quarta-feira, 21 de novembro de 2012

RUA DO OURO


A maior parte das Agências de Navegação localizavam-se no Cais do Sodré.

Como ao Metro ainda faltavam alguns anos para o terminal no Cais do Sodré, apanhava-o na Praça do Chile, saía Rossio, descia a pé a Rua do Ouro, não antes sem fazer paragem obrigatória para, encostado ao balcão da Casa Chineza, tomar o café da manhã, olhar os rostos que circundavam, quase sempre, àquela hora, os do costume.

A Casa Chineza, ao tempo, tinha um dos melhores cafés de saco da cidade.

Por lá, todas as manhã, à mesma hora, o Professor José Pedro Machado, que colaborou no Grande Dicionário de Morais, com os volumes do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, o saco das compras da dia na mão, e que,  tomado o pequeno almoço, arrancava para a habitual cavaqueira na Livraria Portugal.

Ao longo dos tempos, a Casa Chineza tem vindo a perder o anterior glamour.

Para que não restem dúvidas que os tempos mudaram naquela casa, na grande montra, ostenta em grandes letras que fabricam Folar de Chaves.



A luta pela defesa dos velhos cafés das cidades é uma luta inglória.

Ressalta, então, uma tristeza que por mós perpassa, uma melancolia acomodada.


A uma pequeníssima crónica, publicada no velho Diário de Lisboa, Mário Castrim chamou: Rua do Ouro.


A pastelaria de que se fala talvez pudesse ser a Casa Chineza.


Na pastelaria

por cima do balcão
o homem disse:
«Por favor, aquele de chantilly e um galão».
Comeu com invejável apetite
sorveu o galão
ruidosamente.
Depois abriu o porta-moedas
e pagou
e  parou um instante à porta
a ver uma jovem de calças
fortemente cingidas às ancas.
Alguém saberá que outrora
apagou cigarros
nas costas dos presos.
Cinco horas da tarde.
Estamos na Rua do Ouro.
Os rostos confundem-se
e afinal talvez não passasse tudo
De fadiga, de nervos,
da imaginação um pouco doente.

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