozinhas à tarde e só voltam altas horas, ou de madrugada, de táxi... Uma encruzilhada da desintegração. Já nem gosto de olhar. Enoja-me este ersatz barato de babilônia, esta sucursal da Baixa em dó- mesquinho. Agora os mortos vão a gasolina, sem mais ajuda de Chopin; não há cortejos, nem desfiles, nem charangas animadoras. Os Santos Populares, oficializados, tornaram-se estranhos, esquecidos. Até o luar parece outro, distante. As noites abafam, acabou-se a brisa das hortas, repelidas pelo cimento das novas construções. Obras, obras! Há quem goste disto, e até quem lhe chame Progresso. Sobe da rua um estrondo odioso, os cafés ali da Praça sempre cheios de gente pasmada a ler da bola. Ouvem-se latir altos-falantes. A cervejaria, acolá, extravasa cascas de amendoim, de tremoços, restos de mariscos, sempre cheia de gentalha, patos-bravos que só falam de negócios, traficâncias, fêmeas de comprar e vender. Onde estão os pregões, os descantes, as guitarradas, os amores, os alarmes, a inocência, a poeira de outrora? Onde estamos nós mesmos? Sim, por baixo deste manga d’alpaca promovido e desiludido, onde estou eu? Para não me perder de mim mesmo, nem perder pé na vida, ainda de vez em quando ergo o canto da cortina, e fico a olhar o que para mim, para os da velha-guarda cá do sítio (que poucos restam), foi e há de ser a Casa da Dona Genciana.


(Do conto Saudades para a Dona Genciana)

domingo, 4 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Fumando espero o homem a quem quero.

Maria Velho da Costa em Missa In Albis

Legenda: pintura de Jack Vettriano

A ÚLTIMA COISA QUE NOS SOBRA


Cansa-me tanto, escrever. Cansa-me porque escrever não é recapitular a memória: é destruir a memória. A memória é a última coisa que nos sobra, quando estamos assustados, tão, que recompor a memória é uma grande falta de pudor. A memória é uma autobiografia às avessas, que oculta coisas secretas.
Não sei se alguém vai entrar por aquela porta, trazida por um perfume, um som, uma esperança. Sei que todos nós fomos lançados para destinos contrários.

Baptista-Bastos em O Cavalo a Tinta-da-China

FALTÁMOS POR MOTIVO IMPREVISTO


Vezes sem conta, tentei arranjar bilhetes para ir ver as récitas das óperas que do São Carlos desciam até ao Coliseu, mas nunca consegui.

Sabia que os bilhetes eram distribuídos por aqui e por ali e os poucos que restavam eram postos à venda mas desapareciam num ápice.

Pela leitura da Alvorada de Abril do Otelo Saraiva de Carvalho fiquei a saber que Secção de Actividades Culturais e Recreativas da Academia Militar era uma das entidades a quem eram distribuídos bilhetes.

Aliás, por mera curiosidade, vale a pena recordar, em vésperas do 25 de Abril, as mirabolâncias operáticas do Otelo.

Otelo diz à mulher que chegou a hora, e se ela, no rádio, ouvir os sinais, é porque tudo está acorrer bem.

A mulher pergunta-lhe o que acontecerá se não ouvir os sinais.

Otelo responde-lhe:

Então, não sei ainda o que me poderá acontecer. Presumo que serei demitido, entregue à PIDE, passado a civil e vá aboborar por uns anos largos em Caxias ou, quem sabe, faça uma viagem só com bilhete de ida para o Tarrafal. Uma coisa te garanto: nunca mais farei guerra nenhuma no Ultramar.

