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segunda-feira, 5 de junho de 2023

OLHAR AS CAPAS


Os Oportunistas

Italo Calvino

Tradução: Arnaldo Aboim

Capa. Sebastião Rodrigues

Colecção: Livros de Bolso Arcádia nº 15

Editora Arcádia, Lisboa, Outubro de 1961

Erguer os olhos do livro (lia sempre, no comboio) e reencontrar a paisagem palmo a palmo – a muralha, a figueira, a nora, o canavial, o recife – as coisas que sempre vira mas em que só agora reparava, por ter estado ausente: era assim que Quinto retomava contacto com a sua terra, a Riviera, todas as vezes que voltava. Mas como era possível durar há anos esta história das suas idas e dos seus regressos esporádicos, que prazer tinha nisso? Já o sabia de cor: todavia continuava a procurar fazer novas descobertas, assim de fugida, um olho no livro o outro na janela, e agora era já apenas uma confirmação das mesmas observações.

domingo, 7 de março de 2021

OLHAR AS CAPAS


Planetarium

Nathalie Sarraute

Tradução: Luísa Dacosta

Capa: Sebastião Rodrigues

Colecção Autores do Nosso Tempo nº 13

Editorial Minerva, Lisboa, 1963

«As pessoas idosas, não se devem mudar. As pessoas idosas, são frágeis, sabia. É perigoso transplantá-las». Aquelas palavras depositadas nele não sabe por quem, agora de repente, como nos sonhos, alguém lhas diz, um homem que mal distingue: uma silhueta vaga metida num sobretudo sombrio; pronunci-as indo-se embora, a caminho da porta sem voltara para ele o rosto, naquele tom, para além da censura, que tem os padres, um tom que marca as distâncias, que tomam os médicos, quando não querem tomar a responsabilidade, comprometer-se, onde se descobre a custo uma ponta acerada de censura de desgosto… «São frágeis, as pessoas idosas, sabia…»

terça-feira, 7 de maio de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Triunfo da Morte

Augusto Abelaira
Capa: Sebastião Rodrigues
Sá da Costa Editora, Lisboa, Março de 1981

Explicando-me com mais clareza: ignorasse eu que outros homens desejam comer ou fazer amor e sentiria idênticos desejos. Mas escrever… Escrever como uso gravata, como tomo banho todos os dias, aperto a mão dos amigos, peço desculpa se incomodo alguém. Escrevo porque certa força exterior me estimula, faz parte dos costumes do tempo, se transformou numa forma de promoção intelectual. Um processo de me inserir na sociedade, de me relacionar com os outros. O meio mais sedutor, não o único – poderia dedicar-me ap póquer ou à política. E se dispusesse apenas de um tijolo e dos símbolos cuneiformes, impossível também escrever, preciso de agilidade fenícia, capaz de vencer os mares e as tempestades.
Bom, caí outra vez na filosofia barata (esta modéstia não a tomem à letra), mas se alguma coisa pretendo insinuar é que no meu espírito se meteu a ideia do livro, a ideia dos leitores, não o simples e adolescente anseio de falar comigo próprio. Um acto solidário, um prazer que vive da relação com os outros. Em resumo: procuro cúmplices, procuro cúmplices!

domingo, 6 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


A Longa Viagem

Jorge Semprun
Tradução: João Gaspar Simões
Capa: Sebastião Rodrigues
Colecção Encontro nº 34
Editora Arcádia, Lisboa s/d

