quarta-feira, 28 de setembro de 2016

DA VIDA MARÍTIMA DE LISBOA


Os habitantes de Lisboa, tirando os que vivem do mar, quase não sabem da sua vida marítima de grande porto. Poucas são as janelas da cidade abertas para o estuário imenso e maravilhoso. Quando muito, os lisboetas vão até ao Terreiro do paço nas noites calmas de Verão, mas ignoram tudo da vida do rio: os pescadores à linha da ponta do Cais do Sodré; as lentas fragatas que deslizam carregadas de fardos, de sacos, ou de barris, com a sua grande vela, tantas vezes rubra como um grito; as embarcações em repouso, onde fumega um fogareiro com a caldeirada; a descarga do peixe para a Ribeira, com a agitação do povoléu varino; os trabalhos da estiva nos cais onde acostam os cargueiros e os grandes paquetes luxuosos, com o ranger dos guindastes e dos guinchos; o movimento do desembarque de turistas nos cais da Rocha ou de Alcântara; a chegada ou partida dos navios portugueses das carreiras de África; os preparativos dos bacalhoeiros em véspera de partida para os bancos da Terra Nova; as reparações dos vapores nas docas secas e a construção de novos navios nos estaleiros, com o seu martelar metálico; a faina constante dos rebocadores e gasolinas, como gaivotas à roda dos grandes vapores – todo esse fervilhar ruidoso e colorido que é o espectáculo mais curioso de Lisboa.

José Osório de Oliveira na revista Panorama, início dos anos 50.


Legenda: fotografia de Artur Pastor

OLHAR AS CAPAS


O Render dos Heróis

José Cardoso Pires
Editora Arcádia, Lisboa, Janeiro de 1965
Maria Ricarda:
Temos tempo. Cada dia que passas corre a nosso favor. Em Lisboa… Sabe o que acontece em Lisboa? Eu digo-lhe: estão mais cansados do que nós? Os generais e os ministros desentendem-se, os Romas e os outros barões do dinheiro andam às turras…

Sentinela:
Pois sim, mas não largam o dinheiro…

Maria Ricarda:
Como não largam o medo que os atormenta.

Sentinela:
Nem nós a fome que sempre nos acompanhou. Fraca companhia, a fome.

Alexandre:

Depende. Se não fosse a fome, nunca o lobo vinha à estrada. Como diz o ditado: «O satisfeito dorme, o esfaimado labuta». Sabias?

A PROVIDÊNCIA GENEROSA


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...

terça-feira, 27 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


A Bíblia pode ser lida de muitas maneiras. A pior de todas é não ser lida.

Frei Bento Domingues no Público


Legenda: capa do primeiro volume (Os Quatro Evangelhos) a tradução da Bíblia feita por Frederico Lourenço para a Quetzal.

DO BAÚ DOS POSTAIS

Vista da Praça do Comércio de há muitos anos.
O Tejo ainda com fragatas.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Aqui, eram os Alfas situados na Avª Almirante Gago Coutinho, ao Areeiro.

Agora é um condomínio de habitação.

Começou por ser três salas, daí o nome Alfas Triplex, e quando as fechou, passados dez anos sobre a abertura, já eram cinco as salas.

Inaugurado em 1985 não chegou a durar uma década.

Fechou portas em 1997.

Quando os centros comerciais criaram as suas salas, os Alfas ficaram às moscas.

Tinha uma livraria, chamava-se Alfarrábio.

Comprei muitos livros na Alfarrábio e um sei de certeza: Alentejo Não tem Sombra, uma antologia de poesia contemporânea sobre o Alentejo, organizada por Eugénio de Andrade.


Está aí a etiqueta e, no canto superior direito, escrito a lápis pelo livreiro o respectivo preço: 250 escudos.

Hoje, um euro e cinquenta cêntimos.

Estava longe o código de barras.

Estava longe tanta coisa.

E AGORA PARA ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE...



Crónica de Ana Cristina Leonardo no Expresso de 5 de Abril de 2014.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Uma livraria não deve ser visitada à pressa. É preciso sentir o cheiro dos livros e isso só se consegue com tempo.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Um velho anúncio da Cerveja Sagres, talvez 1964.
Sempre a sede que se deseja.

OLHAR AS CAPAS


O Homem Sombra

Dashiell Hammett
Tradução: Almeida Campos
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 152
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Aquele maldito Sparow – explicou-me. – Não se pode ter a mínima contemplação com ele quando está bebido.
Studsy estava na mesa seguinte, aquela que fora derrubada, ajudando as pessoas a levantarem-se e a tomarem posse do que lhes pertencia.

- Isto foi mau – comentava ele – mau para o negócio, mas como se pode evitar uma coisa destas? Isto aqui não é uma taberna, mas a verdade é que também não pretendo que seja um colégio de meninas.

