quarta-feira, 30 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


No homem existe um velho esquálido que dorme nele há séculos. Nós é que não nos lembramos; é o nosso pai que construiu a arca, o nosso pai operário; trabalhou, embriagou-se, e agora dorme com um sorriso, nu, através dos séculos.

Elio Vittorini em Os Homens e os Outros

Legenda: Elio Vittorini

VELHOS DISCOS


Teria os meus 15 anos quando a canção «Camino del Sahara» de Los Tamara teve um enorme sucesso.
Passados aqueles tempos, outras canções vieram e eu nunca mais ouvi o «Caminho de Sahara.»
Há uns 8 anos, num dos Almoços-Ié-Ié, em conversa com o Daniel Bacelar, mais coisa menos coisa, somos da mesma idade, falei-lhe nos Tamara e ele de imediato disse: «eh pá! Eu tenho isso lá em casa, posso-te fazer uma cópia.»
Isto a um sábado e, ao bater do correio na manhã de terça-feira, eu tinha a colectânea de Los Tamara, com todo aquele cuidado que a Fernanda Bacelar coloca nas cópias que faz de Cds.
Desculpem qualquer coisinha, mas ainda hoje me arrepio quando a ouço:

«Y la luna parece un turbante de plata perdido de Alá.»

RICARDO REIS NA MORTE DE PESSOA


Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que cultivava não só a poesia em moldes originais, mas também a crítica inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu, mas como as letras em Portugal não sustentam ninguém, Fernando Pessoa empregou-se num escritório comercial, e, linhas adiante, junto do jazigo deixaram os seus amigos flores de saudade. Não diz mais este jornal, outro diz doutra maneira o mesmo, Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar, surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite, na poesia não era só ele, Fernando Pessoa, ele era também Álvaro de Campos, e Alberto Caeiro, e Ricardo Reis.

José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis, pág. 35.

Fernando Pessoa já não é Fernando Pessoa, e não porque esteja morto, a grave e decisiva questão é que não poderá acrescentar mais nada ao que foi e ao que fez, ao que viveu e escreveu, se falou verdade no outro dia, já nem sequer é capaz de ler, coitado. Terá de ser Ricardo Reis a ler-lhe esta outra notícia publicada numa revista, com retrato em oval, A morte levou-nos há dias Fernando Pessoa, o poeta ilustre que levou a sua curta vida quase ignorado das multidões, dir-se-ia que, avaliando a riqueza das suas obras, as ocultava avaramente, com receio que lhas roubassem, ao seu fulgurante talento será feito um dia inteira justiça, à semelhança de outros grandes génios que já lá vão, reticências, filhos da mãe, o pior que têm os jornais é achar-se quem os faz autorizado a escrever sobre tudo, é atrever-se a pôr na cabeça dos outros ideias que possam servir na cabeça de todos, como esta de ocultar Fernando Pessoa as obras com medo de que lhas roubassem, como é possível ousarem-se tais inépcias.

José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis, pág. 91

Legenda: ilustração encontrada em Sul 21

ULTIMO POEMA, ÚLTIMAS PALAVRAS


Em 19 de Novembro de 1935, segundo Richard Zenith, Fernando Pessoa escreveu o seu último poema em português:

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Em 29 do mesmo mês e ano, escreveu as últimas palavras em inglês:

I Know not what tomorrow will bring.

Traduzindo:

Não sei o que trará o amanhã.

Fernando Pessoa morreu no Hospital de S. Luís dos Franceses, com quarenta e sete anos, no dia 30 de Novembro de 1935, vítima de uma crise hepática.

QUOTIDIANOS


Para Pessoa seria impossível imaginar uma morte mais perfeita, mais em pontas dos pés. Ele foi internado de urgência num hospital, ficou um dia, e no dia seguinte morreu. Na ficha clínica não consta uma razão da morte que seja elucidativa, porque uma crise hepática não quer dizer nada, qualquer pessoa pode ter uma e não morrer.

Antonio Tabucchi no Expresso, 4 de Junho de 1988

Legenda: Fernando Pessoa por Costa Pinheiro

MAL DE PÁTRIA


Se temos nove dez poetas
à escala europeia
ou só quatro ou mesmo talvez
com muito boa vontade três

aflige-me bastante menos
que o problema do Serra:
quantas queijeiras restam
fiéis à rude bordaleira?
para onde vai Portugal?

