sábado, 19 de maio de 2018

ESTOU FARTO MESMO


Em 2 de Março de 1974, Mário-Henrique Leiria escreve à sua «Querida Beluska»:

Cá por casa tudo no costume chato.
Eu vou recebendo cartas anónimas, com ameaças por causa do que escrevo. No mínimo sou traidor e devo ser fuzilado. Rio-me à farta e deito os papéis ao lixo.
As velhas não há maneira de morrerem, e por isso, tenho de continuar a gostar delas. Lá vou às compras, de barrete russo enfiado na mocha, lá tento fazer o que posso. Estou farto, é claro.
Editoras pedem coisas. Não tenho nem quero dar.
As pessoas dantes nem ligavam ao Mário-Henrique, agora chateiam-me pelo telefone e até vêm, à caça do autógrafo. Mando à merda e desligo ou, então, mando dizer que saí com voz bastante alta para ouvirem. Estou farto mesmo.
Ainda não é hoje que vai a carta para o John. Pede-lhe desculpa, mas tenho andado tão desorientado em relação ao que devo fazer, que não consigo escrever nada. Como precisava de dinheiro, tenho estado a traduzir bandas desenhadas para a Arcádia. Tradução de M.-H. Leiria, estás a ver, não é? Isso ajuda à venda, agora. E até pagam que, afinal, é o que eu quero.


OLHAR AS CAPAS


Obra Poética
(1972-1985)

Nuno Júdice
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa, Junho de 1999

A Imagem do Vento

para a Manuela

No princípio, desenvolveu a ideia de que o arco-íris era
uma ponte: aparecia sobre os barcos, no fim dos temporais,
e o marinheiro da gávea avistava uma mulher de cabelos
de ouro, agitados pelo vento, a atravessá-la; alguns desses
marinheiros enlouqueceram. Conheceu-os, durante os meses
em que estudou os costumes dos portos – sentavam-se à
parte, nas tabernas, e acendiam uma vela. Diziam que o brilho
da chama evocava os cabelos dourados dessa mulher; e
que o azul do álcool os fixava, como um olhar celeste.
Tentou, então, viver essa experiência: embarcou num velho
cargueiro e, durante dois ou três anos, percorreu os mares.
Mas nunca encontrou a deusa; nem os arco-íris formavam
o arco completo da ponte que imaginara. Também ele enlou-
queceu, e dizem que sobe ao telhado da casa nas noites
de temporal, e grita pelo sol, a quem dá um nome de mulher;
até ficar rouco e o trazerem para o quarto. Aí, até
adormecer, murmura esse nome sem corpo, sem imagem, sem luz.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


O dinheiro. É por uma espécie de snobismo espiritual que pretendemos crer que se pode ser feliz sem dinheiro.

Albert Camus em Cadernos

E DANCEMOS


Despertem as harpas e os tambores
A espada já está nas mãos do povo.
É a hora da vingança.
Hora de pôr os príncipes a ferros
e de ler a sentença aos poderosos.
Despertem as harpas e os tambores
e dancemos.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

Legenda: quadro de Pieter Brueghel

NASCESTE TU ONDE OS CAVALOS BEBEM


Nasceste tu onde os cavalos bebem,
onde os rios se viram para o vento
e o vento um ao outro se perseguem
até ao nó do seu sustentamento.

Vieste de onde a noite se distingue
tão lentamente em cacto e amarelo;
de onde a papoila aberta não se finge
outra coisa que o grito, a paz e o selo

dos elementos limpos, da alegria
do silêncio acabado de nascer
- tal como tu, que estás na periferia

cheia de centro, e força de viver
a hora longa do primeiro dia
na humildade firme de aparecer.

Pedro Tamen em Tábua das Matérias

quinta-feira, 17 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Lisboa e Outros Sapatos

José Carlos González
Prefácio: Urbano Tavares Rodrigues
Capa: José Araújo com base em desenho de Bernardo Marques
Colecção: O Campo da Palavra nº 10
Editorial Caminho, Lisboa Abril de 1980

Dístico

O poeta
é um homem que bebe imenso
o ar da vida.
Que entra tarde
e que sai cedo.
Que tem e que não tem medo
w só ser livre o ensina.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando te sentires com vontade de criticar alguém, lembra-te disto: nem todos tiveram neste mundo as vantagens que tu tiveste.

