quarta-feira, 18 de outubro de 2017

ETECETERA



Estas são as primeiras páginas, de hoje, do Diário de Notícias e do Público.

O Presidente Marcelo abraçado a um velhinho. Os dois choram.

Mera coincidência, mas o sentido de ir ao encontro do que o público gosta de ver, lagrimazinha ao canto do olho, está patente.

Marcelo, como dizia Léo Ferre de si próprio, é um artista de variedades.

Sabe-a toda: anos e anos de exposição mediática dando catequese como comentador político.

Os jornais, as televisões, as rádios, fazem o resto.

O dia trouxe ainda a demissão, a seu pedido, da Ministra da Administração Interna.
António Costa não tinha outro remédio senão aceitar. O Conselho de Ministros do próximo sábado não poderia contar com uma ministra debilitada.

Dado o curto espaço de tempo, o Primeiro-Ministro recorreu ao seu núcleo duro para arranjar um substituto: Eduardo Cabrita, actual ministro adjunto, substituirá Constança Urbano de Sousa.

Uma escolha que aos olhos de muita gente se mostra pouco entusiasmante.

Mas o tempo urge e, por agora, não há espaço para percorrer outros caminhos.

Os partidos que apoiam o Governo são unânimes em afirmar que a mudança de rosto na pasta da Administração Interna, não resolve os problemas de fundo  que há muito existem na prevenção e ataque aos incêndios florestais.

O CDS apresentou uma moção de censura ao governo que será discutida na próxima terça-feira. Moção de censura que será apresentada pelo CDS na quinta-feira visa «António Costa não está à altura para o exercício das funções que desempenha», afirmou Assunção Cristas, a raínha do eucalipto.

Paulo Portas, em Agosto de 2010, disse que « fazer politiquice com os incêndios é imoral e isto é tão verdade para a oposição, mas também para o governo.»

Ao PSD, não lhe restou outra saída, senão declarar que votará favoravelmente a moção do CDS.

Pedro Passos Coelho, nos corredores da Assembleia,c disse aos jornalistas que António Costa deveria pedir a demissão de primeiro-ministro e que o governo não merece uma segunda oportunidade.

Vão ser muito duros os próximos tempos do Governo do Partido Socialista.

O Presidente da República, uma comunicação social hostil, uma oposição a sonhar com eleições antecipadas, não lhe vai dar um minuto de descanso.

Chegou o tempo do grande exame.

PSD

Afastado do partido desde 2014, ano em que foi expulso, António Capucho considera que se o PSD regressar «à sua matriz social-democrata» está pronto voltar a ser militante.

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, será o presidente da Comissão de Honra de Santana Lopes, cuja candidatura à liderança do PSD será oficialmente apresentada no próximo domingo.

Rui Rio, um homem que quando houve falar em cultura fica à beira de um ataque de nervos, em entrevista à TVI, acusou Santana Lopes de abandonar cargos a meio («Não foi candidato em Lisboa porque dizia estar apaixonado pelo trabalho na Santa Casa, criando até um problema ao partido, afinal quatro meses depois vai deixar a Santa casa porque diz estar apaixonado pela liderança do PSD. Eu fico sempre até ao fim») adiantando ainda que Santana está manifestamente à sua direita.

David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação, que foi ministro da educação de Durão Barroso vai coordenar o documento estratégico com que o Rui Rio se apresentará às eleições directas para a presidência do PSD.

A função promete.

E NUNCA MAIS NINGUÉM OS APANHOU


Rómulo de Carvalho, nas suas Memórias, começa a contar aos tetranetos, algumas histórias do 25 de Abril:

A partir da vitória foi uma festa. Expulsos os governantes, com boas maneiras, os militares e o povo, com cravos vermelhos ma lapela ou nas mãos e até mesmo no cano das espingardas (por isso se lhe chamou a “Revolução dos Cravos”) trataram, de imediato, de promover a liquidação da odiada PIDE /Polícia Internacional de Defesa do Estado), com longo cadastro de crimes, de violências, de abusos de toda a ordem, com sede em Lisboa na Rua António Maria Cardoso. O ataque foi violento e sangrento com cinco mortos. No total a Revolução provocou seis mortos: esses cinco e mais um que morreu de indigestão no Parque Mayer a comemorar o derrube da Ditadura. Os pides foram encarcerados mas, graças à Providência, fugiram todos numa mesma noite, mais de cem, e nunca mais ninguém os apanhou. Se vos quiserdes divertir, meus queridos tetranetos, ide folhear o Diário de Notícias desses dias e aí, encontrareis, nas páginas dos anúncios, vários rectângulos em que se lê que Fulano de Tal vem declarar por este meio que nunca pertenceu à Pide. Bons rapazes.
Uma vez expulsos os governantes, os militares, promotores do acontecimento, entreolharam-se sem saberem bem o que haviam de fazer a seguir. Eles sabiam conspirar, sabiam defender io seu prestígio, sabiam actuar, sabiam tudo o que se presta para derrubar mas não para construir.
(…)
O que se passou a seguir foi uma balbúrdia que levou alguns anos a serenar. Muitos foram os partidos que então se organizaram, e cada um, com é óbvio, com o seu programa, o que provocou lutas permanentes e abusos de toda a ordem. O Zé Povinho, a quem tanto faz que os governantes sejam estes ou aqueles, desde que lhe satisfaçam os seus interesses, aproveitou-se da balbúrdia e entregou-se a toda a espécie de desmandos, de atitudes e de linguagem. Foi uma bela oportunidade para arranjarem casa de habitação de pedra e cal e os que viviam em barracas de madeira. Eu vi aqui no meu bairro uns indivíduos partirem os vidros das janelas de um rés-do-chão que estava desabitado, treparem para elas e ocuparem a casa. Quem ia na rua, como eu, olhou e seguiu, sem qualquer comentário.

OLHAR AS CAPAS


O Caso dos Dados Viciados

Erle Stanley Gardner
Tradução: Mascarenhas Barreto
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 115
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Meia-hora mais tarde, ela sentou-se perto dele, diante da pequena lareira. Falavam em voz baixa, esperando que o telefone tocasse.
Maquinalmente, Mason prendera na mão os dedos da jovem.
- Macacos me mordam se não estou a tornar-me romântico, com a idade – disse.
- Parece-me que este pequeno apartamento foi feito para nós os dois.
Com a mão livre, Della Street afagou os fortes dedos de Mason.
- Não falemos disso, Chefe – disse ela baixinho.
- O senhor é um lutador, um solitário; adora o risco e o combate. A casa só lhe agradaria nos primeiros quinze dias. Ao fim de quatro meses, julgar-se-ia numa prisão.
- Pois bem! – disse Mason.
- Estamos ainda nos primeiros quinze dias.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

OLHARES


Lisboa: Calçada de São Vicente.

OLHAR AS CAPAS


Conta-Corrente
4
1982-1983

Vergílio Ferreira
Bertrand Editora, Lisboa, Fevereiro de 1983

Escrever bem, escrever mal. Assentemos neste princípio: nem todo o tipo que escreve mal é estúpido; mas todo o tipo que é estúpido escreve mal.

ONDE A MINHA SOLIDÃO POSSA SER APENAS SOLIDÃO


Carta de Mário-Henrique Leiria, escrita em S. Domingos de Rana e datada de 29-30 de Novembro de 1961, para Isabel, a «Maruska querida»:

E isto, Maruska bonita, porque eu ando sempre só, sempre a ver ao meu lado o vazio de um espaço que já não existe. Esta tarde isto não aconteceu, estavas lá tu a cobrires totalmente com a tua presença real um fantasma que nem sequer veio. Creio que compreendes, Isabel, e que sabes com certeza que te amo. Isto que acontece comigo é apenas o sentir as mãos vazias e não poder ter nada onde as pousar. Mas acontece… Quando tu estás presente, querida, deixa de acontecer, mas o facto é que estou muitíssimo mais tempo só – completamente só – do que acompanhado. Por isso o escrever-te já é uma companhia, já é o sentir-te amanhã a leres o que agora te digo. Isabel, esta é uma das razões porque tenho de me ir embora… não suporto mais a solidão povoada que Lisboa me dá. Fui e voltei, é certo, porque afinal eras tu que eu desejava (e desejo) encontrar. Mas agora estou mesmo, mesmo no limite da resistência. Tenho que ir, ir para muito longe, para onde a minha solidão possa ser apenas solidão, sem memórias nem fantasmas. Depois, vem também o caso económico. Eu não quero continuar a viver assim: tenho que ir fazer qualquer coisa, que trabalhar mesmo duro dentro da minha especialidade… e aqui receio já não conseguir fazê-lo. É assim, Isabel; creio que compreendes. Não posso, não posso suportar mais as mãos vazias e o eco de uns passos que já se perderam.


Legenda: fotografia de Maxime Gréau

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

ETECETERA


Domingo trágico.

A catástrofe de um País em chamas, para cima de 500 fogos num só dia, alguns deles com mão criminosa.

Até este momento contam-se 36 mortos, 7 desaparecidos, 63 feridos.

Casas e fábricas destruídas, desemprego, desalojados, mortes, desaparecidos, feridos, bombeiros e populações impotentes para combaterem a fúria das chamas.

Vontade de ficar em silêncio.

Não é possível.

Na hora dos telejornais, António Costa falou ao País.

Nitidamente desgastado, não conseguiu transmitir um sinal de confiança.

Mas será o tempo de agir e não de palavrear.

ONE FICA MOGADÍSCIO?

Um atentado teve, ontem, lugar em Mogadíscio, capital da Somália, provocando mais de 300 mortos e cerca de 500 feridos. O ataque reivindicado pelo grupo islamista al-Shabaab aconteceu através da detonação de um camião carregado com cem quilos de explosivos.
Fica longe a Somália… e tudo isto nos passa ao lado…

LONGE É A VOSSA FACE


Pesa demais, senhor, o esquecimento.
Longe é a vossa face.
Sofrer é só o que a minha alma espera.
Corta-se o coração diariamente.

Até quando? Até quando?

Exijo uma resposta.

Antes de ver na morte adormecidos
os meus olhos.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

OLHAR AS CAPAS


Férias de Natal

W. Somerset Maugham
Tradução: Leonel Vallandro
Capa: Bernardo Marques
Colecção Miniatura nº  11
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Charley hesitou. Não tinha sentimentos religiosos definidos. Fora educado na crença de Deus – mas ao mesmo tempo ensinavam-lhe a não pensar nele. Isso seria… bom, não seria precisamente má educação, mas um tanto pedantesco. Era-lhe difícil dar voz aos seus pensamentos, mas encontrava-se numa situação em que a linguagem mais mística chegava a parecer quase natural.
- O seu marido cometeu um crime e foi castigado. Isso parece-me justo. Mas você pode julgar que um… Deus misericordioso lhe exija expiação do mal feito por outra pessoa.
- Deus? Que tem Deus a ver com isto? Supões que eu possa ver a miséria em que vive a grande maioria da Humanidade e continuar a acreditar em deus? Supões que eu creia em Deus, que deixou os revolucionários matarem o meu pobre pai, um homem bom e simples? Sabe o que penso? Pois penso que deus está morto há milhões e milhões de anos. Penso que, depois de apanhar o Infinito e pôr em movimento o processo que resultou na criação do Universo, ele morreu, e que, pelos séculos fora, os homens têm buscado e adorado um ser que deixou de existir no próprio acto de lhes tornar possível a existência.

LUA ADVERSA


 Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles

domingo, 15 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Mas hoje, não sei porquê, porque não havendo uma especialização da política, os políticos acham-se especializados, não há um curso de política. Não há uma especialização. Os políticos não são particularmente instruídos na própria política, eles estão instruídos na fórmula política, mas não na sabedoria.

Agustina Bessa-Luís em  Agustina por Agustina

NOS 95 ANOS DE AGUSTINA


Agustina Bessa-Luís, retida em casa, há longo tempo, por doença irreversível,faz hoje 95 anos.

