quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

NATAL


A festa do deus alheio
A mim e a tantos homens
Passou.
Mas é profundo o grito
- É cada vez mais fundo –
Da festa que alguém, algures,
Nos negou.

Alberto de Lacerda  poema tirado da Antologia Natal….Natais  


Legenda: Postal pintado com a boca por J. Borek Unikowska

SARAMAGUEANDO


Estes pequenos filhos dos homens têm andado pelas minhas crónicas. Mas de crianças tenho falado como quem as conhece bem, só porque também por lá passou. E agora pergunto: que são as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar: que são crianças?
Que seres estranhos são esses que viram para nós os seus rostos frescos, que nos perturbam às vezes com um olhar subitamente profundo e sábio, que são irónicos e gentis, débeis e implacáveis, e sempre tão alheios? Temos pressa de os ver crescer, de os admitir no clã dos adultos sem surpresas. Somos impacientes, nervosos, porque estamos diante de uma espécie desconhecida... Quando passam a ser nossos iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que recordamos, como observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos porque eles não gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se reconhecem. São adultos, agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um desses tais encontros de acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se não tenho razões para insistir: é preciso cuidado com as crianças... Não o cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob esta rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta: «Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira.» Assim ou não assim, os alunos fizeram o trabalho. Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes casos: o presépio, os Reis Magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino Jesus. Mal feitos, bem feitos, toscos ou apuradinhos, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da professora. Ali mesmo ela os viu e apreciou. Ia marcando «bom», «mau», «suficiente», enfim, os transes por que todos nós passámos. De repente... Ah, mas é preciso muito cuidado com as crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada; o desenho mostra o inevitável presépio, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
«Porquê?», pergunta a professora, em voz alta, à criança. O rapazinho não responde. Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na sala os cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de pé, muito séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: «Fiz a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu...»
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?

José Saramago, excerto da crónica A Neve Preta em Deste Mundo e do Outro 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Mistério da Escada de Caracol

Mary R. Rinehart
Tradução: Erico Veríssimo
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 12
Livros do Brasil, Lisboa s/d


Eram mais ou menos oito e meia quando deixámos a sala de estar; e, ainda impressionados com a falência do Banco e com os outros acontecimentos que lhe diziam respeito, Helsey e eu saímos a dar um passeio pelos arredores. Dentro em pouco, Gertrudes seguiu-nos. «A luz está-se adensando», como escreveu Shakespeare referindo-se ao crepúsculo, sapos coaxavam, grilos cricrilavam, enchendo a noitinha de ruídos estridentes. Havia na paisagem uma sensação opressiva de solidão, a despeito de toda a sua beleza, Senti saudade das noites agitadas da minha cidade, do estrépito dos cavalos sobre o calçamento das ruas, das luzes, das vozes humanas, da algazarra das crianças que brincam… o campo oprime-me depois que a escuridão começa a descer. As estrelas, que na cidade ficam eclipsadas pelo fulgor das luzes eléctricas, aqui fora têm um brilho insistente, vivo. Quer queira, quer não queira, surpreendo-me, às vezes, a procurar no céu as que eu conheço pelo nome. Sinto uma coisa esquisita, quase desagradável…

QUEM SONHA COM A PAZ E A SEGUE


Escutem os humildes e alegrem-se.
Tirem do rosto todo o abatimento:
os ricos empobrecem e passam fome.
             
               Qual é o homem
               que ama a vida
               e deseja
               largos dias
               na sua prosperidade?
               Só quem sonha com a paz

e a segue.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

NATAL


O Chefe de família limpou a boca ao guardanapo e afirmou
assim como dois e dois são quatro e não são outra coisa
 O Natal é o Natal e não é outra coisa antes pelo contrário
 E para provar o que dizia comeu uma asa de peru
com recheio de castanhas
e limpou os dedos gordurosos ao bordado da toalha
À volta da mesa metade da família discutia a mensagem
e comia
e a outra metade mais intelectual comia a mensagem
e discutia
sim tal não tal
sim tal não tal
não tal
não tal
Natal

Yvette Centeno, poema tirado da Antologia Natal… Natais

Legenda: fotograma de The Dead de John Huston

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Todas as manhãs, quando as dores físicas não me apoquentam, antes de dar início aos meus afazeres (de pobre escritor!), levo uma boa hora a reconciliar-me com a ideia de que me é indispensável continuar a viver.

