quarta-feira, 23 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


O mundo está muito complicado, mas não o acho suficientemente absurdo para perder a esperança.

José Rodrigues Miguéis  carta a José Saramago, datada de Maio de 1952 em Correspondência.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

OLHARES


Gosto do nome: «La Gondola».

O meu apreciava lá ir jantar nas noites de calor.

Ficávamos sentados nas mesas por debaixo das buganvílias, logo no lado esquerdo quando se entra a porta do chalé.

O edifício do restaurante situa-se numa das últimas vivendas que, noutros tempos, enchiam a Avenida de Berna, a Avenida da República.

O restaurante estava de portas abertas desde 1943.

Fecharam no dia 6 de Agosto por mor de uma permuta de terrenos entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Montepio Geral que ali vai construir a sua nova sede.

«La Gondola» não conseguiu entrar no capítulo do Programa Lojas com História da edilidade lisboeta.

Por aqueles lados, a Câmara quer que haja um enorme centro de escritórios e, para disfarçar o cimento, projectam um pedaço de jardim.

Dão-lhe o pomposo nome de renovação da Praça de Espanha.


Será mais um prego, grande, mesmo grande, espetado na identidade da cidade.


Recordo o último jantar que tivemos com o meu pai em «La Gondola».

Era Agosto e à mesa também estavam a Aida e o Miguel.

Abancámos na esplanada e por ali ficámos a derreter garrafas geladas de Ponte de Lima Branco. Lembro que o meu pai comeu pescadinhas fritas com arroz de pimentos.

Quanto aos comes dos restantes, a memória não responde.

Naquele tempo, e este jantar foi há mais de trinta anos, a cozinha de «La Gondola» era caseira, a preços nada exorbitantes.


Ainda os «chefs» não tinham aterrado para destruir a cozinha portuguesa e fazer as delícias (?) de uma série de gente a armar ao chico-rico-esperto, que não sabe o que é comida a saber a comida e faz de um de um almoço, de um jantar uma sequela de exibicionismo e fanfarronice.


Gente que só entendem a comida quando espetam na carta coisas como estas:

-          Cação da costa alentejana com crosta de queijo de Serpa e coentros sobre migas de feijão manteiga
-          - Osso buco de borrego do norte alentejano sobre ragout de batata e ervas finas
-          Tataki de atum marinado sobre tártaro de tomate com escabeche de legumes e seus sucos
-          Entrecosto de porco preto marinado servido com migada de batata e azeitonas de Moura
-          Figos da horta com creme de ovos perfumados com licor de Borba e amendoas torradas
-          Bacalhau confitado em azeite a 70º sobre rissotto de ameijoas com coentros e espargos verdes
-          Salmão fumado com molho de iogurte perfumado com poejos frescos e rosti de batata
-          Polvo assado no forno em vinho tinto alentejano com batatinhas novas e tomate assado
-          Frango do campo recheado com camarão e grelos de couve sobre talahrim com tomate xuxa e oregãos frescos
-          Pato laqueado e fumado e figos assados em Cabernet Sauvignon e crocante
-          Pregado com cerejas caramelizadas e presunto de porco preto
-          Carre de borrego em crosta de gengibre e molho de quatro especiarias

-          Creme de ervilhas com ovos de codorniz escalfados e azeite do chouriço


Naquele tempo, a cozinha do «La Gondola» era obra de gente autodidacta, sem frequência de escolas de hotelaria, mas que guardavam dentro de si os cheiros, os modos de fazer, de avós e mães, mantendo a qualidade, a simplicidade de fazer como padrão indesmentível.

Um restaurante à antiga, como dizia o meu pai.

Já em tempos recentes - mais de cinco anos? Talvez! - passei pela «La Gondola», era um tarde-pós-almoço de Janeiro, fria  e chuvosa, para tirar umas fotografias, antevendo  que «La Gondola» não permaneceria por muito mais tempo.

A ementa já não era bem como quando lá íamos com o meu pai.