A jornalista Lillian Ross, citada por António Mega Ferreira no JL, escreveu:

«Nunca se deve escrever sobre alguém de quem não se gosta.»

Nos antípodas das minhas ideias, nunca lhe percorri os romances.

Dizem-me que faço mal.

A ver vamos, como diria o cego.

No boletim de voto nunca coloquei a cruzinha no mesmo quadrado onde Agustina colocou o seu, mas terei que aceitar que escreve bem.

As ideias é que são o busílis da questão.

Agustina Bessa Luís no seu Caderno de Significados:

«Houve gente bronca que me relacionou, a torto e a direito, com a ditadura. Talvez por eu não gostar de manobras políticas e ter demasiado talento, um desperdício numa mulher, como ainda hoje se pensa.»

A Babel, editora que pertence ao ex-bancário Paulo Teixeira Pinto e Álvaro Sobrinho, um obscuro empresário de estranhos negócios, retirou os livros da escritora das livrarias e disse que não podia continuar a pagar tanto a uma escritora que vende tão pouco.

Lamentável!

Felizmente que Francisco Vale, da Relógio d’Água, chegou a acordo com a filha de Agustina e tomou conta da edição dos seus livros.

Enquanto crítico da Seara Nova, José Saramago debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís:  As Relações Humanas e  Homens e Mulheres. 
Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar génio a Agustina Bessa-Luís. 

A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus Dias Comuns:

«Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).
Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?»

A VERDADE NÃO EXISTE


Às vezes, nas canções, dizem-se coisas mesmo que apenas haja uma possibilidade muito remota de serem verdadeiras. Por vezes, dizem-se coisas que não têm nada a ver com a verdade do que queremos dizer, e às vezes dizem-se coisas que toda a gente sabe que são verdadeiras. Contudo, pensa-se que a única verdade no universo é de que nele a verdade não existe. O que quer que se diga, diz-se de um modo repetitivo e mecânico. Não há tempo para reflectir. Coseu-se, passou-se a ferro, embalou-se e está pronto para despachar, foi o que se fez.

Bob Dylan em Crónicas

OLHAR AS CAPAS


Passaporte para o Inferno

Hartley Howard
Tradução; Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 201
Livros do Brasil, Lisboa s/d


O pensamento do que faria com dez mil dólares subiu a meu aldo os dois lances de degraus, a segredar-me ao ouvido enquanto percorria o corredor e procurava as chaves, E dizer que, se quisesse, teria dez mil ou vinte mil, sem trabalho nenhum! E ninguém saberia – a não ser eu. O mal era esse: poderia enganar toda a gente, menos a mim próprio. Por isso, sabia que continuaria a ser trouxa.

DEUS RÁ


Vistas dali de cima, a casa e as pessoas apressadas que andavam de lado para lado não tinham mais significado e importância do que um formigueiro.
Só o Sol, majestoso e poderoso a brilhar no céu, e a estreita faixa prateada em que o Nilo se transformava àquela hora da manhã – só o Sol e o Nilo eram eternos e permanentes. Khay, Nofret e Satipy tinham morrido, e um dia também ele e Hori morreriam. Mas Rá continuaria a governar o céu e a viajar, de noite, na sua barca, pelo mundo das trevas, até à alvorada do dia seguinte. E o rio continuaria a correr, vindo de além de Elefantina e passando por Tebas, pela aldeia e pelo Baixo Egipto, onde Nofret vivera e fora alegre e despreocupada, e prosseguindo até às grandes águas e para fora do Egipto.

Agatha Christie em Morrer Não é o Fim.

sábado, 14 de outubro de 2017

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Guardámos nos últimos Olhar as Capas, a trilogia dos Cafés de Álvaro Guerra.

Algo que o escritor subtitulou como um «folhetim do mundo vivido em Vila Velha.»

Vila Velha é Vila Franca de Xira onde nasceu a 19 de Outubro de 1936, terra de toureiros, campinos, pescadores, lavradores, gentes da lezíria, da borda d’água, um rio que, mais para a frente, há-de ser um mar.

