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sábado, 18 de janeiro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Andar às voltas com a banda sonora sonora de Blue Velvet. de David Lynch.

Como um dia li:

David Lynch, um exímio malabarista das imagens. E por vezes o Cinema é isso mesmo, uma atração inexplicável por certas imagens que se instalam bem fundo em nós.
Ficamos a aguardar que a Cinemateca, para o próximo mês, como homenagem, coloque filmes de David Lynch, principalmente Lost Highway, para ter o prazer de continuar a não perceber nada e não me preocupar nada com isso.

Mas aqui fica o velho e amável Roy Orbinson, a sua canção In My Dreams, que Lynch entendeu – e muito bem – colocar na banda sonora de Blue Velvet.


domingo, 22 de março de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

NUNCA CAMINHARÃO SOZINHOS

Foram os ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful Game.»

Vivem o jogo como ninguém.

Deslocam-se, enchem os estádios.

Avós, pais, filhos, netos, bisnetos: a família.

A festa.

Nem em tempo de Natal o dispensam.

Bem pelo contrário: exigem que haja jogos nesses dias.

Nos dias de transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família, do mais novo ao mais velho, foram ao futebol.

Uma das claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.

Tomaram como hino You’ll Necer Walk Aloneuma canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945 e que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King.

Mas seria com a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, que a canção se tornaria o hino do clube.

Hoje, outros clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.

Simplesmente  arrepiante.

Uma visita ao You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música norte-americana, bem como outros, que gravaram You'll Never Walk Alone.

Shirley Jones gravou-a para a banda sonora de Carousel, mas há versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Mahalia Jackson, Nina Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra Streisand, Andy Williams, Judy Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom Jones.

Também é possível encontrar uma versão dos Beatles.

Estas são as minhas escolhas.

A versão da Nina Simone é tocada ao piano.

Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.

Texto publicado em 24 de Maio de 2016







segunda-feira, 17 de abril de 2017

AS TERRAS DOS SONHOS


Escrevi «Born to Run» sentado à beira da minha cama, numa casa de campo recém-alugada, no número 7/2 de West End Court, em West Long Branch, New Jersey. Na altura estava mergulhado num frenesim de descoberta do rock’n’roll dos anos 50 e 60. Tinha posto uma pequena mesa com um gira-discos ao lado da minha cama, e só precisava de rebolar sonolentamente para pôr a agulha a deslizar sobre aquele que fosse o meu álbum preferido do momento. À noite desligava as luzes e deixava-me embalar até à terra dos sonhos pelas vozes de Roy Orbison, Phil Spector ou Duane Eddy. Aqueles discos falavam-me de uma maneira que a maior parte do rock produzido no final da década de 60 e início da década de 70 não conseguia fazer. Amor, trabalho, sexo, diversão. O romantismo obscuro de de Orbison ou de Spectro estava em sintonia com a minha ideia de romance, com o próprio amor a mostra-se uma enunciação arriscada. Aquelas eram gravações bem trabalhadas, a tresandarem de inspiração, servidas por grandes canções, grandes vozes, grandes arranjos instrumentais e excelentes músicos.

Bruce Springsteen em Born to Run

Legenda: Long Branch, New Jersey pintura de Winslow Homer


sábado, 21 de janeiro de 2017

«MEU, NÃO ACREDITO NISTO»