Há este amontoado de corpos no vagão, esta dor lancinante no joelho direito. Os dias, as noites. Num esforço tento contar os dias, tento contar as noites. Talvez isso me ajude a ver claro. Quatro dias, cinco noites. Mas devo ter contado mal ou então há dias que se transmudaram em noites. Tenho noites a mais; noites para dar e vender. Uma manhã, de facto, foi numa manhã que esta viagem principiou. Esse dia inteiro. Depois uma noite. Alço o polegar na penumbra do vagão. O polegar, por essa noite. E depois outro dia. Estávamos ainda em França e o comboio mal se havia movido. Ouvíamos vozes, por vezes, de ferroviários, para além das botas das sentinelas. Esquece essa noite, foi o desespero. Outra noite. Soergo outro dedo na penumbra. Um terceiro dia. Outra noite. Quatro dias, portanto, e três noites. Três dedos da minha mão direita. E o dia em que estamos. Quatro dias, portanto, e três noites. Caminhamos para a quarta noite, o quinto dia. Para a quinta noite, o sexto dia. Mas seremos nós quem avança? Nós estamos imóveis, amontoados uns em cima dos outros, a noite é que avança, a quarta noite, para os nossos futuros cadáveres imóveis. Dá-me vontade de rir: realmente, via ser a Noite dos Búlgaros.
- Não te canses, diz o camarada.

terça-feira, 19 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Guerra Civil de Espanha

Hugh Thomas
Tradução: Daniel Gonçalves
Capa: Sebastião Rodrigues
Colecção Documentos do Tempo Presente nº 21
Editora Ulisseia, Lisboa, s/d

 Um homem no fundo do salão gritou o slogan de Millán Astray: «Viva la muerte!» Millán astray soltou a série de berros sacrimentais: «Espanha!», gritou ele. Automàtiacmente um número reduzido de pessoas bradou: «Una!» «Espanha!» voltou a gritar Millán Astray. «Grande!», replicou a ainda de certo modo relutante audiência. «Espanha!», insistiu o general, e a turba respondeu: «Livre!» Alguns falangistas nas suas camisas azuis, fizeram a saudação fascista ao inevitável retrato de franco, pendurado na parede. Todos os olhos se encontravam voltados para Unamuno, que se levantou lentamente: «todos vós estais suspensos das minhas palavras», disse ele. «Todos vós me conheceis e sabeis que eu não sou capaz de me calar. Em certas ocasiões calar é mentir, porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência. Desejo comentar o discurso – chamemos-lhe assim – do general Millán Astray, que se encontra entre nós. Ponhamos de lado a afronta pessoal implícita na súbita torrente de vitupérios contra bascos e catalães. Eu próprio, claro, nasci em Bilbau. O bispo, e Unamuno apontou para o trémulo prelado sentado a seu lado, quer queira quer não, é um catalão de Barcelona». Fez uma pausa, Houve um terrível silêncio. Jamais um discurso destes se ouvira na Espanha Nacionalista. Que mais iria dizer o reitor? «Agora mesmo», prosseguiu Unamuno, «ouvi um grito necrófilo e insensato: «Viva la muerte». E eu, que passei a vida a compor paradoxos que despertaram a cólera dos que não os compreendiam, devo dizer-lhes, como entendido, que este paradoxo vindo de fora me repugna. O general Millán Astray é um aleijado. Digamo-lo sem a menor amenidade. É um inválido de guerra. Tal como Cervantes. Infelizmente, neste momento há demasiados aleijados em Espanha. E em breve haverá ainda mais se Deus não se apiedar de nós. Penaliza-me que seja um homem como o general Millán Astray a ditar os padrões da psicologia de massas, Um aleijado a quem falta a grandeza espiritual de Cervantes procura uma odiosa consolação para o aseu mal provocando mutilações à sua volta». Neste momento Millán Astray foi incapaz de conter-se por mais tempo. «Abajo la inteligencia!, rugiu. «Viva a Morte!» Houve um clamor de aplauso entre os falangistas. Mas Unamuno prossegiu: «Este é o tempo do intelecto, e eu sou o seu sumo sacerdote. Sois vós quem profanais os seus paços sagrados. Vencereis porque possuís força bruta mais do que suficiente. Mas não convencereis porque para convencer é necessário persuadir. E para persuadir seria necessário possuirdes aquilo de que careceis: razão e direito na luta. Considero fútil exortar-vos a pensar na Espanha. Tenho dito.»