Naquele dia, rezava assim:

Caril de gambas 20,50 euros
Bifinhos de vitela 19,50 euros
Linguine Nero Neptuno 18,50 euros
Sopa da Família 3,00 euros
Marquês de Borba Branco 16,50 euros
Quinta do Caleiro Reserva Douro 18,50 euros
Romã em ninho de casquinha de laranja 4,00 euros
Peras bêbadas 4,00 euros.

Nada a ver com «La Gondola» dos outros tempos.


Terá sido esta «La Gondola» dos tempos recentes., que neste Agosto findou.

Ficam as memórias.

Um destes dias, saberemos que o camartelo iniciou a destruição do lindíssimo chalé.

OLHAR AS CAPAS


O Círculo Vermelho

Edgar Wallace
Tradução: Darcy Azambuja
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 45
Livros do Brasil, Lisboa s/d

«E ainda bem que ele não me fez a corte» monologou a rapariga, sorrindo. Nem sequer podia imaginar Froyant perseguindo uma mulher. Lembrou-se das longas jornadas durante as quais devia seguir o velho, com o seu cachimbo na mão, enquanto ele ia de sala em sala, verificando as pratas, examinando os tapetes, passando os longos dedos ossudos sobre o mármore polido das «étagères».
Ele media o vinho a ser servido em cada refeição e contava as garrafas vazias e até as rolhas. Gabava-se de poder constatar a ausência de uma flor no grande jardim da sua «villa». Mandava regularmente para o mercado pêssegos e peras dos seus pomares e fazia cenas terríveis com o jardineiro pouco consciencioso que lhe comesse uma maçã, porque o seu instinto o levava infalivelmente a surpreender esses crimes.

VELHOS RECORTES


Recorte de um suplemento de Verão do jornal «Público», s/d.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


A amizade, e ainda mais o amor, é a ponte que liga as pessoas.

José Saramago, de uma entrevista à Visão 16 de Janeiro de 2003

Legenda: não foi possível obter o autor/origem da fotografia. 

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro no Beco do Sol, à Graça.

OLHAR AS CAPAS


Letras

Manuel Alegre
Colecção Poesia – Nosso Tempo nº 9
Centelha, Coimbra, Junho de 1974

S (ésse)

Direi de meu tempo que havia um S
havia uma sombra e um silêncio
havia um S de sigla e de suspeita
com suas seitas e seus sicários.

Não sei se o signo não sei se sina
não sei se simplesmente sujo.
Ou só servil. Ou só sevícia.

Havia um S de saturno
havia um susto
havia um S de soturno
havia um S de sol.

De meu tempo direi
que havia um S
de sepulcro.

Sentinela. Sentinelas.

Ou talvez selva. Talvez serpente.
S de sebo e de sebenta: seco seco.

E também senão. E também senil.

De meu tempo direi
Que havia um S
sem sentido.

E também Setembro. E também solstício.
Saga e safra.
Ou talvez semente. Ou talvez segredo.

Havia um S de sal e sílex
havia um silvo.
Havia uma sílaba ciciada.

E também o sonho: entre suar e ser.
(Como um soluço como um soluço).

De meu tempo direi
que havia um S
de sol e som.
Havia setembro e um assobio
contra um S de sombra e de silêncio.

UM SILÊNCIO REPLETO DE RAZÕES


 Neste livro de Correspondência, pertence a Eugénio de Andrade a primeira carta pós-25 de Abril. Não tem dia. Apenas: Maio de 1974:

O meu silêncio começa a ser escandaloso, mas tem as suas razões, algumas que conheces, outras que ignoras. Antes de 25 de Abril tive o mais íntimo dos meus amigos preso pela Pide, e depois do movimento das Forças Armadas, houve uns dias de bebedeira.
O tempo quase não chegava para a leitura dos  jornais, as emissões de rádio, a televisão. Durante uns dias este país foi outro: agora é necessário encontrar-se um ritmo, o que não é fácil. O processo democrático, ao nível dos organismos, das fábricas, das escolas, é para já uma batalha. É evidente a falta de hábito. Não tardará que a Junta de Salvação comece a ter também os seus presos políticos: a esquerda revolucionária já está a ser aproximada pelos bem-pensantes do país, incluindo os comunistas, da mais sinistra reacção.
(…)
Não tomes a mal o meu silêncio, o país começa a estar quase todo em greve, e isso é muito inquietante.