José Riodrigues Miguéis em Aforismos &Desaforismos de Aparício

QUOTIDIANOS


Conversando com o teu pai em sonhos. Há muitos anos que ele te visita num quarto escuro do outro lado da consciência, sentando-se a uma mesa contigo para conversas longas e sem pressas, calmo e circunspecto, tratando-te sempre com amabilidade e bonomia, escutando sempre com atenção o que lhe dizes, mas, quando o sonho acaba e tu acordas, não te lembras de uma única palavra do que cada um de vocês disse.

Paul Auster em Diário de Inverno

NATAL... NA PROVÍNCIA NEVA


Recordação de neve na cidade:
às vezes os meus dedos procuravam
um conforto de infância ameaçada.

Nos bolsos esgarçados o cotão,
os restos de ternura nunca dada:
sempre se me fez longe o coração.

E o consolo perfeito, sem idade,
das coisas que há por dentro da lembrança;
recordação de neve na cidade:
foi antes do terror, da esperança.

Seja sempre quem sou esta distância
que muda em mim as coisas conseguidas
em dedos que procuram da infância
cotão, ternura, restos de outras vidas.

Luís Filipe Castro Mendes. Poema tirado da Antologia Natal… Natais

COMO UM PARAÍSO QUE EU TINHA DE ABANDONAR


A cena da música folk fora como um paraíso que eu tinha de abandonar, como Adão teve de abandonar o jardim. Era simplesmente demasiado perfeito. Dentro de uns anos desabaria uma tempestade de merda. As coisas começariam a aquecer. Sutiãs, cartões de recrutamento, bandeiras americanas, até pontes – todos sonhavam em pegar-lhes fogo. A alma nacional ia mudar e em muitos aspectos seria semelhante à Noite dos Mortos Vivos. A estrada que tínhamos pela frente seria traiçoeira e não sabia onde é que aquilo ia parara, mas meti por ela. Um mundo estranho acabaria por se revelar, um mundo tempestuoso com contornos desenhados pelos relâmpagos. Muitos não chegaram a perceber o que se estava a passar. Estava tudo em aberto. Uma coisa é certa, não só era governado por Deus como também não era pelo diabo.

Bob Dylan, parágrafo final de Crónicas

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Como se costuma dizer, esta vida são dois dias e um passa-se a dormir. Ora não há sonos sem sonhos e eu sou dos que não sabem se é mais feliz o mendigo que todas as noites sonha que é rei, ou o rei que todas as noites sonha que é mendigo.

João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 2º volume

Legenda: fotografia de Luísa da Costa

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Avenida Afonso III.

O PRÉMIO QUE VOCÊ ME ARREBATOU...



Numa carta para Sophia, datada de 12 de Julho de 1964, Jorge de Sena continua a manifestar a sua falta de tempo para escrever aos amigos e felicita Sophia pela atribuição do Grande Prémio de Poesia ao Livro Sexto.

… E também para felicitá-la pelo prémio de poesia, que Você me arrebatou… (É uma maneira de dizer, porque aquele júri com alguns comunistóides jamais me premiaria, porque me recusei terminantemente, há muito, nas manobras internacionais «deles», a ser rentável). Eu não esperava ganhar; mas agente sempre acredita em em milagres, por mais céptico que seja. E o meu livro, pelo menos ao que alguns me dizem e eu penso, é uma espécie de milagre. E, a não ganhar eu, desejava ardentemente que ganhasse a Sophia que eu estimo e considero, e não alguns que fazem os versos que eu desdenhei de fazer. Foi isso mesmo o que aconteceu. Para falar francamente, Sophia, eu não acredito que esses sujeitos a admirem sinceramente, e a tenham premiado (uns dois deles, pelo menos) com honesta consciência. Essa gente apenas faz com os vivos, ou tenta fazer, o que tem passado a vida a fazer com os AQUILINOS mais ou menos moribundos. Mas que, neste caso, tenha havido coincidência num nome que é dos maiores da poesia portuguesa contemporânea, eis o que pode considerar-se uma justiça que eles praticaram por coincidência. Isto não significa que eu me tenha convertido ao anti-comunismo de indústria; mas que cheguei à conclusão que nada se pode esperara deles, porque lhes falta o mínimo de ética, para lidarem com pessoas decentes. Sempre os achei assim: mas, às vezes as conveniências forçam uma certa honestidade… e já lhes passou a oportunidade, ou, melhor dizendo, esse oportunismo. Deixemos isso. Mas quero que saiba a que ponto me alegrou que o prémio tenha sido seu.