F. Scott Fitzgerald em O Grande Gatsby

Legenda: F. Scott Fitzgerald

OLHAR AS CAPAS



O Santo e os Anjos da Vingança

Leslie Charteris 
Tradução: Millôr Fernandes
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 19
Livros do Barsil, Lisboa s/d

No interior do carro, o homem vestido a rigor disse, com elegância:
- «Você é uma mulher extraordinária, Jill. Sempre que a vejo…»
- Fica mais estúpido – interrompeu a jovem calmamente – Isto é trabalho… não é um chá dançante!
O homem a rigor resmungou, queixoso:
- Não sei porque é tão mordaz, Jill. Estamos todos no mesmo barco.
- Eu sei como navegar, Weald

BEBE COMIGO O SOL


Detém-te a meu lado. O tempo
necessário dum olhar
sem ontem nem amanhã.
Só luz. Quem não percebe
as cascatas latentes
numa sombra, e não ouve
o crepitar duma urze,
que contas prestará
dos seus olhos? Bebe comigo
o sol na concha do silêncio.

António Cabral em Os Homens Cantam a Nordeste

terça-feira, 15 de maio de 2018

TEU CORPO PRINCIPIA


Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol - verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

António Ramos Rosa em Estou Vivo e Escrevo Sol

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

segunda-feira, 14 de maio de 2018

VIRA O DISCO E TOCA O MESMO!


Tenho de confessar que A Paleta foi excelen­temente recebida. Além da generosidade das refe­rências e do espontâneo interesse duma grande editorial espanhola, mereceu em 62, por unani­midade, o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escritores.Os prémios não se ti­nham ainda banalizado. E tratava-se então de uma promoção exclusivamente cultural. Como acontecia também com o Prémio Camilo Castelo Branco (obras de ficção), a cujo júri quase sempre perten­ci. Digo-o sem desprimor para os tantos prémios de hoje. Não se leia mais do que aqui escrevo. Mas era outra a canção. Indiscutivelmente. 
Enchia-se-nos a casa de amigos. Velhos e novos ­amigos. Com muita parra à mistura, é bem verda­de. Não há uvas sem parras. Juntos projectámos e organizámos, na mesma sala onde lavro este do­cumento para a posteridade (que não há), muita coisa que esforçadamente ergueu o punho contra a barbárie fascista. Se esta sala falasse, nunca mais se calava.
As conferências, por exemplo, do Grémio Alen­tejano, que assim se chamava, em 43, a Casa do Alentejo, foram aqui planeadas. Uma série de pa­lestras ilustradas com recitais de poesia e música (de música, estou dizendo), destinadas a um vasto público e aqui pensadas por amigos vários, entre os quais me ocorrem de momento a Francine Benoit, o Sidónio Muralha, o Alexandre Cabral, de cabelos à cão-d'água, risca ao meio, camisa azul-da-prússia e gravata amarela, jogava râguebi, bem bom. Co­mo era então difícil conseguir uma sala! E alugar um piano?
A primeira conferência, do Bento de Jesus Caraça - «Algumas reflexões sobre Arte» - sala cheia, decorreu sem problemas de maior. Mas, na segunda (e última), já os mastins tinham acordado, tudo mudou de figura. Sala ainda mais cheia. Fala­va o Lopes Graça sobre música medieval e punha um novo disco para documentar o que dizia, quan­do, no silêncio momentâneo, se ouviu, lá das últi­mas filas, uma voz avinhada, toda escorropichante: «Vira o disco e toca o mesmo!»
Era o sinal. Os mercenários atiraram-se ao pú­blico como feras esfaimadas. Cães à solta. Confu­são. As coisas não foram, no entanto, assim tão fáceis para eles. Nós tínhamos, a toda a volta da sala, um cordão de operários da Carris, trazidos pe­lo Cabral, me parece, que trabalhava na empresa. De livre vontade ali estavam para o que desse e viesse. E o que veio foi uma sessão de brutal pan­cadaria. Brutal, não exagero. Os mastins excitavam-se a si mesmos, trepando a cadeiras para ber­rar: «Quem é que disse morra a Pátria?» E, dessas mesmas cadeiras se servindo como camartelos, ber­ravam: «Viva a Pátria! Viva Salazar!» Os corpos engalfinhavam-se nas salas, rebolavam pelas esca­das do Grémio Alentejano abaixo até à rua e, na rua, até à esquadra do Rossio. Apesar da indignação que tudo isto provocava, ainda nos mais calmos, Caraça maravilhava-se: como era possível haver ainda gente pronta a bater-se, e de tal modo, em defesa da cultura! Pedra branca para mim: foi no fim dessa refrega que conheci o Ludgero Pinto Basto, recém-chegado da prisão, em Angra.