TRUMPALHADAS


As últimas capas do «The New Yorker» e do «The Economist».

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Nunca lutes com um porco: ficas todo sujo, e ainda por cima o porco gosta.

Bernard Shaw

Legenda: pintura de William Sidney Mount

OLHARES


Fajão.

JERRY LEWIS (1926-2017)


Vejo-me, de repente, nas tardes do «piolho» a matar aqueles filmes do Jerry com o Dean Martin. Uma maltosa, na plateia, a partir o coco a rir, a arregalar o olho para raparigas insossas mas giras.
Tem filmes imperdíveis e uma interpretação de luxo em o «Rei da Comédia», de  
Martin Scorsese, que faz esquecer por completo o que em tempos dissera:
 «Tive um enorme sucesso fazendo de completo idiota».
O meu mundo tem cada vez menos gente. Gente que me ajudou a viver.


VELHOS RECORTES


Recorte do semanário ultra-salazaeista «Agora».
Não tenho a data da edição mas o ano será o de 1966.
Como é que com este paleio, alguns de nós, lograram prever uma «primavera marcelista»?

UM HORROR PÍFIO


6 de Setembro de 1969

As eleições aproximam-se e a oposição em Lisboa dividiu-se em grupos, como se já estivesse no poder. Um horror pífio.
Embora tentasse conservar-me neutro nesta luta de capoeira sem galos, acabei por tomar posição sem grande entusiasmo… Mas que remédio senão ser português! (Oxalá não esteja a ser pretensiosamente ridículo!)

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

domingo, 20 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Os ingleses são tolerados na Escócia desde que não atirem com o seu orgulho à cara dos outros.

Dorothy L. Sayers em Qual dos Cinco?

TANTO QUE HÁ POR FAZER"


Até ao dia 18 de Agosto, a GNR já tinha levantado 782 processos de contraordenação por incumprimento da legislação que estabelece o Sistema Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios. São multas por comportamentos negligentes dos donos das terras, como a falta de gestão das faixas combustíveis, as fogueiras ou queimas, ou a falta de limpeza dos terrenos ou da limpeza junto às estradas.

 Mas até ao momento apenas foram pagos 74.040 euros em coimas (65.240,00 euros por singulares e 8.800,00 por empresas)."A maior parte dos proprietários prefere pagar a coima, no valor de 140 euros, do que mandar limpar o terreno, o que custa 500 a mil euros

Os 74 mil euros são uma gota no vasto oceano de danos causados pelos fogos.  

O incêndio de Pedrógão Grande causou 497 milhões de euros em prejuízos totais. O Estado só conseguiu arrecadar um milhão de euros em autos de contraordenação pagos por proprietários de terrenos florestais desde 2014 até agora.

Segundo descreve o Diário de Notícias de hoje, é à GNR que compete "carregar" a estatística das causas dos incêndios para o Sistema de Gestão Florestal.

Até ao dia 2 de agosto, a Guarda tinha investigado as causas de 8122 fogos, concluindo que 40% das ocorrências, ou seja, 3320 incêndios tiveram causas negligentes. Depois houve 1374 fogos que foram causados com dolo ou intenção, 17% do total. Registados ainda 699 fogos, 9% do total, que tiveram origem em reacendimentos e apenas 82, apenas 1%, que surgiram por causas naturais. A destacar, um conjunto apreciável de incêndios com causa desconhecida: 2647, ou seja, 33% do total. «Nestes, em que não foi possível apurar a causa dado o estado do terreno por causa da deflagração, ou por outros motivos, podem ter sido intencionais ou negligentes. A verdade é que em 85% dos casos os incêndios foram causados por intervenção humana. Quanto aos fogos causados por reacendimentos, mostram "que a vigilância pós incêndio não funcionou», segundo um responsável.
Este ano, a Guarda já identificou 700 indivíduos como potenciais incendiários, nas aldeias e zonas rurais do país.

