quinta-feira, 19 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Olho por olho, dente por dente, diz-se no Antigo. No Novo, manda-se amar o nosso inimigo e dar a outra face. Contam-se pelos dedos de uma mão os que o fizeram, e a própria Igreja sustentou, durante séculos, as «guerras justas», nelas incluindo as que hoje se consideram as mais injustas. Não faltaram, nem faltam, textos sagrados a fundamentar esses conceitos, e quem invoca o «quem com ferro mata com ferro morre» ouve como resposta «não vim trazer a paz, mas a guerra».

João Bénard da Costa no 2º volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras.

E AÍ PARECE QUE SOU SUFICIENTEMENTE BOM


Manuel da Fonseca, num dos seus poemas, deixou lavrado que mas os místicos andaram pelos séculos construindo noites geladas solidões.
Toda uma vida, se bem que haja breves lampejos de alguma felicidade, Mário-Henrique Leiria transportou aos ombros do seu débil corpo, geladas solidões que nem os amigos, os cigarros, os seus fiéis leitores, o gin, conseguiram aliviar.

Desde Carcavelos, em 17 de Dezembro de 1974 – Ah! o Natal! sempre o Natal - , corta a direito:

Acabo de receber a tua carta. O teu cartão. O teu cheque. Não sei bem que te dizer. Cartas tuas, todos os dias, se quiseres. Cartões também. Cheques, querida menina, faz-me o favor: não repitas. Olha que não é ingratidão, não é mesmo. Estou comovido e impressionado. Mas, Isabel, tenho um vício e um orgulho só aceito aquilo que obtenho por briga, seja ela qual for. Aceito o teu amor, todo, Obtive-o. É o que quero de ti. O teu dinheiro não posso. É teu e és tu quem o obtém. Percebes? Creio que sim. E agora, obrigado mesmo pelo cheque. Aliás veio a calhar, parece que a Jovília tem que ser operada em breve e sabes como são as coisas neste excelso país.
Eu aqui, desiludido (aliás já é costume), Estou retraído, à espera. Sabes bem que as coisas se fazem até ao fim, ou não se fazem. E por cá tudo vai pelo meio termo. Não aceito um socialismo que o não é, tal como nunca aceitei a tal democracia com escravos e tudo. Talvez eu seja radical demais (ou excessivamente honesto) para entrar no jogo. De jogos, só gosto de poker e aí parece que sou furiosamente bom. Mas só poker, mais nada.
Demiti-me de tudo. Estou só- Aliás, sempre estive. Agora dizem que sou anarquista, inimigo do Estado. Talvez seja, não sei. O que eu não sou, com certeza, é oportunista.
Bem, deixemo-nos disto.
Cá por casa há frio. O malvado Vodka morde em toda a gente. Ainda bem.
A mãe, muito velhinha e cansada.
A Jovília continua com análise, biópsias, radiografias. Tem dores e chateia toda a gente. Deve ter que ser operada, não sei a quê. Nem estou interessado em saber.
Eu, dores de cabeça de manhã à noite, reumatismo excelente e incapaz de escrever. No entanto tenho mesmo de escrever as habituais besteiras para os jornais. Questão de dinheiro, mais nada.

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Na Nota Preliminar que Mécia, mulher de Jorge de Sena, escreveu para os 80 Poemas, conta que este projecto da tradução dos poemas de EmilyDickinson, era um velho sonho de Sena.

Em 1962 destinavam-se a ser publicados em separata para a revista Bandarra, organizada por Egito Gonçalves, mas nunca foram publicados.

Em 1967, com um acréscimo de poemas traduzidos, foi enviado à Portugália Editora «onde não teve melhor sorte».

Em Julho de 1968 os direitos autorais foram cedidos à Editorial Inova mas tudo ficou no esquecimento.

Em Janeiro de 1978 as Edições 70 prontificaram-se a publicar o livro, mas o poeta viria a morrer em Junho desse mesmo ano.

Só em Outubro de 2010 os 80 Poemas de Emily Dickinson, traduzidos por Jorge de Sena, teriam a sua publicação incluídos nas Obras Completas que a Guimarães passou a publicar, tarefa a que a Editora se dedicou sem grande carinho e entusiasmo. Diga-se.

