domingo, 22 de janeiro de 2017

sábado, 21 de janeiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Nem todos os sonhos precisam de ser concretizados.


Patti Smith em M Train

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

«MEU, NÃO ACREDITO NISTO»


Orbison, na verdade, transcendia todos os géneros – folk, country, rock-and-roll, e quase tudo o mais. As suas músicas misturavam todos os estilos e até alguns que ainda não tinham sido inventados. Ele podia soar mal e desagradável num verso e depois, no verso seguinte, cantar numa voz de falsete como a do Frankie Valli. Com o Roy não se sabia se estávamos a ouvir mariachi ou ópera. Ficávamos com pele de galinha. Tudo nele era oito ou oitenta. Soava como se estivéssemos no cimo do monte Olimpo e soubesse o que andava a fazer. Uma das suas primeiras canções, «Ooby Dooby» tinha sido bastante popular mas a sua nova canção não era nada assim. «Ooby Dooby» era decepcionantemente simples, mas Roy tinha progredido. Estava agora a cantar as suas composições em três ou quatro oitavas, o que nos dava vontade de atirar com o carro por uma ravina abaixo. Cantava como um criminosos profissional. Começava por um nível baixo, quase inaudível, mantinha-se por lá e depois, surpreendentemente, lançava-se para entoações exageradas. A sua voz podia enlouquecer um cadáver e fazia-nos resmungar coisas do género «Meu, não acredito nisto». As canções dele tinham canções dentro de canções. Alternavam de tonalidade maior para menor sem qualquer lógica. Orbison não brincava em serviço – não era nem um amador nem um principiante. Não havia nada como ele na rádio. Ficava na esperança de ouvir outras canções boas mas comparado com Roy, o que passava na rádio era uma chatice… sem coragem e sem energia. Tratavam-nos como se não tivéssemos cérebro. À excepção do George Jones, não gostava da música country. Elvis Presley. Já ninguém o ouvia. Há anos que ele tinha feito aquelas coisas com as ancas e levado as canções a outros planetas. Ainda assim, eu continuava a ligar o rádio, provavelmente mais por hábito do que por qualquer outra razão.

Bob Dylan em Crónicas

UM DIA DESGRAÇADO


Ontem, pela manhã, Ferreira Fernandes, na sua crónica no Diário de Notícias, desabafava:

Hoje, tenho a dizer, tão-só, que é um dia desgraçado.

Pouco faltava para ouvir-nos o discurso nazi que Donald Trump vomitou na sua tomada de posse como 45º Presidente dos Estados Unidos.

Confirmaram-se os piores receios: Trump ameaça alterar os Estados Unidos e, por arrasto, o mundo tal como ainda o conhecemos que, não é exemplar, mas sempre é um pouco melhor do que aquilo que o  trumpismo nos quer impor.

Um discurso tão miserável que levou Barak Obama, numa atitude sem precedentes na história das tomadas de posse de presidentes norte-americanos, a dizer que não estávamos perante um ponto final ma história mas apenas, numa vírgula.

É necessária vigilância para proteger os povos e os seus valores.

A cantora Cher disse: Vivi sob a administração de 12 Presidentes e nunca pensei que ia coincidir com este arrogante, acrescentando que o poder do povo é maior do que o deste estúpido.

Por muitos exercícios que se façam, é difícil antever o que se irá passar na América, mas certamente será algo muito perigosos.

O Congresso, o Supremo Tribunal, podem limitar os excessos de Trump mas ambos estão controlados pelos republicanos e a maior parte dos seus elementos são gente não oferece o mínimo de confiança.

Eu podia estar no meio da 5ª Avenida a alvejar pessoas e, mesmo assim, não perderia votos, disse Trump, em Janeiro no Iowa.

Trump nega os valores da democracia, e tem a opinião que se o país tem armas nucleares são para ser usadas, que o aquecimento global é uma treta, defende armas nas salas de aulas, que se devem abandonar os doentes na rua se não tiverem dinheiro para pagar um médico, e que quer impedir a entrada de pessoas no país só por que são fiéis de uma outra religião.

A equipa governamental escolhida por Trump é um verdadeiro gang onde se passeiam mafiosos, racistas e xenófobos, muitos deles admiradores de Vladimir Putin.

