quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

ZECA AFONSO, UMA VOZ QUE JÁ NÃO CANTA


Chamada  da 1ª página do Diário de Lisboa de 31 de Dezembro de 1984 para uma entrevista de Ribeiro Cardoso.


PORTO DE LISBOA, 1967


Adelino Gomes, Público, 23 de Fevereiro de 1992

JOSÉ AFONSO VEIO PARA FICAR


O ano é o de 1967.

José Afonso, vindo de Moçambique, regressa a Lisboa.

Este recorte do Diário de Lisboa regista esse regresso-amargo-triste.

«Desembarquei sem um tostão no bolso, mas com seis meses de ordenado em atraso.»

A notícia refere também que José Afonso gravou no Estúdio do RCP quatro canções que seriam transmitidas à noite no P.B.X. e que levaram quatro horas a ser gravadas.

«Estive muito tempo sem cantar. Estou sem caixa nenhuma.»

No estúdio, estavam Carlos Paredes, o dr. Jorge Tuna, Durval Moreirinhas e outros amigos e ouviram o Zeca futurizar:

«O ensino dá-me para o tabaco e para pagar a renda. Por isso vou cantar.»

Final da reportagem:

«José Afonso veio para ficar. Agora, vai para o Algarve. Depois voltará em direcção ao Centro, mas não importa onde porque aqui vai ficar, cantando, ensinando, trabalhando em novas músicas, em novos poemas, porque agora terá mais diálogo do que em Moçambique, porque a velha realidade lhe dará novos pontos de partida, porque mais ele a sentirá. José Afonso veio para ficar.“Velas e remos a arder”, ele não é homem para deixar.» 

TRINTA ANOS SEM O JOSÉ AFONSO


Trinta anos.
Como é que já passou tanto tempo?
Ficou-nos o seu exemplo, o sorriso simples e franco, a música, as canções.
Inúteis as palavras que possa trazer para aqui.
Neste dia em que a tristeza nos invade, sempre nos envolverá essa tristeza, trago uma das canções do Zeca que só muito tarde descobri, uma canção que aprendi a gostar.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

CHEGAR ATÉ ELES


A minha paragem seguinte era na Newbury’s , a loja das pechinchas no centro da cidade. Se voltássemos logo à direita, depois de entrarmos, íamos para o canto apertado onde estavam os discos (nesse tempo, lá nos confins onde vivíamos, não havia lojas de discos). Havia apenas algumas prateleiras com singles a 45 cêntimos. Não havia propriamente discos para mim, apenas alguns de Mantovani ou compilações de vários artistas, talvez alguns discos de jazz na prateleira do fundo. Nunca ninguém olhava eles. Eram discos para «adultos». O mundo dos adolescentes era o mundo dos discos de 45 rotações. Um pequeno círculo de cera com um buraco do tamanho de meio dólar ao meio, onde tínhamos de pôr um adaptador de plástico. O gira-discos lá de casa tinha três velocidades: 78, 45 e 33 rotações por minuto. Os «nossos» eram os de 45. A primeira coisa que descobri foi um disco chamado The Beatles with Tony Sheridan and Guests. Uma vigarice. Os Beatles a acompanharem um artista qualquer de que nunca tinha ouvido falar a cantar «My Bonnie». Comprei-o. E ouvi-o. Não era grande coisa, mas era o mais perto que eu conseguia chegar até eles.

Bruce Springsteen em Born to Run

OLHARES


Dedicatória de Mário Dionísio para o poeta Joaquim Namorado.

Até domingo ainda podem ver a Exposição no Museu do Neo-Realismo.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


- Não sei. O vento existe para as mulheres segurarem os cabelos com as mãos.
- E também para usarmos lenços de seda.
- Sim, o vento faz as mulheres bonitas. Os lenços de seda também.

Augusto Abelaira em Quatro Paredes Nuas

Legenda: Brigitte Bardot

OS CROMOS DO BOTECO


Mais um disco dos velhos «Cinco latinos que encontrei no Boteco.
A sua antiga proprietária, alguém que se chamava Ilda, escreveu a data de compra na contracapa: 31 de Março de 1962.

Bolas! Como o tempo passa!...

FICAREI A MESMA PESSOA?


4-4-63
Muito triste, mesmo depois da visita da K., em que a L. fez tudo como sempre para me restituir a alegria perdida, subitamente ontem. Continuam as torturas tendo estar a espancar um moço das 3 menos 10 até às 4 horas. Nem sei como almocei. Eram berros horríveis e mesmo assim parecia que lhe tinha(m) posto um lenço na boca, porque chegavam abafados. Estive quase a vomitar o almoço, o estômago recusa-se a digerir e cada vez me sinto pior. Terei ainda que aguentar isto muito tempo? Ficarei a mesma pessoa? Às vezes tenho medo de perder a cabeça, de enlouquecer. Pensando na tristeza desde ontem naquele súbito sentimento de solidão total descobri que foi devido a uma coisa que a K. me contou.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

OLHAR AS CAPAS



Respondo Por Mim

Orlando Neves
Prefácio de Urbano Tavares Rodrigues
Publicações Novo Mundo, Lisboa, 1971

Para todos os efeitos, respondo por mim
A cédula de identidade não existe.
A força porém desabrocha. Neste
vácuo. Aparentemente alheio.
Respondo por mim. E pelo local
onde me cravo.
Trespasso, trespassam-me – hão-de
ver-me, descobrir-me, inventar-me.
Respondo por mim. Agora,
milhões de anos antes de
sem me trespassarem
me encontrarem.
O equilíbrio é um mito.
Proponho
a lâmina em movimento
contínuo
por dentro
dos universos. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Quando se é escravo até as flores pesam.