NATAL



Neste caminho cortado
Entre pureza e pecado
Que chamo vida,
Nesta vertigem de altura
Que me absorve e depura
De tanta queda caída,
É que Tu nasces ainda
Como nasceste
Do ventre da Tua mãe.
Bendita a Tua candura.
Bendita a minha também.

Mas se me perco e Te perco,
Quando me afogo no esterco
Do meu destino cumprido,
À hora em que Te rejeito
E sangra e dói no Teu peito
A chaga de eu ter esquecido,
É que Tu jazes por mim
Como jazeste
No colo da Tua mãe.
Bendita a Tua amargura
Bendita a minha também.

Reinaldo Ferreira em Poemas

domingo, 10 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Deixar saudades. É o único legado que não traz complicações aos herdeiros.

Miguel Torga em Diário XIV Volume

ILUMINAÕES DE NATAL


Avenida General Roçadas.

DITOS & REDITOS


Nenhum Natal sem flores.

Escolher o silêncio, que em certas circunstâncias, assume uma forma superior de desprezo.

Ele há vidas mais baratas. Não são é tão boas.

Não respeitar a morte. Reservar-lhe a galhofa.

Quando comprar, prefira o melhor.

O que não tem nome não existe.

A raposa muda de pele, mas não muda de hábitos. 

Nunca desvalorizar ninguém.

OLHAR AS CAPAS


A Mão Decepada

Joel Townsley Rogers
Tradução: Elisa Lopes Ribeiro
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 85
Livros do Brasil, Lisboa s/d

O ponto mais importante do tenebroso mistério desta noite é que esse repugnante homenzinho de cabelo acastanhado, olhos injectados de sangue, com uma orelha rasgada, dentes pontiagudos como os de um cão e pernas em saca-rolhas, tenha podido fugir e desaparecer completamente da aldeia depois de ter assassinado St. Erme.
Este é o ponto principal do problema. O segundo é saber o que fez à mão direita de St. Erme, se os polícias e a milícia de lavradores da vizinhança ainda a não tiverem encontrado na Swamp Road, com o resto do corpo do jovem milionário, na altura em que eu terminar estas notas que estou tomando para examinar o caso. Porque St. Erme tinha a mão direita, isto é indiscutível. E é precisos encontra-la.

LUÍS VEIGA LEITÃO


Veiga Leitão, meu querido, tão nortenhos
nós somos no fim dos anos cinquenta!
À sucapa vamos beber uns tintos
e tu preocupas-te por eu ser ainda
um catraio do liceu de Vila Real.
Mostrava-te versos ruidosos que acolhias
e felizmente dizias que não eram ainda
poesia. Depois, noutras visitas,
a cavaqueira passa p’ra lá do Marão,
limite nessa altura das angústias
dos meus voos. Noite de pedra era o tempo,
como o título do teu livro. Tanta ternura
 cumplicidade, entre dois covilhetes
e algumas taças de branco para rebater.

Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

sábado, 9 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Os amantes dos livros gostam de oferecer livros, geralmente a pessoas que não gostam assim tanto de livros. Mas as pessoas que não gostam assim tanto de livros raramente oferecem livros aos amantes dos livros porque, dizem, “o mais certo é já teres”. Assim sendo, em épocas como o Natal, há pessoas que não gostam assim tanto de livros a receber muitos livros que nunca lerão e que teriam feito a felicidade dos amantes dos livros, porque os amantes dos livros, contrariamente aos mitos urbanos que circulam entre as pessoas que não gostam assim tanto de livros (talvez levadas ao engano pelo tamanho considerável das bibliotecas dos amantes dos livros), estão longe de ter tudo o que de interessante se publica em Portugal, quanto mais no mundo.