No sábado, na zona de Sintra,um homem de 78 anos foi detido  depois de ter sido apanhado pela GNR em flagrante delito enquanto ateava fogo ao Parque Natural Sintra-Cascais.

Após a detenção, o indivíduo confirmou a autoria do crime, acrescentado que era a quinta vez que tentava atear fogo naquela zona do parque natural. As autoridades encontraram, inclusive, várias provas que o comprometiam, na viatura em que se fazia transportar.

Segundo a GNR, o arguido cometeu ainda um crime de corrupção activa na forma tentada, quando, já detido, tentou ofereceu 230 euros em dinheiro aos elementos da GNR para o libertarem.

Segunda-feira comparece perante um juiz.

OLHAR AS CAPAS



Qual dos Cinco?

Dorothy L. Sayers
Tradução: Almirante Alberto Aprá
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 22
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Quem vive em Galloway ou é pintor ou é pescador. Talvez isto não seja rigorosamente assim visto que o pintor, quando não trabalha, passa o tempo a pescar. E quem não faz nem uma coisa nem outra é considerado um excêntrico. O peixe é o assunto de todas as conversas, na loja de bebidas, no correio, na garagem e na rua; e isto aplica-se a todas as pessoas, desde o individuo que aí vai passar a estação e traz canas de pesca e um Rolls-Royce, até aquele que leva uma vida contemplativa e vem ver as redes de salmão em Dezembro. O tempo, que nas outras partes de Inglaterra é avaliado pelas normas do fazendeiro, do jardineiro e do visitante, em Galloway, é avaliado pelo peixe e pela pintura. O pescador-pintor é quem ganha mais com o tempo, porque, se está bom, tem um dilúvio de trutas e os montes e o mar enfeitam-se com cores radiosas; a chuva interrompe a pintura mas enche de água os rios e os lagos, e podem então recorrer à cana de pesca e ao cesto. Quando o tempo está frio e enevoado e não há cor de púrpura nos montes, reúnem-se no bar e conversar e a discutir o modo de dar emprego aos anzóis.

A VONTADE DE BRINCAR, DE RIR, DE ESTAR DESATENTO...


«Ponha-se na rua!» «Não ligam nenhuma ao que a gente diz». Ali está uma solução errada e aqui uma visão, também errada, de um problema que é um caso sério. Em grande parte dos casos, quem devia ir para a rua era eu, era o professor; eles não ligam nenhuma, em grande parte dos casos, porque não pode interessar-lhes o que nós queremos impingir-lhes à força.
(…)
- Afinal vocês não estão a ouvir-me…
- Olha só agora é que deu por isso…
O Artur abriu-me os olhos: talvez quinze estivessem interessados; os outros quinze estavam a pensar noutra coisa. Confesso a minha culpa: fiquei aborrecido; confesso a inteligência da minha solução; terminei imediatamente a lição. Mas eu fiquei provavelmente (pelo menos de momento) aborrecido com eles; e isso é um erro, um gravíssimo erro. Pois de quem foi o pecado senão meu, que julguei que aquilo, naquele momento, poderia interessá-los? Tudo isto é um caso muito sério, como eu disse de princípio; constantemente nos esquecemos de que não temos 14 anos ou calculamos mal os gostos dos rapazinhos de 14 anos. Por outro lado, há dias em que nada poderá fazer deter a sua vontade de brincar, de rir, de estar desatento. Talvez o de ontem fosse um deles…

Sebastião da Gama em Diário

sábado, 19 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Há uma autocensura na vida quotidiana que nos faz civilizados, ninguém diz tudo o que lhe passa pela cabeça.

