segunda-feira, 21 de outubro de 2019

NOTÍCIAS DO CIRCO



Na semana passada, Marcelo Rebelo de Sousa convidou, para converseta, sessões de memes  e visita ao Palácio de Belém, uma série de gente a que chamam «influencers» que  eu entendo – mas quem sou eu ?! – ser gente que não se recomenda a ninguém, que se «notabilizam» por terem milhares de seguidores no Instagram, no Twitter, no Facebook, no sei lá mais o  quê, que  eu que nestas coisas das redes sociais considero-me  um E.T.

Esta gente, para além de frivolidades, intrigas, boatos, notícias falsas, não têm nada para dizer seja a quem for, e muito menos a um Presidente da República.

Mas Marcelo é assim.

Uma coisa destas, como ele um dia disse, não lembra ao careca.

OLHAR AS CAPAS



Longo Caminho Breve
Poesias Escolhidas 1943-1983

Luís Veiga Leitão
Prefácio: Fernando Guimarães
Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa s/d

Quem Escolhe o Caminho das Pedras


Quem escolhe o caminho das pedras
foge à fascinação do fácil

Quem escolhe o caminho das pedras
sabe de cor a cor do sangue

Quem escolhe o caminho das pedras
nada quer para tudo ser

Quem escolhe o caminho das pedras
ama o amor na raiz do lume

Quem escolhe o caminho das pedras
equilibra-se nos fios da morte

domingo, 20 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO



O maior grito pode ser um silêncio.

Almada Negreiros

sábado, 19 de outubro de 2019

RUI JORDÃO (1952-2019)


Soube da morte de Rui Jordão, quando, pela manhã, visitei o Largo da Memória do Luís Enes.

Logo me ocorreu um muito longínquo Benfica Feyenoord e deixei comentário:

«Dos mais elegantes intérpretes de futebol que vi jogar.
22 de Março de 1972: 2ª mão da Taça dos Campeões Europeus, jogo com o Feyenoord no velho Estádio da Luz. Na primeira mão o Benfica perdera, em Roterdão, por 1-0. Aos 5 minutos de jogo já Nené empatara a eliminatória. Depois foi um festival do mesmo Nené e do companheiro Jordão. Resultado final: 5-1.
Não mais esquecerei esta noite, não mais esquecerei o bailado coreografado que Jordão, depois de  meter o quarto golo, fez, na baliza norte, ao longo da linha final em direcção à bandeirola de canto. Deslumbrante.
Foi uma pena ter ido para o Sporting, dizem que era o seu clube de coração, mas foi um homem que dignificou todas as camisolas que envergou e a todas deu o seu melhor.
Já não há jogadores assim!...
Talvez um rapaz que joga no Liverpool, de seu nome Sadio Mané, aufere por semana cerca de 170 mil euros, se assemelhe.
Esta semana disse não esquecer os tempos de pobreza durante a infância.
«Para que quero dez Ferraris, 20 relógios com diamantes e dois aviões? O que faria isso pelo mundo? Eu passei fome, trabalhei no campo, joguei descalço e não fui à escola. Hoje posso ajudar as pessoas. Prefiro construir escolas e dar comida ou roupa às pessoas pobres.»
Com gente desta, podemos dizer que o futebol  pode ser mesmo o maior espectáculo do mundo.»

Quando pendurou as botas, jogava então no Vitória de Setúbal, não mais quis saber do futebol. Dedicou-se a uma paixão que sempre o acompanho: a pintura.

Rui Jordão era um homem simples.

Na entrevista que o excelente Fernando Assis Pacheco, lhe fez em Janeiro de 1988, e que intitulou «Sem Sombra de vedeta», perguntou-lhe qual era a sua refeição favorita. E este respondeu-lhe que era bife.

Assis que era um eterno gozador e praticante ávido  da boa comida, da boa bebida, comentou:.

Coisa mais monótona!

Jordão acrescentou:

Eu não tenho o prazer da mesa, seria incapaz de sair de casa para ir a tal ou tal sítio comer determinada coisa. De maneira que o que lhe estou a dizer é uma habituação: bife, arroz, às vezes peixe grelhado, pouca batata. No meu caso foram dezasseis anos desta dieta. De vez em quando lá experimentamos uma feijoada, ou um cozido à portuguesa, um bacalhau, mas nada disso entra no dia a dia.

Outra vez o Assis:

A culinária angolana seria impensável para a sua vida de jogador?

Impensável.

Recorda algum prato angolano preferido?

 Muamba. A que se come aqui em Portugal não é genuína, está falsificada.

Na abertura  da entrevista pode ler-se:

«Aí está ele outra vez, o goleador emérito, Tem 35 anos e escolheu Setúbal para voltar aos relvados, depois de um afastamento penosos em que se disse que acabar para o futebol. Rui Jordão, angolano de Benguela, quer manter-se honesto até ao fim da carreira sem cair no vedetismo.»

Assim foi.

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Retratos Falados

Fernando Assis Pacheco
Prefácio: José Carlos de Vasconcelos
Capa: Bárbara Assis Pacheco
ASA Editores, Porto, Maio de 2001

P. - Quais as qualidades decisivas para um jovem candidato à profissão de futebolista?
R. - Primeiro a humildade, e ela terá de continuar até ao fim da sua carreira. (Mas é humildade mesmo, não a imagem da humildade!) Depois a honestidade. Mesmo que o jogador a não encontre nas outras pessoas, é fundamental, até para a tranquilidade interior. E por fim o sentido do profissionalismo. Evidentemente que ao longo dos anos o jogador vai-se corrigindo pelos erros cometidos. Ninguém é perfeito. Porque o futebol é bastante difícil, sobretudo para essas pessoas humildes e honestas.
P. - Saltillo?
R. - O caso Saltillo veio cá para fora, mas há muitas outras situações, falo das relações clube-jogador, que nunca chegaram a ser conhecidas.
P. - Basicamente porquê?
R. - Porque o jogador está diminuído face ao patronato. É a este que continua a dar-se força. Depois o jogador, um egoísta, não tem quem o defenda. Resultado, muitas vezes defende-se calando-se.

(Entrevista a Rui Jordão, profissional de futebol que morreu no dia 18 de Outubro).

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

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De entre os temas que Carlos Paredes escreveu para peças de teatro e filmes, encontra-se António Marinheiro de Bernardo Santareno.

Esse tema faz parte do álbum Movimento Perpétuo.

É sempre tão estimulante, tão bonito, tão inebriante voltar a Carlos Paredes, «talvez esta mão que se desgarra(com garra com garra)esta mão que nos busca e nos agarra e nos rasga e nos lavra com seu fio de mágoa e cimitarra.», como escreveu Manuel Alegre.

Rui VieiraNery chamou-lhe Príncipe.

Um Príncipe de uma humildade arrepiante.

«Em 1958, é preso pela PIDE por fazer oposição a Salazar, é acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, do qual era de facto militante, sendo libertado no final de 1959 e expulso da função pública na sequência de julgamento. Durante este tempo andava de um lado para o outro da cela fingindo tocar música, o que levou os companheiros de prisão a pensar que estaria louco - de facto, o que ele estava a fazer, era compor músicas na sua cabeça.» 

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Obras Completas
2º Volume
António Marinheiro, Os Anjos e o Sangue, O Duelo, O Pecado de João Agonia, Anunciação

Bernardo Santareno
Organização, Posfácio e Notas: Luís Francisco Rebello
Capa: Delgado Godinho
Editorial Caminho. Lisboa, Dezembro de 1984

ANTÓNIO (surpreendido, ferido): Doutra maneira, não nos deixam ficar juntos…
AMÁLIA: Sim, toda a gente diria que…
ANTÓNIO; Não te agrado?...
AMÁLIA: (reacção viva): Sim, tanto! Mas…
ANTÓNIO: Se me deixas, mato-me!
AMÁLIA (grito fundo de horror): Não!
ANTÓNIO: Mato-me, mato-me!
AMÁLIA: Ouve, António, escuta: eu nunca pensei em ti assim como… como homem, entendes?!
ANTÓNIO (grave): Eu sou um homem.
AMÁLIA (recuando, as mãos de novo sobre o ventre): És… Tu és um homem… (Pára de repente: grito deluz, síntese súbita de todos os seus sentimentos confusos.) Não, não! Tu és um rapazinho, tão novinho ainda… (mais uma vez se aproxima de António, acariciando-o.)
ANTÓNIO (que está sentado numa cadeira, poisando a face na mão de Amália infantil) Que voz a atua, Amália! Tão boa, tão meiga!... Quando me falas comigo, assim… é como se eu estivesse adormecido e as tuas palavras me chegassem em sonhos – num sonho bom. É verdade isto que eu te digo, Amália, juro! (Levanta a cabeça, fixando Amália) Queres saber?
Parece-me que a tua voz não é nova – coisa mais esquisita! -, que é antiga, antiga… que sempre a ouvi, sempre!... (Volta a apoiar a faxe sobre as mãos de Amália) É tão bom escutar as tuas palavras… Tão bom!...
AMÁLIA (muito suave, maternal): Quem me dera que tu fosses pequenino, António! Queria poder pegar-te ao colo, esconder-te todo nos meus braços… E sofro… Ai sofro muito! Porque já não posso fazê-lo. (Com um quase-espanto sincero.) Que crescido… Que grande, que alto que estás, António!
ANTÓNIO (infantil): Sei… Tenho a certeza de que não é de agora a tua voz… Ouvia-a muitas vezes, antes de te ver, Amália! Muitas vezes, muitas, muitas… escondida como um fio de água clarinha, no fundo na fala de outra gente, ou no vento, ou no mar: saltava de repente, como um relâmpago, e logo deixa de a escutar. Mas era ela, era a tua voz, Amália! E eu ficava todo a tremer, alagado em suores frios, com um gosto a sangue na boca…

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

OLHARES

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A minha vida profissional desenrolou-se, primeiro numa empresa alemã de import-export, que fugiram logo após o 25 de Abril sem pagar um chavo aos trabalhadores, depois numa agência de navegação.

Ambas as empresas tinham escritórios no Cais do Sodré.

Durante todo esse tempo, tinha o privilégio de subir e descer o Chiado.

Assisti a todas as transformações que a zona foi sofrendo ao longo dos anos, e nesse lapso de tempo está o trágico incêndio que, naquele 25 de Agosto de 1988 provocou o drama que não mais esquecerá.

Soube agora que a Casa Pereira, na Rua Garrett nº  38, tem os dias contados

Uma loja pequena, mercearias finas, aberta desde 1930.

Volta e meia entrava mesmo que não tivesse nada para comprar. Deliciava-me com o aroma do café, cujos lotes eram preparados pelos trabalhadores e o olhar pelas prateleiras repletas de bolachas artesanais, chás, chocolates, garrafas de licores e Vinho do Porto.

Naturalmente, a Casa Pereira fez parte dos 63 estabelecimentos que em 2016 formaram o primeiro grupo do programa Lojas com História.

Muitos já fecharam portas ou mudaram de ramo.

Lê-se no sítio da Câmara Municipal de Lisboa, que Lojas com História é um

«Projeto que surge no âmbito de um programa criado em Fevereiro de 2015 e que tem como prioridade trabalhar com o comércio tradicional e histórico da cidade de Lisboa no sentido de, por um lado, preservar e salvaguardar os estabelecimentos e o seu património material, histórico e cultural, e por outro lado, dinamizar e reativar a atividade comercial, essencial para a sua existência. É movido por um sentido de urgência na proteção deste património, sabendo que nele reside uma parte relevante da identidade e caráter da cidade e que é, ao mesmo tempo, um importante mecanismo social e económico para o desenvolvimento da cidade.»


Mas os donos da Casa Pereira vão fechar portas no final do ano.

As exigências actuais do negócio não se compadecem com romantismos.

Já está tudo apalavrado e a loja vai ser vendida mas, tanto quanto se sabe, não se manterá no ramo.

«Antigamente, 80% eram clientes habituais, agora quase todos os clientes são turistas e gente de passagem.»

Por Dezembro, os chocolates para os netos ainda serão comprados na Casa Pereira e tentarei dar-lhes conta do significado que isso encerra.

Tentarei…

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Para celebrar os 12 anos de carreira a solo, depois da saída dos Madredeus,  Teresa Salgueiro compôs música para um poema de José Saramago, tirado de Provavelmente Alegria.

O vídeo com a canção já está disponível e fará parte da celebração da carreira de Teresa Salgueiro a solo, e é ao mesmo tempo um passear pela  sua carreira a solo e chamar-se-a, tal como o poema de Saramago: Alegria.

Concertos no dia 4 de Novembro da Casa da Música, no Porto, e no dia seguinte, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

ALEGRIA


Já ouço gritos ao longe
Já vem  a voz do amor
Ó alegria do corpo
Ó esquecimento da dor

Já os ventos recolheram
Já o Verão se nos oferece
Quantos frutos quantas fontes
Mais o Sol que nos aquece

Já colho jasmins e nardos
Já tenho colares de rosas
E danço no meio da estrada
As danças prodigiosas

Já os sorrisos se dão
Já se dão as voltas todas
Ó certeza ó certeza
Ó alegria das bodas

José Saramago em Provavelmente Alegria

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Lembrem-se. Sem memória nada terá futuro algum.

João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 3º Volume

OLHAR AS CAPAS


O Santo e o Sr. Teal

Leslie Charteris
Tradução: Jorge Fonseca
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 224
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Simon Templar desembarcou em Inglaterra quando a nova do assassínio de Brian Quell percorria as ruas. Leu a notícia do crime num vespertino comprado em Newshaven e que pouco ou nada acrescentou ao que já sabia.
Brian Quell morreu em Paris, bêbado. Se lhe tivessem dado a escolher o estado em que preferia morrer, provavelmente teria indicado esse mesmo, pois toda a sua existência inútil decorrera nos prazeres da Cidade Alegre.

PAUSA


Agora é como depois de um enterro.
Deixa-me neste leito, do tamanho do meu corpo,
Junto à parede lisa, de onde brota um sonho vazio.

A noite desmancha o pobre jogo das variedades.
Pousa a linha do horizonte entre as minhas pestanas,
e mergulha silêncio na última veia da esperança.

Deixa tocar esse grilo invisível,
- mercúrio tremendo na palma da sombra -
deixa-o tocar a sua música, suficiente
para cortar todo arabesco da memória...

Cecília Meireles em Antologia Poética

terça-feira, 15 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Quando a idade me devolve a luz e o ar, as dedicatórias chocalham no horizonte. À medida que os anos passam, sinto as árvores, o ar, cada vez mais inúteis. E as palavras também.
Já tive melhores ilusões para envelhecer.

Jorge Fallorca em Longe do Mundo

Legenda: pintura de Nels Hagerup

PERDAS E PERDAS


Manifestantes juntaram-se, ontem, no aeroporto El Prat, Barcelona, protestando contra a decisão do Tribunal Supremo, que condenou os principais dirigentes políticos envolvidos na tentativa de independência da Catalunha a penas que vão até 13 anos de prisão.

O protesto provocou o cancelamento de 108 dos 1066 voos previstos para o dia de ontem.

Podia ler-se nas paredes do aeroporto:

«Desculpe por ter perdido o voo, pense no que é perder a Democracia.»

FRUTO


Por um desvio semântico qualquer, que os filólogos ainda não estudaram, passámos a chamar manhã à infância das aves. De facto envelhecem quando a tarde cai e é por isso que ao anoitecer as árvores nos surgem tão carregadas de tempo.

Carlos de Oliveira em Trabalho Poético 2º volume

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Lembro-me de ter lido um texto do Turner, o teórico, em que ele diz que é extraordinário que sendo as nuvens uma coisa tão fascinante as pessoas reparam muito pouco nelas.

Mário Cláudio

OLHAR AS CAPAS



A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty

Peter Handke
Tradução: Maria Adélia Silva Melo
Capa: Luís Miguel Castro
Colecção Ficções nº 24
Relógio d’Água, Lisboa s/d

O guarda-redes está a ver se descobre qual é o canto da baliza que o jogador quer atingir, disse Bloch. Se conhece o jogador, sabe qual é o canto que, de um modo geral, ele prefere. Mas, provavelmente, o jogador que vai marcar o penalty pensa também que o jogador o está a tentar descobrir. Por isso, o guarda-redes tem de admitir que precisamente hoje a bola vai entrar pelo outro canto. Mas o que é que acontece se o jogador que vai marcar o penalty seguir o pensamento do guarda-redes e acabar por decidir atirar para o canto para o qual costumava atirar?

PRÉMIOS NOBEL DA LITERATURA 2018/2019


No passado dia 10 foram atribuídos os Prémios Nobel da Literatura referentes a 2018 e 2019. O do ano passado â escritora escritora polaca Olga Tokarczuk e o deste ano ao austríaco Peter Handke.

Quatro dias depois desta atribuição, morria Sara Danius, 57 anos, vítima de cancro, a primeira mulher a ocupar o cargo de secretária permanente da Academia Sueca, responsável pela entrega do prémio. Foi sob a sua direcção que a Academia Sueca atribuiu o Nobel da Literatura a Bob Dylan, à jornalista bielorussa Svetlana Alexievitch, ao britânico Kazuo Ishiguro.

Mas foi também sob a sua direção que a instituição teve de lidar com um escândalo sem precedentes, movido por acusações de abusos sexuais contra Jean-Claude Arnault, marido de Katarina Frostenson, membro da Academia e por ambos dirigirem um clube literário que contava com o apoio da Academia. A crise que acabaria por levar não só à sua demissão como ao adiamento da entrega do Nobel da Literatura do ano passado para 2019. 

Nunca li nada de Olga Tokarczuk que confessou ter sido apanhada de surpresa pela notícia, algures a meio de uma auto-estrada, num lugar sem nome, afirma acreditar numa literatura que una as pessoas e que mostre quão semelhantes são, que nos torna conscientes do facto de estarmos ligados por fios invisíveis. Que conta a história do mundo como se este fosse um todo vivo e uno, desenvolvendo-se de forma constante à frente dos nossos olhos, e no qual nós temos um pequeno, mas poderoso papel.

A Academia Sueca justificou a escolha de Olga Tokarczuk «por uma imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida».

Para a Academia sueca, a escritora «nunca vê a realidade como algo estável ou permanente e constrói os seus romances numa tensão entre opostos culturais; natureza 'versus' cultura, razão 'versus' loucura, masculino 'versus' feminino, casa 'versus' alienação».

A «grande obra» da laureada é, para a Academia, o «impressionante romance histórico Os livros de Jacob, publicado em 2014 e sem edição em português.

Em Portugal, a autora tem publicado apenas um livro, Viagens, vencedor do Prémio Man Booker Internacional em 2018, e Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, livro que foi finalista do Prémio Booker internacional deste ano.

 Ambos estão editados na Cavalo de Ferro.

Só li um livro de Peter Handke, A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty e comprei-o depois de ter visto o filme, baseado no livro e realizado por Wim Wenders.

Curiosamente, há quem pense o mesmo, no momento do penalty, não é o guarda-redes que sofre qualquer angústia, mas sim o marcador do penalty. Ninguém está muito à espera que o guarda-redes defenda o penalty, se isso acontece tudo bem, mas a angústia, essa está toda no lado do marcador do penalty.

Não desgostei, mas não fiquei com aquele interesse entusiasmante de voltar a ler obras suas.

A Academia entende a atribuição a Peter Handke «por um trabalho influente que, com engenhosidade linguística, explorou a periferia e a especificidade da experiência humana.»

A atribuição do Nobel da Literatura de Literatura provoca sempre largas controvérsias. A de Peter Handke promete vasta discussão.

A principal associação de vítimas do genocídio de 1995 na cidade bósnia de Srebrenica anunciou que pedirá a retirada do Prémio Nobel de Literatura 2019 a Peter Handke, acusando-o de defender responsáveis por crimes de guerra.

Munira Subasic, presidente da associação “Mães de Srebrenica”, disse:

«O homem que defendeu os carniceiros dos Balcãs não pode ter esse prémio. Ficámos muito afectados como vítimas. Como é que alguém que defende criminosos pode receber o Prémio Nobel e, acima de tudo, defende aqueles que cometeram o genocídio?»

Em Srebrenica, milícias servo-bósnias assassinaram 8.000 homens e rapazes muçulmanos em 1995 durante a guerra na Bósnia, um acto que a justiça internacional descreveu como genocídio.

Peter Handke é um admirador confesso de Slobodan Milosevc que foi condenado pelos graves crimes ocorridos durante a guerra dos Balcãs.

O primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, face à atribuição deste Nobel, não receou as palavras de condenação:

«Eu nunca pensei que tivesse vontade de vomitar por causa de um Prémio Nobel, mas a vergonha está a tornar-se uma parte normal do mundo em que vivemos.
Não, não podemos ser tão insensíveis ao racismo e ao genocídio!»

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRNHAS


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Wislawa Szymborska

domingo, 13 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Ainda que não chegue, avanço.

Álvaro Guerra em Memória

ETECETERA


Domingo de eleições.

Conclui, mais uma vez, passados que são 45 anos de democracia, que não elevámos o nível de cultura dos portugueses.

Entristeceu-se com o cair do dia, a chegada da noite.

Sabe o porquê da tristeza e não pode dizer que é só por os pássaros terem partido para o sul.

1.

Francisco Mendes da Silva, membro da comissão política do CDS, numa entrevista ao Público, disse que «o aparecimento do Chega põe em causa todo o regime.»

Diz também que a direita terá de se entender para poder ir a eleições e governar, mas exclui o Chega porque não basta dizer que os políticos são todos uma cambada de ladrões, ou dizer mal dos ciganos.

2.

Rui Montenegro perfila-se para discutir a presidência do PSD a Rui Rio.

O partido necessita de uma lufada de ar fresco, disse, ou alguém por ele.

Nada tenho nada, mesmo nada a ver com o PSD, mas garanto que prefiro que a conduzir os destinos do partido esteja Rui Rio, do que o antigo parlamentar,  um sorriso cínico, um encadeador de palavras que nada dizem, que lembra as políticas pedropassoscoelhos, mais o Relvas, a Maria Albuquerque .

O rapaz diz, agora, que o Partido Socialista era batível se tivesse existido uma oposição firme.


Pois… ou os prognósticos só no fim do jogo, como diria o outro…

3.



Recortes do Público.

4.

Não digo que não existam razões, mas tudo o resto é uma mentira e uma imbecilidade.

Ninguém deixa de ser culpado neste circo de vaidades, desprezos e vinganças.

Um dos últimos nomes que entrou na roda é o de Plácido Domingo.

Jorge Calado, numa crónica publicada no Expresso, deixa  a ideia que Domingo se terá portado um tanto ou quanto mal.


Este é o final da crónica:


5.

No dia 8 morreu o jornalista Rogério Rodrigues.

Ainda sou do tempo em que havia jornais e jornalistas e, com a sua morte, já não resta quase ninguém como eçe.
.já poucos restam
Rogério Rodrigues foi fundador do semanário O Jornal, foi um dos últimos chefes de redação do jornal A Capital, foi jornalista no Público e Jornal de Notícias trabalhou na RTP e no Rádio Clube português.

Quando Fernando Assis Pacheco morreu, Rogério Rodrigues escreveu uma emocionada prosa:

«Morreu o Assis como é do conhecimento público, como já tinha morrido o Esteves da leitaria, o O’Neill da seda chinesa em feira de cigano. Morreu o Assis, o doido que me foi buscar a um modesto liceu de Trás-os-Montes, em má hora me trouxe para os jornais, durante meses me aklimentou, foi meu mestre, foi meu amigo e foi meu compadre. Aquele barbas, aquele doido. Porque o Assis era doido – de ternura, de generosidade, de talento.»

Rogério Rodrigues foi também jornalista do Diário de Lisboa, no qual, em Maio de 1975, publicou uma crónica sobre uma mulher, de seu nome Teresa Olga, que, num intervalo do tratamento psiquiátrico, dançava nua no cruzamento da Avenida Miguel Bombarda com a Avenida 5 de Outubro, acontecimento de que José Afonso faria poema e música e que faz parte do álbum Com as Minhas Tamanquinhas.

DITOS & REDITOS


O calculismo põe as pessoas velhas.

O inferno são os outros.

A nostalgia é a bondade do irrecuperável.

Escrever cansa mas consola.

Nunca há uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão. 

Os dias das pequenas coisas.

O pior na vida não são os maus, são os estúpidos.

A vida passa num fósforo.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


sábado, 12 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


É que eu nasci para eremita. Gosto do barulho dos meus passos, de vento a bater na cara. Gosto de silêncio e solidão. E sobretudo gosto de estar longe.

Ana Bárbara Pedrosa na revista Ler.

Legenda: mar da Islândia