José Fernandes Fafe, de um poema dedicado a Diego Rivera em Poesia Amável.

Legenda: Diego Rivera

O INTENSO E AGRIDOCE MUNDO SOLITÁRIO


As canções do Woody Guthrie regulavam o meu universo mas, antes dele, Hank Williams tinha sido o meu compositor favorito, embora fosse sobretudo como cantor que eu o visse. O Hank Snow andava empatado. Mas nunca consegui escapar do intenso e agridoce mundo solitário do Harold Arlen. Van Ronk conseguia cantar e tocar estas canções. Eu também mas nunca sonharia fazê-lo. Não estavam no meu guião. Não estavam no meu futuro. O que era o futuro? O futuro era uma parede sólida, não promissora, não ameaçadora – apenas pedra. Não havia garantias de espécie alguma, nem mesmo de que a vida não fosse uma grande anedota.

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: Harold Arlen

JOSÉ FERNANDES FAFE (1927-2017)


Morreu JoséFernandes Fafe, escritor e diplomata.

Sofreu um AVC no dia 1 de Fevereiro, depois de, na véspera, celebrar 91 anos.

Foi o primeiro embaixador português em Cuba nomeado por Mário Soares, então ministro dos Negócios Estrangeiros.

A propósito, ler o texto que o embaixador Francisco Seixas da Costa escreveu no seu blogue Duas ou Três Coisas.

A produção literária de José Fernandes Fafe inclui mais de duas dezenas de obras, de poesia, teatro, romance e ensaio. Uma das suas obras mais conhecidas - Annie: uma portuguesa na revolução cubana - centra-se na biografia de Ana ("Annie") Silva Pais, a filha do último diretor da PIDE, Fernando Silva Pais, que foi para Cuba em 1963 acompanhando o marido e se apaixonou pela revolução cubana.

Um poema de José Fernandes Fafe tirado de Poesia Amável:

Poente

Compreende-se tudo,
de repente:

São oito séculos a ver o Sol morrer
afogado no mar,

diàriamente.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

TRUMPADAS



È muito difícil, quase impossível, saber onde poderá chegar o mundo com Trump na presidência dos Estados Unidos.

Num discurso proferido, hoje, na Florida, declarou que na sexta-feira houve um ataque terrorista na Suécia.

Eles acolheram um grande número de imigrantes e refugiados e estão a ter problemas como nunca pensaram ser possível.

Card Bildt, ex-primeiro-ministro sueco, escreveu no Twitter:

A Suécia? Um atentado? O que é que ele fumou?

Por tal informação, Donald Trump já está a ser ridicularizado um pouco por todo o mundo.

A administração norte-americana sonha com atentados terroristas.

Kellyanne Conway, a conselheira de Trump referiu-se ao "massacre de Bowling Green" numa entrevista e explicou mais tarde que se referia aos "terroristas de Bowling Green", dois iraquianos condenados em 2011 por tentarem enviar dinheiro e armas para a al-Qaeda.

Também o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, falou por três vezes numa semana no atentado de Atlanta (no Estado da Geórgia), antes de se lembrar que o mesmo tinha na verdade acontecido em Orlando, na Florida.
Preocupante mesmo é a revelação dos «media» que o presidente russo, Vladimir Putinn, e Donald Trump, acertaram na segunda-feira a «normalização» das relações entre os dois países e a busca de uma «cooperação construtiva.»


Legenda: a imagem é a capa da Time com a legenda: «Não há nada para ver aqui».

APANHADOS DO FACEBOOK

COMO DE VÓS

Final da carta de Jorge de Sena para Eugénio de Andrade datada de 2 de Novembro de 1958:

P.S. – Sabe V. que o meu soneto à memória do papa me valeu uma carta anónima do Porto, classificando-o de… não poesia mas desinteria? Palavra que, para meu governo, gostaria de saber quem foi, pois não terá sido um simples leitor qualquer, Investigue-me isso.

Por carta, datada de 10 de Novembro, Eugénio de Andrade responde a Sena:

Que coisa horrorosa essa história da carta anónima! Não poderei averiguar nada sobre isso – há já muito, muito tempo, que me afastei de qualquer convívio de todos os «literatos» capazes de tais infâmias! E aqui há bastantes!

