Andar às voltas com a banda sonora sonora de Blue
Velvet. de David Lynch.
Como um dia li:
David Lynch, um exímio malabarista das imagens. E por
vezes o Cinema é isso mesmo, uma atração inexplicável por certas imagens que se
instalam bem fundo em nós.
Ficamos a aguardar que a Cinemateca, para o próximo mês, como homenagem,
coloque filmes de David Lynch, principalmente Lost Highway, para ter o prazer de continuar a não perceber nada e não
me preocupar nada com isso.
Mas aqui fica o velho e amável Roy Orbinson, a sua
canção In My Dreams, que Lynch
entendeu – e muito bem – colocar na banda sonora de Blue Velvet.
Para
assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram publicados.
NUNCA CAMINHARÃO
SOZINHOS
Foram os
ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe
«The Beautiful Game.»
Vivem o jogo
como ninguém.
Deslocam-se,
enchem os estádios.
Avós, pais,
filhos, netos, bisnetos: a família.
A festa.
Nem em tempo
de Natal o dispensam.
Bem pelo
contrário: exigem que haja jogos nesses dias.
Nos dias de
transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se
espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família,
do mais novo ao mais velho, foram ao futebol.
Uma das
claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.
Tomaram como
hino You’ll
Necer Walk Alone, uma canção composta por Richard
Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945
e que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King.
Mas seria com
a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, que a
canção se tornaria o hino do clube.
Hoje, outros
clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.
Simplesmente
arrepiante.
Uma visita ao
You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música norte-americana,
bem como outros, que gravaramYou'll
Never Walk Alone.
Shirley Jones gravou-a para a banda sonora de Carousel, mas há
versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Mahalia Jackson, Nina
Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra Streisand, Andy Williams, Judy
Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom
Jones.
Também é
possível encontrar uma versão dos Beatles.
Estas são as
minhas escolhas.
A versão da
Nina Simone é tocada ao piano.
Numa
entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos
dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio
destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:
Fui a uma rádio em Los Angeles, que
passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o
início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete
da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde
era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa.
E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone,
pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina
Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí
daquela rádio orgulhoso.
Um orgulho
tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a
pagar excesso de bagagem. Texto publicado em 24 de Maio de 2016
Escrevi «Born to Run» sentado à beira da minha cama,
numa casa de campo recém-alugada, no número 7/2 de West End Court, em West Long
Branch, New Jersey. Na altura estava mergulhado num frenesim de descoberta do
rock’n’roll dos anos 50 e 60. Tinha posto uma pequena mesa com um gira-discos
ao lado da minha cama, e só precisava de rebolar sonolentamente para pôr a
agulha a deslizar sobre aquele que fosse o meu álbum preferido do momento. À noite
desligava as luzes e deixava-me embalar até à terra dos sonhos pelas vozes de Roy
Orbison, Phil Spector ou Duane Eddy. Aqueles discos falavam-me de uma maneira
que a maior parte do rock produzido no final da década de 60 e início da década
de 70 não conseguia fazer. Amor, trabalho, sexo, diversão. O romantismo obscuro
de de Orbison ou de Spectro estava em sintonia com a minha ideia de romance,
com o próprio amor a mostra-se uma enunciação arriscada. Aquelas eram gravações
bem trabalhadas, a tresandarem de inspiração, servidas por grandes canções,
grandes vozes, grandes arranjos instrumentais e excelentes músicos.
Orbison, na verdade, transcendia todos os géneros – folk, country,rock-and-roll,
e quase tudo o mais. As suas músicas misturavam todos os estilos e até alguns
que ainda não tinham sido inventados. Ele podia soar mal e desagradável num
verso e depois, no verso seguinte, cantar numa voz de falsete como a do Frankie
Valli. Com o Roy não se sabia se estávamos a ouvir mariachi ou ópera. Ficávamos
com pele de galinha. Tudo nele era oito ou oitenta. Soava como se estivéssemos no
cimo do monte Olimpo e soubesse o que andava a fazer. Uma das suas primeiras
canções, «Ooby Dooby» tinha sido bastante popular mas a sua nova canção não era
nada assim. «Ooby Dooby» era decepcionantemente simples, mas Roy tinha
progredido. Estava agora a cantar as suas composições em três ou quatro
oitavas, o que nos dava vontade de atirar com o carro por uma ravina abaixo.
