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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

É HOJE

É hoje. Hoje é o dia da independência de Angola. Angola acabou, a nossa Angola acabou. Não sei para que estou a olhar para a televisão, não sei por que estou aqui.

Os homens têm os fumos por cima dos casacos, uma ideia do Pacaça que diz, estou de luto, hoje morreu-me a minha terra, hoje tornei-me um desterrado, vivemos na certeza de que a terra onde enterramos os nossos mortos será nossa para sempre e que também nunca faltará aos nossos filhos a terra onde os fizemos nascer, vivemos nessa certeza porque nunca pensamos que a terra pode morrer-nos, mas hoje morreu-me a minha terra, hoje morreram os meus mortos e os meus filhos perderam a terra onde os fiz nascer, os meus desterrados como eu. O Pacaça cala-se e começa a falar o Sr. Belchior, estou de luto pela terra onde fui gente, antes de ir para lá era uma barriga inchada de fome e uma cabeça cheia de piolhos.

Dulce Maria Cardoso em O Retorno

sexta-feira, 6 de maio de 2022

NASCER DO LADO ERRADO


«Que pena esta miúda ter nascido do lado errado, se fosse um rapaz… ouvi o meu pai dizer à minha mãe no dia em que aprendi a ler sozinha, o meu pai estava tão orgulhoso da minha proeza. Muitos anos mais tarde, contei-lhe que tinha ouvido a conversa deles. O meu pai não se lembrava, negou que ela tivesse acontecido. Mas se eu era ainda muito pequena no dia em que aprendi a ler, no final da quarta classe já havia crescido o suficiente para que não houvesse qualquer fantasia na memória que guardo de ele a despedir-se da minha professora, a professora acabara de elogiar-me, desejava-me felicidades, e o meu pai, Se esta miúda não tivesse nascido do lado errado, podia ser o que quisesse.»

Dulce Maria Cardoso em Autobiografia Não Autorizada

Colaboração de Aida Santos

Legenda: Imagem pintada por Aida Santos

quarta-feira, 23 de março de 2022

OLHAR AS CAPAS

Autobiografia Não Autorizada

Dulce Maria Cardoso

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da-China, Lisboa Junho de 2021

Quando nasci, a minha mãe já se moldara à mulher que cabia no nosso quotidiano. Se os ares de África não a trouxessem sempre doente, se engordasse uns bons quilos, quase nada a distinguiria das vizinhas. Mas a outra mulher, a que fugiu, continuava escondida nela, de certeza. Uma mulher como as dos filmes que eu via no cinema, nas tardes de domingo, uma mulher capaz de pegar numa arma para defender dos malfeitores a sua casa, de dançar em cima de uma mesa da taberna, de cavalgar desabrida por desfiladeiros, de percorrer sem pestanejar o salão de baile do palácio sob o olhar de todos. Ou de fugir de casa dos pais para viver com o homem que amava. Essa mulher também foi minha mãe, também é minha mãe. Também ela me criou. Nunca deixei de procurar na minha mãe do dia adia. E sempre a fui encontrando. Encontros fugazes. Mudos. Sorrimos uma para a outra e tenho a sensação de que ela me pisca o olho.

Colaboração de Aida Santos

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

NÃO GOSTAM DE NOS SERVIR...


Os empregados não nos querem cá e não gostam de nos servir. Acreditam que os pretos nos puseram de lá para fora porque os explorámos, perdemos tudo mas a culpa foi nossa e não merecemos estar aqui num hotel de cinco estrelas a sermos servidos como éramos lá. Os empregados preferem servir os pretos que nem nos talheres sabem pegar a servir-nos a nós, acham que os pretos são vítimas que ao fim de cinco séculos de opressão ainda tiveram de fugir da guerra. Dêem-lhes de comer como nós demos, sirvam-nos e um dia vão ver, quando eles se revoltarem e quando lhes fizerem o que nos fizeram a nós, batem-lhes à porta e levam-nos de mãos atadas, vão levá-los e eu vou rir-me. Os de cá podem dizer o que quiserem que não vão mudar a minha opinião, os pretos não prestam. Também se riam para nós até terem uma catana na mão, os de cá ainda vão arrepender-se mas já vai ser tarde demais. E eu não vou ter pena nenhuma.

Dulce Maria Cardoso em O Retorno

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Retorno

Dulce Maria Cardoso
Tinta-da-China, Lisboa,  Março de 2012

Mas na metrópole há cereja. Cerejas grandes e luzidias que as raparigas põem nas orelhas a fazer de brincos. Raparigas bonitas como só as da metrópole podem ser. As raparigas daqui não sabem como são as cerejas, dizem que são como as pitangas. Ainda que sejam, nunca as vi com brincos de pitangas a rirem-se umas das outras como as raparigas da metrópole fazem nas fotografias.