Fernando Assis Pacheco em A Musa Irregular

terça-feira, 29 de novembro de 2016

UMA ARTE QUE DESAPARECE


«Boa piada, nosso comandante. Estou radiante com a sereia. Até era capaz de dormir com ela, se ela deixasse.»
«E você que diz, Valdez?, perguntou o Prudentão.
«Olhe, nosso comandante. O que nós no fundo lamentamos, como diz o meu chefe, é a perda dos postos de trabalho. Cada vez menos faroleiros. Uma arte que desaparece, não é verdade? O nosso comandante já fala de automatização. Se o que isso é. Um dia este farol, esta máquina espantosa, não terá sangue humano a aquecê-lo por dentro. Alguém, de muito longe, carregará em botões.»
«Não será tanto assim, Valdez. O homem nunca ficará a mais. Porque toda a maquinaria precisará de ser inspecionada. É verdade que alguém, à distância, saberá onde ocorreu uma falha, reparável apenas pela mão humana. E o homem virá como um médico a cas de um doente. Não há volta a dar.»
Mafómedes comentou:
«Será talvez a hora da máquina. Mas a hora da natureza nunca acabará. E a mão está casada em primeiras núpcias com a natureza. Veja essa Delcri. Uma papeleira. Uma celulose, a encher de lixo o rio Divor, a ria de Cheraco, a bulir com as árvores, os campos, as águas, os peixes, a dar cabo da vida dos pescadores e até desses viveiristas e mariscadores de que falou. O nosso comandante chamou-lhes sanguessugas, Mas, ao mesmo tempo, quer esta costa cheia de hotéis, gentes nas varandas a olhar de noite Os Doze Apóstolos iluminados como as lojas de Oxford Street ou da Rua Augusta.»
Armando Prudentão sabia que viera ali para se incomodar. É que ele não tinha que dar satisfações aos seus inferiores. E Mafómedes, como chefe do farol, não tinha equivalência que fosse acima de tenente da Marinha. Acicatava-o, porém, aquela febre democrática de falar aos inferiores como companheiros. Explicar-lhes o que não poderiam entender. E eles nunca entendiam os interesses mais elevados do País. Era necessário que alguns se sacrificassem. O progresso sempre implicara isso. Quem o ignorava? O coração daqueles homens ali era um estorvo. O coração sentimentalizava tudo. Não ia cair numa conversa infantil. Uma conversa de repetir os lugares mais comuns do mundo.


Alexandre Pinheiro Torres em Vai Alta a Noite

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


O meu vinho pode ser azedo mas é o meu vinho.

Provérbio cubano

SARAMAGUEANDO


José Saramago sempre foi um defensor da revolução cubana e admirava Fidel.

Na longa conversa que manteve com João Céu e Silva, disse:

«Era inevitável que o Fidel, pela idade e pela doença, tivesse que retirar-se um dia. E não é insignificante que a transição de um homem que foi tantos anos o condutor de um país, ao chegar a hora da retirada, se faça de uma maneira mecânica, automática r sem traumas. Ainda falta saber o que é que vai acontecer, porque por aquilo que vimos a renovação geracional que terá de haver não aconteceu ainda. Continua a ser a velha guarda, o que não me parece mal porque se é uma velha guarda que está pensando que efectivamente há que mudar e prepara essa transição. Cuba não é fácil. Porque castritas ou fidelistas, gente que em Cuba considera que Castro é quase um deus é muitíssima, estão lá e querem pelo menos que se respeite a figura e mais tarde a memória desse homem.»

Em 2003, Saramago desagradado com a execução de três dos autores do desvio de um barco, escreveu:

«Cuba não ganhou nenhuma heroica batalha fuzilando esses três homens, mas perdeu a minha confiança, destruiu as minhas esperanças e defraudou as minhas expectativas.
Aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá o seu caminho, eu fico.»

FIDEL, BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER


Fidel, um grande homem. Acabou como ditador e é preciso dizer que começou por acabar com um ditador, Fulgencio Batista. Com qualidade rara, a coragem, cortou com a sua própria situação de privilegiado e arriscou a liberdade e a vida. Aqueles que amocharam em situações semelhantes - e em Portugal ainda há gerações em que a escolha foi posta - deveriam não se esquecer de que houve um Fidel que fez o que eles deveriam ter feito e não fizeram. Que os tíbios reconheçam: "Honra aos que souberam dizer não quando o não era necessário e nós não estivemos à altura de o dizer." E depois podiam, com mais mérito, criticar o Fidel liberticida. Acresce ainda que para lutar contra a ditadura Fidel não pôde contar com o exemplo da admirável América: ela era madrinha de Batista e madrasta de Cuba. Longe de Deus, não sei, mas tão próximo dos Estados Unidos - naqueles tempos, pelo menos - era mais difícil ser democrata. Poder tomado, Fidel tirou partido do seu jeito para o simbólico: caqui, charuto, barbas... Ora, os ícones - que se mostram muito, por definição - têm de função mais própria escamotear. Esse Fidel das fotografias romantizou o que foi; e ajudou a enganar sobre o que aí vinha. Os factos acabaram por ser: o ditador Fidel assassinou muitos e a todos os seus compatriotas tirou a liberdade. Ao combatente de grande causa, honra. Ao tirano, vergonha. E a todos nós, uma lição de história.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias

AURORA BOREAL



Tenho quarenta janelas,
nas paredes do meu quarto,
sem vidros nem bambinelas,
posso ver através delas,
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas,
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea,
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza,
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança,
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa.
E o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio,
a que se chama poesia.
E a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade.
E o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro,
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo.
Todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra,
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar,
com tanta janela aberta,
falta-me a luz e o ar.