Que o projecto era muito querido a Jorge Sena, provam-no as muitas referências feitas a essas traduções que se podem ler na Correspondência que trocou com Eugénio de Andrade., ao todo 22 notas.

A Inova chegou a andar às voltas com os poemas de Dickinson, juntamente com a tradução dos poemas de Cavafy. Estes saíram, os de Dickinson não tiveram essa sorte. E como Sena tereia ficado feliz com essa publicação.

Em 3 de Junho de 1969, Sena escrevia a Eugénio:

«Mas estou francamente inquieto até hoje não recebi, de ti ou da Inova, notícia de ter chegado a Emily Dickinson, que mandei pouco antes do Cavafy e nem a respeito deste ou dela recebi da Inova qualquer comunicação. Que se passa ou não se passa?»

Em 22 de Dezembro de 1970, mais um lamento:

«E era preciso que essa Inova se lembrasse da minha pobre Emily Dickinson que há tantos anos sempre se vê editorialmente preterida.»

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80 Poemas

Emily Dickinson
Selecção, tradução e prefácio: Jorge de Sena
Nota Preliminar: Márcia de Sena
Capa: João Botelho
Guimarães Editores, Lisboa, Outubro de 2010

Morri pela Beleza mas mal eu
Na tumba me acomodara,
Um que pela Verdade então morrera
A meu lado se deitava.

De manso perguntou por quem tombara…
. pela Beleza – disse eu.
- A mim foi a Verdade. É a mesma Coisa.
Somos irmãos – respondeu.

E quais na Noite os que se encontram falam –
De Quarto a Quarto a gente conversou –
Até que o Musgo veio aos nossos lábios –
E os nossos nomes  -  tapou.

PROTOPOEMA


Do novelo emaranhado da memória, da escuridão
 dos nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça
entre os dedos. É um fio longo, verde e azul, com
cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo
vivo. É um rio. Corre-me nas mãos, agora
molhadas. Toda a água me passa entre as palmas
abertas, e de repente não sei se as águas nascem
 de mim, ou para mim fluem. Continuo a puxar, não
já memória apenas, mas o próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também
os barcos e o céu que os cobre e os altos
choupos que vagarosamente deslizam sobre
a película luminosa dos olhos. Nadam-me peixes
 no sangue e oscilam entre duas águas como os apelos
imprecisos da memória. Sinto a força dos braços
 e a vara que os prolonga. Ao fundo do rio e de
mim, desce como um lento e firme pulsar
de coração. Agora o céu está mais perto e mudou de
cor. É todo ele verde e sonoro porque de ramo em
ramo  o vento acorda o canto das aves. E quando
num largo espaço o barco se detém, o meu corpo
despido brilha debaixo do sol, entre o esplendor
maior que acende a superfície das águas. Aí se
fundem numa só verdade as lembranças confusas da
memória e o vulto sùbitamente anunciado
do futuro. Uma ave sem nome desce donde não sei e
vai pousar calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul
e que as aves digam nos ramos por que são altos
os choupos e rumorosas as suas folhas. Então,
corpo de barco e de rio na dimensão do homem,
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas
verticais circundam. Aí, três palmos enterrarei
 a minha vara até à pedra viva. Haverá o grande
silêncio primordial quando as mãos se juntarem
 às mãos. Depois saberei tudo.

José Saramago em Provavelmente Alegria

quarta-feira, 18 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Sou já em alguns crepúsculos de verão, na praia, vendo o sol desaparecer na água e a minha vida com ele, sobretudo a saudosa fracção da minha existência em que, aos dezoito anos, era o pavor das mães e o regalo das filhas nos bailes de sábado dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, me murmurava, durante os boleros
- Tem os olhos tão azuis, seu fofo
isto as filhas claro, o que as mães murmuravam quando me aproximava para uma nova dança era mais no género
-Desapareça antes que chame o meu marido que é estivador e lhe dá um murro no alto da cabeça que fica oito dias a cuspir brilhantina

António Lobo Antunes em Quarto Livro de Crónicas.