NOTÍCIAS DO CIRCO



Carlos Neto

NOTÍCIAS DO CIRCO



Carlos Neto

PONTO NEVTRÁLGICO


Às cinco horas da tarde
sobe-se e desce-se o Chiado
bebe-se chá no Chiado
bebe-se o ar do Chiado
come-se nas montras do Chiado
conversa-se no Chiado
conversa-se do Chiado
literatura-se no Chiado
figura-se no Chiado.

Chiada-se.

Mendes de Carvalho em Satírica

domingo, 25 de setembro de 2016

AS ESTANTES


A conversa durava já há tanto tempo que se havia tornado insuportável.

A lenga-lenga, essa era sempre a mesma…

Que as estantes estavam horríveis e apinhadas de discos… Que os vinis as ocupavam de ponta a ponta, não deixando espaço para um único bibelot… Que havia  CD’s arrumados em primeiras, segundas e terceiras filas, e outros ainda pior, empilhados tão ao alto que não deixavam sequer ver as molduras, principalmente aquela do pai e da mãe no dia do seu casamento, de que tanto gostava… E se quisesse ir ver melhor, certamente que ainda acabaria por encontrar outros CD’s escondidos debaixo da cama, dentro de caixas de sapatos…

Pensou então para com os seus botões que a coisa tinha chegado a um ponto tal que só haveria uma saída possível: os discos ou a Mulher, um deles teria de saltar borda fora…

Num momento de fraqueza e insanidade mental, optou por ficar com a Mulher.

Agora, as estantes estão lindas…!

As obras completas das irmãs Bronté em vários volumes de uma belíssima capa dura verde escura, com letras e debruados a dourado…; dois pequeninos elefantes de marfim, virados um para o outro…; uma bonita colecção de dedais de porcelana, pintados com  retratos de Mozart, Chopin, a Rainha Sissi e o Palácio de Edimburgo…; um pequenino chapéu de dama antiga, também em porcelana…;  um minúsculo sininho de vidro, com a garantia da Cristal Atlantis…; uma lindíssima colecção de leques de mulher, o mais bonito dos quais com uma pintura da Senhora de Covadonga…; e, é claro, bem enquadrada no meio de tudo e em moldura dourada, a fotografia do seu pai e da sua mãe, no dia do casamento…!

Quando hoje lhe perguntam se não sente saudades da sua Música, responde que não, que tem tudo gravado na memória.

E quando a Família e os Amigos lhe chamam a atenção por ficar, por vezes, demasiado tempo parado em silêncio, com o olhar perdido no vazio, é, muito provavelmente, uma dessas músicas que está a ouvir…

Luís Miguel Mira

UM RAPAZ DE SACAVÉM, UM HOMEM DO MUNDO




No dia 4 de Março de 1967, o fotógrafo Eduardo Gageiro foi o convidado dos Encontros do Diário de Lisboa – Juvenil.
Retomados a 12 de Novembro de 1966 com a presença de Eduardo Prado Coelho, depois com o jornalista Manuel de Azevedo e a 21 de Janeiro de 1967 com Fernando Lopes Graça e Dulce Cabrita.

sábado, 24 de setembro de 2016

OLHARES


Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas que vi ao longo da minha vida são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar.

Papa Francisco

SILÊNCIO


Creio que o vislumbrei através do espaço dos castigos:
o sótão, a parede, a sala vazia das escolas e colégios.
E também as igrejas e o quartel, que eram outras formas de punição.
Devo ter-me portado muito mal - como diz quem se porta bem - para a minha formação lhes ter merecido tantas atenções.
Depois aprendi outros silêncios:
a vastidão das fazendas, em Salgueirais, a solidão dos montes alentejanos, a parada do quartel, em Santa Margarida.
Quando comecei a fugir, às vezes parava o carro e saía para ouvir a noite.
Mas a única vez que me senti perto do silêncio, foi em Aragão, no meio dos Montblancs.
Ao contrário do que me disseram, ou julgava ter ouvido, a morte é a coisa menos silenciosa.
Pelo menos, a avaliar pelos vivos.
Dizem, ou melhor, acusam-me cada vez com mais frequência, que estou a ficar descompreendido.
Se calhar, julgam eles, para me pouparem o desgosto de estar a ensurdecer.
Quem me conhece, sabe como cultivo essa espécie de autismo, onde julgo encontrar-me com o silêncio.
Mas, embora silenciosa, não creio que a surdez seja a via do silêncio.

Jorge Fallorca em Longe do Mundo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Carro de Limpeza de Lisboa antiga.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


… e respondi baixinho, mesmo sem ninguém me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva.

Maria do Rosário Pedreira em O Canto do Vento nos Ciprestes

Legenda: imagem encontrada em Village

CANÇÕES DE ENTARDECERES


A chegada do Outono assinala o regresso às Canções de Entardeceres.
O crepúsculo deslizando lentamente, o barulho de uma rolha que salta de uma garrafa.
Nunca sabemos o mistério que nos pode trazer um pôr-do-sol.

You've got a Friend é a canção escolhida.
 As interpretações de Stacey Kent e, inevitavelmente, James Taylor.