Cantava como um criminosos profissional. Começava por um nível baixo, quase
inaudível, mantinha-se por lá e depois, surpreendentemente, lançava-se para
entoações exageradas. A sua voz podia enlouquecer um cadáver e fazia-nos resmungar
coisas do género «Meu, não acredito nisto». As canções dele tinham canções
dentro de canções. Alternavam de tonalidade maior para menor sem qualquer
lógica. Orbison não brincava em serviço – não era nem um amador nem um
principiante. Não havia nada como ele na rádio. Ficava na esperança de ouvir
outras canções boas mas comparado com Roy, o que passava na rádio era uma
chatice… sem coragem e sem energia. Tratavam-nos como se não tivéssemos
cérebro. À excepção do George Jones, não gostava da música country. Elvis
Presley. Já ninguém o ouvia. Há anos que ele tinha feito aquelas coisas com as
ancas e levado as canções a outros planetas. Ainda assim, eu continuava a ligar
o rádio, provavelmente mais por hábito do que por qualquer outra razão.
O dia de São Valentim, o dos namorados passou e eu não
dei por nada. Não tinha tempo para o romance. Afastei-me da janela, do Sol de
Inverno, atravessei a sala e dirigi-me ao fogão, fiz e servi-me de uma chávena
de chocolate quente e depois liguei o rádio.
Andava sempre à pesca de qualquer coisa na rádio. A
par dos comboios e dos sinos, a rádio fazia parte da banda sonora da minha
vida. Rodava o botão para trás e para diante e a voz do Roy Orbison saía
disparada das pequenas colunas. A sua nova canção «Running Scared» explodiu na
sala. Nos últimos tempos andava a ouvir canções com conotações folk.Tinha havido algumas no passado -
«Big Bad John», «Michael Row the Boat Ashore», «A Hundred Pounds of Clay». Brook
Benton tinha feito do «Boll Weevil» um êxito contemporâneo. Os Kingston Trio e
os Brother Four andavam a passar na rádio. Eu gostava dos Kingston Trio.
Gostava da maioria das coisas deles ainda que o estilo fosse limpinho e
colegial. Canções
como «Gateway John», «Remember the Alamo», «Long Black Rifle». Havia
sempre um qualquer tipo de música folk a fazer sucesso. Até a canção «Endless
Sleep» da Jodie Reynolds, que tinha sido popular anos antes, era folk na sua
essência.
Foram os ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful Game.»
Vivem o jogo
como ninguém.
Deslocam-se,
enchem os estádios.
Avós, pais,
filhos, netos, bisnetos: a família.
A festa.
Nem em tempo
de Natal o dispensam.
Bem pelo
contrário: exigem que haja jogos nesses dias.
Nos dias de
transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se
espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família,
do mais novo ao mais velho, foi ao futebol.
Uma das
claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.
Tomaram como
hino You’ll Necer Walk Alone, uma
canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para
o musical da Broadway Carousel, de 1945 e que, em 1956, foi
adaptado ao cinema por Henry King.
Mas seria
com a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade,
que a canção se tornaria o hino do clube.
Hoje, outros
clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.
Simplesmente
arrepiante.
Uma visita
ao You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música
norte-americana, bem como outros, que gravaramYou'll Never Walk Alone.
Shirley Jones gravou-a para a banda
sonora de Carousel, mas há versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha
Franklin, Mahalia Jackson, Nina Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra
Streisand, Andy Williams, Judy Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy
Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom Jones.
Também é
possível encontrar uma versão dos Beatles.
Estas são as
minhas escolhas.
A versão da
Nina Simone é tocada ao piano.
Numa
entrevista ao Expresso (06.02.2016),
por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos
de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:
Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa
jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início
dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina
Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era
Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E
quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone,
pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina
Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí
daquela rádio orgulhoso.
Um orgulho
tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, o obrigaram a pagar excesso
de bagagem.