 A vida de uma terra de província às portas de Lisboa, mas tão longe da cidade – o pequeno comércio local com a farmácia, a mercearia, a casa de panos e linhas, a Barbearia Gorjão, a Pensão Flor, o notário, o café que era para ser Central, virou República, voltou a Central e passou a ser 25 de Abril. Também a estação de comboio, a Igreja Matriz, a Filarmónica, o clube de futebol, a praça de toiros, um jornal, Correio de Vila Velha, cujo director era cego, o Cine-Teatro, mais tarde um Cine-Clube e um Clube Cultural, dito Século XX.

Se Manuel da Fonseca dizia que o Largo era o centro do mundo, daqui se dirá que o Café era o centro da vila.

O primeiro volume chama-se Café República e narra acontecimentos nacionais e do mundo de 1914 a 1945.

-Senhor Manuel Maria, quero felicitá-lo pela escolha feliz do nome do seu estabelecimento – elogiava Aníbal Castro.
- É muita gentileza da sua parte, senhor Castro. Mas a bem dizer, a ideia não foi minha
«Eu tinha pensado chamar-lhe Café Central, mas quando encomendei a tabuleta ao Praga de Mãe, ele veio com aquelas falinhas mansas, que a República tinha sido implantada há duas semanas, que era um nome bonito e poderoso, e tal e coisa. E, olhe, deixei-me convencer.»

O segundo volume chama-se Café Central e guarda os acontecimentos de 1945 a 1974.

A chegada do «Manholas de Santa Comba Dão ao campo-político-pátrio, levou à mudança do Café República para Café Central que era o nome que o galego Manuel Maria sempre preferiu.

«No meio da Vila que crescia, o Central, que já se chamara República, ficava na mesma. A bica de saco aguentava bem a ofensiva do café expresso.»

Mas no findar do volume já se dá conta que um alguém telefonara ao António Maria para a discussão de um «assunto importante e de seu interesse.»

«E o António Maria imaginava o Café Central com o balcão transformado em guichets, a cozinha em cofre-forte, as cadeiras em belos maples de couro e a máquina do café a vomitar notas e moedas. Entre a insónia e o pesadelo, António sentia o coração bater a ritmo desencontrado, dividido entre os nevoeiros da Finisterra, sempre vislumbrados a correr, na pressa das férias, e aquelas paredes que vira pela primeira vez havia 58 anos entre as quais trabalhava desde os seus 14 anos, Que diabo! Um homem apegava-se às coisas todos os dias…»

A conversa realizou-se e o António Maria, filho de Manuel Maria, não deixou de perguntar:

- O senhor desculpe… Mas há um coisa que me intriga… Porque é que os bancos não gostam dos cafés?

O terceiro volume chama-se Café 25 de Abril e alcança os acontecimentos que se seguiram a esse dia mas o autor não coloca qualquer espaço de tempo e apenas deixa estas: (as ruínas).

«... o café foi baptizado pela terceira vez e a velha tabuleta substituída por outra de fundo verde, cravos vermelhos em grinalda a envolver as letras amarelas que formavam o novo nome – Café 25 de Abril...»

O Tríptico dos Cafés de Álvaro Guerra colhe um relato da História desde 1914 a 1975, agarrado ao quotidiano viver da Vila, de como a História pode ser contada à mesa de um café.e se outros motivos não existissem já isso era suficiente para  atenta leitura.

Álvaro Guerra dando curso à sua experiência de jornalista, em tempos de ditadura, quando a censura não o esquartejava, botava Ponto Crítico na 3º página do República dirigido por Raul Rego, em três volumes bem esgalhados, deixa os acontecimentos que marcaram os tempos, de aqui e lá fora, muitos deles desconhecidos por alguns e outros já esquecidos.

«E em cada dia desse mundo de notícias. Vila Velha adormecia em paz, na santa ignorância.»