E adianta:

O gracejo final fora chocho. Tinha a sensação de que o panorama se apresentava negro. Tentei dar-lhe uma pincelada de cor:
- Mas não te apoquentes com nada disso nem tenhas pensamentos desse género. Porque eu tenho a certeza de que, em poucas horas, ganharemos esta guerra. Dominamos quase todas as unidades do País, a malta está com uma gana formidável, temos a nosso favor o efeito surpresa. É canja!
Ela quis também dar ao ambiente um pequeno toque de humor:
- Queres então dizer com isso que amanhã não vamos à ópera?
Tinha-me esquecido completamente do assunto. Comprara bilhetes para a Traviata, que se cantava na noite de 24 no Coliseu dos Recreios, aproveitando o preço mais baixo que nos era facultado através da Secção de Actividades Culturais e Recreativas da Academia Militar.
- Olha, guarda-os para recordação. É claro que não vamos.
Com o permanente espírito de economia caseira retorquiu:
- Leva-os antes contigo e procura entregá-los amanhã na Academia. Pode ser que devolvam o dinheiro.
- Não vou fazer isso. Entregá-los agora depois de tanto os ter pedido, dizendo que já não me interessa, pode levantar qualquer suspeita. Paciência. Outra vez virá. Além disso, já vimos a Traviata do alto do galinheiro do São Carlos.
Ainda hoje tenho comigo esses bilhetes. No sobrescrito timbrado da Academia Militar dentro do qual mos entregaram, minha mulher inscreveria mais tarde a frase: "Faltámos por motivo imprevisto".

POEMA


Ouvi falar de um homem
que dizia palavras tão formosas
que só com pronunciar o seu nome
se lhe entregavam todas as mulheres.

Se fico mudo junto ao teu corpo
enquanto o silêncio floresce como tumores nos teus lábios
é porque ouço um homem subindo a escada
e clarear a voz fora da porta

Leonad Cohen em Filhosda Neve

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 3 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


O mar chamou-me desde que me lembro.

Filipa Melo em Os Últimos Marinheiros

UM CERTO ESTADO DE ESPÍRITO


Certa tarde estava a despejar Coca-cola de um jarro de leite para um copo, quando ouvi uma voz vindo suavemente do altifalante de rádio. Ricky Nelson estava a cantar a sua nova canção, «Travelin’Man. Ricky tinha uma doçura na tonalidade da sua voz e na maneira como entoava em ritmo acelerado. Ele era diferente do resto dos ídolos dos adolescentes, tinha um excelente guitarrista que tocava numa mistura entre o herói da música country e o rabequista de bailarico. Nelson nunca foi tão inovador como os primeiros cantores que cantavam como se estivessem num navio em chamas. Não cantava de forma desesperada, nem fazia grande estrago, e nunca seria confundido com um xamã. Dava a impressão de que a sua resistência não era levada ao limite, mas isso também não era relevante. Cantava as suas canções calma e serenamente como se estivesse no meio de uma tempestade, entre homens aos berros. A sua voz era algo misteriosa e fazia-nos cair num certo estado de espírito.

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: Ricky Nelson


ENTÃO, É NATAL!


Desde que acabaram as discotecas na baixa de Lisboa, a Universal, a Melodia, a Valentim de Carvalho, a Discoteca do Carmo, nunca as grandes superfícies disponibilizaram aqueles escaparates com discos de Natal que aquelas discotecas apresentavam.
Agora, apenas encontramos as mesmas colectâneas de sempre.
Para não fugir à tradição comprei esta colectânea. Já temos a esmagadora maioria das canções destes três Cds mas gostei da capa,
Uma telefonia é uma coisa que me comove sempre.
O Natal também.


QUOTIDIANOS


Lembro-me de uma pessoa amiga dizer que tinha ficado arrepiada com determinados versos, e era o que eu desejara. Se se perceber que a palavra amizade não tem a ver com o clã, com os amigalhaços, diria que nós escrevemos como quem tenta produzir uma amizade. Uma amizade com amigos que já conhecemos, sejam próximos ou longínquos, com amigos que não conhecemos e talvez venhamos a conhecer, e com um amigo que virá e que nunca conheceremos. É um outro, que não conseguimos vislumbrar, mas ao encontro de quem vamos.

Manuel Gusmão

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

A ÚLTIMA BILHA DE GÁS


a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a
habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

Herberto Helder em A Morte Sem Mestre

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Desejaria provar que esquecera a ponto de já nem se lembrar de ter tido qualquer coisa para esquecer.