Orbison, na verdade, transcendia todos os géneros – folk, country, rock-and-roll, e quase tudo o mais. As suas músicas misturavam todos os estilos e até alguns que ainda não tinham sido inventados. Ele podia soar mal e desagradável num verso e depois, no verso seguinte, cantar numa voz de falsete como a do Frankie Valli. Com o Roy não se sabia se estávamos a ouvir mariachi ou ópera. Ficávamos com pele de galinha. Tudo nele era oito ou oitenta. Soava como se estivéssemos no cimo do monte Olimpo e soubesse o que andava a fazer. Uma das suas primeiras canções, «Ooby Dooby» tinha sido bastante popular mas a sua nova canção não era nada assim. «Ooby Dooby» era decepcionantemente simples, mas Roy tinha progredido. Estava agora a cantar as suas composições em três ou quatro oitavas, o que nos dava vontade de atirar com o carro por uma ravina abaixo. Cantava como um criminosos profissional. Começava por um nível baixo, quase inaudível, mantinha-se por lá e depois, surpreendentemente, lançava-se para entoações exageradas. A sua voz podia enlouquecer um cadáver e fazia-nos resmungar coisas do género «Meu, não acredito nisto». As canções dele tinham canções dentro de canções. Alternavam de tonalidade maior para menor sem qualquer lógica. Orbison não brincava em serviço – não era nem um amador nem um principiante. Não havia nada como ele na rádio. Ficava na esperança de ouvir outras canções boas mas comparado com Roy, o que passava na rádio era uma chatice… sem coragem e sem energia. Tratavam-nos como se não tivéssemos cérebro. À excepção do George Jones, não gostava da música country. Elvis Presley. Já ninguém o ouvia. Há anos que ele tinha feito aquelas coisas com as ancas e levado as canções a outros planetas. Ainda assim, eu continuava a ligar o rádio, provavelmente mais por hábito do que por qualquer outra razão.

Bob Dylan em Crónicas

domingo, 15 de janeiro de 2017

SEMPRE À PESCA DE QUALQUER COISA NA RÁDIO


O dia de São Valentim, o dos namorados passou e eu não dei por nada. Não tinha tempo para o romance. Afastei-me da janela, do Sol de Inverno, atravessei a sala e dirigi-me ao fogão, fiz e servi-me de uma chávena de chocolate quente e depois liguei o rádio.
Andava sempre à pesca de qualquer coisa na rádio. A par dos comboios e dos sinos, a rádio fazia parte da banda sonora da minha vida. Rodava o botão para trás e para diante e a voz do Roy Orbison saía disparada das pequenas colunas. A sua nova canção «Running Scared» explodiu na sala. Nos últimos tempos andava a ouvir canções com conotações folk. Tinha havido algumas no passado - «Big Bad John», «Michael Row the Boat Ashore», «A Hundred Pounds of Clay». Brook Benton tinha feito do «Boll Weevil» um êxito contemporâneo. Os Kingston Trio e os Brother Four andavam a passar na rádio. Eu gostava dos Kingston Trio. Gostava da maioria das coisas deles ainda que o estilo fosse limpinho e colegial. Canções como «Gateway John», «Remember the Alamo», «Long Black Rifle». Havia sempre um qualquer tipo de música folk a fazer sucesso. Até a canção «Endless Sleep» da Jodie Reynolds, que tinha sido popular anos antes, era folk na sua essência.

Bob Dylan em Crónicas 

Legenda: Roy Orbinson

terça-feira, 24 de maio de 2016

NUNCA CAMINHARÃO SOZINHOS


Foram os ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful Game.»

Vivem o jogo como ninguém.

Deslocam-se, enchem os estádios.

Avós, pais, filhos, netos, bisnetos: a família.

A festa.

Nem em tempo de Natal o dispensam.

Bem pelo contrário: exigem que haja jogos nesses dias.

Nos dias de transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família, do mais novo ao mais velho, foi ao futebol.

Uma das claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.

Tomaram como hino You’ll Necer Walk Alone, uma canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945 e que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King.

Mas seria com a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, que a canção se tornaria o hino do clube.

Hoje, outros clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.

Simplesmente  arrepiante.

Uma visita ao You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música norte-americana, bem como outros, que gravaram You'll Never Walk Alone.

Shirley Jones gravou-a para a banda sonora de Carousel, mas há versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Mahalia Jackson, Nina Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra Streisand, Andy Williams, Judy Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom Jones.

Também é possível encontrar uma versão dos Beatles.

Estas são as minhas escolhas.

A versão da Nina Simone é tocada ao piano.

Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, o obrigaram a pagar excesso de bagagem.