OLHAR AS CAPAS


Café 25 de Abril

Álvaro Guerra
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa Abril de 1987

- Ai querem?! Pois se pagarem faço-lhes a vontade.
Assim reagira o galego António maria às pressões da clientela nova e já maioritária, submergindo as tradições do Café e da Vila. Pretendiam eles mudar o nome do estabelecimento. De facto, ele já ostentara a tabuleta de Café República, antes de O estado novo lhe ter carregado o nome de suspeitas e obrigado o pai do António Maria a encomendar ao saudoso Praga de Mãe, pintor de artes e de paredes, o dístico. Já desbotado pela erosão de muito sol e chuva, de Café Central, ornado de motivos «arte nova», tão fora do tempo.
- Mais nome, menos nome…
E o António disfarçava com um encolher de ombros a irritação que todas as novidades lhe causavam.
No dia em que o Café foi baptizado pela terceira vez e a velha tabuleta substituída por outra de fundo verde, cravos vermelhos em grinalda a envolver as letras amarelas que formavam o novo nome – Café 25 de Abril – a clientela que se cotizara para subsidiar mais aquela mudança passou o serão a pagar rodadas de bagaço e brandy, perante a complacência e pouco entusiasmo do galego que nem nessa noite cessou de se queixar do estado do negócio e de ameaçar com a partida, sempre adiada, para o Norte chuvosos dos seus antepassados.

QUASE TUDO ME NÃO MERECE


Carta de Jorge de Sena, datada de 2 de Abril de 1961, Domingo de Páscoa, para Sophia  onde lhe agradece as palavras que lhe dirigiu sobre a Poesia I e Novas Andanças do Demónio:

Eu não sei, Sophia, aí quase tudo me não merece. Mas o que lhe garanto é que, aqui, também não nos merecem. Temos por cá o mesmo carreirismo torpe, cuja virtude é ser representado em descarado makebelieve. E, quase definitivamente, ninguém culturalmente se interessa por nós. Respeitam-me, estimam-me ou admiram-me, pelo que publico e faço; mas ninguém busca ler ou conhecer o que publiquei ou fiz – e isto sucede com nós todos. Se eu ler poemas seus, como já li em público, as pessoas gostam e admiram. Mas não se dão ao trabalho, sequer, de pedir-me os seus livros para a lerem como nunca me pediram os meus. Eu sou o grande escritor, aquele sujeito formidável que fez e faz conferências esplêndidas, escreve belos artigos no estado de São Paulo, é astro de congressos… e aqui a coisa acaba. Nós não existimos para eles, de resto, culturalmente, poeticamente, nada existe: tudo é literatura Os estudos de literatura brasileira enchem tudo, envenenam tudo. Acha a Sophia que nós existiríamos culturalmente, se tivéssemos a vida desenterrando e admirando as belezas supremas dos poetas portgueses de 20ª categoria, por exemplo, os ultra.rmânticos do Trovoada, do Gonçalves Crespo, qualquer texto que se imprimiu na Bahia, em 1750? É o que, equivalentemente, aqui se faz. E a vibração poética, dramática, angustiosamente metafísica, que faça o melhor dos nossos versos, como ser apreciada bem, se acab equiparad a um soneto de Bilac? A grande vantagem, aqui, é haver condições de trabalho para fazermos a nossa obra, sem nos intrometermos se não abstractamente nesta pandilha literária que, assim nos não incomoda. Mas sabe V. que, há meses, quando fui elevado a secretário-Geral do Congresso da Crítica, houve tumultos ocultos, porque sou estrangeiro?! Pois houve.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

ETECETERA


Até 14 de Dezembro, estará patente na Biblioteca Nacional, uma Exposição comemorativa do Centenário do Nascimento de Óscar Lopes que nasceu a 2 de Outubro de 1917, o ano da Revolução Russa:

«O sentido desta mostra documental evocativa do centenário do nascimento do Professor Óscar Lopes é o de homenagear o homem que, pelo seu pensamento dialético e hermenêutico, buscou sempre o “sentido que a vida faz”. Essa procura leva-o na sua investigação e nas suas obras a entrecruzar saberes diversos – da física à filosofia, da biologia à antropologia, da astrofísica à história, à música ou à literatura e linguística, estas as áreas preferenciais do seu trabalho.
“Nem crítico, nem ensaísta, nem mesmo essencialmente professor, linguista ou político”, a dificuldade do próprio em auto definir-se. Era tudo isto.»