António Gedeão em Poesias Completas

domingo, 27 de novembro de 2016

O ÚLTIMO PROFETA



Viriato Soromenho-Marques no Diário de Notícias

TODAS AS JANELAS ESTÃO FECHADAS


Logo ao lado, na divisão contígua, uma grande portada abria-se sobre a famosa varanda, recinto estreito e comprido, concebido para o repouso dos adultos, para todas as aventuras de uma infância na cidade, observatório de todos os possíveis rastos da vida, ponto de convívio obrigatório nas noites estreladas do verão. Nessa época, durante o dia, nas alturas de sossego e também em noites muito quentes, quase todas as janelas e varandas de Lisboa estavam ocupadas: eram as pessoas que aí se visitavam e conversavam, coscuvilhavam, mal diziam e bem diziam. Era um hábito muito interessante e extraordinário convivial que Rómulo de Carvalho lembra, cheio de nostalgia, ao longo da vida.


Era uma característica do tempo, do meu tempo, hoje totalmente ultrapassada. Chego à janela, nos dias que decorrem, e verifico que todas as janelas estão fechadas, dia e noite, a não ser quando se abrem, da parte da manhã para arejar os quartos, mas sem ninguém à vista. À noite é o encerramento total. Que tereia acontecido? Que prenderá as pessoas, dentro de suas casas, invisíveis do exterior, como se o governo tivesse declarado o estado de sítio?

Rómulo de Carvalho em Memórias

Legenda: pormenor de fotografia de Rómulo de Carvalho em Memória de Lisboa

PARADOXA CUBANA


Não há desemprego, mas ninguém trabalha.
Ninguém trabalha, mas os planos cumprem-se.
Os planos cumprem-se, mas não há nada.
Não há nada, mas todo o mundo tem de tudo.
Todo o mundo tem de tudo, mas ninguém está satisfeito.
Ninguém está satisfeito, mas todos vão à Praça da Revolução e gritam:
«Viva Fidel!»
Sem que ninguém os obrigue.
Depois voltam para casa reclamando.

OLHAR AS CAPAS

Coração Solitário Caçador

Carson McCullers
Tradução e prefácio de José Rodrigues Miguéis
Colecção Livros de Bolso Europa-América nº 492
Publicações Europa-América, Lisboa s/d

A cidade estava situada em pleno Sul, onde os Estios são compridos, e curtos os meses de Inverno. O céu mantinha-se quase sempre dum azul vivo e lustroso, e o sol dardejava esplendoroso e quente. Vinham depois as leves e frescas chuvas de Novembro, em seguida havia uma ou outra geada e os curtos meses de frio. Os Invernos eram de tempo variável, mas os Verões sempre ardentes. A cidade era de tamanho médio. Na rua principal havia alguns quarteirões de prédios de dois a três andares, com lojas e escritórios. Mas os maiores edifícios eram os das fábricas de fiação e tecidos de algodão, que empregavam uma larga percentagem da população. As fábricas eram grandes e florescentes, e os operários muito pobres. Era frequente observar-se nas fisionomias, que se deparavam nas ruas, um ar de desespero, fome e solidão.

sábado, 26 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO



Si la América no puede com um pais socialista a veinte millas de distancia que se mude.

Fidel de Castro

UMA CHUVA DURA VAI CAIR


Angelina Barbosa e Pedro Serrano, os tradutores, para a Relógio d’Água, das Poesias de Bob Dylan, anotaram sobre A Hard Rain’s A-Gonna Fall:

 Escrita durante a crise dos mísseis cubanos, em Outubro de 1962, a canção reflecte a angústia da possibilidade de uma guerra nuclear provocada pelo braço de ferro entre Kennedy e Khrusschev. Diz Dylan que, quando a escreveu, pensava não lhe restar muito mais tempo para escrever outras canções, pelo que pôs tudo quanto conseguiu nesta, como se fosse uma canção contendo várias canções.
A estrutura da letra da canção baseia-se em «Lord Randall», uma canção que Dylan aprendeu com Martin Carthy.

Como mero gosto pessoal, tenho que esta é uma das grandes canções de Bob Dylan.

Neste tempo que decorre sobre a morte de Fidel, lembrei-me da canção, como também me lembro daqueles tempos de angústia, que não sei bem se, após Trump, não poderão estar de volta.

Numa carta, datada de 15 de Maio nesse mesmo ano de 1962, José Rodrigues Miguéis escrevia a José Saramago:

O mundo está muito complicado, mas não o acho suficientemente absurdo para perder a esperança.

Que se continue a acreditar em Miguéis.