domingo, 10 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Pão Da Mentira

Horace McCoy
Tradução: José Cardoso Pires
Capa: Sebastião Rodrigues
Colecção Os Livros das Três Abelhas nº 74
Publicações Europa-América, Lisboa, Setembro de 1964

«Escute, Mike. Começo a enfastiar-me de ter constantes discussões consigo sobre as coisas que escreve. Conhece perfeitamente a orientação deste jornal.»
«Claro, claro. Conheço a orientação deste jornal. Conheço até a de todos os jornais. Não há a mais pequena ponta de decência em todos eles juntos.»

domingo, 6 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Trabalho Poético
1º Volume

Carlos de Oliveira
Capa: Sebastião Rodrigues
Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa s/d

Insónia

Penso que sonho. Se é dia, a luz não chega para alumiar o caminho pedregoso; se é noite, as estrelas derramam uma claridade desabitual.
Caminhamos e parece tudo morto: o tempo, ou se cansou já desta caminhada e adormeceu, ou morreu também. Esqueci a fisionomia da paisagem e apenas vejo um trémulo ondular de deserto, a silhueta carnuda e torcida dos cactos, as pedras ásperas da estrada.
Chove? Qualquer coisa como isso. E caminhando sempre, há em redor de nós a terra cheia de silêncio.
Será da própria condição das coisas serem silenciosas agora?

domingo, 29 de novembro de 2015

ALMANAQUE


Quando, a propósito do editor Figueiredo Guimarães, lembrei a revista Almanaque, estava longe de imaginar que a ela, tão cedo, voltaria.

E por boas razões.

Acontece que, ontem, já a noite ia larga, li no Tempo das Cerejas que o Público publicara, na quinta-feira, a edição fac-simile do 1º Número da Almanaque.

Hoje, corri ao Kioske do Abdul a tempo de apanhar um exemplar da revista.

Correndo atrás da Karen Blizen, vou escrever:

Eu tive exemplares da Almanaque…


Falava do Parque Mayer, do que em redor havia, e garatujei:

Lembro-me que havia um alfarrabista à direita, logo que se entrava no parque, onde comprávamos aqueles livros distribuídos pela Agéncia Portuguesa de Revistas que metiam histórias do FBI e outras cowboyadas e que, juntamente com Salgaris Walter Scotts, Júlios Verne, ajudaram, alguns de nós, a criar hábitos de leitura.
Nesse alfarrabista, uns anos mais à frente, comprei, por tuta e meia, uma mão cheia de Almanaques, mais tarde emprestados ao Carlos Alberto.
A Almanaque foi uma revista mensal, o primeiro número saíu em Outubro de 1959, o último em Maio de 1961, e tinha como chefe de redacção José Cardoso Pires (A minha ideia era fazer uma revista que não respeitasse ninguém e fosse o mais sacana possível), que, entre whiskadas e cigarradas, dirigia uma equipa composta por Alexandre O’Neill, Luís Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, José Cutileiro, Baptista-Bastos, Vasco Pulido Valente, com grafismo de Sebastião Rodrigues, mais tarde de João Abel Manta.
Não mais tive notícias do Carlos Alberto e, naturalmente, dos Almanaques também não.


Talvez um duplo do Carlos Alberto…

Alguém escreveu, ou disse, que não se devem emprestar nem mulheres, nem livros.

Porque as mulheres voltam sempre os livros é que não.

A capa da Almanaque está aí em cima e fica também a Nota de Abertura escrita, com fino humor, por Figueiredo Magalhães:

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CAPAS DA ULISSEIA


São muitos os livros da Ulisseia que fazem da parte da biblioteca da casa.
A maior parte a aguardar entrada na janela de Olhar as Capas.
Aqui ficam algumas das capas dos livros que Joaquim Figueiredo Magalhães fez publicar na Editora Ulisseia.
Muitos deles nunca traduzidos.
Tradução de Helder de Macedo, Prefácio sobre o autor de José Cardoso Pires, capa de Rocha de Sousa
No prefácio, Cardoso Pires, manifesta o seu fascínio pela escrita de Vailland e exalta a figura do libertino a que voltará em A Cartilha do Marialva também publicado pela Ulisseia.