Quem votou Donald Trump pensa ter escolhido um presidente.

Saberão nos próximos tempos, se é que nisso estão interessados, que escolheram um aventureiro.
A demagogia, o populismo, o nacionalismo, o autoritarismo, o ódio à cultura, a partir de ontem, vegetará na Casa Branca.

Até quando?

EM MIRANDELA, PARA LÁ DAS ALHEIRAS E DO PÃO


DO BAÚ DOS POSTAIS

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

TEMPO SERÁ


A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo
E a palma da minha mão).

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.

Manuel Bandeira em Obras Poéticas

SÉTIMO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS


Ditava palavras mágicas.
Eles tomavam nota do que é e não é
(chamavam-se Moisés  Jesus  Maomé)
mas tudo ficou amontoado  trocado
mesmo virado do avesso  baralhado

Dizia: malditos sejam
estes três lunáticos
sem sentido das proporções
da harmonia
da aritmética
do universo.
Como se fosse Deus.

António Rego Chaves em Três Vezes Deus


Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

APANHADOS DO FACEBOOK


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Uma classe média baixa, simples nos seus gostos, triste no seu viver, à beira do analfabetismo por desuso da escrita e de leitura. Mergulhada no álcool por desfastio, na televisão porque tem de ser.
A casa e o trabalho, o carro, os electrodomésticos e o cão, a família e os vizinhos, o jornal para saber do crime ou dos anúncios, a memória de infância ou do primeiro amor, o sonho de umas férias no Canadá ou no estado mais próximo quase sempre adiado ou substituído por alguns dias de campismo a pescar à beira de um lago.
Tudo isto na melhor das hipóteses, às vezes o quotidiano é tão insuportável que se mata alguém por absurdo, mais frequentemente as pessoas matam o que podem matar e têm à mão: o amor.


Autor desconhecido

OS CROMOS DO BOTECO


Há capas irresistíveis.
Esta é uma delas, encontrada na Loja do Nuno Potes.
Para quem não saiba, ou tenha esquecido, a loja fica no 61 da Rua Carvalho Araújo, ao pé da Alameda D. Afonso Henriques.
Mas não só pela capa, acabei de trazer o single para casa.
Também pelo Charlot e o que ele representa.
Em miúda, com Charlot, aprendi a alegria.
Muitos anos mais tarde, tudo o resto: alegrias com o rosto cheio de lágrimas.

Bengalin coco e bigode
e uma história p’ra contar.
Casaca e passo palhaço
um talento de pasmar.

Eis as armas deste herói
que tantos apaixonou.
O seu nome é Charlie Chaplin
conhecido por Charlot.

Um vagabundo
sempre elegante
passou no mundo
sempre emigrante

E viveu quimeras d’oiro
sofreu “Luzes da Ribalta”
foi o “Rei em Nova Iorque”
foi ditador e peralta.

Foi vadio, foi janota,
foi polícia, foi ladrão
foi gargalhada, foi lágrima,
foi vingança e foi perdão.

Um vagabundo
de calças largas
encheu de amor
horas amargas

Charlie Chaplin, Charlie Chaplin
que corres na tela muda
que te bates, que enterneces
 e beijas sempre a miúda.

Charlie Chaplin, Charlie Chaplin
botas velhas, bengalin
coco, bigode e casaca,
passo palhaço, arlequim,
polícia, vadio, ladrão
homem da rua, brigão,
apaixonado da vida
ue a tantos apaixonou:
tu, Charlot!