Mário Dionísio em Autobiografia

PARA DIZER À GUITARRA


Cantar! - Não há ninguém que não cante
Mesmo em silêncio, ninguém!
E às vezes a gente canta
Sem vontade, sem prazer,
- Apenas para mostrar
Que a vida sem esse além
Não tem uma razão de ser.

Cantar para dissuadir
Os venenos do ciúme
Ou para ficarmos sós
Com a nossa consciência,
É sempre som que se espalha
E fica na eternidade
Desse momento vivido;
- Nas sombras de uma saudade
Há sempre a visão amarga
De um coração iludido.

Cantar! Resumo liberto
De tudo que anda a viver;
Numa nota musical
Que se escapa da garganta
De quem canta o que souber.


Legenda: pintura de Evaristo Baschenis

domingo, 13 de maio de 2018

NÃO SIRVO PARA A POLÍTICA


Ainda a carta – uma enorme carta - que António José Saraiva, datada de Paris a 4 de Outubro de 1964, envia para Óscar Lopes:

Como já deves ter pensado, não sirvo para a política. No fundo a política é uma forma de realização para certas pessoas, como o piano ou a arquitectura para outras. Essas pessoas fazem a história porque se fazem a si próprios, como as crianças brincam ou como os pássaros fazem ninho. Mas isso é lá com eles. Eu faço outras coisas, tenho outro violino. E é esse violino que eu quero tocar.
(…)
A notar que considero o Marx uma das maiores personalidade da história do pensamento, mas estou convencido de que ele não cabe dentro do que se convencionou chamar marxismo. Aconteceu-lhe o mesmo que ao Cristo. Este seria crucificado se viesse outra vez a este mundo. O Marx seria, quase com certeza, sido condenado num desses simulacros judiciais que se faziam não só na URSS mas também na Checoslováquia, na Hungria, na Polónia, etc., etc.

POESIA E PROPAGANDA


Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
Pelo pequeno avião da propaganda
E no céu inocente de Lisboa,
Um dos meus versos, um dos meus
Mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor…

Alexandre O’ Neill em No Reino da Dinamarca

sábado, 12 de maio de 2018

QUE MUNDO ESTE!


Que direito tinha Yvonne a dizer aquilo, justamente quando ele havia passado vinte e cinco minutos sem tocar em qualquer bebida decente por amor dela e isto para chegar à conclusão de que, aos olhos de Yvonne, estava tudo menos desembriagado! Ah, uma mulher era incapaz de reconhecer os riscos, as complicações e – sim -  a importância da vida de um bêbedo! Qual seria o inconcebível ponto de vista em que ela se estribaria para avaliar o que tinha sido a vida dele antes do seu regresso? E Yvonne não sabia nada, nada de tudo aquilo por que ele recentemente passara, como por exemplo, a queda que dera na Calle Nicarágua, o aprumo, a calma e até a valentia que ele então demonstrara por altura do uísque irlandês de Burke! Que mundo este! E o pior de tudo é que ela havia estragado aquele momento. Porque o Cônsul, agora, lembrando-se do dito de Yvonne: «Talvez tome um depois do almoço» e tudo o que aquela frase subentendia, sonhava que teria sido capaz de dizer impulsivamente (só por causa do comentário dela e arriscando até a própria salvação): «Sim, claro que havemos de ir!». Mas quem é que podia concordar com uma pessoa, senhora daquela certeza enorme de que ele se encontraria no seu estado normal daí a dois dias? Aquilo era como ignorar, segundo o conceito superficialissimo de Yvonne, o que toda gente sabia: que ninguém era capaz de descobrir quando é que ele estava bêbado.

Malcolm Lowry em Debaixo do Vulcão

Legenda: fotograma de Debaixo do Vulcão de John Huston

VESTIDOS


Há vestidos tão belos, que dá vontade de os dilacerar.