Pedro Mexia

OLHARES


NINGUÉM ESTENDE A MÃO A NINGUÉM


Rómulo de Carvalho, na Atlântida Editora de Coimbra publicou Guias de Trabalhos Práticos de Química e Física. Entre 1957 a 1974 foram diversas edições, milhares de exemplares. Até 1972 a empresa teve como gerente o Sr. Cravo que manteve sempre as contas em ordem e regularmente pagava o que era devido ao autor. 
Com a saída do Sr. Cravo da editora, as coisas já não foram bem assim e depois do 25 de Abril pioraram.
Uma vez por ano, Rómulo pedia contas.

Cumpri essa obrigação durante sete anos, rigorosamente, até que em 1981 obtive resposta! A carta então recebida trazia trêzs assinaturas, praticamente ilegíveis, e nela os signatários afirmavam a sua boa vontade para resolverem o meu caso, que uma funcionária da editora estava a estudá-lo para apurar as vendas e fazer as devidas contas, e pediam a “melhor compreensão por parte de Vossa Excelência”.
Era uma esperança. E que esperança! Vinte dias passados escreveu-me de novo e, oh! espanto!, mandavam-me as contas relativas às vendas de todas as minhas edições desde o longínquo ano da revolução até ao fim de Junho de 1981. De tudo quanto venderam nesse lapso de tempo estavam a dever-me 142,952$45!
Entretanto esclareciam-me, na dita carta, que “com as actuais dificuldades de tesouraria é praticamente impossível para nós a liquidação desta importância pela totalidade”. E então solicitavam a Vossa Excelência a melhor compreensão para lhes facilitar o pagamento “em pequenas prestações mensais, até ao pagamento integral da dívida”. Ficavam, entretanto, esperando as ordens de Vossa Excelência e assinavam com elevada consideração e estima.
Respondi-lhes que sim, que estava de acordo, e fiquei aguardando os acontecimentos. E assim, aguardando os acontecimentos, se acabou a história. Ponto final. Nunca mais pagaram nada.
(…)
É claro que vocês, meus queridos tetranetos, poderão perguntar por que não recorri a um advogado para obrigar a Atlântida a pagar-me os 142 contos e tal que deviam e nunca me pagaram, e a castigá-los de qualquer modo por terem efectuado edições de livros meus sem eu saber. Sois muito ingénuos, meus queridos tetranetos. Eu arranjava um advogado, a editora arranjava outro e ao fim de uma dúzia de anos, sem nada se resolver eu já tinha gasto mais do que deviam. E também me poderiam perguntar, se vivessem neste meu mundo, por que não recorri à Sociedade Portuguesa, de que sou sócio, e da qual uma das funções é zelar pelos interesses dos associados. Pois sim, meus queridos tetranetos. Já relativamente a um outro caso, passado também comigo, como vos direi, requeri à Sociedade e ficou tudo na mesma. O mundo é um poço sem fundo e eu esbracejo para não me afundar. Ninguém estende a mão a ninguém, a não ser que tenha interesse nisso.

Rómulo de Carvalho em Memórias

Legenda: capa de A História dos Balões, publicado pela Atlântida Editora em 1953. Imagem retirada da net.

OLHAR AS CAPAS


O Homem Que Sabia A Mar

Armando Silva Carvalho
Capa: Miguel Imbiriba
Publicações Dom Quixote, Lisboa Abril de 2001