É este o soneto de Jorge de Sena:

Como de Vós

                       À memória do papa Pio XII que quis, ouvir, moribundo, o «Alegret-
                       To da Sétima Sinfonia de Beethoven

Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,

importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.

Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.

Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo

sábado, 18 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Gosto de animais porque não discutem a existência de Deus.

Walt Whitman citado por António Lobo Antunes numa entrevista ao Expresso.

DO BAÚ DOS POSTAIS

Tavira em outros tempos.

DÉCIMO PRIMEIRO POEMA SOBRE A MORTE DE DESUS


Visitava a cidade dizimada pela fome
os velhos moribundos becos imundos
os meninos
destroçados
injustiçados
os meninos
torturados
triturados
pelo cancro.

Dizia: assim foi assim é e assim será.
Como se fosse Deus.

António Rego Chaves em Três Vezes Deus


Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou


Legenda: fotografia retirada de Pankarta.

OLHAR AS CAPAS



O Paraíso Triste

Maria João Martins
Capa: Luís Eme
Colecção Memória de Lisboa
Veja, Lisboa, 1994


Vivia-se de cócoras – o riso era uma indecência e o amor uma extravagância. A vida, qualquer coisa que, de repente, se descobria ter desperdiçado enquanto fora tempo. Nessa noite, no entanto, Lisboa festeja, como uma louca sem noção do tempo, do espaço ou das circunstâncias, o duplo centenário. Vive-se a última oportunidade para visitar essa obra-prima da arquitectura para ver e deitar fora que é a Exposição do Mundo Português, em Belém. Centenas de lisboetas não perdem tempo e tratam de se extasiar com o simulacro de Império erguido à beira-Tejo, para maior glória do Estado Novo.

TRUMPADAS


Faz hoje um mês que Donald Trump começou a fazer da Casa Branca um circo e uma feira de vaidades.

Os jornais fazem uma selecção de frases proferidas por Trump desde que assumiu a presidência:

«Tudo começa hoje.»

«A partir de agora, a América primeiro.»

 «Hoje, não estamos só a transferir poderes. Estamos a retirar o poder de Washington para o devolver ao povo
20 de janeiro será recordado como o dia em que o povo voltou a mandar no país.»

«A América vai começar a ganhar de novo, a ganhar como nunca antes. Vamos trazer de volta empregos. Vamos trazer de volta fronteiras. Vamos trazer de volta riqueza. E vamos trazer de volta os nossos sonhos.»

O México aproveitou-se dos EUA durante demasiado tempo. Enormes défices comerciais e a pouca ajuda na muito débil fronteira, isso deve mudar, AGORA.»

«O decreto de restrição à imigração e entrada de refugiados nos Estados Unido] está a funcionar muito bem. Vê-se nos aeroportos, por todo o lado.»

«Para que as coisas sejam claras, não se trata de uma proibição contra os muçulmanos, como os 'media' noticiam falsamente. Isto não tem nada a ver com a religião, trata-se de terrorismo e da segurança do nosso país.»

«Quando um país não é capaz de dizer quem pode e quem não pode entrar e sair, especialmente por razões de segurança, é um grande problema.»

«Não posso simplesmente acreditar que um juiz tenha posto o nosso país em tanto perigo. Se algo acontecer, a culpa será sua e do sistema judicial. As pessoas estão a entrar no país. Mal!»

«Às forças da morte e da destruição, saibam que os EUA e os seus aliados vão vencer-vos. Vamos vencer o terrorismo islâmico radical e não o deixaremos ganhar raízes no nosso país.»

«Se os Estados Unidos não ganharem este caso [decisão judicial contra o veto migratório], como tão obviamente deveriam, nunca conseguiremos ter a segurança a que temos direito. Política!»

A minha equipa funciona como uma máquina afinada à perfeição.» 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


E o terror habite as vogais. O medo
o ignore. E a timidez. E o orgulho.
Uma só palavra na inocência de múltiplas palavras.
Que o poema seja lido como quem bebe. Um plano
de longa data pensado. E esquecido.

Eduardo Guerra Carneiro em É Assim Que Se Faz a História.

OS CROMOS DO BOTECO


Encontrado no Boteco o «single» de uma das grandes canções de Patxi Andion.: 20ºAniversário.

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL


O Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaNatália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.


O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia por Fátima «apareceu» a três pastorinhos.

O QUE É O NADA?


Profundamente concentrada, tentei abrir um canal de comunicação com o escritor. Mas não consegui acompanhar os meus próprios pensamentos, pois eram mais rápidos do que o meu lápis, e não escrevi nada. Tem calma, disse para mim mesma, escolheste o tema ou o tema escolheu-te a ti, alguma coisa há de aparecer. A atmosfera que me envolvia era ao mesmo tempo animada e contida. Sentia uma impaciência a crescer juntamente com uma ansiedade latente que atribuí à falta de café. Olhei por cima do ombro, como se estivesse à espera de uma visita.
- O que é o Nada? – perguntei impetuosamente.
«É o que podes ver pelos teus olhos sem um espelho à frente» foi a resposta.

Patti Smith em M Train