Cesrae Pavese em Ofício de Viver

Legenda; Claudia Cardinale em Once Upon a Time in the West

DESFRALDANDO AO CONJUNTO FICTÍCIO DOS CÉUS ESTRELADOS


Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados
O esplendor do sentido nenhum da vida...

Toquem num arraial a marcha fúnebre minha!
Quero cessar sem consequências...
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo.

Álvaro Campos em Poesias

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

sexta-feira, 11 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


O melhor cabe aos olhos apanhá-lo.

Herberto Helder

UM FATO QUE ME FICA DEMASIADO LARGO


«Queria mandar-te mais alguma coisa além das palavras. Por isso meti a minha voz nesta gaiola que canta. Uma gaiola que é um pássaro. Ofereço-ta. Mas também quero pedir-te uma coisa, Mario, que só tu podes fazer. Os outros meus amigos todos ou não saberiam o que fazer, ou pensariam que sou um velho gagá e ridículo. Quero que vás com este gravador passear pela Ilha Negra, e me graves todos os sons e ruídos que fores encontrando. Preciso desesperadamente nem que seja do fantasma da minha casa. A minha saúde não anda bem. Falta-me o mar. Faltam-me os pássaros. Manda-me os sons da minha casa. Vai ao jardim e deixa tocar os sinos. Primeiro grava esse repicar fininho dos sininhos pequenos quando os agita o vento, e a seguir puxa a corda do sino maior, cinco, seis vezes, Sinos, meus sinos! Não há nada que soe tanto como a palavra sino, se a ouvimos de um campanário junto ao mar. E vai até às rochas e grava-me a rebentação das ondas. E se ouvires gaivotas, grava-as. Paris é bonita, mas é um fato que me fica demasiado largo. Além disso aqui é Inverno, e o vento revolve a neve como um moinho de farinha. A neve sobe e sobe, trepa-me pela acima. Faz de mim um triste rei com a sua túnica branca. Já chega à minha boca, já me tapa os lábios, já não me saem as palavras».
«E para que conheças alguma coisa da música de França, mando-te uma gravação do ano de 1938 que encontrei esquecida numa loja de discos usados do Bairro latino. Quantas vezes a cantei quando jovem? Sempre quis tê-la e nunca consegui. Chama-se J’attendrai, canta-a Rita Ketty, e a letra diz: «Esperarei dia e noite, esperarei sempre que regresses.»

Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda.

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Nas suas Memórias, escreve Rómulo de Carvalho que, apesar da morte de Alain Oulman, assinou a autorização para que o poema Ai Silvina, Ai Silvininha pudesse ser musicado por Alain Oulman, e comentou:

«… mas nada mais soube a tal respeito».

Tanto quanto é possível saber, nunca apareceu uma gravação de Amália Rodrigues a cantar, com música de Alain Oulman, o poema de António Gedeão.

Mas é provável que exista.

Não nos podemos surpreender porque volta e meia deoparamos com antigas gravações de Amália feitas para a Valentim de Carvalho e saídas de um qualquer baú sem fundo, como o de Fernando Pessoa.

Mas a música de Alian Oulman existe mesmo.

Em Abril de 2013, Camané, num concerto realizado no Centro Cultural de Belém, em que participaram Mário Laginha, Carlos Bica e os Dead Combo, cantou Ai Silvina, Ai Silvininha com música de Alain Oulman.

Percorrendo o You Tube, não consegui encontrar a interpretação do Camané.

Ela anda por lá, mas lê-se que, de momento, não é possível processar o pedido.

De qualquer forma, fica o poema de António Gedeão, tirado de Poesias Completas:

Lindos olhos tem Silvina,
lindas mãos Silvina tem,
e a cintura de Silvina
é fina como o azevém.
Em Silvina tudo exala
um cheiro de coisa fina,
mas o que a nada se iguala
é a fala de Silvina.

A doce voz de Silvina
é como um colchão de penas,
é um fio de glicerina,
um vapor de águas serenas.

― Porque não cantas, Silvina?
Se a tua voz é tão doce
talvez cantada que fosse
mais doce que a glicerina.
Porque não cantas, Silvina?

― Não me apetece cantar
e muito menos para ti.
Eu sou nova, tu és velho,
já não és homem para mim.