CANÇÕES DE ENTARDECERES


A chegada do Outono assinala o regresso às Canções de Entardeceres.
O crepúsculo deslizando lentamente, o barulho de uma rolha que salta de uma garrafa.
Nunca sabemos o mistério que nos pode trazer um pôr-do-sol.

You've got a Friend é a canção escolhida.
 As interpretações de      e, inevitavelmente. James Taylor.


OLHARES


O presidente da Câmara de Lisboa, anunciou que, ao fim de dez anos de lamentável abandono, a Estação Sul e Sueste, obra de Cottinelli Telmo, vai dar lugar a um terminal turístico que deverá estar concluído no final do próximo ano.
Durante anos e anos Lisboa não usufruiu dos privilégios da sua zona ribeirinha.

Os motivos são vários e o principal obstáculo centrava-se no facto de a quase totalidade do espaço ribeirinho ser pertença da Administração do Porto de Lisboa.
A Estação Sul e Sueste, até aqui, encontrava-se nas mãos da CP.

Foi aqui, na Estação Sul e Sueste que, em miúdo, apanhava os barcos a vapor com destino ao Barreiro para visitar um tio meu que, trabalhador da CUF, vivia no Lavradio – uma longa viagem.

Foi também aqui que, em Junho de 1967, iniciei o percurso da minha incorporação no serviço militar, apanhando o comboio- correio que do Barreiro me levou até Tavira – uma outra longa viagem.

O comboio, viagem em carruagem de 3ª classe, bancos de suma-pau, saiu perto da meia-noite, «paragem em todas as estações e apeadeiros», e chegou a Tavira às sete e meia da manhã. 

OLHAR AS CAPAS


Os Segredos de Lisboa

José Gomes Ferreira
Série de Ficção nº 5
Série a cargo de Alexandre Pinheiro Torres
Edições Tempo, Lisboa s/d

Quero ter a coragem pública de confessar (embora na verdade esta revelação nada interesse ao mundo) que, em certa altura da minha vida, receei sèriamente converter-me numa espécie de tipo popular lisboeta, perseguido nas ruas pelos garotos e pelas gargalhadas das pedras. Período terrível esse, de sonambulismo andante, em que o meu alheamento aproveitava todos os pretextos para calcorrear a cidade, de beco em beco, de lampião em lampião, de tombo em tomo, zaranza, sem rédeas, a esbofetear recordações e até, para extrema vergonha minha, a falar só!
Em resumo: foi apenas por último cerrar de dentes de vigilância que consegui o milagre de evitar o escárnio da perseguição («Eh! maluco! Eh! fala-tonto!») quiçá infalível se não escolhesse para essas vagabundagens as horas desertas da noite, quando o silêncio crepita mais vivo na solidão e sinto o desejo sedento de atravessar as paredes das casas com pés de espectro para andar, de quarto em quarto, de cubículo em cubículo, a espiar o sono secreto de todas as mulheres (sim, de todas) desde as costureirinhas de calças às damas elegantes do desdém dos chás das cinco.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Há sempre uma dose de mistério na vida de uma pessoa. Tal como na poesia.

Jorge Luís Borges

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

NOTÍCIAS DO CIRCO


José António Saraiva publicou uma coisa a que chama Eu e os Políticos em que conta várias histórias que lhe foram contadas em privado, muitas delas de conteúdo sexual.

A coisa é absolutamente inqualificável e mais não é que um verdadeiro acto criminoso.

Durante 23 anos este biltre foi director do Expresso.

Como é que Pinto Balsemão permitiu uma pestilência deste calibre?

Que pensarão, hoje, todos aqueles jornalistas que andaram pelo Expresso, ou que ainda por lá se encontrem a trabalhar.

Também foi director do Sol,mas aqui nada a dizer porque é lixo a dirigir lixo.

A coisa era para ter sido apresentada por Pedro Passos Coelho, que, de todo, desconhecia o conteúdo e, quando lhe deram uns tópicos, manteve a fidelidade ao autor da coisa.

Não sou de voltar com a palavra atrás nem de dar o dito por não dito. Estarei a fazer a apresentação dessa obra,

Passada quase uma semana, Passos Coelho voltou com a palavra atrás e já não apresentará a coisa.

Como se não soubéssemos das vezes em que o ex-primeiro ministro voltou com a palavra atrás, deu o dito por não dito.

Já não apresenta, mas esta é uma daquelas nódoas que ficam e não há benzina que a elimine.

José António Saraiva é filho de António José Saraiva e sobrinho de José Hermano Saraiva, ministro da educação de um governo salazarista.

Um António José Saraiva-gaga-de-todo, apareceu, em 1981, na televisão a bolsar atrocidades sobre o 25 de Abril.

Segundo Mário Castrim, um horror de disparates e, na sua coluna publicada no Diário de Lisboa de 27 de Abril, lavrou sentença:

Alguns cadáveres ainda aprendem a habilidade de usar muletas. Este, nem isso.