segunda-feira, 18 de junho de 2018

VEM DEITAR-TE COMIGO E SÊ O MEU AMOR


Vem deitar-te comigo e sê o meu amor
Amor deita-te comigo
Sob o cipreste
Na relva macia
Onde o vento se deita
Onde o vento morre
Quando a noite passa
Vem deitar-te comigo
Toda a noite comigo
E sacia-te dos meus beijos
E sacia-te do amor
E que os nossos dois eus conversem
Toda a noite sob o cipreste
Sem se amarem

Lawrence Ferlinghetti em Como eu Costumava Dizer

domingo, 17 de junho de 2018

A VARANDA


A varanda
é só recreio
e altura

para vermos
as pombas
e o céu

para aquecermos os pés
descemos
à rua

e passeamos
com naturalidade

António Reis em Poemas Quotidianos

sábado, 16 de junho de 2018

PERDI O TEU ROSTO


perdi o teu rosto
o de maio
e também o de junho com a cidreira
não há esperança
agora os dias são menos dias
diz-se que são mais curtos
através da folhagem do verão
é uma hipótese para as pequenas aves
e talvez que bicando    voando
recuperem elas qualquer coisa
do que foi a tua passagem por aqui

Abel Neves em Resumo: a poesia em 2013

sexta-feira, 15 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


No fundo sabemos que o outro lado de todo o medo é a liberdade.

ALEF


Quero um gesto perfeito:
o caminho na tua direcção.

Quero encontrar os que não vão comigo
mas que têm a ver com a injustiça.

Quero, no cumprimento desta hora,
manter meus passos firmes.

Quero de coração aberto
não ter que envergonhar-me.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

OLHAR AS CAPAS


Gente da Sicília

Elio Vittorini
Tradução: Rosália Braamcamp
Capa: Bernardo Marques
Colecção Miniatura nº 112
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Eu andava, aquele inverno, sacudido por abstractos furores. Não direi quais, não é isso que me proponho contar. Mas é preciso dizer que eram abstractos, não heroicos, não vivos; de qualquer forma furores, por ver perdida a espécie humana. Isto há muito tempo, e andava com a cabeça caída. Via comunicados gritantes nos jornais e baixava a cabeça; via os amigos, durante uma hora, duas horas, e estava com eles sem dizer uma palavra, baixava a cabeça; e tinha uma rapariga, uma mulher que me esperava, mas nem sequer com ela dizia palavra, também baixava a cabeça. Ia chovendo e passavam os dias, os meses, e eu tinha os sapatos rotos, a água entrava-me nos sapatos, e não havia mais nada além disto: chuva, massacres nos comunicados dos jornais, e água nos meus sapatos rotos, amigos mudos, a vida em mim como um negro sonho, e nenhuma esperança, apenas calma.
O mal era esse: a calma na não esperança. Julgar a espécie humana perdida e não sentir desejo de fazer qualquer coisa contra isso, vontade de perder-me com ela, por exemplo.
Andava agitado por abstractos furores, mas não no sangue, e estava calmo, não tinha vontade de nada. Não me importava que a minha rapariga me esperasse; estar ao pé dela ou não, ou folhear um dicionário era para mim o mesmo; e sair a ver os amigos, os outros, ou ficar em casa era também para mim o mesmo. Estava calmo; era como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem tivesse jamais sabido o que significa ser feliz, como se nada tivesse a dizer, a afirmar, a negar, nada de meu para pôr em causa, e nada a ouvir, a dar, e nenhuma disposição de receber, e como se em todos os meus anos de existência nunca tivesse comido pão, bebido vinho ou café, nunca tivesse estado na cama com um rapariga, nunca tivesse tido filhos, nunca tivesse dado um murro em ninguém, ou não julgasse tudo isto possível, como se nunca tivesse tido uma infância na Sicília entre as piteiras e as minas de enxofre, nas montanhas; mas revolviam-se esses abstractos furores, e achava a espécie humana perdida, baixava a cabeça. E chovia: eu não dizia palavra aos amigos, e a água entrava-me nos sapatos.

AEROPORTO


A mala que segue viagem
Assim como o avião
Têm a grande vantagem
De não terrem coração.

Só formas amplas – metais
De uma brancura de praia!
Dentro, vão sonhos a mais.
É bom que a mala não caia.

Mala do sonho, vais bem
Assim deitada de lado?
Chega-te a roupa que tens
Ou chamamos o criado?

Ou chamamos o fantasma
Da queda livre no espaço,
Verga do pássaro de aço
Onde a poesia se espasma

quinta-feira, 14 de junho de 2018

POEMA


Estas palavras são a casa dum louco.
Anda lá dentro um
e a falar só…

Este papel branco é a luz calcárea
os cegos acordeonistas de Lisboa…

A minha casa fica na Manhã.

José Fernandes Fafe em Poesia Amável

quarta-feira, 13 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


E que aborrecimento não beber. O mundo, em si mesmo, é muitas vezes entediante e carece de verdadeira emoção. Sem álcool uma pessoa está perdida.

Enrique Vila-Matas

OLHAR AS CAPAS


O Caso da Sobrinha do Sonâmbulo

Erle Stanley Gardner
Tradução: Afrânio Zucoloto
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 46

Perry Mason passeava de um lado para o outro da sala, com os polegares na cava do colete, e atesta enrugada.
- Você disse às duas horas, Jackson? – perguntou ao seu adjunto.
. Sim senhor, e recomendei-lhe que estivesse preparada.
Mason consultou o relógio de pulso.
- Quinze minutos atrasada – exclamou irritado.
Della Street, a secretária, perguntou: - Por que não se recusa a recebê-la?
- Porque quero vê-la. Um advogado tem que tratar de uma série de crimes sem interesse para conseguir algo sensacional. Este caso é singular. Quero estudá-lo
- Poderá haver um crime desinteressante? – perguntou Jackson
- Depois de você ter conhecido tantos… - respondeu Mason. – Os mortos são sempre desinteressantes. São os vivos que interessam.
Observando Mason com solicitude, Della Street observou: - Este não é bem um crime… ainda.
- Mas é igualmente fascinante – ajuntou Mason. – Não gosto de ser chamado depois dos factos se cristalizarem. Gosto de tratar com os antecedentes e com os ódios. O crime é a culminação do ódio, da mesma forma que o casamento é a culminação do amor. E afinal de contas, o ódio é mais poderoso que o amor.
- mais interessante? – perguntou ela, observando-o zombeteiramente.
Sem responder, ele recomeçou o passeio pela sala.
- Naturalmente – observou no tom maquinal de quem pensa alto – o que se deve fazer é impedir o crime, quando ele está iminente. Mas, com o meu tirocínio profissional, não posso deixar de imaginar como seria pasmoso o caso de um sonâmbulo que realmente matasse um homem, ignorando tudo o que fez. Não haveria nem malícia, nem premeditação.

BAIRRO ALTO


Era uma rua que ria
Sùbitamente
Não era sorriso era um riso
Em que a rua se abria até morrer
Numa rua perpendicular
Eram roupas dançando
De janela pra janela
- Saias lençóis calças de operário –
Frente a frente e os prédios rindo
Como cabeças que quase se tocassem
De tanto rir àquela hora da manhã
No Bairro Alto

Alberto Lacerda em Exílio

terça-feira, 12 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir.


Legenda: pormenor da capa de Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo da autoria de João da Câmara leme

UMA PONTA DO VÉU


Embora circunscrita ao sector cultural, assim a quis — propor, coordenar, impulsionar, ligar a zo­na clandestina à zona legal e vice-versa —, a mi­nha actividade política não deixava de crescer. Não era raro levar-me o tempo todo. Porque havia as reuniões (muitas e intermináveis), a sua prepara­ção, a distribuição da imprensa, outras tarefas. Sempre recusei ser promovido no mundo subterrâ­neo, como, depois do 25 de Abril, recusaria por duas vezes ser ministro. Eu não era, nunca fora nem seria um político. Era apenas um artista (bom ou mau é outro assunto) que circunstâncias histó­ricas precisas obrigavam a actuar politicamente. Queria-me soldado só. Mas que difícil fazer enten­der isto aos que nasceram para subir, mesmo que fiquem pelo sonho, de soldado a general!
 Erguia-me no meio da noite e olhava, angustia­do, as mesas de trabalho: a secretária, o estirador.
Não tinha tempo. O ensino, a poesia, a ficção, o ensaio, a malfadada crítica, a pintura. Tudo isto chegaria bem para encher uma vida. Ou não? So­bretudo com a demora e a minúcia que me habi­tuara a pôr em tudo e fizera de mim um animal pouco rentável. Não tinha tempo. Ninguém enten­deria isto? Ninguém entenderia que o duelo não era entre o prazer e o dever? Que era entre a vida e a morte?
 Pertenci ao Partido (escusado dizer qual) até Maio de 1952. E dele resolvi sair por não dispor do tempo indispensável para o que mais na vida me interessava (a corda quebrara) e por outras ra­zões, naturalmente. De ordem teórica, de ordem prática. Caíra, enfim, no burguesíssimo orgulho de querer ver mais e melhor do que a direcção duma organização que pensava «por milhões de cére­bros». Toma lá. Com toda a seriedade. E eu, já muito corroído pelo micróbio decadente: pensar por? nem sequer a rogo de?
Mas não era sequer o que actualmente se chama «um dissidente». Anti-stalinista, sim, e desde sempre, muito embora sem grande consciência dis­so. Ainda nem existia a palavra «stalinismo». Vinham longe o XX Congresso, as grandes revela­ções (confirmações), as primeiras tentativas de «de­gelo». Relendo documentos dessa altura, vejo, com pasmo, que respondia a certas objecções feitas em nome do pensamento de Stáline com frases do mesmíssimo Stáline... Estávamos todos muito ver­des, eu também. O que só será compreendido por quem puder reconstituir a época com a minúcia e a precisão indispensáveis.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Apresentação do MUD, 1945. Mário Dionísio está na 1ª fila, 2º a contar da direita. Fotografia tirada do catálogo Passageiro Clandestino.

NENHUMA MORTE


  Eu estava tão perto de ti que tenho frio
  ao pé dos outros.

                                              Paul Éluard

Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas
                                           clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.

Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida e atormentada

desvendará em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.


Joaquim Pessoa de Os Olhos de Isa em Paiol de Pólen

segunda-feira, 11 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena em Poemas Escolhidos

IDADE PARA DIZERMOS O QUE SENTIMOS


A correspondência de António José Saraiva com Óscar Lopes é um osso duro de roer. São cartas longas, abarcando diversos temas e não é fácil extrair pontos de entendimento para quem não as conhece.

Há que nos reduzirmos a pontos que não necessitam de muitos acrescentos.
Como o início desta carta, datada de Abril de 1966, em que Saraiva retoma as suas preocupações com falta de dinheiro:

Meu Caro

Mando-te por portador mais duas folhas revistas da História da Literatura. Não me lembro já do que combinámos, mas acho que não estou atrasado.
Estou preocupado com a falta de notícias do editor. Creio que ele tinha proposto pagar-me uma importância contra a entrega de 300 páginas de original, que há muito excedi já. Será que ele mudou de ideias? Ou haverá qualquer preocupação quanto a um futuro capricho da censura? Vê se me podes mandar uma palavrinha sobre isto, informando-me e aconselhando-me. A verdade é que contava com esse dinheiro, e sem ele não poderei ver os meus filhos nas férias – e há dois anos que os não vejo. Diz-me se te parece conveniente eu escrever ao homem. Antes de Julho precisava de saber com o que posso contar.

Na mesma carta fala de um artigo que Óscar Lopes publicara em O Comércio do Porto sobre A Paixão de Almeida Faria:

Ainda não acabei de ler A Paixão de Almeida faria. É sem dúvida um livro excepcional, embora ainda pouco maduro. Tem certos pontos de contacto com a Agustina. Gostei de ler a tua crítica, é preciso da tua parte uma certa coragem para publicares coisas daquelas. Mas estamos numa idade em que ou dizemos o que sentimos ou o deixamos escapar.

CONTO


foi assim que me sentei neste porto e nestas pedras
ao fim da tarde
e vi anoitecer quando ao longe as luzes se acendiam
na outra margem do rio.

foi assim neste porto e nestas pedras que num tempo
de excessiva solidão escrevi as mais antigas elegias
do desespero.

é certo
que não podes conceber o fascínio dos lugares alucinantes
da memória
os circos pobres e os clowns da primeira alegria
o profundo esquecimento das cidades de província.

contudo
estou a ver-te aí
sentada
um pouco à direita das pequenas coisas
um livro a meio desde o inverno o azul demasiado das paredes
as janelas fechadas donde nunca mais pudeste ver o mar.

foi aqui
ao fim de uma tarde em junho         o sexto mês
foi nestas pedras e neste porto que ao longe eu vi
morrer a grande cidade envolta nas chamas do ocidente destruído.

José Agostinho Baptista em Deste Lugar Onde

domingo, 10 de junho de 2018

AINDA COME...


«… assim como ainda hoje os nossos camponeses utilizam a expressão “ainda come” para significar que o doente continua vivo.»

Cesare Pavese em Ofício de Viver

OLHAR AS CAPAS


Hotel Memória

João Tordo
QuidNovi, Lisboa, Lisboa, Junho de 2008

Tudo era memória. O presente era a memória de si próprio, e era possível existir apenas se pudéssemos conservar as recordações de momentos que nunca se repetiriam. E, no entanto, paradoxalmente, a memória era aquilo que de mais falível um homem possuía: nomes esquecidos ou trocados, caras que se confundiam com outras, lugares onde julgávamos já ter estado, um lápis desaparecido para sempre, os constantes deslizes que tornavam a realidade o lugar de um romance, de uma história, encantadora pela sua fiabilidade, e não pela sua certeza.

DITOS & REDITOS


É regar e pôr ao luar.

Casa de pais, escola de filhos.

Quem tem traça, come massa.

As coisas obtêm-se quando já não as desejamos.

Devagar é que não se vai longe.

As pessoas só são curiosas quando há na vida algo que as surpreenda.

A cultura é tudo e não é nada.

Somos distraídos, o que hoje pode ser um pecado mortal.

EU SEI


eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como uma ponte de velhos manequins
o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através dos
teus cabelos

Mário-Henrique Leiria no Expresso, 25 de Janeiro de 1975

sábado, 9 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Ler é viver todas as vidas.

SOU UM TRISTE SER


Depois de publicar Linhas de Força, o seu quarto livro de poemas, António Gedeão sentiu-se cansado e dispôs-se a não publicar mais poesia.

«Cansado de olhar o mundo e de o ver sempre igual a si mesmo, corrupto e velhaco, ávido e insaciável. Talvez que um ou outro ser humano precisasse da minha poesia. Esses que me desculpassem, que relessem o que já possuíam e a repetissem quantas vezes quisessem. Foi para esses seres que escrevi e alegro-me de lhes ter feito bem, porque o fiz, tenho provas disso. Eu nunca escrevi poemas para ser conhecido, para ser falado, para ser elogiado. Sou um triste ser, risonho e às vezes até divertido. Gosto de exercer o bem e de amar o próximo distante. E nada peço em troca.
Numa noite quente, de verão, em que as vozes alegres dos quintais vizinhos, entravam pela janela do meu quarto, António Gedeão morreu, olhando o chão, sem uma palavra. Gostei de o ver morrer, cheio de saúde, vigorosamente inútil. Envolvi-o nos olhos, aconcheguei-o e sepultei-o no esconderijo da memória. Adeus, António. Adeus. Para sempre?
Em 1983, dezasseis anos depois da publicação do último livro, Linhas de Força, surge nas livrarias um novo volume de António Gedeão. Intitulava-se Poemas Póstumos.
Que diria Jorge de Sena a este insólito acontecimento? Gostava de o saber e ele certamente mais do que eu pois já então falecera há cinco anos.»

Rómulo de Carvalho em Memórias

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Sábado à Tarde

Perdia meia hora,
Parado em frente ao espelho,
Mudava de camisa
Vestia-me outra vez.
Fechava a porta à chave
Acendia um cigarro.
E ensaiando os gestos
Passava já das 3,
Vestia o meu casaco, corria sem parar
E à porta do cinema, morria de pensar,
Que talvez não viesses,
Não pudesses entrar
Num filme para adultos...até te ver chegar.

Perdia meia hora, num gesto do meu braço
A procurar coragem
Para que fosse abraço.
Chegava o intervalo
Fumava sem prazer
E os gestos que ensaiara, morriam ao nascer
Por fim vencia o medo, quase sem te ver,
Esquecia os meus dedos
Cansados de tremer
Por sobre o teu joelho
Esperando a tua mão
Num filme para adultos
Crescíamos então (um beijo de paixão).

Sábado à tarde no cinema da avenida,
Mal as luzes se apagavam
Acendia o coração

Sábado à tarde
Era uma noite bonita
Noite que sendo infinita
Cabia na nossa mão

Paulo de Carvalho do álbum Cantar de Amigos



ELEVADOR DA GLÓRIA


Na mais profunda das confusões
Nas vozes alteradas dos turistas
A pedirem desculpa dos empurrões
Aos vulgares passageiros, aos jornalistas

A quem todos os dias te percorre
Quase sem dar pelo ângulo da subida
E em cada viagem também morre
Ou (pelo menos) deixa um pouco de vida

Às crianças com três anos de idade
Na voz hesitante dos seus pais
Perdida entre o apelo da verdade
E os gostos da poupança, naturais

A todos que comigo viajaram
E posso ter como testemunhas
E este fado comigo cantaram
Numa guitarra velha como as unhas

A todos direi; tomem nota por favor:
não há lugares sentados neste elevador.

José do Carmo Francisco em Transporte Sentimental