― Não me tentes, Silvininha,
que eu já não te olho a direito.
Sou como um ladrão escondido
na azinhaga do teu peito.

― A azinhaga do meu peito
corre entre duas colinas.
O ladrão do meu amor
tem pé leve e pernas finas.

― Canta, canta, Silvininha,
uma canção só para mim.
Dar-te-ei um lençol de estrelas,
uma enxerga de alecrim.

― Deixa o teu corpo estendido
à terra que o há-de comer.
A tua cama é de pinho,
teus lençóis de entristecer.


― Canta, canta, Silvininha,
como se fosse para mim.
Dar-te-ei um escorpião de oiro
com um aguilhão de marfim.

― Não quero o teu escorpião,
nem de ouro nem de prata.
Quero o meu amor trigueiro
que é firme e não se desata.


― Pois não cantes, Silvininha,
se é essa a tua vontade.
Canto eu, mesmo assim velho,
que o cantar não tem idade.

Hás-de tu ser morta e fria,
cem anos se passarão,
já de ti ninguém se lembra
nem de quem te pôs a mão.

Mas sempre há-de haver quem cante
os versos desta canção:
Ai Silvina, ai Silvininha,
Amor do meu coração.

Legenda: Camané

NADA MAIS SOUBE A TAL RESPEITO


Outra curiosidade, ainda relativamente a discos, se passou em 1990. Em certo dia de Março telefonaram-me da Valentim de Carvalho pedindo-me autorização para incluírem o meu poema “Ai Silvina, Ai Silvininha”, musicado pelo compositor português de origem francesa, Alain Oulman, e cantado por Amália Rodrigues, notável cantadeira, em um disco a sair proximamente. O senhor que me telefonou pediu-me que fosse, no dia seguinte, à dita casa Valentim de Carvalho sita na Rua da Cruz dos Poiais, onde estão instalados os respectivos escritórios. Lá fui, e então o senhor que me falara informou-me que o dito Alain Oulman, morrera na véspera.
Entretanto assinei o papel, mas nada mais soube a tal respeito.

Rómulo de Carvalho em Memórias.

Legenda: Amália Rodrigues e Alain Oulman

SOBRE OS POETAS


1

Há poetas que constroem o mundo nos cafés,
outros que o fazem no claro-escuro
entre as prisões e os intervalos.

Há poetas que aguardam cartas de apresentação
nem eles sabem para onde:
para a vida que falhou?, para a manteiga
que lhes foi negada?

Mas todos têm um sonho, todos
se esforçam por valer o pão que amassam
— lançam seu delicado peso na balança.

Eles sabem, esses poetas,
que nada é eterno e imutável.

2

Tal a «Cadeia de Santo Onofre:
Copie o texto: envie a cinco amigos...»
há poetas que se multiplicam, fendem
a vaga limite, impedem o suicídio,
explicam a vida, argamassam
dedicação e raiva.

Girassóis, rodam sobre si mesmos,
indicam o ponto onde a luz se abre.

3

Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
uma canção à cidade, martela
os que dormem alheios, move-se
silenciosamente ao jeito das estátuas.

Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
rosto impreciso solidificando breve;
tênue tinta azul no papel claro ...

Os poetas têm
como os peles-vermelhas do cinema
o seu fumo e os seus cobertores.

4

Há poetas que renegam cartas
de apresentação para o arrivismo;
recusam a mão ao salário da trampa;
não enfeixam o nome e a desonra
nos telegramas do medo.

Enquanto bebem o café um histrião noturno
arenga; executa o seu número; recebe
por nova pirueta uma ajuda de custo.

Egito Gonçalves em Os Arquivos do Silêncio

Legenda: pintura de Van Gogh

quinta-feira, 10 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


Algures em Fellini 8 ½ , numa festa em Roma,Marcelo Mastroiani, no papel de Guido Anselmi,  desabafa com um qualquer padre: «Eminência, eu não sou feliz», e ouve a resposta: «E quem foi que lhe disse que vieste ao Mundo para ser feliz?» 

LER, NÃO CHEGA...


