sexta-feira, 30 de novembro de 2012

À LUPA


Confrontado com o crescimento do desemprego de 16,2% para 16,3% entre Setembro e Outubro, admite-se que será de 17% nos primeiros meses do próximo ano, o ministro da Solidariedade e da Segurança Social mostrou-se muito preocupado e afirmou que reformas estruturais terão de ser implementadas para relançar a economia.
Mais não disse.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Esta é a lª página do último Diário de Lisboa.
Um adeus que se funde em 28 páginas de jornal e mais 32 páginas de um suplemento em que se fala, muito resumidamente da longa caminhada, perto de 70 anos,  de um jornal que foi uma referência para tantas gerações.
Vitor Silva Tavares, um das muitas centenas e centenas de colaboradores que passaram por aquela casa, resume: O Diário de Lisboa sobreviveu à censura, mas não resistiu à falta de dinheiro.
Na última página, o jornalista Acácio Barradas deixou expressa a Certidão de Óbito:
Aos trinta dias do mês de Novembro de mil novecentos e noventa morreu na sua residência do Bairro Alto, à rua Luz Soriano, 44 o jornal “Diário de Lisboa”. O extinto que contava 69 anos, teve uma prolongada agonia, a que resistiu com bravura durante os últimos anos. Para o efeito muito contribuíu não apenas a indómita vontade de viver do paciente, mas o saber dos especialistas que, ao longo dos tempos, foram chamados à cabeceira, a fim de lhe diagnosticarem os males e receitarem o tratamento adequado. Submetido recentemente a um processo de recuperação duradoira, acabaria no entanto por sucumbir a uma hemorragia financeira de 400 mil contos por falta de injecção de publicidade indispensável em tal emergência. Tendo atingido um estado de debilidade desesperada, que afectou o bom rendimento de todos os seus órgãos vitais, desde o redactorial ao administrativo e ao técnico, o “Diário de Lisboa” acabaria por ser vítima das implacáveis leis do mercado, hoje mais do que nunca submetidas ao império do dinheiro, um estendal de indiferença pelos valores que, ao longo da sua longa vida, lhe exornaram o título e lhe inculcaram a atitude de altaneira de quem não sabe dobrar a espinha. Com o seu desaparecimento, a esquerda democrática portuguesa perde um dos seus mais ilustres e combativos membros, cuja falta porventura irá em breve sentir dramaticamente. Paz à sua alma.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Postal da Comissão Para a Igualdade no Trabalho e no Emprego.

- Mulheres em cargos de alta direcção
- Igualdade salarial entre mulheres e homens
- Conciliação da vida profissional com a vida familiar.

MATARAM A TUNA!


Nos domingos antigos do bibe e pião
saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.


Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.

 
Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor ...
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar ... )
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!

 
Entanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
- que era indecente aquela marcha parecia
até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim.


Mas Zé Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
raspavam notas violentas
rasgava a Tuna o quebranto da vila
tangendo nas violas e bandolins
a heróica marcha Almadanim!

 
Meus companheiros antigos do bibe e pião
agora empregados no comércio
desenrolando fazenda medindo chita
agora sentados
dobrados nas secretárias do comércio
cabeças pendidas jovens-velhinhos
escrevendo no Deve e Haver somando somando
na vila quieta
sem vida
sem nada
mais que o sossego das falas brandas ...
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha Almadanim?!


Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinita despertemos e vamos
eia!
vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico

como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!


Manuel da Fonseca, Poemas Completos, Colecção Poetas de Hoje  nº 7, Portugália Editora, Lisboa Abril 1963.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS



Amanhã Sábado às 14h30, o Desfile de Bandas Filarmónicas desce a Avenida da Liberdade. Este desfile está integrado nas comemorações do 1º de Dezembro do Município de Lisboa.

Serão 16 agrupamentos e mais de 700 músicos, provenientes dos mais diversos pontos do país que irão descer a Avenida da Liberdade no próximo dia 1 de Dezembro, às 14h30, numa merecida homenagem a esta prática musical e à importante acção formativa e cívica das bandas filarmónicas.