Oh, onde estiveste, meu filho de olhos azuis?
Oh, onde estiveste, meu jovem querido?
Tropecei na encosta de seis montanhas brumosas
Caminhei e rastejei por seis estradas sinuosas
Entrei pelo meio de sete florestas tristes
Estive na orla de uma dúzia de oceanos mortos
Penetrei dez mil milhas na boca de um cemitério
E é dura, e é dura, é dura, é dura
E é dura a chuva que vai cair

Oh, o que viste, meu filho de olhos azuis?
Oh, o que viste, meu jovem querido?
Vi um recém-nascido rodeado de lobos ferozes
Vi uma estrada de diamantes que ninguém usava
Vi um ramo negro que gotejava sangue
Vi um quarto cheio de homens com martelos sangrentos
Vi uma estrada branca toda coberta de água
Vi dez mil palradores cujas línguas estavam todas destroçadas
Vi armas e espadas cortantes nas mãos de criancinhas
E é dura, e é dura, é dura, é dura
E é dura a chuva que vai cair


E o que ouviste, meu filho de olhos azuis?
E o que ouviste, meu jovem querido?
Ouvi o som dum trovão, rugia um avisos
Ouvi o bramir duma onda que podia afogar o mundo inteiro
Ouvi uma centena de tamborileiros cujas mãoas flamejavam
Ouvi dez mil a sussurrar e ninguém e escutar
Ouvi uma pessoa a morrer de fome, ouvi muita gente a rir
Ouvi a canção dum poeta que morreu na valeta
Ouvi o soluço de um palhaço que gritou na viela
E é dura, e é dura, é dura, é dura
E é dura a chuva que vai cair

Oh quem encontraste, meu filho de olhos azuis?
Quem encontraste, meu jovem querido?
Encontrei uma criança junto a um pónei morto
Encontrei um homem branco que passeava um cão preto
Encontrei uma mulher jovem cujo corpo ardia
Encontrei uma rapariga, ela deu-me um arco-íris
Encontrei um homem ferido de amor
Encontrei um outro homem ferido de ódio
E é dura, é dura, é dura, é dura
É dura a chuva que vai cair

Oh o que farás agora, meu filho de olhos azuis?
Oh, o que farás agora, meu jovem querido?
Vou voltar lá para fora antes que a chuva comece a cair
Caminharei para as profundezas da mais profunda e sombria floresta
Onde as pessoas são muitas e as suas mãos estão completamente vazias
Onde as bolinhas de veneno inundam as suas águas
Onde a casa no vale se funde na suja e húmida prisão
Onde a face do carrasco está sempre bem escondida
Onde a fome é torpe, onde as almas são esquecidas
Onde a cor é o negro, onde nada é o número
E hei-de contá-lo e pensá-lo e dizê-lo e respirá-lo
E espelha-lo da montanha para que todas as almas possam vê-lo
Então erguer-me-ei no oceano até que me comece a afundar
Mas saberei bem a minha canção antes de começar a cantar
E é dura, é dura, é dura, é dura
É dura a chuva que vai cair

 Bob Dylan

 Canção do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan (1963)


FIDEL CASTRO (1926-2016)


«O comandante-chefe da revolução cubana morreu esta noite às 22:29».

Foi assim que o Presidente Raúl Castro anunciou a morte de Fidel Castro.

«El Comandante» morreu aos 90 anos.

Emocionado, Raúl castro terminou o anúncio da morte com a frase:

 «Até à vitória, sempre».

Goste-se ou não dele, Fidel marca uma era na História do século XX.

Tinha 14 anos quando Fidel e os seus guerrilheiros desceram da Sierra Maestra para mostrarem ao mundo que Cuba, a América Latina, não mais seria o quintal e o bordel da mafia americana.

A vitória daquelas gentes sobre os americanos foi a de um David contra Golias.

Ficou-me o fascínio, o lugar da utopia, a marca de um imaginário revolucionário que perdura.

No que a Cuba diz respeito, há alguns conflitos comigo mesmo, o coração, as razões, mas já estou velho para mudar.

CAFÉ


Quando,
à hora do Jazz,
a minha cabeça rola
pelo tecto pintado do café.
a parede em frente é uma visão de escola
onde um menino de bibe e gola
sonha com aquilo que não é.

E até os criados
têm ares purificados
como ascetas dum branco ritual.
E os mármores das mesas,
Com desenhos obscenos,
surdinam várias rezas…

E as garrafas dos álcoois e absintos,
em garbos áticos,
oferedam viáticos…

E há toalhas brancas e há velas acesas!

E ela vem sempre
(só a cabeça dela,
que o corpo
perdeu-o, porventura,
nalgum escuro quarto de aluguer).
Ela vem sempre,
Como naquele dia,
serena e amavia,
única e excepcional.

O pianista
comeu os dentes do piano
e canta, de pernas para o ar,
uma canção azul.
O violinista adormeceu de pé numa cadeira
e o violino dá som sem ninguém lhe tocar.

E ela vem sempre
como naquela hora
estranha, delicada
e debruada a encanto.
Pura como a água, suave como um manto.

O dia é Dia Santo…



Nota dos autores da Antologia:

SAUL DIAS (pseudónimo de Júlio Maria dos reis pereira, Vila do Conde, 1902-1983).
Engenheiro civil, artista plástico magnífico, Júlio é autor duma obra poética que injustificadamente ficou um pouco na sombra da do desmesurado José Régio, seu irmão. Saul Dias é um poeta contido, que capta com a humildade dos grandes observadores momentos essenciais, por vezes terríveis, por vezes jubilosos, da vivência humana. Contenção e tensão ilustradas pelos títulos dos seus livros.