Legenda: fotografia de Janine Niépce

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O Santo no Mar Alto

Leslie Charteris
Tradução: Norberto dos Reis
Capa: Cândido Costa Pinto
Livros do Brasil, Lisboa s/d

A voz de Roger interrompeu-lhe o pensamento.
- Ora muito bem! Com que então, dissemos adeus aos prometidos milhões… - observou pesarosos. Simon ergueu-se do banco, os olhos acesos, outra vez o incorrigível e nobre pirata.
- Quem lhe meteu isso na cabeça? Meu caro Roger, nós ainda não vamos para o berço. Vamos trazer o Corsário para estas imediações e desencaixotar aqueles formosos escafandros que temos a bordo. Depois um herói de fancaria vai comigo embasbacar-se diante de tesouros tão inauditos. Steve e os gendarmes poderão guardar a cábrea de Vogel durante a noite inteira, que isso pouco me importa. Eles não sabem o que há lá em baixo, e não se sente a falta do que se não conhece. Ainda esta noite iremos tratar de receber a nossa recompensa – concluiu o Santo.

TRUMPADAS


Ponto de partida. Os serviços de inteligência americanos tinham concluído oficialmente, dias antes: "Não há dúvida de que a Rússia interferiu nas eleições de 2016."
Ponto de exclamação. Na segunda-feira, em Helsínquia, aquela questão (a ingerência russa numa eleição americana) foi posta a Donald Trump. E ele respondeu publicamente: "Não vejo qualquer razão para que tenha sido a Rússia."
Pontos nos is. No dia seguinte, terça, já em Washington, Donald Trump desmentiu-se, com firmeza: quando ele disse "não vejo qualquer razão para que tenha sido a Rússia" na ingerência das eleições, ele queria dizer "não vejo qualquer razão para que não tenha sido a Rússia". Simples.
Ponto e vírgula. Com Trump, o que é, anteontem; ontem, é não.
Ponto de interrogação. O que nos leva a uma dúvida, hoje: "?" Sinal de pontuação que é a frase mais urgente a dizer sobre Donald Trump.
Ponto final. Um tipo que se engana do sim para o não pode ser um ponto. Um simples ponto. Mas este é um Trump, o Donald Trump que se engana em matérias daquelas, numa cimeira, com o outro mais poderoso líder mundial e anda com um botão atómico.
Parênteses. (Não esquecer que o presidente Trump já disse, para algures, que a opção nuclear é uma hipótese a considerar.)
Travessão - Sim? Não? Cruel dúvida... Hoje, não. Amanhã, quem sabe?

Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias on-line.

A RAZÃO DE VIVER


És para sempre
como os céus.

Eu, que vejo os limites
em toda a perfeição,
em tua perfeição sinto prazer.

Em ti coloco
a razão de viver.

E só por isso eu sei que não me perco.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

NELSON MANDELA





terça-feira, 17 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Do Expresso de 9 de Junho de 2018.

TER O INFERNO GARANTIDO


O tempo foi ensinando muita coisa a quase toda a gente. Mesmo a alguns que não sabem que eu sei que. É melhor mudar de assunto. De qualquer modo, as propostas, anteriores e posteriores ao 25 de Abril, para «rever o meu caso», nunca me dis­pus, naturalmente, a aceitá-las. Sem alegria, desejo que se saiba. Sem ponta de vaidade, quer queiram crer, quer não. Se os tais olhinhos fixos e brilhan­tes não são coisa que se esqueça (nunca mais), ou­tro apelo permanece, irrecusável, desde sempre, muito provavelmente para sempre. Ronca mugindo roucamente no espesso nevoeiro. Sem se saber on­de o farol estará. Se existirá.
 Via tudo agora mais de longe e, se me dão li­cença, ainda mais de cima. Ou seja — e assim vol­tamos ao ponto de partida... —, o tal orgulho, bur­guês ou não burguês (pensar-se-á ainda assim?) que me faz ter o inferno garantido.
 Disse um dia a um jornal que os erros dos que estão mais próximos dos meus ideais, mesmo só em teoria, nunca me farão cair nos braços dos inimigos desses mesmos ideais. Disse-o então, digo-o agora. Amanhã a mesma coisa. Espero.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: fotografia tirada de Autobiografia

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Busca

José Fanha
Ilustrações: Manuel Botelho
Capa: João Nasi Pereira
Edição do Autor, Lisboa s/d

Eu Sou Português Aqui

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que em papa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