Tendo como ponto de partida o monumento aos Mortos da Grande Guerra, o desfile descerá até à Praça dos Restauradores para uma interpretação conjunta das Bandas participantes sob a direcção do Maestro António João Cardoso

Ao longo do desfile serão interpretadas várias marchas bem como o Hino da Restauração. O alinhamento do momento colectivo conta também com a interpretação dos hinos Maria da Fonte e Nacional.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

QUOTIDIANOS


Há desesperos, há indignações, há raivas, que nos tolhem o pensamento, os movimentos.

Há tempos em que não conseguimos escrever uma simples palavra que seja.

Há cartas abertas a exigir que o governo mude de rumo, que se demita.

Também gostava de voltar a acreditar no Pai Natal.

Nós merecemos o que nos está a acontecer porque ao longo dos tempos, sempre elegemos gente que apenas pensaram em si próprios e nos amigos… sempre!

Zarpei de casa e aportei o Alto de Santa Catarina ver o vaivém dos cacilheiros, o voo das gaivotas.

Ali, sentado, a lagartar ao sol, no meio desta luz maravilhosa que Lisboa tem, pensando nos acontecimentos, nos lampejos dos dias que correm, logo teria de lembrar de Saramago, uma passagem, ou duas, em O Ano da Morte de Ricardo Reis:

Quando chegar a casa, irei reler a tal parte que agora me ocorreu.

Não perguntem porquê.

A nós o que nos vale, meu caro doutor Reis, neste cantinho da Europa, é termos um homem de alto pensamento e forme autoridade à frente do governo e do país.

E porque nem todas as lembranças são inventadas, quase na página seguinte, estas outras palavras:

 … muitas vezes acontece, mais fatiga o que não se faz, repousar é tê-lo feito.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A HORA DAS NOVELAS


Banda Sonora de Insensato Coração (2012):

Coração em Desalinho - Maria Rita
Sem Poupar Coração - Naba Caymmi
Ele é Minha Cara - Mart'nália
Love - Simone
Só Louco - Dori Caymmi
Pra Discutir com Madame - Diogo Nogueira
Ela Vai Pro Mar - Luiz Melodia
Trocando em Miúdos - Maria Bethânia
A Tonga da Milonga do Kabuleté - Toquinho, Vinicuius Moraes e Monsueto
20 Anos Depois - Elis Regina
Turma do Funil (No Baixo Leblon) -  Miúcha, Tom Jobim, Chico Bauarque
Domingo Azul no Mar - Oscar Castro Neves e Leila Pinheiro
Verdade da Vida - Ney Matogrosso
Homem com H - Zeca Baleiro
Super Homem - Caetano velosos
Eu Preciso de Você - Verônica Sabino
Que País é Este - Legião Urbana
Magia - Instrumental

DEPOIS DA CHUVA


Abre a janela, quanto mais não seja
Para que abra um sorriso na parede!

Miguel Torga, Diário Vol. VI Coimbra Editora, Coimbra 1949

POSTAIS SEM SELO


… como mais tarde minha mulher diria – ao povo português basta-lhe sobreviver, esse é o drama nacional.

Ruben A. Em O Mundo à Minha Procura, 2º volume Assírio & Alvim, Lisboa Outubro 1993.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

QUOTIDIANOS


O Orçamento do Estado para 2013 foi hoje aprovado com os votos a favor do PSD e do CDS e os votos contra do PS, PCP, Bloco de Esquerda e do deputado do CDS Rui Barreto.

No encerramento do debate o ministro das Finanças reconheceu os riscos e as incertezas no exercício orçamental que "advêm do ajustamento da economia portuguesa, mas sobretudo no contexto externo que conheceu nos últimos meses uma assinalável deterioração.

Num documento de previsões económicas hoje divulgado pela OCDE , este organismo prevê que a economia portuguesa se contraia 1,8% em 2013, quase o dobro do que espera o Governo e a 'troika' (1%).

A OCDE também prevê que o crescimento económico só regresse no final de 2013, enquanto o Governo e a toika esperam que já no segundo trimestre do próximo ano a economia volte a crescer.

A OCDE prevê, tal como o Governo, que o desemprego atinja um máximo histórico no próximo ano. A previsão da OCDE é, contudo, ainda mais gravosa: uma taxa de 16,9%, mais ainda que os 16,4% avançados pelo Governo.