Tradução de José Blanc de Portugal, Capa de António Garcia. 

                                                 


Tradução de Carlos Vieira, Capa de António Garcia


Tradução de Virgílio Martinho, Capa de Espiga Pinto


Tradução de Serafim Ferreira, Capa de Sebastião Rodrigues


Colecção Atlântida nº10, Capa de Vespeira

sábado, 18 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Finisterra

Carlos de Oliveira
Capa: Sebastião Rodrigues
Livraria S´da Costa Lisboa, 1978

Quer dizer: não pões de lado a esperança…
O modelo copia o real, sem deturpar. E ela tem esperança; pelo menos, em parte.
Mas tu duvidas.
Não confundo esperança e ilusão.
Estéreis, uma e outra. Como distingui-las?
Pela intensidade.
Lérias. Vocês os dois representam (no plano que sabemos) a maquete estéril, para usar (repetir) a palavra exacta. Esta artimanha não altera nada.
Altera. Transfere o problema (do particular em geral), integra-o na natureza das coisasa. Se não me engano, o teu adjectivo identifica todos os termos: ela, eu, a maquete e o resto. Afinal, passando através da aparência, concordas comigo.
Ninguém diria…

domingo, 17 de agosto de 2014

OLHAR AS CAPAS


Os Condenados da Terra

Frantz Fanon
Prefácio: Jean Paul Sartre
Tradução; Serafim Ferreira
Capa: Sebastião Rodrigues
Editora Ulisseia, Lisboa s/d

O colono faz a história e sabe que a faz. E como se refere constantemente à história da metrópole, indica com clareza que está aqui como prolongamento dessa metrópole. A história que escreve não é, pois, a história do país que ele despoja, mas a história da sua nação onde ele rouba, viola e espalha a fome. A imobilidade a que está condenado o colonizado não pode ser impugnada, senão quando o colonizado decide pôr termo à história da colonização, à história da pilhagem, para fazer existir a história da nação, a história da descolonização.

sábado, 23 de junho de 2012

OLHAR AS CAPAS


A Um Deus Desconhecido

John Steinbeck
Tradução de Manuel do Carmo
Capa de Sebastião Rodrigues
Colecção “Os Livros das Três Abelhas”nº 61
Publicações Europa-América, Lisboa Outubro de 1963

Depois de armazenadas as colheita na herdade dos Waynes, perto de Pittsford, em Vermont, depois de cortada a lenha para o Inverno e de terem caído as primeiras neves, Joseph Wayne, ao cair duma tarde, foi ter com o pai, que estava sentado no seu cadeirão ao pé do fogo, e parou, de pé, diante dele. Os dois homens eram semelhantes. Ambos tinham nariz grande, malares altos e duros; as caras dir-se-iam feitas de qualquer material mais rijo e durável do que a carne, de qualquer substância pétrea que não se alterasse facilmente. A barba de Joseph era negra e sedosa, ainda fina, a deixar ver o contorno sombrio do queixo. O velho tinha uma barba comprida e branca. Cofiava-a aqui e ali com dedos cautelosos e aconchegava-lhe as pontas cuidadosamente para as proteger. Só depois de um momento o velho notou que o filho estava ao seu lado. Ergueu os olhos, olhos velhos, sábios e plácidos e muito azuis. Os olhos de Joseph eram tão azuis como os dele, mas ferozes e curiosos de juventude. Agora, que enfrentava o pai, Joseph hesitava na sua nova heresia.
“A terra vai deixar de bastar, senhor pai”, disse ele humildemente.