O Cerdan morreu num desastre de avião, se a memória não me trai. Ia discutir com o Graziano essa velha questão de saber qual é o melhor do mundo. Paris chorou. Os cegos musicais de Lisboa, esse tão magoado lirismo das sargetas, que tantas vezes me surpreendeu de ternura ao virar da esquina, tocaram alguns dias, a troco de tostões, castanhos e avaros, em fins de tarde cansadas, «La Vie en Rose». E havia uma letra que falava de Cerdan. Rimava com titã.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas 

Legenda: Marcel Cerdan

EM QUE A HISTÓRIA É TRANSCENDIDA


Carta de António José SaraivaSaraiva, desde Viry Chattilon, 4 de Julho de 1969, Para Óscar Lopes:

Na última carta não toquei em vários pontos, e acrescentaram-se-lhe os d carta que acabo de receber.
O primeiro ´+e que estou em más relações com o Lyon de Castro porque ele me reeditou a História da Literatura sem me prevenir e aldrabando-me quanto à tiragem. Se possível, prefiro passar os livros que lá tenho para a Inova. Mas preciso de um bom advogado disposto a conduzir-me a causa. Conheces algum?
(…)
A tua apreciação sobre o movimento académico português é justa; mas já me parece injusta a maneira como falas da insurreição de maio em Paris, abocanhada caluniosamente, ou depreciada manhosamente pelos políticos do PC. Eu fui testemunha e hoje parece-me um sonho. Foi o homem na sua pureza, na sua tensão máxima que se bateu contra a natureza naturata sob a forma social. Nunca fales de maio como quem sabe o que foi, porque é difícil explica-lo até a quem assistiu. Aqui te digo sem hesitação que foi o maior acontecimento do século XX e que as suas consequências se farão sentir ao longe no tempo. O que aconteceu em Coimbra (também falo sem saber) foi um importante acontecimento histórico nacional; o Maio de paris é um momento da história da civilização; mais: um momento em que a história é transcendida.

OLHAR AS CAPAS


 Blues Para Uma Puta Velha

Jorge Fallorca
Desenhos: André Bonito
Capa: JF/VST/PS
Edições &etc, Lisboa, Março de 2010

Este vento, o vento que sopra às revoadas mansas e pegajosas vindas do mar, é um vento cheio de cheiros que recordam histórias, cheio de histórias como um baú acabado de abrir, dos que só dão à costa trazidos pelos cheiros do vento.
Sem pianos, sem sereias.
Quando é tempo delas e o vento mas oferece, entretenho-me a descascar as ervilhas-de-cheiro dos outros cheiros todos, para dar uma volta pelo jardim-escola; outras vezes, deixo-me temperar pelo manjericão, o jasmim, a hortelã, para vogar neste vento tão pegajosos e tão atlântico até ao porto de Tânger.
Sou dos que acreditam – eu acreditei, a pés juntos, que um dia passei a estar «onde vejo o vento» -, e o vento tem-me seguido como uma sombra, fiel e dedicada, com um comportamento onde me reconheço e por isso nos confundimos; muitas vezes penso que tenho andado enganado e, afinal, não passo da sombra do que se entende como sombra.
E que ninguém se atreva a esperar por parágrafos de ferro forjado, como «sombra da minha sombra»; deixemo-los sossegadinhos para os teclados eruditos de quem gosta de se considerar e que se lhe chame escritor, debruçado sobre lombadas com malvas a aviar escrita e importância, notoriedade, sôfregos de eternidade.
Nunca me passou pela cabeça a canseira, a ansiedade que deve ser escolher a escrita por figurino, por catálogo, e continuo a escrever pelo puro prazer de escrever, sei lá se é poesia ou sei lá se é prosa, só sei que continuamos a brincar às escondidas, a curtir, quando não é uma urgência de fazer doer a alma a qualquer um.
E eu que o diga, a sério.
O vento é uma boa desculpa, podia ser um belíssimo pretexto se, entretanto, não me desse por contente com o que acabo de escrever e, precisamente por isso, vou mas é até lá fora sentar-me ao sol e deixar-me ficar só a ver o vento.
É que a escrita perde sempre piada quando a literatura começa a intrometer-se, quando permitimos que a literatura comece a meter o bedelho.