Os antologiadores chamam a este poema de Saul Dias: um muito lógico café jazz surrealizado em 1934.

Legenda: Músicas e Mulheres no Espaço, pintura de Saul Dias

NOS TEMPOS EM QUE NÃO HAVIA GOOGLE



E agora aproveito a oportunidade para pedir-lhe um pequeno favor, que se reporta às notas que já fiz para os novos volumes de traduções minhas de poesia, coligidas. É que não consigo de maneira nenhuma encontrar indicação de se o Pierre Jean Jouve e o Jacques Prévert ainda estão vivos, e, se morreram, quando foi; e dados biográficos (bibliográficos encontro eu) do Georges Hunet que foi membro do grupo surrealista e de cuja poesia gosto muito (onde e quando nasceu, se morreu e quando, etc.). Talvez V. me possa ajudar quanto a estas informações.


Se não fosse o meu estado seria de facto indesculpável não lhe ter escrito há mais tempo para lhe fornecer as informações que me pedia sobre os poetas franceses, Não descurei o assunto, mas muito pouco consegui apurar ao certo. Nos meus livros, os únicos dados biográficos que consegui obter sobre Georges Hugner, foram os seguintes (em Le Surrealisme, de Robert Bréchon, ed. Armand Colin, pp 187 e 199 de uma Cronologia): a adesão em 1930 ao grupo surrealista, juntamente com Dali, Buñuel, Char, Sadoul; e a exclusão do mesmo em 1938, juntamente com Dali. É alguma coisa mas não encontrei o mais importante: nem a data do nascimento, nem a data da morte, se é que ele já morreu. Quanto aos outros, nada consegui saber ao certo: não me consta que tenham morrido, pelo menos o Prévert que, segundo me informaram, publicou há poucos meses um livro. Penaliza-me não ter obtido mais informações, mas não consegui, apesar de ter consultado todos os livros de que dispunha, meus e de alguns amigos. Não encontrei os de Maurice Nadeau, onde talvez se encontrassem mais dados biográficos sobre Georges Hugner.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Quem não conhece, não estima.

Mário Castrim

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Rocha de Conde de Óbidos em outros tempos.

UMA ESPÉCIE DE CONGESTÃO DO PLANETA


Vim a ler as primeiras dezenas de páginas de Depois do Fim de Paulo Mourão dentro de um comboio que avançava à chuva, com aquela melancolia dos comboios que avançam na chuva, não fosse 2016 já ter transformado a melancolia noutra coisa, numa espécie de congestão do planeta.

Alexandra Lucas Coelho no Público

NUM PERÍODO PROLONGADO DE SOLIDÃO


O Dia de Ação de Graças apanha-me num período prolongado de solidão, onde se inscreve por vezes uma inquietação que arrasto ao longo de dezembro, mas, infelizmente, sem efeitos práticos. De manhã dou de comer aos gatos, pego nas minhas coisas em silêncio e depois ponho-me a caminho da Sexta Avenida até ao Café’Ino, sentando-me na mesa do canto habitual, a beber café, a fingir escrever, ou a escrever mesmo a sério, com mais ou menos os mesmos resultados discutíveis. Evito compromissos sociais e, com determinação, faço planos para passar as férias sozinha. Na véspera de Natal ofereço aos gatos uns bonecos com a forma de ratos, cheios de erva-gateira, e saio sem destino para a liberdade da noite, acabado por chegar a um cinema perto do Hotel Chelsea, onde passava o filme Millenium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres, em sessão tardia. Compro o bilhete, tomo um café duplo e peço um pacote de pipocas biológicas numa pastelaria da esquina, e sento-me depois no cinema numa das filas de trás. Apenas eu e um grupo de ociosos, confortavelmente isolados do mundo, saboreando o nosso próprio conceito de bem-estar num feriado, sem prendas, sem Menino Jesus, sem fitas prateadas ou azevinho, apenas a sensação de uma completa liberdade. Gostei do filme. Já tinha visto a versão sueca sem legendas, mas ainda não tinha lido os livros, por isso agora conseguia perceber o enredo e perder-me na paisagem sombria da Suécia.
Já passava da meia-noite quando voltei para casa.

Patti Smith em M Train

HÁ O CONCEITO DE QUE PORTUGAL NÃO É UM PAÍS DEMOCRÁTICO


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...


No dia 11 de Junho de 2014, em Olhar as Capas, publicámos a capa de Tomás, Por Ele  Mesmo, uma antologia, organizada por Orlando Neves, de alguns dos milhares de disparates que Tomás bolsou, em discursos patéticos, enquanto presidente da ditadura.


Publicamos hoje a última fotografia.

Na etiqueta Américo Tomás, coluna da direita deste blogue, encontrarão as restantes fotografias.

Muito tempo para percorrer as escassas 78 páginas do precioso livrinho.

Assim aconteceu por uma mera medida de higiene.

Mas chegámos ao fim.

E ainda acrescentamos três recortes sobre o triste almirante.


O primeiro, o Ponto Crítico do jornalista Álvaro Guerra, publicado no República de 31 de Julho de 1972:


Outro, um recorte do Notícias da Amadora de 20 de janeiro de 1975, em que a censura entendeu cortar dado o seu ridículo:


O último recorte é do editorial do semanário O Jornal de 12 de Outubro de 1978, referindo a autorização que o Presidente Ramalho Eanes dera para que Américo Tomás pudesse regressar a Portugal:

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Eu tenho sobre a história uma ideia que está longe de ser a mais frequente. Penso que, quem faz a história, não é o governo de uma nação. Sou eu, a vizinha do lado e o merceeiro que está estabelecido com loja na esquina da rua. É o par de namorados que passa de lambreta ou o operário que vai para a oficina com a malinha do almoço. É o poeta, é o pensador, é o cientista, é tudo, toda a gente, a que sai e a que fica em casa, todos, todos, excepto os que compõem o governo. Esses só têm uma atitude permanente, que é, atónitos, solucionarem, ou verdadeiramente, ou falsamente, os problemas que lhe são impostos.

PASSARAM JÁ 25 ANOS


Há 25 anos ficámos sem esse extraordinário Freddie Mercury.

Como o tempo passa e a ideia que tenho que nunca mais apareceu um como ele.

SAUDADES DA TERRA


Uns olhos que me olharam com demora,
não sei se por amor se caridade,
fizeram-me pensar na morte, e na saudade
que eu sentiria se morresse agora. 

E pensei que da vida não teria
nem saudade nem pena de a perder,
mas que em meus olhos mortos guardaria
certas imagens do que pude ver. 

Gostei muito da luz. Gostei de vê-la
de todas as maneiras,
da luz do pirilampo à fria luz da estrela,
do fogo dos incêndios à chama das fogueiras.
Gostei muito de a ver quando cintila
na face de um cristal,
quando trespassa, em lâmina tranquila,
a poeirenta névoa de um pinhal,
quando salta, nas águas, em contorções de cobra,
desfeita em pedrarias de lapidado ceptro,
quando incide num prisma e se desdobra
nas sete cores do espectro. 

Também gostei do mar. Gostei de vê-lo em fúria
quando galga lambendo o dorso dos navios,
quando afaga em blandícias de cândida luxúria
a pele morna da areia toda eriçada de calafrios. 

E também gostei muito do Jardim da Estrela
com os velhos sentados nos bancos ao sol
e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho
e a adormecê-la
e as meninas a correrem atrás das pombas
e os meninos a jogarem ao futebol.
A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,
à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,
gostei muito de ver
erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas. 

Também gostei de ver, na rua, os pares de namorados
que se julgam sozinhos no meio de toda a gente,
e se amam com os dedos aflitos, entre cruzados,
de olhos postos nos olhos, angustiadamente. 

E gostei de ver as laranjas em montes, nos mercados,
e as mulheres a depenarem galinhas e a proferirem palavras
grosseiras,
e os homens a aguentarem e a travarem os grandes camiões pesados,
e os gatos a miarem e a roçarem-se nas pernas das peixeiras. 

Mas ... saudade, saudade propriamente,
essa tenaz que aperta o coração
e deixa na garganta um travo adstringente, essa, não.
Saudade, se a tivesse, só de Aquela
que nas flores se anunciou,
se uma saudade alguém pudesse tê-la
do que não se passou.
De Aquela que morreu antes de eu ter nascido,
ou estará por nascer - quem sabe? - ou talvez ande
nalgum atalho deste mundo grande
para lá dos confins do horizonte perdido.

Triste de quem não tem,
na hora que se esfuma,
saudades de ninguém
nem de coisa nenhuma.

António Gedeão em Poesias Completas

RECADOS


Para além da restante e variada obra de António Gedeão, é muito importante conhecer as Memórias do professor e cientista Rómulo de Carvalho, do poeta António Gedeão, um livro a todos os títulos notável que, volta e meia, visito e onde, folheando ao acaso, me perco e me delicio numa escrita cheia de graça, num português modelar.

Interessante também, por um conhecimento único, o livro Rómulo de Carvalho/António Gedeão, Príncipe Perfeito, escrito pela sua filha Cristina Carvalho.

Um livro simples, quero ser muito simples, repleto de amor e admiração:

Não é, pois uma biografia exaustiva, repleta de datas e acontecimentos que tornariam, seguindo a minha intenção, a escrita dura e a informação espessa. Este livro não pretende ser objecto de estudo mas sim um espreitar documentado, embora simples, da sua longa vida. Refiro aqui alguns trechos mais significantes enquanto homem de ciência, professor e poeta. Fases de uma vida intensa. Intervalos da existência de alguém que muito amei.
Quero ser simples, quero ser muito simples. Gostaria que todos compreendessem que acredito totalmente no poder das palavras e nos seus arranjos finais, esses tais que formam as frases. Nada de rebuscado, poucas sentenças e o que mais me nascer do espírito e o que mais me vier ao pensamento. Acredito no fervilhar das emoções que podem ser traduzidas em páginas e páginas de leitura. Acredito na simplicidade da transmissão do meu pensamento que, desejo, vá ao encontro de todos. Afasto a sofisticação palavrosa que não deixa nem ler nem compreender o que se leu.

Por estes dias, e outros, irei deixando, aqui, pequenos extractos que possibilitem um outro conhecimento sobre este português notável.

PAPÉIS DATADOS


Eu, que me comovo por tudo e por nada, assim fiquei ao sair da Exposição que assinala o centenário do nascimento do professor, pedagogo, cientista, Rómulo de Carvalho, do poeta António Gedeão, que está patente na Biblioteca Nacional, de 12 de Outubro de 2006 até 6 de Janeiro de 2007.

Chama-se a exposição António é o meu nome,  e mostra parte do espólio do autor, doado pela família.

Do que se vê, ressalta a ideia de um homem extremamente organizado e rigoroso, gostando das mais ínfimas coisas, coleccionando tudo o que lhe chamava a atenção e que, por isto ou aquilo, entendia guardar.

Fazia álbuns de fotografias das viagens e levava para casa as mais improváveis coisas, como a pena de um pombo encontrada em Trafalgar Square.

Coleccionava bilhetes de transporte, de museus, de espectáculos, postais e outras coisas que os humanos consideram inúteis ou absurdas.

No espólio encontra-se uma carta do compositor Alain Oulman a solicitar-lhe autorização para musicar o poema Calçada de Carriche e, ao mesmo tempo, dando a conhecer que fizera alguns cortes, mas que não adulteravam o sentido do poema.

Outra das suas predilecções era álbuns com fotos da família que ele próprio organizava e encadernava com tecidos floridos.

Tecidos semelhantes àquele que o meu avô utilizou para encadernar a Fanga do Alves Redol.

Adorava dar aulas e, se não tivesse sido professor, gostava de ter sido marceneiro. 

Foi ele que construiu toda a mobília que se encontrava no seu escritório, desde a secretária às estantes.

Um pouco como o meu pai. Todo o mobiliário do escritório/biblioteca da casa onde nasci, foi ele que concebeu. Desde uma escrivaninha às estantes e uma mesa para o meio da sala onde se bebia café e demais bebidas.

Parte dessas estantes vieram aqui para casa. Por impossibilidade de espaço não pude trazer todas e isso deixou-me algum desgosto porque, nos tempos livres do meu pai, as vi nascer. Eram parte da minha vida.

Os cadernos em que Gedeão escreveu a sua variada obra, numa letra desenhada e miudinha, lembram os cadernos onde o meu avô escreveu as traduções que fez dos livros de Anatole France.

Olha-se toda a exposição, e ressalta a figura que Rómulo de Carvalho/António Gedeão foi: um estupendíssimo professor, um belíssimo poeta, um príncipe do Humanismo.

É muito importante que, para além da obra, se olhem exposições como esta. Ficamos com uma ideia mais abrangente dos autores que amamos.

Devia ser tarefa obrigatória dos governos.

(17 de Novembro de 2006)

DIA NACIONAL DA CULTURA CIENTÍFICA


Há 110 anos nascia Rómulo de Carvalho, também conhecido por António Gedeão.

Foi um dos mais notáveis portugueses do século XX, um homem global e total, uma figura que se inscreve no passado, que agiu com a consciência da utilidade ao próximo enquanto viveu e que sempre se preocupou em perspectivar o futuro, no dizer de Cristina Carvalho.

Neste dia é celebrado o Dia Nacional da Cultura Científica.

Em 1996, o Ministro da Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago, determinou que o dia 24 de Novembro fosse de homenagem a Rómulo de Carvalho como grande professor e divulgador da ciência no nosso País.

Segundo as suas palavras, este dia deve ser «momento privilegiado, todos os anos, de balanço, de reflexão e de acção sobre o papel do nosso conhecimento no nosso futuro».

O cidadão Rómulo de Carvalho numa votou nas eleições de Salazar e Caetano e nas de Abril votou sempre em branco.

Considerava-se um homem de esquerda, um comunista sem partido.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Quem não souber tomar partido que fique calado.