Organizada pela CGTP, realizou-se hoje, frente à Assembleia da República, e enquanto o orçamento era discutido  uma concentração, no decorrer da qual o povo e os trabalhadores gritaram bem alto:

Cambada de gatunos!

À LUPA


Uma vitória sobre o Benfica salva a nossa época.

Rui Oliveira Costa, comentador desportivo, membro do Conselho Leonino, em declarações à Rádio Renascença.

DO BAÚ DOS POSTAIS



6 de Setembro de 1913.
(Desculpa ir tão mal escripta).

QUOTIDIANOS

Foi o desgosto de estarem velhos e doentes. É a explicação que os vizinhos adiantam para o facto de um casal de idosos, 78 e 74 anos, se terem lançado ao Rio Douro, dentro da sua viatura, perto de Gondomar. Não tinham problemas de ordem económica. Apenas estavam doentes e sós.

Dos jornais

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS


Leite Derramado

Chico Buarque de Holanda
Publicações Dom Quixote, Lisboa Junho 2009

Ele já não dizia coisa com coisa, se intitulava camareiro de dom Afonso VI e acreditava estar no palácio de Sintra, em mil seiscentos e lá vai pedra. Tive pena porque para o velar só havia mamãe e eu, me admirou que não comparecessem autoridades, marechais, nem um representante da família real. Eu só via gente estranha à sua volta, uns indivíduos de aparência bronca que se riam do velho. E juntou mais gente quando ele esbugalhou os olhos, ficou roxo e perdeu a voz, queria falar e não saía nada. Então abriu passagem uma jovem enfermeira, que se debruçou sobre meu tetravô, tomou suas mãos, soprou alguma coisa em seu ouvido e com isso o apaziguou. Depois passou de leve os dedos sobre as suas pálpebras, e cobriu com o lençol seu outrora belo rosto.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

À LUPA


Os portugueses estão a usar cada vez mais o cartão de crédito – o uso desta forma de pagamento aumentou pela primeira vez em cinco anos, registando uma subida de 9,5%, segundo os últimos dados da Mastercad. A explicação é simples: o orçamento familiar está cada vez mais apertado e o cartão de crédito é muitas vezes visto como uma espécie de “tábua de salvação” para os consumidores conseguirem saldar as suas dívidas.
A verdade é que esta tentação pode sair cara. Se o uso aumentou, também os juros a pagar não param de crescer. De acordo com os dados do Banco de Portugal (BdP), a taxa de juro média do crédito dos cartões subiu de 23,7% no final de 2009 para 28% no terceiro trimestre de 2012.
Jornal I

CARTA A MÁRIO CESARINY NO DIA DA SUA MORTE


Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
que morreste. Talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nossos (sic), vivo.


Algo, de facto, deve ter acontecido
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume; quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.


Há apenas agora um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.


Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disto de repente
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.

Manuel António Pina em Resumo: a poesia em 2011, Assírio & Alvim, Lisboa Março 2012.

POSTAIS SEM SELO


Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.


Martha Medeiros

Legenda: pintura de Carlo Carrà.

domingo, 25 de novembro de 2012

À LUPA


Mais de 1900 ocorrências, 1310 mortos, quase 42 mil desalojados. Este é a nova contabilidade das catástrofes naturais causadas pela chuva em Portugal nos últimos 150 anos, segundo os resultados de um projecto que será apresentado na segunda-feira, em Lisboa. É o retrato até agora mais sistematizado das cheias e deslizamentos de terra no país.

Os casos mais dramáticos ocorreram, porém, em 1967, nas cheias na região de Lisboa. Foi um episódio instantâneo, causado por forte chuva, concentrada em pouco tempo, na madrugada do dia 26 de Novembro, há exactamente 45 anos. A contabilidade oficial é de 449 mortos.

Lisboa e Coimbra são os concelhos com mais cheias e inundações registadas pelo projecto Disaster – 133 e 129. Mas onde morreram mais pessoas foi na zona de Loures, o epicentro do drama de 1967.

Ricardo Garcia no Público.

Legenda: Lisboa, inundações 1967. Imagem do Diário de Notícias.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS



Sábado, 25 de Novembro de 1967
Estava em Tavira a cumprir o serviço militar obrigatório.
Tinha vindo a Lisboa passar o fim-de-semana e aproveitar para tirar a medida ao 2º fato do casamento, que ocorreria em Dezembro.
A chuva fustigava Lisboa.
Perto das sete da tarde estávamos, eu e a Aida, no alfaiate, num 3º andar da Rua do Fanqueiros, a fazer a prova do fato.
Um enorme trovão e ficámos às escuras. As costureiras trouxeram um candeeiro a petróleo, algumas velas.
Muito à média luz, conseguiu o alfaiate fazer a prova possível.
Como não houve oportunidade para outras provas, o facto é que o fato nunca me assentou bem.
Também nunca foi coisa a que desse qualquer tipo de importância.




Saímos do alfaiate sem que a luz tivesse sido reposta.
A chuva desabava como um dilúvio.
Aguardámos bem perto de uma hora e acabámos por nos fazer ao caminho.
A forte ventania destruíra os chapéus-de-chuva, as gabardines estavam ensopadas em água, não protegiam coisa alguma.
Não havia transportes.
A Avenida Almirante Reis era um rio, o Martim Moniz era um lago, onde carros, tudo o que imaginar se possa, flutuavam.
Abandonávamos os vãos de escada quando a chuva aliviava um pouco, se é que num temporal como aquele se pode falar em momentos de alívio
Um pânico indescritível apossara-se das pessoas.
Sem telefones não era possível avisar as famílias. Ninguém sabia de ninguém.
Da Rua dos Fanqueiros até ao alto da Penha de França demorámos mais de três horas.




A rádio e a televisão apenas transmitiam o que a censura impunha, ou seja: nada!
Toda a noite choveu.
Só no domingo começámos a ter uma ideia, pálida ideia, da tragédia que se abatera sobre Lisboa e arredores.
Os jornais, rigorosamente vigiados, davam notícia: 250 mortos.
Lamento profundamente a tragédia e, na medida do possível, tudo farei para minorar o sofrimento das pessoas que necessitarem dos nossos socorros, palavras do ministro do Interior Santos Júnior, anunciava-se que o presidente Américo Tomás, oportunamente, visitaria alguns dos locais atingidos pela intempérie.




Joaquim Letria, jornalista do Diário de Lisboa, trinta anos depois, resumiu para o Diário de Notícias:
A Censura cortava sobretudo o número de mortos e o que se referia às causas da trgédia e à incúria governamental e camarária que estava por trás da catástrofe.
No DL fomos, o Pedro Alvim e eu, destacados para cobrir os acontecimentos. Estivemos noites sem ir à cama e tínhamos de fazer a nossa própria contabilidade dos corpos (contávamo-los um a um, o que o Alvim imortalizou numa belíssima crónica intitulada «Os Mortos e os Fósforos») e todos os dias tentávamos actualizar esse número, que a Censura nunca deixava passar. Chegávamos às centenas, quando os números dos censores não ultrapassavam as dezenas.
Depoimento do jornalista João Paulo Guerra:
Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém».»
No seu livro, Os Segredos da Censura, César Príncipe, reproduz estas determinações dos coronéis:



Em 4 de Dezembro o governo contabilizava 458 mortos.
O número definitivo de mortos nunca veio a ser conhecido, mas calcula-se que tenham morrido para cima de 700 pessoas.
A censura retalhou tudo quanto assinalava ausência de infra-estruras, bem como a falta de apoio às populações.
Escreveu o jornalista António Valdemar:
Terrível e insólito paradoxo: um regime político que tinha na Igreja católica um dos seus mais poderosos sustentáculos, remetia para Deus as culpas e responsabilidades da catástrofe.
O Diário de Notícias, num dos seus editoriais:
Ocorre-nos perguntar se não estará alguma coisa profundamente errada com o sistema de colectores da capital.
Sim, é verdade, os colectores da cidade não estavam preparados para o anormal caudal de água que dos céus desabou, mas outros motivos existiam, ainda existem.
Por exemplo, o arquitecto Ribeiro Telles, sempre se bateu arduamente pelo desenvolvimento entre o ordenamento do território e a terra, sistematicamente chamou a atenção para o perigo de canalizar ribeiras ou secar o subsolo.
Nunca foi ouvido.




Em Quintas, uma aldeola poucos quilómetros a norte de Vila Franca de Xira, morreram mais de cem pessoas.
O fatídico 25 de Novembro de 1967, pôs a nu a miséria em que a população da Grande Lisboa vivia.
A maioria das vítimas habitava barracas construídas nos cursos de água, em escarpas, onde calhava.
Estão passados 45 anos.
Há acontecimentos que nunca esquecem!
Há lições que nunca devíamos esquecer.
Acabamos por esquecer...
Volta e meia a desgraça das cheias, das inundações bate-nos, de novo. à porta.
Ouvem-se lamentos, as promessas de sempre. 
Até um outro dia em que tudo volta a acontecer!

Fontes:
1)      Os Segredos da Censura, César Príncipe, Editorial Caminho, Lisboa Maio 1979
2)      Diário de Notícias de 25 de Novembro de 1997
3)      Pública, revista do Público, 23 de Novembro de 1997

OS MORTOS E OS FÓSFOROS


Era ao cair da tarde – e havia mortos.Todos muito juntos, enlameados, compridos.
Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.

Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades. Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos. Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.«Se tu és João” – dizia para mim – és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.» E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.


O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal. Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora.

- Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.

Escuridão total.
- Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
- Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.


Pedro Alvim, crónica publicada no Diário de Lisboa, aquando das trágicas cheias de Novembro de 1967, e incluída na colectânea O Homem Na Cidade, Prelo Editora, Lisboa Julho 1968.

Legenda: imagem do Diário de Notícias.

sábado, 24 de novembro de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO


Há filmes que, não sendo nada do outro mundo, me dão imenso gozo revê-los.

É o caso de A  Honra dos Padrinhos de John Huston.

Uma trama tenebrosa cheia de humor interpretada por um naipe de excelentes actores.

A começar por Jack Nicholson.

Quando, num pequeno papel de um advogado alcoólico, aparece em Easy Rider de Dennis Hopper, saltava à vista que estava ali um actor, algo que se confirmou e ultrapassou mesmo quaisquer expectaivas.

Depois Kathleen Turner, simplesmente Kathleen Turner, a última mulher fatal no cinema do século XX, tal como li algures por aí, aparentemente, escrito por gente dita conhecedora.

Aresce  Angelica Huston, uma  Maerose  simplesmente deslumbrante, diabolicamente cínica. Ganhou com esta interpretação o óscar de melhor actriz secundária.

William Hickey: um dos mais espantosos actores secundários do cinema americano.

Nomeado para o Óscar de melhor actor secundário pelo seu papael em A Honra dos Padrinhos, viu a Academia recusar-lhe a estatueta. Mas nada do que vem daquela Academia é para espantar.

Lamenta-se apenas.


 A Honra dos Padrinhos retrata a história dos Prizzi, e os  códigos da máfia, tudo envolto num humordelirante em que a mão de Huston se passeia por todo o filme.

Mas eu sou suspeito na matéria porque gosto muito de Huston,


 O diálogo que se segue, aparece pouco depois do princípio do filme, no primeiro encontro num bar de hotel, entre Nicholson, vestindo um arrebatador e espampanante casaco amarelo, e Kathleem Turner.

A reprodução do diálogo não reflecte o brilho e o gozo que toda a cena encerra

Charlie – Receava não voltar a vê-la.

Irene – Encomendei uma bebida, algo que acho lhe vai agradar: sumo de ananaz com rum. Bebi-o em Cuba.

Charlie – Que fazia você em Cuba

Irene – Estava de lua-de-mel.

Charles – Não sabia que é casada.

Irene – O meu marido deixou-me há quatro anos. Não sei onde ele está, nem quero saber.
Charlie – Deixou-a?

Irene – É doido não é?

Charlie – Podia descobri-lo para si.

Irene – Deixe-o manter-se perdido.

Charlie – Um dia destes pode querer voltara a casar…

Irene – Talvez!... Mas até isso acontecer, eu não quero saber do paradeiro dele. E você? É casado?

Charlie – Uma vez estive quase a casar. Chamava-se Maerose. Crescemos juntos. Uma noite tivemos uma discussão enorme, porque eu estava a dançar demasiado com outra rapariga. Acho que fiz de propósito para a deixar com ciúmes. E ela partiu para o México com um tipo, e ficou a viver com ele num hotel. O pai dela mandou lá uns capangas para darem uma sova no tipo. Fê-la voltar para os Estados Unidos e não a deixou entrar em casa dele. Isso foi há quatro anos. E pronto! Nem sequer se pode aproximar de Brooklyn a menos que seja uma ocasião especial: casamentos, funerais e coisas desse tipo. Continuamos amigos. Ela é decoradora. Decorou o meu apartamento. Aliás, fez um excelente trabalho.

Irene – Bela família a sua! Seja como for gosto do seu casaco.

Charlie – Gosta? Um casaco assim daria bastante nas vistas em Nova Iorque, sabe? O meu pai diz sempre que mais vale dar nas vistas pelo sério que somos, do que pelas roupas, pelos carros, ou pelos anéis de diamantes.

Irene – Vamos?



Charlie e Irene estão agora no restaurante do terraço do hotel.

Em fundo, tocada por Mariachis,ouve-se Noche de Ronda.

 Charlie – Irene? Tenho de lhe dizer: não consigo dormir. Sou um homem adulto. Talvez até de meia-idade. Mas nada, nem ninguém, na minha vida, me afectou tanto como você. Amo-a! E pronto! Já disse tudo: amo-a!

Irene – Acho que também estou apaixonada por si, Charlie.

Charlie – Apaixonada não. Isso é passageiro. Depois passa para a próxima paixão. Todos estão sempre a apaixonar-se e a desapaixonar-se. Reparei nisso. Lembro-me de tudo o que leio nas revistas. Quando estamos apenas apaixonados, é só, espere,! Uma secreção hormonal que muda o olfacto, de forma a afectar alguém de uma certa forma. Isso é estar apaixonado. Quem precisa disso?

Irene – De amor? Isto é…amo-o, julgo eu. Parece que estou com evasivas, mas, não sei como dizê-lo, porque nunca o disse. Toda a vida me tive de proteger, mas não é possível protegermo-nos de algo, quando amamos alguém. Amo-o, Charlie!

Charlie – Que estão a tocar?

Irene – Noche de Ronda.

Charlie – Nunca me esquecerei desta música. Nunca esquecerei esse vestido. Nunca esquecerei nada do que se passou hoje. Seja para onde for que vamos, sempre que tocarem esta música… esta será a nossa música.

SIR BOBBY ROBSON


Gosto de treinadores ingleses.

O Glorioso teve alguns.

O primeiro foi Arthur John, inícios dos anos 30, ainda eu não era um sorriso na cara dos meus pais, outro, Ted Smith que, no dia 18 de Junho de 1950, ganhou a Taça Latina, que os anti-benfiquistas teimam em não considerar uma conquista internacional.

Tinha então cinco anos, mas ainda não ia ao futebol.

Mas já me lembro de Jimmy Hagan, o garagista e John Mortimores, o pencudo.

Outro(s), faço por esquecer!...

Mas o meu maior gosto com treinadores ingleses,centra-se em Sir Bobby Robson.

Em Portugal começou por treinar o Sporting até ao dia em que o inenarrável Sousa Cintra, entendeu que não era treinador para o seu Sportem e despediu-o, colocando no seu lugar o também inenarrável Carlos Queiroz que, com a melhor equipa do Sporting dos últimos trinta anos, cometeu o feito de perder o campeonato para o Benfica.

A tal tarde de chuva torrencial, dos cinco a três, dos três golos do João Pinto.

Claro que o Porto, de imediato, agarrou a dádiva, e contratou Bobby Robson como treinador, com os resultados que hoje se conhecem.

Há quem defenda a ideia que é com Bobby Robson que começa a dar-se a grande reviravolta no clube.

Ao partir para o Porto, Robson, não deixa de levar o tradutor que já o acompanhara no Sprting: José Mourinho, se bem estão lembrados.

Em 1991 é-lhe detectado um cancro.

Consegui-o combater até 31 de Julho de 2009, dia  em que perdeu esse jogo, o mais dramático da sua vida. Tinha 76 anos.

No dia em que, junto a St. James Parker, erigiram uma estátua a Bobby Robson, sua mulher lembrou que fora ali, em Newcastle, que nascera o seu amor pelo futebol.

Ele andou pelo mundo, mas o seu coração esteve sempre com o Newcastle.

Bobby Robson era filho de um mineiro que o levava ao St James' Park para ver os jogos do Newcastle.

Guardo de Bobby Robson a sua bonomia, tenho por ele uma ternura não explicável no imediato, lembro aquele sorriso trocista para enfrentar as vitórias e as derrotas, que saíu de Portugal sem arranhar uma frase em português, que terá saído de Barcelona sem arranhar uma frase em castelhano.

Conta-se que, enquanto treinador do Sporting, verificou que determinado jogador não rendia o que ele pretendia, e tirou a conclusão que isso se devia ao cabelo comprido que o jovem usava.

Mandou-o cortar o cabelo.

 - Mas mister o George Best também usava o cabelo assim, disse-lhe o jogador.

Robson respondeu-lhe de volta:

- Quando jogares como ele, podes usar o cabelo como ele. Até lá é melhor cuidares da imagem.

É gente da estirpe de Bobby Robson que fazem do futebol um espectáculo que arrasta multidões, que provoca as mais inflamada paixões.

Deus criou o mundo e desistiu de continuar a sua obra ao sétimo dia porque era domingo e havia um jogo de futebol.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

POSTAIS EM SELO


No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

PARA OS MEUS ALUNOS


Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos actos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,

gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,

saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vosso rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.

Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.
E os vosso rostos todos
hão-de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade

e a buscá-la juntos e a cumpri-la.

Victor Matos e Sá em Trabalho, antologia poética organizada por Armando Cerqueira, Joaquim Pessoa, José do carmo Francisco Edição do Sindicato dos Bancários, Lisboa s/d

MARCADORES DE LIVROS

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

À LUPA


O Presidente da República afirmou ontem que o país precisa de ultrapassar estigmas e voltar a olhar para os sectores que esqueceu nas últimas décadas: o mar, a agricultura e a indústria.

Cavaco Silva falava, na sessão de abertura do Congresso das Comunicações, subordinado ao tema Um Mar de Oportunidades.

Convém lembrar Sua Excelência que no foi Durante os seus consulados de dez anos como primeiro-ministro, que a CEE pagou aos armadores para que os pesqueiros fossem abatidos, aos agricultores para deixarem de cultivar os campos, ao mesmo tempo que encetava a destruição da pequena, média e grande indústria.

Legenda: fotografia de Jean Dieuzaide

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Riso - Uma Exposição a Sério.
De Terça a Domingo
Das 10,00 às 18,00 Horas
Entrada Livre.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


No tempo da ditadura aproveitava-se tudo para a consciencialização cultural e política, viesse ela de que esquerda viesse. A ordem era armazenar, armazenar, armazenar.

Mais tarde se separaria o trigo do joio.

Cadernos, como este de Circunstância, impresso em stencil, para além de artigos de opinião, incluíam excertos de obras que não chegavam à mão de todos, dado que a PIDE exercia uma feroz vigilância sobre tudo o que, para eles, cheirasse a sublevação.

Livros e revistas andavam de mão em mão, por vezes perdia-se o saber em que mãos tinham sido depositados.
Mas, como dizia, o Armindo: Eh pá! É tudo a meio da cultura e da revolução.

Perdi alguns livros e revistas, mas também me ficaram outros que nunca os adquirira e já nem sei a quem pertenciam.

É o caso destes Cadernos de Circunstância

Nova Série nº 1 Março de 1969

Comissão de Coordenação:

Alberto Melo Alfredo, Alfredo Margarido, Fernando Medeiros, João Freire, Jorge Valadas, José Hipólito dos Santos, José Rodrigues dos Santos, Manuel Villaverde Cabral.

Redacção: 8, Rue Saint- Julian – Paris 5

Sumário:
- Teses Sobre a Actualidade da Revolução

- Luta de Classes em Portugal em 1969

Antologia de Textos:

Sobre a Burocracia Sindical – Rosa Luxemburgo

Manifesto da Sexpol – Wilheim Reich

França 1969 – Daniel Cohn-Bendit

Página especial

Uma página, quase, em branco ao dispor de cada um. A deste número é a 69.


É assim que os primitivismos teóricos – do tipo “fascismo-anti-fascismo”, “legalidade-ilegalidade”, “luta de massas – luta clandestina, “espontaneidade-organização”, etc. – surgem não só como incapazes de dar conta da situação real, até como obstáculos cada vez mais evidentes a que os verdadeiros problemas sejam colocados e que a energia revolucionária se liberte plenamente
A REVOLUÇÂO ESTÁ NA ORDEM DO DIA!

POSTAIS SEM SELO



Há uma mulher que pergunta assustada ao marido: Que barulho é este?
É o silêncio, responde o marido.
Por vezes o barulho do silêncio é mesmo o que mais assusta


Juan Rulfo

Legenda: fotografia de Rupertt Wind

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

RUA DO OURO


A maior parte das Agências de Navegação localizavam-se no Cais do Sodré.

Como ao Metro ainda faltavam alguns anos para o terminal no Cais do Sodré, apanhava-o na Praça do Chile, saía Rossio, descia a pé a Rua do Ouro, não antes sem fazer paragem obrigatória para, encostado ao balcão da Casa Chineza, tomar o café da manhã, olhar os rostos que circundavam, quase sempre, àquela hora, os do costume.

A Casa Chineza, ao tempo, tinha um dos melhores cafés de saco da cidade.

Por lá, todas as manhã, à mesma hora, o Professor José Pedro Machado, que colaborou no Grande Dicionário de Morais, com os volumes do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, o saco das compras da dia na mão, e que,  tomado o pequeno almoço, arrancava para a habitual cavaqueira na Livraria Portugal.

Ao longo dos tempos, a Casa Chineza tem vindo a perder o anterior glamour.

Para que não restem dúvidas que os tempos mudaram naquela casa, na grande montra, ostenta em grandes letras que fabricam Folar de Chaves.



A luta pela defesa dos velhos cafés das cidades é uma luta inglória.

Ressalta, então, uma tristeza que por mós perpassa, uma melancolia acomodada.


A uma pequeníssima crónica, publicada no velho Diário de Lisboa, Mário Castrim chamou: Rua do Ouro.


A pastelaria de que se fala talvez pudesse ser a Casa Chineza.


Na pastelaria

por cima do balcão
o homem disse:
«Por favor, aquele de chantilly e um galão».
Comeu com invejável apetite
sorveu o galão
ruidosamente.
Depois abriu o porta-moedas
e pagou
e  parou um instante à porta
a ver uma jovem de calças
fortemente cingidas às ancas.
Alguém saberá que outrora
apagou cigarros
nas costas dos presos.
Cinco horas da tarde.
Estamos na Rua do Ouro.
Os rostos confundem-se
e afinal talvez não passasse tudo
De fadiga, de nervos,
da imaginação um pouco doente.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

À CONVERSA


Perguntaram-lhe:

A forma como as pessoas tratam a memória sobre a repressão política em Portugal é diferente?

Rspondeu:

Aqui é absolutamente ignorada! Nós tivemos a ditadura mais longa da Europa Ocidental, no século XX, e o edifício da polícia política é um condomínio de luxo, hoje em dia! Isto mostra o que é o nosso tratamento da memória... Nos programas lectivos de História, pouco ou nada se fala sobre o Estado Novo e a repressão. O estudo da memória em Portugal é muito parco e quase inexistente. É claro que existem pessoas a investigar e a escrever e isso é importantíssimo – quem decide a História não é só quem a viveu, mas também quem a estuda a seguir. Mas Portugal trata muito mal a sua memória.

João Pina, fotojornalista ao I.

VIVER NUM COMBOIO


Vivia num comboio se alguém me desse um.

Sam Shepard

Legenda: pintura de Jeffrey Smart

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

OS CROMOS DO BOTECO

OLHAR AS CAPAS


Peregrinatio Ad Loca Infecta

Jorge de Sena
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Poetas de Hoje nº 33
Portugália Editora, Lisboa Setembro 1969


NOUTROS LUGARES


Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas de solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exatamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.