Raul de Carvalho

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

NUNCA HOUVE, O QUE SE CHAMA, TRADIÇÃO


Havia certas rotinas, na sua maneira de viver, que não condiziam com os hábitos tradicionais das famílias e mesmo se vivesse nos dias que hoje correm, seria assim. Era a sua maneira de ser e de entender a vida das pessoas no mundo. O dia de natal, por exemplo, não apresentava nenhuma diferença de outro dia qualquer do ano. Não se enfeitava a casa, não havia presépio nem «espírito natalício». O costume, nesse dia, era lanchar em casa da sua mãe.
Lá íamos.
Comprava-se um pequeno bolo-rei numa pastelaria qualquer, apanhávamos o elétrico, descíamos na Rua de Buenos Aires, caminhávamos um pouco, ele batia três repenicadas, a porta da rua abria-se, abraços e beijos. Sentávamo-nos então, com amor e sem pressa, à volta da mesa do lanche. Sem haver nenhuma troca de presentes a assinalar a data, era costume eu receber nesse dia – e recebi durante anos e anos sem fim – o novo exemplar do Almanaque Bertrand referente ao novo ano que daí a uma semana chegaria.
Não havia, pois, comemorações especiais neste ou naquele dia. Não era uma questão económica. Era uma consciência plena e a aceitação, perceção dessa mesma vontade da consciência. Também não impunha nada a ninguém. Explicava por palavras simples e frases transparentes por que não fazia isto ou aquilo. O seu próprio dia de aniversário era um dia igual aos outros todos, sem festejos nem comemorações. Poderá parecer estranho tudo isto, na sociedade em que vivemos, onde todos cumprimos com «obrigações» indistintas e muitas vezes desinteressante. Onde se comemora tudo e nada a maior parte das vezes sem qualquer convicção, apenas porque se deve comemorar ou faz parte ou é costume.

ENTÃO, É NATAL!


Enquanto, dentro de portas, ouvíamos as histórias de infância de uma filha da terra, as galinhas passeavam-se pelo jardim. Lá fora, cheirava a campo; na cozinha a Natal!
«Na noite de 24, ardia-se um canhoto, assavam-se e debulhavam-se as pinhas, retiravam-se os pinhões» e faziam-se jogos em família, conta Fernanda Pimenta enquanto nos prepara a roupa velha na cozinha da Taberna Pimenta, a funcionar desde 1958. O negócio era do pai, assim como o desejo que alguém lhe desse continuidade.
Na mesma lareira de chão onde sempre se cozinhou, o fogo ardia brando como branda foi a nossa conversa. Fernanda lembra que os preparativos do natal começavam a 23 ou 24 pela manhã. Faziam-se mexidos, rabanadas, aletria. Logo ao almoço de 24, servia-se arroz de polvo, polvo cozido, bacalhau assado na brasa. À noite, o bacalhau cozido era o rei. Mais tarde chegavam os presentes: aos 5 anos, recebeu um chapéu de chuva vermelho de que se lembra até hoje. Continua a preparar o natal da mesma forma de sempre. Do que mais sente da festa de outrora? «Dos pais que já cá não estão».

ROUPA VELHA

500 g de bacalhau
500 g de batatas
1 kg de couve
2 ovos cozidos
1 cebola e 2 dentes de alho
Azeite e vinagra tinto, q.b.

Num tacho, coloque a cebola e o alho bem picadinhos, com o azeite. Deixe refogar e vá acrescentando as batatas partidas em cubos, as couves e o bacalhau já lascado.
Mexa bem e cozinhe, para apurar, em lume brando. Acrescente os ovos e deixe apurar mais um pouco.
Quando estiver pronto, junte duas gotinhas de vinagre tinto e envolva tudo novamente.
Disponha numa travessa e, por cima, coloque rodelas de ovo.

Taberna Pimenta, Lugar do Côto, 186, Pico S. Cristóvão, Vila Verde

Em «Mais», revista Lidl