Interpretação: Bric-à-Brac
Letra: Mário Contumélias
Música: Manuel José Soares

O ÚLTIMO DIA DO MUNDO CONHECIDO


É dia de lamentar o abuso de frases que nos irão fazer falta no dia exato delas: amanhã, e não os outros dias em que invocámos a frase batida, é que é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Qual dia em que Armstrong pisou a Lua! Lembremo-nos é do que fazíamos a 20 de janeiro de 2017, do dia que os vindouros nos irão pedir memórias ou até contas. O dia em que a América deixou de ser a nossa aliada e, até (se quem exercer o poder que lhe foi dado a partir de amanhã, o puder fazer à sua maneira), deixou de ser um país decente. Há dias, no jornal Guardian, alguém fez o título certo: "Deixem de tomar Donald Trump como um presidente normal. Ele não é." E ele não é. Ele não é. E ninguém faz aqui análises políticas, mas só toma a atitude que se exige perante os infrequentáveis. Em circunstâncias normais, o personagem a ser lembrado hoje, aquele que vai deixar de ser o líder da única potência mundial, deveria ser hoje invocado. Mas Obama passou a rodapé da história. Não por ele, aconteceria o mesmo se fosse qualquer outro presidente americano de que temos memória: quem precede Donald Trump é o mero ramal, mesmo que tenha sido apesar dele, que nos levou à América de Trump. E esta é de tal maneira insuportável e previsivelmente perigosa que à data da tomada de posse deve dizer-se, hoje, que será indigno vir a dizer "não sabíamos". Valha-nos isso, a criatura não esconde quem é. Tomemos nota: agora é a América de Trump, outra coisa.


SOBRE SONHOS


Nem todos os sonhos precisam de ser concretizados. Era isso o que o Fred costumava dizer. Conseguimos realizar coisas que nunca ninguém virá a saber

Patti Smith em M Train

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

HARMONIA E RIGOR


Tirando umas constipações anuais e uma ou outra dor de dentes, Rómulo nunca teve incómodos de saúde. Não praticava exercício físico, bebia um copo de vinho às refeições, deixou de fumar aos cinquenta anos. Andava a pé, é certo. E isso era um bom exercício físico, se assim quisermos chamar, o andar a pé. Se havia coisa que ele detestava era o «clássico» exercício físico, a ginástica, a natação, essas atividades todas! E quase nunca se sentava. Comia de tudo, carne e peixe e arroz e batatas e legumes. Quase todos os dias da vida, ao jantar, à sobremesa, comia uma laranja. O ato de descascar a laranja não é concebível por palavras. Havia ali um entendimento entre ele e a faca e o garfo e o fruto.
Uma ritualização diária. Um final perfeito de refeição. Uma entrega a pensamentos que se materializavam e concretizavam nessa preparação metódica de fim de «missa», no princípio da noite.
Poderá parecer estranha, esta descrição da laranja diária, mas eu considero-a importante. Mais um passo na ordem de uma vida que se pretendeu harmoniosa e muito rigorosa.
A laranja no meio do prato. O garfo espetado no polo superior que fazia com que a fixasse com suavidade e, ao mesmo tempo e a seu tempo, a rodasse. A faca a descer desse polo, longitudinalmente, rodando, deslizando, cortando, a casca a sair em fatias todas da mesma largura. A casca fina, quase transparente. De modo que a laranja apresentava-se agora não cor de laranja, mas branca. Iniciava, então o mesmo processo de exatidão, agora com muito mais cuidado, pois a pele finíssima, a pele branca colada à polpa, saía com mais dificuldade. Lá ia. De cima para baixo e sempre à volta. No prato, amontoava-se a um canto a camada das cascas. Primeiro a casca de fora, por cima a película branca. Tudo organizado.
Finalmente, a faca bem afiada cortava uma rodela de laranja. E outra, E outra. Depois, voltava a laranja e cortava outra rodela. E outra, E outra. Até restar a parte comprida com as nervuras do meio, que era também colocada por cima das cascas todas. Agora o prato de sobremesa apresentava uma coroa de rodelas de laranja disposta do centro para a beira. Seguia-se a limpeza dos caroços, Um por um, com a ponta da faca, iam saltando todos, mas com cuidado para não estragar nem romper a fatia. Esta operação levava o seu tempo. Um certo tempo nunca perdido, pois os pensamentos andavam por ali a rodar, a rodar como a própria laranja, e a prova disso é que o seu olhar estava absolutamente concentrado, naquela concentração que só um total alheamento e algum automatismo permite.
Enfim, a boca! A caverna natural de todos os prazeres, onde a fibra do mundo se derrete.

OLHAR AS CAPAS


Morte em Campo de Ourique

Orlando Neves
Capa: Zé Paulo
Veja, Lisboa s/d

Sempre fui uma soma de defeitos: sou egoísta, bebo, preguiço, não tenho ideais, não adoro nada sobre todas as coisas, odeio a vida social, cuspo, interiormente, na política, sou indiferente. E, no entanto, amo a vida. Mas qual?
Perdi as mulheres. Precisei delas para quê? Umas noites de amor, um gosto a álcool e a tabaco e, depois, o anseio de que elas saíssem, partissem e só voltassem se as desejasse, Mas elas ficam, querem ficar, adormecem-me nos braços, pedem-me a mão nos cabelos, nos seios, no sexo, aparentemente entregues. Só aparentemente. Depois querem o resto, o sangue, o tempo, as palavras.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O HOMEM COM A GUITARRA


Nessa noite, quando acabou ao fim de poucos minutos, quando o homem com a guitarra desapareceu envolto em gritos, eu fiquei ali petrificado em frente à televisão, com a cabeça a mil. Tinha dois braços, duas pernas, dois olhos, como ele; era horroroso, mas podia esquecer isso… então o que é que faltava? A GUITARRA! Ele atacava-a, encostava-se a ela, dançava com ela, gritava para ela, apertava-a, acariciava-a, abanava-a sobre as suas ancas e, de vez em quando, até a dedilhava! A chave-mestra, a espada cravada na pedra, o símbolo da retidão, o maior instrumento de sedução que os adolescentes alguma vez tinham visto, a… a… «RESPOSTA» à minha solidão e tristeza. Era uma razão de viver, uma forma de tentar comunicar com as outras almas infelizes presas à mesma condição que a minha. E… estavam à venda no centro da cidade, na Western Auto!
No dia seguinte, convenci a minha mãe a levar-me à Diehl’s Music, em South Street, Freehood. Como não tínhamos dinheiro, alugámos uma guitarra: Levei-a para casa. Abri o estojo. Senti o cheiro da madeira (que continua a ser um dos cheiros mais doces e promissores do mundo), senti a sua magia, apercebi-me do seu poder oculto. Segurei-a nos braços, passei os dedos por cima das cordas, prendi a palheta de tartaruga com os dentes, senti o seu sabor, tive lições de música durante umas semanas… e desisti. Era DIFÍCIL COMO A MERDA! O Mike Diehl, guitarrista e dono da Diehl’s Music, não fazia a menor ideia de como ensinar o que o Elvis andava a fazer a um jovem admirador que queria cantar
blues de escola primária. Apesar do seu acesso incrível àquelas máquinas espantosas, não fazia a menor ideia do verdadeiro poder que elas tinham. Prosaico como todos os americanos da década de 50, só sabia os acordes principais, tratar de papelada e passar horas sem fim com uma técnica brutalmente entediante. Eu QUERIA…. PRECISAVA…. DE ROCK, JÁ! Ainda hoje não sei ler pautas e, nessa altura, os meus dedos de menino de 7 anos nem sequer davam a volta ao braço. Frustrado e envergonhado, disse à minha mãe, ao fim de pouco tempo, que era escusado. Não fazia sentido ele andar a desperdiçar o dinheiro que tanto lhe custava a ganhar.

Brice Springsteen em Born to Run

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

ENVELHECER JUNTOS


Para fechar o dia de hoje, um bom dia, um poema de amor, chinês, do século XVIII, na tradução de João José Cochofel, da tradução francesa de Claude Roy.

O meu marido sua nos campos, em casa peno eu.

Os esposos trabalham muito
Ajudam-se um ao outro.

Os esposos da aldeia cuidam do amor.
Os esposos da cidade cuidam dos vestidos.

Pode trocar-se um vestido velho por outro novo.
Não se pode trocar o amor de toda uma vida.

Eu cozo o arroz, preparo o chá
Tu mondas, semeias, cavas e ceifas.

Quando como um ovo, deixo-te a gema.
Envelhecemos juntos.

«Como conciliar esta poesia de um amor digno, igualitário, cimentado num destino comum, com a situação degradada da mulher na sociedade chinesa do tempo» - pergunta João José Cochofel e a mim só me acode uma resposta, uma pergunta também: «como conciliar, sim, o nosso amor, camarada L. com a situação degradada do amor na sociedade do nosso tempo, neste país?...»

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

NOTÍCIAS DO CIRCO


Segundo a própria editora, citada pelo Público, o romance Vaticanum, de José Rodrigues dos Santos, foi o livro mais vendido em Portugal no ano passado. Editado em Outubro, Vaticanum atingiu já uma tiragem de 93.000 exemplares.
Nada como ser «pivot» de televisão, jogador de futebol, actor de telenovela, cantor pimba.
Qualquer desplante que (lhe) escrevam, vende como pãezinhos quentes.
Comprar livros, ler livros.

José Saramago dizia que a leitura será sempre uma questão de minorias.

DITOS & REDITOS


Génio é uma longa paciência.

Se ninguém te louva, louva-te tu, a ti próprio.

Quem não souber tomar partido, que fique calado.

Rio torto duas vezes se passa.

Devemos dar como queremos receber.

Ao rico não devas e ao pobre não prometas.

O comer e o ralhar vai de começar.

Vive-se com qualquer coisa, é preciso é qualquer coisa.

domingo, 15 de janeiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Andava sempre à pesca de qualquer coisa na rádio. A par dos comboios e dos sinos, a rádio fazia parte da banda sonora da minha vida.

Bob Dylan em Crónicas 

SEMPRE À PESCA DE QUALQUER COISA NA RÁDIO


O dia de São Valentim, o dos namorados passou e eu não dei por nada. Não tinha tempo para o romance. Afastei-me da janela, do Sol de Inverno, atravessei a sala e dirigi-me ao fogão, fiz e servi-me de uma chávena de chocolate quente e depois liguei o rádio.
Andava sempre à pesca de qualquer coisa na rádio. A par dos comboios e dos sinos, a rádio fazia parte da banda sonora da minha vida. Rodava o botão para trás e para diante e a voz do Roy Orbison saía disparada das pequenas colunas. A sua nova canção «Running Scared» explodiu na sala. Nos últimos tempos andava a ouvir canções com conotações folk. Tinha havido algumas no passado - «Big Bad John», «Michael Row the Boat Ashore», «A Hundred Pounds of Clay». Brook Benton tinha feito do «Boll Weevil» um êxito contemporâneo. Os Kingston Trio e os Brother Four andavam a passar na rádio. Eu gostava dos Kingston Trio. Gostava da maioria das coisas deles ainda que o estilo fosse limpinho e colegial. Canções como «Gateway John», «Remember the Alamo», «Long Black Rifle». Havia sempre um qualquer tipo de música folk a fazer sucesso. Até a canção «Endless Sleep» da Jodie Reynolds, que tinha sido popular anos antes, era folk na sua essência.

Bob Dylan em Crónicas 

Legenda: Roy Orbinson

MARCADORES DE LIVROS

OLHAR AS CAPAS


Uma Admirável Droga

Luiz Pacheco
Posfácio: Isabel Segorbe
Capa: Victor Hugo
Ilustrações A.S.L.
Quarteto Editora, Coimbra, Fevereiro 2001

Se eu tive um destino singular, na modéstia que todos temos um único, original e nosso e apenas isso, mas repito se, em comparação com muita gente que me rodeia, lhe posso ainda, aqui comigo e nas histórias lendárias ou veras que de mim contam (algumas tenho ouvido, espantado sem acreditar; doutras nem já me lembrava mas foram mesmo), esse meu destino, é singular, porque será? Interrogo (-me) e não sei capaz, não lhe (me) sei responder. A doença em pequeno? a devoradora leitura, alargando uma imaginação já de si exagerada, neurótica? uma degenerescência familiar de que fiz bastante para me salvaguardar, procurando outros rumos, novos projectos, caras felizes? um  acentuado pendor para a contradição ou atenção crítica que começa no querer ver como é, saber ouvir, ler muito e variado, e desconfiando sempre? Porque desconfio, duvido, amontoando hipóteses, alterando dados na aparência irrefutáveis e, em frieza quase absoluta, distinguindo os meus sentimentos ternos pelas pessoas da análise implacável do que elas são ou de como aas queria? e repelindo-as ou chegando-me a elas, na convivência forçada ou fascinante que temos de aceitar com o outro?
Conheço-me? não me conheço? estou baralhado de todo? Ou fui sempre? 

sábado, 14 de janeiro de 2017

SEXTO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS


Semeava a peste.

Dizia: não amo o próximo
porque não tenho próximo.
Como se fosse Deus.

António Rego Chaves em Três Vezes Deus


Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou

CONFIDÊNCIAS


Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!


José de Almada Negreiros em Obras Completas, Volume IV

Legenda: pintura de Mihai Criste