Fabriquei eu todo o vidro preciso nas janelas de uma casa à minha medida. Uma parte-de-casa, digo, algures, ou de alguém. Importava ficar-se ao abrigo de ventos de granizo, ter uma referência nascida do empreendimento destas mãos. O que me imiscuiu em tantas e perdulárias moradas. Logo em muito miúdo habituara-me a pequenos domínios como o cantinho de uma marquise solarega, clara, onde o vão entre quatro pés do tanque em cimento me bastava para tecer cobiçosas intrigas. Jamais me atrevia a espiar o território adulto, verdadeiro campo de treino para a desconfiança e o desatino. Era como escolher encosta íngreme da ravina o mergulho directo num casulo.
Vivi, pois, durante uma época, ainda que muito brevemente, numa casa cujas janelas me inclinavam para as traseiras de um poeta: Raul de Carvalho. Cantava; ouvia-se-lo cantarolar sobre quintais e saguões, à luz de ouro no Outono lisboeta. E ia pondo a sua roupa lavada no estendal, na alegria doce de quem vive, não sozinho: na companhia de versos em louvor dos nadas do dia-a-dia. E o seu vidro saía cortado à medida da sua casa. Algo de que nunca eu me cansei, repetindo, repetindo iguais gestos, decerto, na minha própria construção. Ler, não chega; há que ver e ouvir pela abertura do coração, comovidamente. 

Paulo da Costa Domingos em Narrativa

UM HOMEM DEVE LER DE TUDO


Um homem deve ler de tudo, um pouco ou o que puder, não se lhe exija mais do que tanto, vista a curteza das vidas e a prolixidade do mundo. Começará por aqueles títulos que a ninguém deveriam escapar, os livros de estudo, assim vulgarmente chamados, como se todos o não fossem, e esse catálogo será variável consoante a fonte do conhecimento aonde se vai beber e a autoridade que lhe vigia o caudal, neste caso de Ricardo Reis, aluno que foi de jesuítas, podemos fazer uma ideia aproximada, mesmo sendo os nossos mestres tão diferentes, os de ontem e os de hoje. Depois virão as inclinações da mocidade, os autores de cabeceira, os apaixonamentos temporários, os Werther para o suicídio ou para fugir dele, as graves leituras da adultidade, chegando a uma certa altura da vida já todos, mais ou menos, lemos as mesmas coisas, embora o primeiro ponto de partida nunca venha a perder a sua influência, com aquela importantíssima e geral vantagem que têm os vivos, vivos por enquanto, de poderem ler o que outros, por antes de tempo mortos, não chegaram a conhecer. Para dar só um exemplo, aí temos o Alberto Caeiro, coitado, que, tendo morrido em mil novecentos e quinze, não leu o Nome de Guerra, Deus saberá a falta que lhe fez, e a Fernando Pessoa, e a Ricardo Reis, que também já não será deste mundo quando o Almada Negreiros publicar a sua história. Por um pouco veríamos aqui repetida a graciosa aventura do senhor de La Palice, o tal que um quarto de hora antes de morrer ainda estava vivo, isto diriam os humoristas expeditos, que nunca pararam um minuto para pensar na tristeza que é já não estar vivo um quarto de hora depois. Adiante. Provará pois o homem de tudo, Conspiração sejas, e não lhe fará mal nenhum descer uma vez por outra das altitudes rarefeitas em que costuma abonar-se, para ver como se fabrica o pensar comum, como alimenta ele o comum pensar, que é disso que vivem as gentes no seu quotidiano, não de Cícero ou Espinosa. Tanto mais, ah, tanto mais que há uma recomendação de Coimbra, um insistente conselho, Leia a Conspiração, meu amigo, é boa doutrina a que lá vem, as fraquezas da forma e do enredo desculpa-as a bondade da mensagem, e Coimbra sabe o que diz, cidade sobre todas doutora, densa de licenciados. Ricardo Reis logo no dia seguinte foi comprar o livrinho, levou-o para o quarto, aí o desembrulhou, sigilosamente, é que nem todas as clandestinidades são o que parecem, às vezes não passam de envergonhar-se uma pessoa do que vai fazer, gozos secretos, dedo no nariz, rapação de caspa, não será menos censurável esta capa que nos mostra uma mulher de gabardina e boina, descendo uma rua, ao lado duma prisão, como se percebe logo pela janela gradeada e pela guarita da sentinela, ali postas para não haver dúvidas sobre o que espera conspiradores.

José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis