quarta-feira, 28 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Crime Perfeito

Dorothy L. Sayers
Tradução: Almirante Alberto Aprá
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção vampiro nº 28
Livros do Brasil s/d

Partiram para Gray’s Inn, onde foram recebidos pelo Sr. Towkingto com toda a amabilidade. Era ele um homem forte, de ombros largos e voz áspera. Conhecia Wimsey de vista e declarou-se encantado por se encontrar com Parker.
- Estive a pensar no caso enquanto vinham pelo caminho – começou ele. – É para lastimar que estes legisladores não digam o que têm no pensamento quando fazem as leis. Que pensa disto, Lord Peter?
- Penso que a razão está em a lei ter sido feita por advogados – retorquiu Wimsey, a sorrir.

- Para arranjarem trabalho para eles? Creio que tem razão. Os advogados precisam de viver, não lhe parece?

ESTAS CRÓNICAS SÃO DE UM POETA



Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei – e que lhes disse – foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo”. Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê.

Em carta, datada de 3 de Julho de 1968, José Saramago informa José Rodrigues Miguéis que lhe vai enviar as crónicas, publicadas em A Capital, posteriormente inseridas e Deste Mundo e do Outro, e diz:

Segundo o que entendo, estas crónicas são qualquer coisa de novo na nossa terra.
Aguardo com interesse o seu juízo.

Em carta, datada de 24 de Julho de 1968, Miguéis dá o seu instigante e esplendoroso «juízo» sobre as crónicas:

Devolvo-lhe hoje as crónicas (como suponho V. esperava) com muita pena de não me sentir mais eloquente e explícito – arrasado que estou de Verão e apoquentações. Verá em algumas delas as anotações a lápis, que fiz à margem ao lê-las e não apaguei. Desculpe. As suas Crónicas são excelentes, por vezes óptimas, e sempre de leitura absorvente; novas ou pelo menos raras no nosso ambiente de doutrinas e castanhas piladas; sem retórica de jornal nem prosa de encher. Justas. Embora seja difícil manter-se todas as semanas ao nível do ter-carradas-de-talento, então com a vida que Você leva, nunca (até aqui) cai no fácil, no corriqueiro, no sentimental de bairro: e isto em Lisboa-Portugal, onde o Assunto é, como diria a Dona Rosa, «aves-rara»! Você consegue sempre evitá-lo, mesmo nos quadros de rua (Amolador, Cego do harmónio, etc.). Por outro lado, as notas rústicas (Alice, Sapateiro, Cair no céu, etc.) são sempre duma justeza e flagrância (e fragância) de evocação: e sem Rusticidade. (Fala do campo, das águas e das flores como quem os conhece de dentro.) Consegue sempre ser simples (que é o mais difícil) dentro da complexidade do seu estilo de poeta, pela visão e pela linguagem: algo críptica (como é devido!) mas sempre sugestiva e tão visual, e em geral risonha. Estamos desabituados desta feição especulativa e acentuadamente literária… sem «literatura». O curioso é que o seus factos, pessoas e ambiente resultam sempre mais reais (ou realísticos) através da névoa Chagalliana de cores, formas e movimento, e integrados. Porque Você desenha e colora a escrever! (Cito: «… volatilizado no interior do sol atómico». Incisivo, justo e pictural!) Ao invés dos nossos cronistas e comentadores sentenciosos, que tudo vêem (?) através dos vidros defumados de doutrinas mal digeridas, V. tem uma «filosofia» que, sem ser optimista, antes levemente céptica, amarga e protestante, nos leva a crer e a agir: «desanimar e recomeçar até chegar ao ponto onde o arco-íris tem a primeira raiz.» Isto, além de afirmativo, é belo (Desculpe). É claro, há sempre o perigo de nos deixarmos arrastar pela Prosa – mas, como eu disse do Herberto Helder, «os autênticos Poetas são de uma disciplina severa!»

terça-feira, 27 de junho de 2017

POSTAIS SEM SELO


As casas também têm vida. É uma vida de trabalho.

Paula Nunes, habitante de Derreada Cimeira, aldeia de Pedrógão Grande.

Legenda: imagem do Jornal de Notícias

DO BAÚ DOS POSTAIS


Pavilhão Chinês ou Casa de Chá nos jardins do Parque Soussouci em Potsdam, Berlim.

OLHARES


Encontrava-se, então, no Rossio.
A Feira do Livro realizou-se pela primeira vez em 1930, era Salazar ministro das Finanças.
Em 1940 foi para os Restauradores mas  em 1957 regressou ao Rossio.
Mais tarde subiu para a Avenida da Liberdade junto ao Cinema Tivoli.
Em 1996 entenderam fazê-la na Praça do Comércio e na Rua Augusta.
Não sei qual foi a ideia. Quem a teve também não deve saber. Ou então concretizou-a pessimamente.
Em 1980 passou a realizar-se no Parque Eduardo VII que considero o perfeito cenário.
Mesmo que em cada ano que passe, as pernas se queixem com evidente amargura.
Mas… quem corre por gosto não cansa, dizia a minha avó.

A imagem, pertencente ao arquivo do Diário de Notícias, refere a Feira do Livro de 1932.

SAUDADES DE SALGARI


Sempre que, em cada ano, visito a Feira do Livro, lembro o primeiro livro de Emilio Salgari que o meu avô me comprou, dizendo-me para escolher um: Os Pescadores de Pérolas.

Plantava-se, então, a Feira do Livro em redor das taças de água do Rossio.

Lembro-me que custou oito escudos, qualquer coisa como, ao câmbio dos dias de hoje, 0,04 euros.

Em prosa atrás colocada, também disse que só depois vieram os sandokas, os corsários negro e vermelho, o Capitão Morgan, tantos outros.

Como prometera, ficam aqui as capas dos únicos livros de Salgari que possuo, comprados num alfarrabista-vão-de-escada a preço confortável.

Sim, porque os outros alfarrabistas sabem o que vendem e o seu valor.

Outras histórias.

Emílio Salgari nasceu em Verona a 21 de Agosto de 1862.

Não se sabe ao certo quantos livros escreveu. Admite-se que ultrapasse as duas centenas. Em Portugal a João Romano Torres, casa fundada em 1885 com sede na Rua Alexandre Herculano nº 70 a 76, publicou 150.

Pensei até certo momento que esses livros eram o resultado de inúmeras viagens feitas pelo mundo e em que dissertava sobre a fauna e a flora das regiões onde se desenrolava a acção, fosse na Malásia,n o Bornéu, nas Caraíbas e até no Farwest americano.

Mas não!

Em toda a sua vida realizou apenas uma viagem no mar Adriático, na costa oriental italiana, quando frequentou, um curso para capitão da marinha e em que acabou por reprovar.

Os livros, escreveu-os sem sair do seu quarto, servindo-se de relatos e leituras de outros viajantes e aventureiros, enciclopédias, também das leituras de livros de vários autores e toda a sorte de assuntos, sendo o mais recorrente Júlio Verne.

A tudo isso juntava a sua fértil imaginação.

Não resisto à tentação de transcrever o começo de A Noiva do Corsário Negro:

O célebre mar da Caraíbas, açoitado pelo temporal, rugia furiosos, projectando verdadeiras catadupas de água contra os molhes de Porto Limão, costas da Nicarágua e da Costa Rica.
O sol estava no ocaso e as trevas caíam rapidamente como se tivessem pressa de ocultar a tremenda luta travada entre a terra e o céu.
Ainda não chovia, mas não devia tardar e por isso os habitantes se tinham apressado a abandonar as ruas da cidadela e o pequeno porto, refugiando-se nas suas casas.

Também o começo de Sandokan Vence o “Tigre da Índia”:

Na manhã de 20 de Abril de 1857, o faroleiro de Diamind-Harbour assinalava a presença de pequeno veleiro, que devia ter entrado no porto durante a noite, sem auxílio de piloto.
Pelas dimensões das velas assemelhavam-se aos paraus malaios, mas não se viam os balancins para se defender das rajadas, nem a cobertura chamada «attap», que os barcos daquela natureza costumam usar. Além disso, não tinha a popa baixa e, por certo, deslocava três vezes a tonelagem dos paraus ordinários.
Fosse como fosse, era um veleiro lindíssimo, de casco esguio, verdadeiro barco de corrida, que devia ganhar em velocidade a todos os barcos a vapor que então possuía o governo anglo-indiano.


Nenhum dos livros indica o autor das capas.

A tradução de Sandokan é de Leyguarda Ferreira e a do Corsário Negro é de António Vilalva.

 Ambos foram editados em 1958, tinha eu 13 anos, e impressos na Tipografia H. Torres na Rua de S. Bento nº 279-B.

Toda a vida de Emílio Salgari foi composta por enormes carências financeiras, realizando os mais variados sacrifícios para poder sobreviver, bem como sua mulher e os quatro filhos.

Tentou que os diversos editores, que lhe iam publicando os livros, lhe prestassem um qualquer auxílio.

Em vão.

Desesperado, suicidou-se no dia 25 de Abril de 1911. Tinha 49 anos.

Deixou um recado escrito aos crápulas dos editores:

«Aos meus editores: A vós que haveis enriquecido à custa da minha pele, mantendo-me a mim e à minha família numa contínua quase miséria, ou pior, só vos peço que em compensação dos lucros que vos proporcionei tomeis a vosso cargo o meu funeral. Saúdo-vos quebrando a pena.»

OLHAR AS CAPAS



De Amor e de Sombra

Isabel Allende
Tradução: Suely Bastos
Capa: Riogério Petinga
Difel, Lisboa s/d


Javier enforcou-se na quinta-feira. Nessa tarde, como fazia todos os dias, saiu para procurara trabalho e não voltou. Muito cedo a mulher pressentiu a desgraça, muito antes de ter motivos para começar a preocupar-se. Quando caiu a noite, pôs-se a esperá-lo na soleira da porta com os olhos fixos na rua. Então, o clamor da tragédia tornou-se-lhe insuportável: correu ao telefone, mas não conseguiu uma única notícia do marido. Interrogando a penumbra durante um tempo infinito, chamando-o com o pensamento, surpreendeu-a o toque de recolher, esperou que passasse a escuridão da noite e os seus olhos viram o novo dia amanhecer. As crianças ainda não tinham acordado quando a patrulha da polícia parou à porta da sua casa. Tinham encontrado Javier Leal pendurado numa árvore, no parque infantil. Nunca falara de suicídio, não se despediu de ninguém, não deixou palavras de adeus, mas ela sabia desde o primeiro momento que ele se tinha matado, pois compreendera finalmente o sentido dos nós da corda que sem cessar torcia e retorcia.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

AQUILO É A MINHA VIDA



Os meus discos são sempre o som de alguém que tenta perceber o sítio onde deve pousar a sua mente e o seu coração. Eu imagino uma vida, depois visto-a, e vejo como é que me fica. Visto a pele de outra pessoa, a caminhar pelas ruas escuras e soalheiras que sou compelido a percorrer, mas posso não acabar a querer viver mesmo isso. É um pé na luz, um pé nas trevas, em direcção ao dia seguinte. A canção «The River» foi um marco na minha escrita. A influência da música country demonstrou ser presciente quando numa noite, no meu quarto de hotel, comecei a cantar o tema «My Bucket’s Got a Hole in It», de Hank Williams, e o Well, I went upon the mountain, I looked down in the sea (Bem, subi ao cimo da montanha, olhei para o mar em baixo) acabou por me levar de alguma forma até I’m going down in the sea… (Estou a descer até ao rio). Peguei no carro, regressei à minha casa de New Jersey e sentei-me à pequena mesa de carvalho do meu quarto, a observar o céu da alvorada a transformar-se de negro para azul e imaginei a minha história. Era apenas um tipo num bar a falar com um estranho sentado no banco ao lado. Baseei a canção na crise da indústria da construção civil na Jersey de finais dos anos 70, na recessão e nos tempos muito duros que atingiram a minha irmã Virginia e a família dela. Vi o meu cunhado a perder o seu trabalho bem remunerado e, sem nenhum queixume, a ter de trabalhar arduamente para sobreviver. Quando a minha irmã ouviu a canção pela primeira vez, foi aos bastidores, abraçou-me e disse: «Aquilo é a minha vida.» Essa continua a ser melhor crítica que eu já tive. A minha bela irmã, forte e de pescoço erguido, funcionária do K-Mart, mulher e mãe de três filhos, a segurara-se com força e a viver de que eu fugira o mais depressa que pude.

Bruce Springsteen em Born to Run

TRUMPALHADAS


Donald Trump é a nmaior desgraça que aconteceu aos Estados Unidos.

É também um perigo para o mundo.

Da crónica de Pedro Mexia no Expresso de 10 de Junho de 2017:

«O eleitorado americano elegeu um demagogo, um oportunista, um autoritário. Mas um comentador de direita, Michael Medved, diz que pior do que isso é ter escolhido um egoísta, um ganancioso, um materialista, um brutamontes, um misógino, um colérico, um intolerante.»

NOTÍCIAS DO CIRCO


Este domingo, um avião da TAP Express cruzou-se com um drone quando fazia a aproximação ao aeroporto de Lisboa.

O drone terá passado a cerca de 50 metros da asa direita do avião, que transportava 74 passageiros.

Este é já o 6.º caso num mês de um drone que passa junto a um avião.

O governo, uma qualquer entidade, deverá estar à espera de uma tragédia para depois abrir um inquérito e tomar medidas.

Sempre a velha história: depois de casa roubada trancas à porta.


Como pode ser permitido que um bando-de-idiotas-brincalhões possam colocar em risco a vida das pessoas?

OLHAR AS CAPAS


Requiem

Antonio Tabucchi
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa,1997

Esta história que se passa num domingo de Julho numa Lisboa deserta e tórrida é o Requiem que a personagem a quem chamo «Eu» teve de executar neste livro. Se alguém me perguntasse porque é que esta história foi escrita em português responderia que uma história como esta só poderia ter sido escrita em português, e pronto. Mas à também outra coisa a especificar. Em rigor, um Requiem teria de ser escrito em latim, pelo menos é o que prescreve a tradição. Ora acontece que eu, infelizmente não me dou bem com o latim. Seja como for percebi que não podia escrever um Requiem na minha língua e que precisava de uma língua diferente, uma língua que fosse um lugar de afecto e de reflexão.
Este Requiem, além de uma "sonata", é também um sonho, durante o qual a minha personagem vai encontrar vivos e mortos no mesmo plano: pessoas, coisas e lugares que precisavam talvez de uma oração, oração que a minha personagem só soube fazer à sua maneira, através de um romance. Mas, acima de tudo, este livro é uma homenagem a um país que eu adoptei e que também me adoptou, a uma gente que gostou de mim e de quem eu também gostei.
Se alguém observar que este Requiem não foi executado com a solenidade que convém a um Requiem, não posso deixar de concordar. Mas a verdade é que preferi tocar a minha música não num órgão, que é um instrumento próprio das catedrais, mas numa gaita de beiços, que se pode levar no bolso, ou num realejo, que se pode levar pelas ruas. Como Drummond de Andrade, sempre gostei de música barata, e, como ele dizia, não quero Haendel para meu amigo, nem ouço a matinada dos arcanjos. Basta-me o que veio da rua, sem mensagem, e, como nos perdemos, se perdeu.

domingo, 25 de junho de 2017

POSTAIS SEM SELO


Não corre mais quem caminha mas quem imagina.

Almeida Faria em O Conquistador

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

AGRADECENDO DELICADEZAS


13-5-1967

Para a Nela: um boneco e um poema para lhe agradecer as suas delicadezas:

Auto Retrato

A angústia da inércia
a idade tece-a?
Mar amarrado
a  areias de desterro
os lábios guardam
marés de ferro.
Vento da tarde
onde o sol esfria
os olhos ardem
lumes de alegria.
Água quieta
sob o limbo mansa
a alma projecta
o peixe da esperança.
A coragem da inércia
A liberdade tece-a!

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

CENSURA GULBENKIANA


Dois dos mais importantes intelectuais portugueses, José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena, viram-se na obrigação de emigrar para poderem sobreviver e escrever. Isso tornou-os homens amargos, muitas vezes à beira do desespero.

Mesmo longe, sentiram-se sempre perseguidos pela ditadura salazarenta.

E não só!

Pelos seus pares que não apoiavam o regime, também se sentiram injustiçados e marginalizados.

Num texto «A Literatura Portuguesa no Secundário»,  publicado na revista do Expresso, 10 de Junho de 2017, Diogo Ramada Curto revela:

Por isso, releio esta minha denúncia acerca de um programa escolar da nossa literatura tendo à minha frente os papéis de Rodrigues Miguéis e o seu dossier sobre uma antologia do conto português (Hay Library, Universidade de Brown). Verifico que também ele hesitou – e não foi pouco – nos autores a incluir e nas relações a estabelecer com a literatura brasileira. A antologia organizada por Miguéis estava para ser traduzida pelo seu amigo Raymomd Sayers, professor de Literatura. Dados os custos envolvidos, o editor pediu um subsídio, em 1961. A Fundação Gulbenkian disponibilizou-se para apoiar a edição. Mas, segundo o dossier da John Hay Library, terá imposto uma condição: que o nome de Miguéis não figurasse como coautor da antologia. Uma hipótese plausível, destinada a explicar este ato de censura, é que a sombra das suas ligações ao Partido Comunista – mau grado a distanciação adotada por Miguéis, desde a Segunda Guerra. No seu longo exílio em Nova Iorque – continuava a apesar. O livro nunca saiu e a história da literatura portuguesa, pelo menos a sua difusão em língua inglesa, ficou mais pobre.

Salazar, juntamente com os crápulas que o apoiavam e veneravam, sempre viu comunistas em tudo e em todos. De tal ordem que chegaram ao ponto de inventar Fátima para que o mundo ficasses livre do Comunismo

Pego em José Rodrigues Miguéis, Vida eObra, de Mário Neves, e reproduzo:

Se José Rodrigues Miguéis tinha então algum compromisso com o sector comunista não está devidamente averiguado, nem é muito fácil sabê-lo, dada a confusão em que tais coisas se processavam, nessa época de cautelosa clandestinidade. Em averiguações posteriores, ao pretender-se identifica-lo no quadro político da época, discutiu-se esse ponto, embora não pudessem restar dúvidas das suas simpatias pelos princípios defendidos pelo Partido Comunista e que se traduziam em frequentes atitudes de empenhada militância. As diligências feitas com vista a um esclarecimento nesse sentido deparam todos, porém, com informações nem sempre convergentes. Ao passo que as pessoas responsáveis da direcção do partido afiançam que Miguéis foi mesmo filiado, Camila Campanella, a esposa e companheira dedicada do escritor, que com ele conviveu dezenas de anos e conheceu os mais íntimos aspectos da sua carreira, afirma perenptoriamente que não. Por sua vez, Ana Maria Alves, num estudo em que analisou criteriosamente a posição de «Miguéis seareiro», escreve: «É possível que Miguéis tenha estado ligado ao Partido Comunista, mas é difícil ponderar o grau e o significado desse comprometimento, já que o PCP é, nesta época, uma pequena organização muito fluida e de ideologia confusa.» Ainda num trabalho recentemente publicado na Análise Social, sob a responsabilidade de Luís Salgado de Matos, o militante anarco-sindicalista Emídio santana, que muito se ocupou desses temas, por curiosidade histórica e interesse partidário, não hesito em afirmar que Miguéis «esteve ligado ao PC».

OLHAR AS CAPAS


Se Numa Noite de Inverno um Viajante

Italo Calvino
Tradução: José Colaço Barreiros
Colecção Mil Folhas nº 11
Público, Lisboa, Julho de 2002

O romance começa numa estação ferroviária, ronca uma locomotiva, um arfar de êmbolo tapa a abertura do capítulo, uma nuvem de fumo esconde parte do primeiro parágrafo. Pelo meio do cheiro a estação passa uma lufada de cheiro a bufete de estação. Está alguém a olhar pelos vidros embaciados, abre a porta envidraçada do bar, lá dentro também está tudo enevoado, como que visto por olhos de míope, ou então por olhos irritados com ciscos de carvão. São as páginas do livro que estão embaciadas como as janelas de um velho comboio, é nas frases que pousa a nuvem de fumo. É uma noite de chuva: o homem entra no bar; desabotoa o sobretudo húmido; envolve-o uma nuvem de vapor; um silvo põe-se a correr pelos carris brilhantes da chuva a perder de vista.

sábado, 24 de junho de 2017

POSTAIS SEM SELO


O problema com os intelectuais é aquilo que começa como sentimento e acaba como ressaca.


Bertolt Brecht

QUOTIDIANOS


Para fazer o que fazes, precisas de caminhar. É a caminhar que te vêm as palavras, que ouves os ritmos das palavras que vais escrevendo mentalmente. Um pé à frente, depois o outro, a batida dupla do teu coração. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços, duas pernas, dois pés. Isto, e depois aquilo. Aquilo, e depois isso. A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que as palavras tenham significado, possam às vezes ter significado, é na música que os significados começam. Sentas-te à mesa para escrever fisicamente as palavras, mas na tua cabeça continuas a caminhar, sempre a caminhar, e o que ouves é o ritmo do teu coração, o batimento do teu coração. Mandelstam: «Gostava de saber quantos pares de sandálias gastou Dante enquanto trabalhava na «Commedia.» 

Paul Auster em Diário de Inverno

Legenda: La Danse pintura de  Henri Matisse

EU NÃO ERA UM PREGADOR QUE FAZIA MILAGRES


Tanto quanto sabia, eu não pertencia a ninguém na altura como ainda hoje não pertenço. Tinha uma mulher e filhos que amava mais do que tudo no mundo. Tentava sustentá-los e não me meter em sarilhos, mas na imprensa os grandes abutres continuavam a promover-me como o representante, o porta-voz, e até mesmo a consciência de uma geração. Aquilo tinha piada. Tudo o que eu fazia era cantar cantigas que iam direitas ao assunto e exprimiam poderosas e novas realidades. Tinha pouco em comum e muito menos conhecia a geração da qual se dizia que eu era a voz. Deixara a minha terra dez anos antes, não andava a vociferara as opiniões de ninguém. O meu destino fazia-se com que a vida oferecia, não tinha nada a ver com a representação de qualquer tipo de civilização. O que interessa é ser-se honesto consigo próprio. Eu era mais um vaqueiro do que um homem com uma flauta mágica.
As pessoas julgam que a fama e as riquezas se traduzem em poder, que trazem glória, honra e felicidade. Se calhar até trazem, mas nem sempre. Dei por mim enfiado em Woodstock, vulnerável, e com uma família para proteger. Mas ao ler as notícias, era descrito com tudo menos isso. Parece que o mundo sempre precisou de um bode expiatório – alguém que comande a carga contra o Império Romano. Mas a América não era o Império Romano e alguém que não eu teria de se oferecer para essa missão. Nunca fui mais do que realmente era – um músico de folk que contemplava a névoa cinzenta com olhos cegos de lágrimas e fazia canções que flutuavam numa neblina luminosa. Agora, tudo me tinha rebentado na cara e pairava sobre mim. Eu não era um pregador que fazia milagres. Tudo aquilo teria levado qualquer pessoa à loucura.

Bob Dylan em Crónicas

sexta-feira, 23 de junho de 2017

TRUMPALHADAS


Donald Trump defendeu num comício, no estado do Iowa, a sua opção de só escolher pessoas ricas para o seu governo, nomeadamente para as posições ligadas à economia:

«Eu adoro todas as pessoas, ricas ou pobres, mas para aquelas posições especificamente não quero uma pessoa pobre.»

O governo de Trump está cheio de milionários e multimilionários, algo que tem sido criticado pelos seus opositores políticos - a fortuna combinada ultrapassa o PIB de alguns pequenos países, como Malta, Brunei ou Chade.

Betsy DeVos, secretária de Estado da Educação, com uma fortuna avaliada em 5,1 mil milhões e Wilbur Ross, secretário do Comércio, são dois dos milionários no gabinete. Uma das críticas mais comuns é a de que os interesses privados dos governantes poderão chocar com o serviço público.

                          

OLHAR AS CAPAS


Poemas e Fragmentos de Safo

Tradução de Eugénio de Andrade
Desenho de Ângelo de Sousa
Capa: Armando Alves
Limiar, Porto, Dezembro de 1974

É um mal morrer e os deuses bem o sabem;
se assim não fora, eles próprios morreriam.

O UE ELE QUER É CONVERSA...


Carta de Jorge de Seba, datada de 16 de Novembro de 1969, para Eugénio de  Andrade:

Viste o artigo do Cesariny, contra o meu prefácio do Breton, fingindo até que a tradução, que é do Tamen, é minha? Aquela víbora tem sido sempre uma das minhas sombras negras – sem que eu lhe tivesse feito jamais o mal que outros lhe fizeram. Cada vez mais acho que ele é apenas uma piada, com talento às vezes, piada promovida pela necessidade que todas as gerações sentem de ter um Botto de Estação do Rossio. Nada é mais triste que um raivoso que teve a sua hora. Curioso é como, na sua maioria, com honrosas excepções, a gente surrealista portuguesa se distinguiu sempre por uma falta de dignidade e de carácter a toda a prova: e tudo fica na triste diferença entre St. Germain des Prés e a Avenida Almirante Reis. Claro que, neste caso, o que ele queria era botar sentença numa edição que sonharia lhe fosse confiada. E falar de tradução um sujeito que pôs «surrealismo criador» nas suas falhas de francês e português ao traduzir Rimbaud… Que miséria – a dele, e a dos litras portugas que o papisam. O que ele quer é conversa – mas está bem livre. Não falemos em coisas tristes.

Em Correspondência

Legenda: Mário Cesariny de Vasconcelos

quinta-feira, 22 de junho de 2017

PEDRÓGÃO, UMA RAIVA SEM FIM



Agostinho Lopes

ÚLTIMO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS


Morreu-me.

Dizia:
quero
ser Nada.
Como
se
fosse
Deus.

António Rego Chaves em Três Vezes Deus

Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS


Antologia de Poesia Universitária

Organizada por Alfredo Barroso, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz,
 J. M. Vieira da Luz, Rui Namorado
Colaboração de Alfredo Vieira da Luz, Almeida Faria, António Augusto Menano,
António Manuel Lopes Dias, António Freire Torrado, Armando, Armando de Carvalho, Boaventura de Sousa, Eduardo Prado Coelho, Fernando Vaz Garcia, Ferreira Guedes, Fiama Hasse Pais Brandão, Francisco Delgado, Gastão Cruz, João Columba, João Medina, João Rui de Sousa, J.M. Vieira da Luz, José Carlos de Vasconcelos, Luís Serrano, Luísa Ducla Soares, Luíza Neto Jorge, Manuel Alegre, Manuela Imar, Margarida Losa, Rui Namorado, Ruy Belo, Sérgio Cardoso
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Poetas
Portugália Editora, Lisboa, Fevereiro de 1964

Janeiro de Sessenta e Dois

este janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés.

mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés.

sacodem-no apressadas as varinas
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas.

seus dias vão depressa para os ardinas:
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos
metido com vamps americanas.

janeiro português por onde poisas
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto às coisas
e a tia chega ao fim da camisola...


(Poema de Armando Silva Carvalho)

OLHARES




Ainda a Feira do Livro.
Um jacarandá ainda em flor, o Tejo lá ao fundo e, para que nada falte. um fraldário.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

AINDA A FEIRA DO LIVRO


Chega-se a esta minha idade e existem na biblioteca livros comprados e ainda não lidos.

E há sempre o suave ímpeto de comprar mais livros.

A Feira do Livro é, acima de tudo, a lembrança daquela noite, em redor das taças de água do Rossio, em que o meu avô me comprar o primeiro livro de Emílio salgari. Curiosamente não me inclinei para qualquer Sandokan, ou o Pirata Vermelho, antes Os Pescadores de Pérolas, sei lá bem porquê.

Depois, a pouco e pouco é que vieram os restantes salgaris que, continuo a considerar, na devida idade, um dos melhores estímulos para hábitos de leitura.

Penso que já disse, mas um dia emprestei a um primo meu – santa ingenuidade!... - - toda a minha Colecção Salgari.

Passados uns tempos, quando os quis de volta, fiquei a saber que tinham sido vendidos para angariar tostões para rebuçados da bola e idas às matinés do Cine-Oriente.

Tenho por aí dois ou três exemplares adquiridos em alfarrabistas a preço baixo.

Um dia, num daqueles alfarrabistas que estacionam, nas tardes de sábado, na Rua Anchieta, ao Chiado, pediram-me uma exorbitância por Os Pescadores de Pérolas.

Fiquei a olhar assim um tanto para o surpreendido, mas o livreiro logo atalhou: «É pegar ou largar!».

Não gostei do preço e da fanfarronice e… «larguei.»

A Feira é um gosto muito meu.

Os jacarandás, o Tejo muito lá ao fundo.

Este ano, nos dezoito dias de Feira, venderam-se 400 mil livros e concluíram que quatro em cada cinco visitantes compraram um.

Olhei o que quis olhar, mas o que me ocupa mais tempo são os stands da Relógio d’Água com os seus caixotes com livros dos fundos do catálogo, a bom preço.

Depois o tirar a fotografia ao stand da & etc. onde sei que nunca mais encontrarei o Vitor Silva Tavares.

E as saudades que me saltam aos molhos enquanto caminho para casa.

OLHAR AS CAPAS


O Último Caso de Trent

E. C. Bentley
Tradução: Baptista de Carvalho
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 41
Livros do Brasil s/d

- E não se trataria de uma crise nervosa, tão vulgar entre os capitalistas americanos? – sugeriu Trent. – Já tenho lido nos jornais casos desses.
- Não acredite nisso – replicou Bunner. – Essas crises nervosas só atacam os que enriqueceram de repente. Os grandes capitalistas, os homens da craveira de Manderson, têm a cabeça no seu lugar e não é fácil que a percam. Estão couraçados contra os acidentes emocionais. É certo que alguns são considerados maníacos, mas isso não é pròpriamente caminho para a loucura; é apenas excentricidade e nada mais: há os que não podem ver carne, os que odeiam cães, os que comem só peixe, etc.

SER PROFESSOR É DAR-SE


 Fui fazer contas com o metodólogo e foi então que ele encontrou a definição de professor como eu o vejo: «Ser professor é dar-se». Numa carta do ano passado, uma colega escrevia-me: ENSINAR É AMAR.

Sebastião da Gama em Diário

terça-feira, 20 de junho de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


A Jerónimo Martins é a empresa portuguesa com maior disparidade salarial, seguindo-se a EDP, que tem o gestor mais bem pago do país, António Mexia, informou a Deco, associação de defesa dos consumidores.

Pelo segundo ano consecutivo Pedro Soares dos Santos é o líder da tabela dos principais gestores que mais ganham em relação à média dos restantes trabalhadores da empresa.

E o fosso agravou-se significativamente, passando de 90 para 130 vezes. Na base desta discrepância está um aumento de 46,6% do seu salário global para 1.269 milhões enquanto os restantes trabalhadores ganharam em média apenas mais 1,4% face a 2015.

Outras empresas onde a disparidade salarial acontece:  Sonae, CTT, Galp Energia, Semapa, Mota-Engil, Navigator, NOS, BPI e Novabase.

SEM TEMPO PARA TAGATÉS


Uma das grandes transformações deste século foi a que se operou na família. Oiço dizer que a família está em crise, isto é, está em vias de extinção. É claro que nós continuamos a ter pais, a ser filhos, a ter primos e cunhados, e isso é a família, Mas a família que está em crise é o agregado coeso, estável, fixado no lugar, com um pólo de atracção, que era a mãe, por onde convergiam os elementos familiares próximos. Esse papel da mãe, de função aglutinadora, desapareceu. A mãe passou a ser uma mulher participante, consciente ou não, de uma classe que é a classe das mulheres, que se organizou, mesmo sem organização concreta, num grupo social, com os seus direitos próprios, além dos direitos gerais, em consequência da luta que travaram durante longuíssimos anos para se libertarem da “escravidão” dos homens e dos afazeres domésticos. A mulher sai portanto de casa, de manhã, como o homem, e vai para o trabalho. Almoça, numa cantina ou em qualquer sítio, como o homem. Só se distinguem entre si porque ao chegarem a casa, ao fim do dia, ela vai fazer o jantar e ele vai ler o jornal ou ler a televisão.
Então e as crianças? As crianças são uns seres indefesos que não sabem viver por si mesmas. Precisam de vigilância permanente e alguém terá que lha dar. De manhãzinha a mãe não tem tempo de ir à caminha da criança fazer-lhe tagatés e ajudá-la a acordar mansamente, e deixá-la ficar para quando estiver mais desperta. Isto não é possível porque a mãe tem que ir para o emprego e chegar lá a horas certas. Arranca-se a criança da cama de qualquer maneira, com sono ou sem sono, a cabecear ou a palrar, mete-se-lhe pela goela abaixo a refeição apressada, passa-se-lhe a toalha molhada pela cara, enroupa-se bem ou mal, e aí vai ela num saco ou ao colo, transportada a correr para uma casa, perto ou longe, onde mora alguém que toma conta de crianças, ou então para uma escola infantil se tem idade para isso. A mãe deposita a criança e vai a acorrer para o trabalho, porque precisa de ganhar dinheiro para pagar o depósito da criança. Ao fim do dia vai busca-la, pega-lhe ao colo e a criança abraça-a efusivamente rodeando-lhe o pescoço com os bracitos na ânsia comovida de ter encontrado o que perdera.
Isto é um quadro normal da vida das crianças nos dias de hoje. À noite, finalmente, estão todos reunidos, a mãe na cozinha, o homem na saleta e a criança na cama.

Rómulo de Carvalho em Memórias

AS PERGUNTAS MATAM COMO O FOGO?



Pedro Tadeu no Diário de Notícias

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A CRISE CONTINUA,. TALVEZ PIOR



Um desabafo:

A crise continua, talvez pior. Desencanto, desânimo, velhice, contrariedades, e que sei eu. Cheguei à beira de uma decisão – a de não continuar a escrever ou a publicar: escrever para mim é relativamente fácil, mas pôr ordem nas ideias e frases é um calvário. A impaciência dos velhos!...

José Saramago terá sondado Miguéis para que colaborasse em A Capital, vespertino dirigido por Norberto Lopes e Mário Neves depois de terem deixado o Diário de Lisboa.

Assim conta Miguéis:

Não lhe posso dizer em pormenor porque recuso o seu convite a colaborara n’A Capital: é um problema entre mim – a minha ética – e o Mário Neves. Este, logo que leu o meu artigo de Janeiro no Diário de Lisboa, escreveu-me uma longa e lamentosa carta («este seu pobre amigo,» etc.): que eu o tinha abandonado e estava servindo de bandeira aos seus inimigos. Ora nem ele me procurou em Lisboa (eu telefonei-lhe em vão algumas vezes) nem me convidou para o novo jornal. Levei dez dias e 20 folhas a responder-lhe amigavelmente, e no fim mandei-lhe uma curta carta a prometer explicar tudo em Lisboa, e sacrifiquei-lhe a minha colaboração no DL para não o melindrar. A verdade é que o DL me ofereceu, e pagou, 20 dólares pelo artigo, ou seja DOIS dias de vida em N. York, onde há quase 4 anos não ganho um centavo. Se me calei (embora a decisão não seja definitiva) é porque não quero agravar mais o boicote de que estou sendo vítima, o silêncio que as chamadas «esquerdas» fazem à minha volta: despeito, inveja, necessidade de inventar «inimigos», etc. É positivo (isso lhe disse) que, se não colaboro no DL, também não o farei n’A Capital. Ele não respondeu, e não recebi o jornal: só dois expls trazidos por alunos de português da Camila. Achei-os pindéricos, lamentável. Da sua colab, diz-me Você: «Como sabe estou na…» Como havia de saber!? V. só me tinha escrito as suas (más) impressões do jornal. Depois disso Mário Sacramento instou-me (em nome do DL) a escrever para este; pedem-me colaboração para o Comércio do P., e o poeta Eugénio de Andrade, que estimo muito, quer um trecho sobre o Porto para um livro de… Saudades do Porto (suponho). Recuso ou não respondo. Comemorações, Necrológios, Homenagens… O que me apetece é escrever o tal panfleto contra Tudo-e-Todos, a desmascarar as hipocrisias e conformismos dos nossos Inconformistas… E este polemismo que me anda cá por dentro às cambalhotas, paralisa-me e esteriliza-me. Chiça! Antigamente eu trabalhava duro pelo meu pão, pensando no Futuro, e escrevia quando, como e o que me apetecia; agora tornei-me um escravo disso. Quando saio, largando os papéis, sinto-me outro, respiro fundo. Chiça e rechiça, três vezes chiça!
(…)
Das minhas razões morais para não colaborara só lhe direi quando as tiver exposto ao Mário Neves. Estes sujeitos que se dizem «liberais» (e fazem rios de dinheiro à sombra disso) vêm coarctar a minha liberdade de escrever onde me apeteça, e impedir-me de ganhar uns magros centavos indispensáveis, numa crise com a que atravesso… Um dia rebento com eles… ou rebento comigo. Tudo isso lhe rogo fique entre nós. Não gosto de me explicar por interposta pessoa. Vê agora o que me força ao silêncio? Não entro na Academia dos Elogiosos…

Miguéis tinha uma velha amizade com Mário Neves que sempre lhe foi publicando contos e outros textos enquanto dirigiu o Diário de Lisboa.

No livro que escreveu sobre a Vida e Obra de José Rodrigues Miguéis, Mário Neves não refere este desentendimento que, suponho, terá sido resolvido numa posterior conversa havida entre os dois.

Para isso aponta alguma correspondência, publicada em Apêndice do livro, em que ressalta a cordialidade, respeito mútuo e amizade que continuaram a nutrir um pelo outro.

Legenda: reprodução de um exemplar de A Capital tirada do blogue Ainda Sou do Tempo

domingo, 18 de junho de 2017

POSTAIS SEM SELO


O que é mais grave nesta questão dos fogos é que há muito tempo que depois de cada fogo, em particular os que levam vidas humanas, há uma discussão recorrente, e um eflúvio legislativo, sobre o que é preciso fazer para alterar as características da floresta portuguesa, e as medidas de prevenção necessárias, o aumento de penas para os incendiários, com bastante unanimidade de técnicos e especialistas e autarcas e políticos nacionais e membros do governo. E, no entanto, fogo a fogo, muito pouco se faz, ou pelo menos o que se faz parece estar longe de resolver, quanto mais minimizar o problema.

José Pacheco Pereira no Público

TRAGÉDIA!



As televisões retornam  ao seu triste espectáculo.

Volta e meia juntam uns «experts» que falam de tudo e de nada.

Ninguém os entende.

Nem eles próprios, clientes habituais sempre que as chamas invadem o país.

Também não gostei de ouvir Marcelo Rebelo de Sousa dizer; «o que se fez foi o máximo que se podia fazer».

Em Pedrógão Grande, até este momento, já se registaram 62 mortos, 62 feridos e inúmeras habitações e floresta destruídas.

Não percebo nada de fogos, mas vou registando que todos os governos gastam mais dinheiro no combate aos fogos do que na sua prevenção.

Devia acontecer o contrário.

Em cada final de Verão os governos – todos – declaram-se dispostos a dar um «murro da mesa» para que sejam criadas infra-estruturas de defesa da floresta contra incêndios.

O importante seria trabalhar e não procurar culpados.

Mas pelo andar na carruagem...

V.S.T. & ETC


Feira do Livro.
Já sabia que quando passasse pelo pavilhão da & etc., voltaria a não encontrar o Vitor Silva Tavares.

sábado, 17 de junho de 2017

ATÉ APAZIGUARMOS A NOSSA ALMA...


Fora da estrada, a vida era uma confusão. Sem aquela dose noturna de adrenalina ministrada pelo espetáculo, eu ficava um bocado perdido, deixando que me viesse bater à porta o que quer que fosse que me andava a corroer. Fora do estúdio e da estrada, eu… não existia. Acabei por ter de enfrentar o facto de que não estou bem a descansar, portanto, não posso descansar para poder estar bem. Os concertos mantinham-me focado e sereno, mas não podiam resolver os meus problemas. Não tinha família, não tinha casa, não tinha uma vida real. Não é nenhuma novidade; muitos artistas vão dizer-vos a mesma coisa. É uma maleita bastante comum, assim uma espécie de perfil típico da minha profissão. Nós somos viajantes, gente que corre estrada fora, e não gente que fica quieta. Mas cada homem e cada mulher acabam por correr ou ficar à sua própria maneira. Eu percebi finalmente que uma das razões de os meus discos levarem tanto a fazer era que eu não tinha mais nada para fazer; não havia mais nada em que me sentisse confortável a afazer. Por isso, porque não fazer como cantava o Sam Cooke, e levar «a noite inteira… a noite inteira… a noite inteira»? As minhas gravações eram como um regresso à caminhada de três quarteirões até à escola, que todas as manhãs eu tentava prolongar até à eternidade. Get in the groove and let the good times roll, we gonna stay here ‘til we soothe our soul. (Entra no ritmo e deixa correr as coisas boas, vamos ficar por aqui até apaziguarmos a nossa alma.)
Até apaziguarmos a nossa alma… isso era capaz de levar algum tempo.

Bruce Springsteen em Born to Run

TRUMPALHADAS



Tenho a ideia de que Donald Trump não irá completar os quatro de presidência, mas não sei como é que isso irá acontecer.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

É MELHOR NÃO RECEBER CARTA


!5-2-1967
Recebi carta da K. Faltam de 283 a 320 (*) e o dinheiro que me enviou. Como penso, é melhor não receber carta – a minha boa disposição para escrever, fugiu! E a K. tem um pouco a culpa! É pena não poder ter nem por escrito, uma boa jardinagem – ela pensa que tudo é à medida de nossos desejos e não reflecte um pouco senão não mandava cartas volumosas nem dinheiro como ela aliás, bem sabe, e diz! Vai-me ser difícil escrever a carta de resposta. De tudo isto fuca-me o amargo de a irritação se voltar contra quem não devo. A propósito de Eusébios, Duo Ouro Negro etc… a mentalidade geral é a de saber qto ganham, como empregam as massas, se estão a gastar em vez de guardar para o «futuro» criticando os que gastam as massas com a sua vida bem vivida.

(*) José Luandino Vieira e L. numeravam todas as cartas que trocavam com o objectivo de controlar as que não eram entregues. Aqui o autor refere-se à não entrega das cartas de L. respeitantes ao intervalo de páginas 283-320.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

OLHAR AS CAPAS


Livro das Insónias sem Mestre
8º Volume de Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2017

A CEUD que o Mário Soares opôs à CDE foi um fiasco – por falta de base popular e juventude. Os filhos dos aderentes da CEUD pertenciam quase todos à CDE que, como uma Boa Nova, se espalhou por colégios, liceus, universidades, lares de raparigas… Os próprios alunos das escolas primárias não escaparam ao sortilégio.
Só o meu neto Pedro José parecia indiferente.
- Ó Pedro: és da CDE?
- Não. Sou do Benfica…
- Porquê?
- Porque ganha quase sempre.
Apreciei o rigor deste quase.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

NÃO HAVIA NENHUM DISCO DA CARTER FAMILY


Também não havia nenhum disco da Carter Family no apartamento. A Chloe despejou um bocado de bife com cebolas no meu prato e disse «Toma, faz-te bem». Ela era porreira à brava, fixe da cabeça aos pés, uma bichana maltesa, uma verdadeira víbora – acertava sempre à primeira. Não sei quanta erva ela fumava mas era muita. Tinha umas ideias muito próprias acerca da natureza das coisas, disse-me que a morte era uma fingidora e que o nascimento era uma invasão de privacidade. O que é que havia a dizer? Não se podia responder nada quando ela dizia coisas daquelas. É que não se podia provar o contrário. Nova Iorque não a perturbava nem um bocadinho. «É tudo uma macacada nesta cidade», dizia ela. E ao falar com ela percebia-se logo porquê. Pus o meu boné e vesti o casaco, peguei na minha guitarra e comecei a fazer a trouxa. A Chloe sabia que eu estava a tentar fazer coisas. «Se calhar um dia o teu nome ainda vai correr o país como fogo posto», dizia ela, «Se alguma vez conseguires uns pares de notas de cem, compra-me qualquer coisa».

Bob Dylan em Crónicas

RECADOS


No dia da morte de Armando Silva Carvalho, deixei o registo de que O Livro do Meio, romance epistolar escrito por Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, é um livro fascinante que – tenho essa ideia… - passou um tanto ao lado de críticos – ainda há crítica literária?!... – e leitores.

Aguardava vez para entrar em «Olhar as Capas» e fiz agora a publicação, com o lamento que só agora aconteça porque o Armando nos deixou.

Obviamente, a capa leva textos de cada um dos autores.


O livro junta memórias de infância, de outros tempos, uma cumplicidade de anos e anos de vivências e que, dado o calibre dos autores, nunca poderia sair fruta bichada.

Pelas 412 páginas do livro, passeia uma série de gente, alguns vivos, outros já mortos, ódios, amores, quotidianos, tristezas, alegrias, leituras e notícias do quotidiano, histórias de escárnio e maldizer, amigos e inimigos, perdas e danos, um humor mordaz, venenoso q.b, mas inteligente.

Claro que o livro retém episódios e gentes que escapam ao leitor comum, que são vivências próprias dos autores, «afectos flutuantes», como algures deixa cair Maria Velho da Costa, a mesma Maria que deixa assinalada uma frase de Agustina Bessa Luís: «a amizade é confortável como uma almofada de penas», ou Armando Silva Carvalho que a páginas 322 cita um verso de Jorge de Sena: «sempre me soube a destino a minha vida».

Repito: um livro imperdivel, editado pela Caminho no tempo em que ainda não tinha sido devorada pela Leya.

Pode ser que ainda o encontrem na Feira do Livro, que fecha portas no domingo.

OLHAR AS CAPAS


O Livro do Meio

Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 2006

Uma casa é uma casa como uma rosa é uma rosa.
E já que estás com a casa na boca, falemos de casas, como disse o Herberto. Eu, hoje, tenho três casas, sou um felizardo. Durmo na da mana, trabalho na minha e derramo-me na nossa, a de Peniche.
Aqui, na de lisboa, assaltam-me as lembranças do sexo, as causas amantes, e fazem-me companhia duas ou três coisas essenciais. Não me pedem comida, não me roçam as pernas e não me dão cuidados de higiene.
Uma é a pintura do Hogan, que me defende duma provável miséria que já me ameaça. Comprei-a nas Belas Artes a uma senhora dada ao espiritismo e que me apresentou mais tarde esse pintor das pedras solitárias.
A segunda é o espelho enorme e oval em que me olho de frente enquanto escrevo (dantes usavam-se as caveiras). Ele lembra-me uma grande amiga do porto, a M., que me deu a conhecer o seu grande amigo, o José Cardoso Pires. Foi ele que mo ofereceu, em tempos mais narcisistas, e é um impressionante reflexo de mim a meio-corpo, em moldura rica e trabalhada. Um dia cheguei a casa e fui dar com uma encomenda gigante à minha espera. Eu não adivinhava, Ajudou-me a porteira que quase caiu de cu ao ver o objecto nu. Que rima! Passou-se já tanto tempo que pensei até mudar-lhe o sítio. Eu ficava mais distraído do tempo, do meu tempo. Só que assim a velhice não me espanta. E o espelho repete-me o que não repetiu à Madrasta da outra. Lembra-te de que és pó, etc., etc.

E em terceiro lugar vem a bebida. E bem à mão, numa mesinha de jogo (expressão que me fazia cócegas quando o objecto amado lhe gabava as proporções delicadas). É a lírica mais consumível que alguma vez tive na vida, tanto tempo passado, depois de ter escrito esse livrinho de nome tão aberrante. Criatura volúvel, derramável, ergue-me no ar para me deixar aos tombos, e me faz companhia em verso, prosa ou dura dor de corno.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

UM SUJEITO CONTRADITÓRIO


Carta de Jorge de Sena, datada de 25 de Maio de 1969, para Eugénio de Andrade:

Em matérias de glórias, eu sou, francamente, um sujeito contraditório: ao mesmo tempo as pessoas incomodam-me (e muitas vezes até quando escrevem admirativamente a meu respeito, sem que nisto vá ingratidão), o êxito parece-me risível,  e sei melhor que ninguém a que várias circunstâncias pode dever-se. Mas a hostilidade com que lutei desde a primeira hora, ou que suscitei sem querer (ou muitas vezes por querer), deu-me também uma sede de triunfo, de mundo a meus pés – talvez pelo que de outcast tenho sido sempre de grupos literários ou profissionais. E isso o não sinto menos na minha vida universitária, onde, no fundo, os meus «colegas» de cá e de lá não me perdoam que eu tenha entrado na profissão «por cima», por força de uma bagagem maior que a deles todos juntos. Mas tudo me fere: fui sempre a vida inteira o mesmo menino esquecido e jogado entre os pais, sedento de atenção e de amor, dividido entre estar só e acompanhado.

OLHAR AS CAPAS


O Livro do Meio

Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 2006

O dia hoje foi curto. Tentar absorver a absorvência da pequena J. Ela comunica por gestualidade e sons, uns mais competentes que outros. Na amizade é preciso traduzir. Revejo-me nela.
A M.G. veio chorara um pouco a morte do Pluma, o cão de família que foi dela e do João César Monteiro, já velho e incontinente. Diz a Agustina que as pessoas que amam os cães são as mais egoístas sobre a terra. E ela gosta de cães. Porque os cães são uns mestres de zelar pelo que é teu, a família, os bens, as emoções profundas, mesmo quando tu te desleixas ou adoeces?  Lobo da decência e da perseverança, o cão. Causa amante, contra toda a evidência, um cão.
Ars longa, vita brevis. Sobretudo a dos cães.
Tenho medo de quem tem medo dos cães.