Depoimentos de Agustina Bessa-Luís, Álvaro Cunhal, Baptista-Bastos, Eduardo Lourenço, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Ilse Losa, José Cardoso Pires, Manuel António Pina, Manuel Alberto Valente, Marta Cristina Araújo, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Graça Moura, entre outros.

Reproduzimos o depoimento de Agustina Bessa Luís

Devo a Óscar Lopes os primeiros conhecimentos sobra a crítica. A companhia que o crítico pode significar para o fugitivo da área familiar, em geral a que nos ensina primeiro a duvidar de tudo, foi para mim Óscar Lopes. Antes de A Sibila tomar lugar nas letras portuguesas, já ele se interessava pelos Contos Impopulares, melancólico salto sobre um abismo de lirismo desempregado. O crítico, como intérprete duma linguagaem, é o médium que o espírito convoca. É compreensível que o jovem autor comece por não gostar dos críticos e acabe por vê-los como sendo os médiuns próprios para desvendar a ideia.
Não sou muito adepta das homenagens que se prestam ao tempo vivido por um homem de talento. Todos os seus dias são dignos de louvor e os seus sacríficios estão mais presentes na juventude do que na idade avançada. Esta é o tempo em que devemos deixar dormir, mais do que pensar, as pessoas inteligentes. Se dormir é o cúmulo do génio, como disse um filósofo que eu muito prezo, então não despertemos com palavras barulhentas os que deixam uma obra para a posteridade.
Eu penso que o Óscar Lopes não pertence ao número daqueles que é preciso elogiar, como se faz às crianças para que elas nos obedeçam. Obedecer não é próprio dos homens. Porque devemos elogiá-los?
Por mim, eu digo que me aborreço quando me parecem consolar de alguma coisa com as honras que me prestam. Prefiro um café quente a um bom elogio. Mas nem todos são assim.
Fomos amigos em campos diversos mas não extremados. Óscar Lopes e eu. Convivemos ma mesma admiração pelos livros e na paixão das ideias. Eu, que sou avara de palavras faladas, porque o ciúme das escritas me arrasta para longe delas, no entanto, fora da minha vocação, vejo o talento de alguém e digo-lhe que é preciso ter coragem para ter talento. Aqui e em qualquer lugar. O talento briga com tudo, arranja inimigos em toda a parte porque tem que expandir a sua diferença onde quer que esteja. É por isso que as homenagens lhe cheiram a esturro. O gozo estético do talento é uma luta de morte com a própria celebridade. Ela parece sempre uma forma de fechar as contas e de partir noutra direcção, que não é a do talento, bem entendido.
As nossas contas ficam em aberto. Mais erradas do que certas. A vida é assim. Nós somos assim. Óscar Lopes e eu e muitos que têm a vocação como virtude curativa.


PSD

Hoje, começamos assim:

Manuela Ferreira Leite apoia Rui Rio para a liderança do PSD: «tem mais credibilidade do que Santana Lopes.»

Miguel Relvas, em entrevista à SIC, declarou que vai votar em Pedro Santana Lopes porque o Partido necessita de «um líder que seja capaz de agregar.»

O miasma-ventura-de-Loures  quer impedir que Rui Rio ganhe e «prejudique a identidade do partido».

INCÊNDIOS

O relatório da Comissão Técnica Independente, que analisou os incêndios do passado mês de junho, foi entregue na Assembleia da República.

Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna disse, hoje, no Parlamento que não vai pedir a demissão.

Dia 21 haverá um Conselho de Ministros Extraordinário, mas António Costa já disse:

«Pela parte do Governo, por respeito pela Assembleia da República, por respeito pelos profissionais que elaboraram este relatório, mas, sobretudo, por respeito pelas vítimas e seus familiares, o que nos compete é fazer uma reflexão serena sobre a informação disponível e as recomendações apresentadas. As responsabilidades são aquelas que resultam do relatório e assumi-las-emos totalmente.»

Palavras finais do editorial, de hoje, do Diário de Notícias:

«O relatório o que diz é que falhou quase tudo, até a ajuda dos deuses que provocaram ali condições climáticas únicas. E diz que um senhor da Proteção Civil mandou suspender a fita do tempo. Esse terá os dias contados. E o relatório também diz que face às previsões meteorológicas não foram colocados no terreno os meios possíveis e necessários». 

AMANHÃ


Poema de Pedro Oom, escrito com tinta azul, no Catálogo da 1ª Exposição dos Surrealistas, 1949.
Tirado do Catálogo do «Legado de Mário Henrique Leiria na Colecção Manuel de Brito».

A FRATERNIDADE DA SOLIDÃO


25 de Dezembro de 1969

E lá está a minha vizinha do rés-do-chão a apodrecer o tempo do Natal, sozinha. Não deixa por isso – contou ela à Rosalia – de fazer rabanadas e de comprar todos os mimos da época: nozes, avelãs, passas, broas, peru…
Depois, enverga o seu melhor vestido, abra uma garrafinha de porto e, rodeada de fantasmas, senta-se numa mesa fantástica, cheia de pratos vazios, a representar consigo mesma a fraternidade da solidão

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem

OLHAR AS CAPAS


Café Central

Álvaro Guerra
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, 1984

Firmino Fontes morreu na tarde do primeiro domingo da Primavera de 1956, sem tomar conhecimento do relatório Krutchev, apresentado um mês antes ao XX Congresso  do Partido Comunista da União Soviética. Apagou-se aos 79 anos, sentado numa cadeira de palha, à porta do rés-do-chão onde sempre vivera, com os últimos raios de um sol ainda pálido. Vestia o fato de ganga dos domingos. O dr. Sales, chamado a constatar o óbito, atribuiu o passamento a congestão provocada por um copo de água fresca bebido depois da dobrada do almoço.
Não se sabe se o combativo serralheiro teria resistido à notícia de que Estaline dera muito maus passos na «construção do socialismo» e que os seus antigos pares o apresentavam agora como um sinistro tirano com as mãos sujas de sangue. Admite quem o conheceu que isso não seria suficiente para derrubar aquela fortaleza vila-velhense do amanhã radioso. A julgar pelos camaradas que cá ficaram é bem provável que digerisse a pretensa desestalinização com muito mais facilidade que a fatal dobrada.
Foi enterrado com todas as honras que a polícia permitiu, o emblema da foice e martelo na lapela do casaco de ganga. E acompanharam-no à última morada todos os camaradas cuja presença em Vila Velha não acarretava riscos excessivos.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


A miséria impediu-me de acreditar que tudo está bem sob a luz do sol da História; o sol ensinou-me que a História não é tudo.

Albert Camus em O Avessoe o Direito

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

A ANGÚSTIA, O ENCANTAMENTO, A ALEGRIA


9 de Outubro de 1935

Todos os poetas conhecem a angústia, o encantamento e a alegria. A admiração por um grande verso nunca vai para a sua espantosa habilidade, mas para a novidade da descoberta que contém. Mesmo quando sentimos uma palpitação de alegria ao encontrar um adjectivo acasalado, com êxito, a um substantivo, um adjectivo e um substantivo que nunca tinam sido vistos juntos, o que nos comove não é a surpresa perante a elegância da coisa, a prontidão do engenho, a habilidade técnica do poeta, mas o encantamento perante a nova realidade nascida.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: Cesare Pavese

OLHAR AS CAPAS


Café República

Álvaro Guerra
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa Maio de 1982


À  meia-noite misturaram-se espumantes, tintos e água-pé, numa saúde colectiva e confusa, com gaitinhas a apitar, serpentinas e papelinhos. No meio da animada comemoração, Aníbal castro dirigiu-se apressadamente à porta do quintal das traseiras. Ia mijar para o ano velho, explicou de passagem ao Soares da farmácia.