José Mário Silva

OLHAR AS CAPAS


O Som e a Fúria

William Faulkner
Prefácio: Rui Vieira Nery
Tradução: Ana Maria Chaves
Capa: Rui Garrido
Colecção Essencial nº 19
Leya/RTP, Lisboa, Outubro de 2017

Ela então quis pagar-me uma cerveja, mas eu não deixei. – Guarda o dinheiro – digo eu – Compra um vestido com ele. – Dei também cinco dólares à criada. Afinal, como eu digo sempre, o dinheiro não tem valor, o que tem valor é a maneira como o gastamos. Não pertence a ninguém, para quê poupá-lo. O dinheiro pertence àqueles que conseguem arranjá-lo e conservá-lo. Há aqui um homem em Jefferson que fez uma fortuna a vender produtos estragados aos pretos, e que vivia num quartinho, por cima do armazém, que mais parecia uma pocilga e até era ele que cozinhava e tudo. Há cerca de quatro ou cinco adoeceu gravemente. O susto foi tão grande que quando ficou bom entrou para uma igreja e comprou um missionário chinês, cinco mil dólares por ano. Penso muitas vezes na fúria que lhe vai dar quando morrer e descobrir que o céu não existe e ele se lembrar dos cinco mil dólares por ano. É o que eu digo, o melhor era ter morrido logo e assim poupava os cinco mil dólares.  

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

PAPÉIS DATADOS


Completavam-se.
Eram um todo.
Acabaram no dia em que uma tal Yoko Ono apareceu entre fileiras a por e a dispor.
A morte de John Lennon, agora ocorrida, não tira nada a um fenómeno chamado de The Beatles que marcou toda uma geração e por aí fora.
Um grupo de guedelhudos, uma instituição, um tempo em que as mínimas coisas, as coisas mais simples, outras coisas, eram “à beatles”.
O selo nítido, insolente, lançado pelos tempos fora, um estilo que marcou a História da Música.
Os bailes de sábado á noite. Os discos riscados, sabemos porquê.
Esse extraordinário trabalho que é a “Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta”.
Eles foram o escândalo que levou os senhores bem-educados, os moralistas decadentes, a declararem que ter cabelos compridos era o mesmo que ter ideias curtas.
O que ficou dos Beatles é muito, acima de tudo ensinaram-nos a gostar de música.
À porta do luxuoso edifício de apartamentos onde vivia, em Nova Iorque, Jiohn Lennon foi, estupidamente, assassinado por um louco colecionador de autógrafos.


(8 de Dezembro de 1980)

POEMA À MÃE


Nunca concordei por a Igreja, motivos que não compreendi, ou explicaram-me mal, ter deixado de considerar o 8 de Dezembro como o Dia da Mãe e tê-lo enviado para o primeiro domingo de Maio.

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda ouço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio do laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

OLHAR AS CAPAS



Como Eu Costumava Dizer

Lawrence Ferlinghetti

Selecção e tradução: José Palla e Carmo
Capa: Fernando Felgueiras
Cadernos de Poesia nº 22
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Janeiro de 1972

Foi na Leitaria de Bairro Antiquado

Foi na leitaria de bairro antiquado
que pela primeira vez me apaixonei pela irrealidade
Os drops brilhavam na semiobscuridade
daquela tarde de setembro
Um gato andava em cima do balcão no meio dos chupa-chupas
e dos rebuçados
e das ena pá pastilhas elásticas

Lá fora as folhas caíam ao morrerem

O vento empurrava o sol para longe

Entrou a correr uma rapariga
Trazia o cabelo molhado da chuva
Os seus seios não conseguiam respirar na loja apertada

Lá fora as folhas caíam
e gritavam
Cedo de mais! Cedo de mais!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


O nosso problema é terem-se aberto as sacristias, onde antes se encafuavam os doutores rançosos, e a internet nos ter revelado quanto o mal está espalhado. Falam mal e à padreca e, o que é pior, julgam que as caixas de comentários foram inventadas para eles porem o dedinho no ar e debitarem o que não perceberam.

CANÇÕES DE ENTARDECERES


O pôr-do-sol em qualquer época do ano, o pôr do sol em qualquer canto do mundo.

É esse Sol poente que tomamos por uma aurora ou o que sobra da luz quando as tardes terminam tal como se lê na Nossa Senhora de Paris de Victor Hugo ou neste lindíssimo poema de Ruy Belo:

O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol
nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medici
onze quilómetros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero de junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o pôr-do-sol apenas pôr-do-sol 

A canção escolhida é Sunset de Kate Bush.