- É aqui a famosa Casa Cor-de-Rosa?
Fala em francês, mas não parece pedante. Nem parece ter vindo para se sentar no rosto da Europa. E não grita. Apresenta-se.
- Sou Tana Macgrave. Marquei uma reserva há tempo para vir descansar no apocalipse e afinal acabei por vir, mas para trabalhar. João Silvestre não está?
Rebeca pensa um pouco, fixa-a, e depois reconhece o nome. E por cima das lágrimas, ri com uma tal frescura que faz chorar a própria actriz. Ela que só conseguia fazê-lo no palco ou frente às câmaras.
- João Silvestre foi ao mar. Ou antes, anda no mar. – Rebeca fez uma pausa. – Mas, por favor, madame, entre. A Casa Cor-de-Rosa estava à sua espera para se começarem as rodagens. Tem um bonito nome, o filme, Entre este Mundo e o Outro e Amor é Absoluto. Talvez um pouco comprido, não acha?
Foi a vez agora de Tana Macgrave sorrir. E dizer:
- Tem razão, Rebeca. É Rebeca, não é? Mas vai ficar mais curto na versão americana. Eles simplificam tudo. A Europa é que está cada vez mais complicada.
E entraram as duas para a sala e ouviram o mar em estereofonia.
Eu, na minha cadeira de rodas, continuei a pintar.
Mas elas não me vêem, pai Silvestre.
São Vozes.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Uma mentira pode dar meia volta ao mundo antes de a verdade ter tempo de calçar os sapatos.

 Mark Twain

OLHARES

DEI TUDO, RECEBI NADA


Carta de Mário-Henrique Leiria, datada de S. Domingos de Rana, 27 de Agosto de 1961, para Maria Isabel.

Aqui continuamos a caminhar no lodo. Espero deixar de caminhar neste lodo no dia 14. Irei com certeza caminhar noutros, mas nesse acredito não chegar ao fim do ano (e peço aos deuses reias do ainda mais real inferno em que vivo que me ajudem nesta crença). Espero e desejo ser eu próprio a brevemente mais um pouco de trampa de adubo, o que com certeza ajudará a crescer algumas couves alimentícias… se for possível que, entre elas, nasça também uma papoila bem vermelha, será uma compensação grande e suficiente…

Mário-Henrique passa a informar Maria Isabel que recebera carta da ex-mulher em que esta, apesar das eventuais súplicas de amor que lhe fizera, exige, mesmo, o divórcio.

Portanto, já não vale a pena desejar que tudo corra bem. O correr bem – ou seja, um rápido divórcio – é apenas o esmagar quase físico daquilo que eu desejava, isto é, tê-la comigo para uma nova vida. Peço-lhe apenas uma coisa, Maria Isabel: creio que nos demos razoavelmente bem no pouco tempo em que nos encontrámos e creio que você acredita um pouco em mim e sabe quanto amei – a amo desesperadamente, como uma maldição do inferno. aquela moça. Logo, peço-lhe que não entre em atritos com o meu advogado. A ele, direi o mesmo, Se fosse possível, eu nem teria advogado, deixava tudo ser feito por si Não quero que a Fipsy fique com qualquer coisa desagradável no processo, Ela feriu-me muito e, nesta última carta, ainda mais (que diabo, um homem pode ter cometido muitas faltas, mas nem todas – e as maiores – foram dele! E, no fundo, há um reles e ordinário coração que, nem por estar totalmente solitário, deixa de sentir e sangrar). Ela feriu e deitou sal na ferida, mas eu continuo a amá-la e não quero, não quero que haja qualquer coisa que lhe possa prejudicar o futuro. Não sei se você compreende esta posição: é quase cristã (afinal nós estamos muito próximo dos cristãos primitivos, tanto no amor, como na fé e na acção). Mas o que é com certeza, é amor como eu o compreendo: dei tudo, recebi nada. Ao fim de muitos anos de sede, pedi água: deram-me um copo de cinzas, mas deixaram-me sentir o sabor da água durante dois anos. Por esses dois anos em que pensei ser amado e ser feliz, quero dar agora o mais que posso.
(…)
É tudo.
Pessoalmente, tenho duas costelas (quase de carneiro) partidas e uma rótula fora do lugar. São as consequências da tal habilidade de trapézio voador (“The darning young man on the flying trapeze”; W. Saroyan. Se não conhece, obrigue-se a conhecer, que não perde nada). Esta habilidade foi forçada pela manobra inesperada de um estimado táxi, conforme lhe disse pelo telefone. Mas continuo de pé, que é como quero morrer. Que diabo, deixei-me um último prazer.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

Legenda: imagem Shorpy