AVISO À NAVEGAÇÃO


Alto lá!
Aviso à navegação!
Eu não morri:
Estou aqui
na ilha sem nome,
sem latitude nem longitude,
perdida nos mapas,
perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu,
o perigo para a navegação!
o dos saques e das abordagens,
o capitão da fragata
cem vezes torpedeada,
cem vezes afundada,
mas sempre ressuscitada!

Eu que aportei
com os porões inundados,
as torres desmoronadas,
os mastros e os lemes quebrados
- mas aportei!

E não espereis de mim a paz…

Aviso à navegação:
Não espereis de mim a paz!

Que quanto mais me afundo
maior é a minha ânsia de salvar-me!
Que quanto mais um golpe me decepa
maior é a minha força de lutar!

Não espereis de mim a paz!

Que na guerra
só conheço dois destinos:
ou vencer - ai dos vencidos! -
ou morrer sob os escombros
da luta que alevantei!

                   - (Foi jeito que me ficou
                     não me sei desinteressar
                    do jogo que me jogar.)

Não espereis de mim a paz,
aviso à navegação!

Não espereis de mim a paz
que vos não sei perdoar!

Joaquim Namorado em Novo Cancioneiro

domingo, 15 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


São as dúvidas o que temos de mais íntimo. 

Albert Camus

TENS IMPORTÂNCIA PARA ALGUÉM?


1 de Janeiro de 1946

Também este ano acabou. As colinas, Turim, Roma. Esgotaste quatro mulheres, publicaste um livro, escreveste belos poemas, descobriste uma nova forma que sintetiza numerosos filões (o diálogo de Circe?. És feliz? Sim, és feliz. Tens força,  tens génio, tens que fazer. Estás só.
Neste ano, roçaste o suicídio por duas vezes. Todos te admiram, te cumprimentam, bailam em volta de ti. E depois?
Nunca lutaste, lembra-te. Nunca lutarás. Tens importância para alguém?

Cesare Pavese em Ofício de Viver

ELEGIA MÚLTIPLA I


Como se poderia desfazer em mim a tua nobre cabeça, essa
torre deslumbrada pelo mudo calor dos dias, pelo
brilhante gelo nocturno? É pela cabeça
que os mortos maravilhosamente pesam
no  nosso coração. Essas flores intangíveis para as quais
temos medo de sorrir, as armas
lavradas, as liras que estremecem e pendem
sobre os rios agitados das coisas. Só o amor as abre
e vê sua confusa e grave geografia, as fontes
livres de onde os pensamentos crescem
como a folhagem iluminada das antigas idades
do ouro.

Eu próprio levanto minha exígua cabeça de vivo,
procuro colocar-me num ponto irradiante
da terra, olhar de frente
com toda a inspiração do meu passado, e estar
à altura dos mortos, na zona
esplêndida e vasta
da sua nobreza - receber essa espécie de força
indestrutível
que envolve a cabeça montada sobre os dias e dias,
de que as rosas bebem  o jeito aéreo e a boca
a delicadeza misteriosa.

Existem árvores cercando os animais sonhadores, o grande
arco das eras com os fogos rápidos
presos como campânulas, e a fixa vontade
do homem ardendo e gelando
no tempo. À beira dos rios canta-se ou deixa-se
que as mãos se gastem, deslumbradas
do seu poder, da sua grande miséria
como um sonho. Um nome, contudo, existe
suspenso sobre as estações do ano. Essa cabeça
dos mortos - a tua cabeça aérea como o verde
das pedras ou o movimento
das corolas frias,
essa cabeça sumptuosa, rodeada de estreitas
víboras -
sobe do nosso, do meu coração, até que a minha
mesma cabeça
nada mais seja que a possessiva, doce cabeça
dos mortos.

Herberto Helder de A Colher na Boca em Poesia Toda 1º Volume

sábado, 14 de julho de 2018

AS CORDAS DE PAREDES


Nesta cidade sem música
o homem da guitarra gritava o seu segredo
com as mãos em desalinho.

Cristais de crispação
jorravam de uma lua baça
ou quentes do forno da madeira
do linho.

Aí vai a minha vida.
E o homem vergado sobre si, enrolado e mudo,
bordava-se nas suas cordas de aço
macias de suor e livres
do fracasso.

Nesta cidade de ventre abandonado ao vento
mais perverso
ele é uma raiz, uma toalha de água
leve tremor de pálpebras
que retine feliz
no rosto da nossa mágoa.

Colhemos a sonora fruta
que ele deixa tombar das mãos.
E como um rapazinho amedrontado
o homem da guitarra
ainda está aí
à espera de nós, da voz,
de outra cidade.
Talvez de outros irmãos.

Armando Silva Carvalho em Lisboas

sexta-feira, 13 de julho de 2018

UM POEMA QUE EU FIZ QUASE A ASSOBIAR


A “Pedra Filosofal”, a que a imprensa se refere frequentemente, foi, não propriamente o poema por si só mas ele e a música do Manuel freire, um dos acontecimentos mais notórios destes últimos anos, entre nós. Aliás foi um dos poemas que eu fiz quase a assobiar e daqueles que menos gosto. Quando Manuel Freire o musicou e o cantou em público pela primeira vez, na televisão, em 1969, a aceitação popular foi unânime, e daí até hoje, quase trinta anos depois, ainda a canção, e o poema, continuam a ser aplaudidos com entusiasmo "um dos mais importantes temas do momento a que se chamou da «nova canção portuguesa» ou, mais simplesmente, das «baladas» que haveriam de transformar-se na canção de intervenção que antecedeu a actual Música Popular portuguesa”. (Jornal Sete, de 16.VII.1985).

Rómulo de Carvalho em Memórias

DE QUE ARMAS DISPOREMOS


 De que armas disporemos, se não destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Hélia Correia

quinta-feira, 12 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


De um Brasil-Chile, escreve Nelson (Rodrigues), no dia seguinte, no jornal O Globo: "Garrincha foi a maior figura do jogo, a maior maior figura da Copa do Mundo e, vamos admitir a verdade última e exasperada: a maior figura do futebol brasileiro   desde Pedro Álvares Cabral." O jogo foi há 56 anos mas, por cá, não há meio de sabermos ver os factos com esta objetividade.

NOTÍCIAS DO CIRCO


É com esta capa que o diário espanhol Marca assinala o adeus de Cristiano Ronaldo ao Real Madrid.

«Não haverá outro igual. Cristiano, a lenda dos 451 golos, está de partida», lê-se na manchete.

A capa ilustra os 451 golos apontados por Cristiano em 438 jogos oficiais ao serviço do clube.

Cristiano Ronaldo é jogador da Juventus para as próximas quatro épocas, depois de o clube italiano e o Real Madrid terem acertado a transferência do internacional português por 117 milhões de euros com um ordenado de 30 milhões de euros anuais. 

Ou seja, 3425 euros por hora.

Entretanto os trabalhadores da FIAT, proprietária da Juventus, que não são aumentados há 10 anos, avançaram para uma entre as 22 horas de domingo 15 de Julho e as 18 horas de terça-feira 17 de Julho.

«É justo? É normal uma pessoa ganhar milhões, enquanto milhares de famílias não conseguem sequer chegar ao meio do mês? Somos todos empregados do mesmo dono, mas a diferença de tratamento não pode ser aceite. Os trabalhadores da FIAT deram à empresa uma fortuna nas últimas três gerações, mas em troca recebem apenas uma vida de miséria. A empresa deve investir em carros que garantam o futuro de milhares de pessoas, em vez de enriquecer apenas uma. Esse deve ser o objetivo, uma companhia que coloca os interesses dos seus empregados em primeiro lugar. Se não for assim, então é porque preferem o mundo do futebol, do entretenimento e tudo o resto», lê-se num comunicado da Unione Sindicale di Base.

Esta posição dos trabalhadores levou a Juventus a cancelar a mega apresentação que estava a preparar, em pleno estádio,  para a recepção ao jogador.

O espectáculo foi, entretanto, cancelado.

Num palavrado aos solavancos, invocam problemas logísticos, de segurança, um blá-blá-blá que não convence ninguém.

Mas a real razão prende-se com as possíveis reacções que os trabalhadores da FIAT poderiam exercer criando situações confrangedoras que poderiam ficar fora de controlo.

A apresentação de Cristiano Ronaldo acontecerá, apenas, em conferência de imprensa e numa ida ao relvado do estádio para as fotografias da praxe.