Walter Benjamin em Imagens de Pensamento

OLHAR AS CAPAS


Rómulo de Carvalho/António Gedeão, Príncipe Perfeito

Cristina Carvalho
Colecção Memória das Letras nº 1
Editorial Estampa, Lisboa, Outubro de 2012

Este é um breve encontro numas linhas escritas em algumas páginas. Tudo o que eu possa afirmar e informar, ainda que com muitas omissões, sobre este eminente professor, pedagogo, historiador, poeta, é que foi um Homem do Renascimento. Dum outro renascimento, o do século XX.
Quem foi, de quem nasceu, como cresceu, que desejos, que impulsos, que transcendência foi essa que o iluminou, tudo o que realizou e onde trabalhou, o que deixou dito, o que deixou feito, o desejo de ser útil, a vontade, a vida, tudo dito e escrito será nada ou quase nada.
O seu dia a dia foi de trabalho, de pesquisa, de investigações demoradas e de criação. Incansavelmente. Essa vontade da ciência, da sua divulgação e do ensino, dentro do que foi possível, cumpriu-se. A disciplina, as regras e o método foram a orientação de toda a sua vida. A compreensão da atitude para com o próximo e o espírito de dádiva que marcou o longo percurso da vida pessoal, familiar e profissional, desenharam um traçado permanente. A estética, a beleza, o deslumbramento, o intangível acorde de um outro mundo – o da poesia – envolveram-no e tornou-se realidade.
Também quero referir o quanto me foi difícil separar da figura de meu pai enquanto escrevi esta biografia. Tentei distanciar-me mas tenho a certeza que não consegui. Não me foi possível. Por isso, algumas vezes escrevi de um modo muito mais íntimo; por isso, algumas vezes afastei-me e a temperatura baixou. Preferi sempre o tom arrebatado e sentimental, que, embora, contido, nunca foi forçado.
Talvez estranhem, senhores, tanto elogio, tanta admiração, tanto entusiasmo, tantas são as palavras que transbordam das folhas deste livro. Mas i que é que se pode dizer de um homem que

Tudo fiz por amor, a única força poderosa capaz de congraçar as pessoas e as coisas numa felicidade possível.
Atravessei a existência sempre com a surpresa nos olhos, a amargura no rosto, a tristeza no íntimo.

É meu dever dar-vos esta informação.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Se a guerra pode reduzir-se a números, não há estatísticas para a solidão, a ansiedade, o medo, o sofrimento, a dor.

João Paulo Guerra em Memória das Guerras Coloniais

NOTÍCIAS DO CIRCO


Em Portugal, segundo um estudo Credit Suisse Research Institute, citado pela TSF, existem 54 mil milionários e três pessoas com mais de mil milhões de euros, o que dá mais 1300 milionários do que em 2015.
O mesmo estudo revela que, abaixo do limiar da pobreza, vive cerca de 20% da população.

COM 19 ANOS E SEM EMPREGO


Recorte da secção «Cartas ao Director» do Diário Popular de 26 de Novembro de 1972.

ADEUS ATÉ AO MEU REGRESSO


Num poema de Eduardo Guerra Carneiro em Algumas Palavras:

Horas vieram certas horas
chegaram com amigos certos
Sei lá agora Sei que partem os amigos
e se vão para longe Não sei deles
Viajam alegres sem dinheiro certo
Outros que não vão morrem na guerra
que nos fere e dói que mais não seja
por ser guerra em vão.

Guerra Colonial.

A imensa tragédia de uma geração, de um país.

E há guerras que não acabam nunca.

Ou como escreveu António Lobo Antunes:

Pode esquecer-se a guerra, mas ela não nos esquece. Deu cabo da nossa juventude e há-de dar cabo da nossa velhice.

Segundo uma investigação dos historiadores Miguel Cardina e Susana Martins, citado pela Lusa, o número de militares do Exército Português que desertaram entre 1961 e 1973 ultrapassou os oito mil.

Este número, baseado em fontes militares, é um número que peca por defeito e refere-se ao período entre 1961 e 1973. É bastante acima de oito mil e é um número importante porque, até agora, não tínhamos dados sobre o pessoal já incorporado e mostra que a deserção é um fenómeno mais complexo do que que aquilo que se considerava.
Temos dados que indicam que entre 1967 e 1969 cerca de dois por cento dos jovens que são chamados à inspeção foram refratários. Este número é certamente superior ao número dos desertores. Os faltosos são aqueles que nem sequer se apresentam à inspeção. Dados de 1985 do Estado-Maior do Exército indicam que cerca de 200 mil terão abandonado o país. Na década de 1970, cerca de vinte por cento dos jovens que deveriam fazer a inspeção já não se encontravam no país, refere Miguel Cardina.

Segue-se a reprodução de um artigo de João Paulo Guerra publicado, em Abril de 1999, no Diário Económico:

De acordo com dados oficiais do Estado-Maior General das Forças Armadas, morreram nas guerras coloniais de Angola, Guiné e Moçambique 8.831 militares portugueses – 3.455 em Angola, 3.136 em Moçambique e 2.240 na Guiné. Segundo a mesma fonte, 4.280 militares (48,5%) morreram em consequência directa de acções de combate e 4.551 (51,5%) em acidentes diversos nos teatros de operações. Em 1974, já depois do 25 de Abril e até às assinaturas dos diversos acordos de cessar-fogo, ainda morreram 530 militares portugueses nas colónias, 159 dos quais em acções de combate.
De acordo com a Resenha Histórico-Militar, publicada pelo Estado-Maior do Exército, as Forças Armadas sofreram nos três teatros de guerra 27.919 feridos, 15.452 dos quais em acções de combate (55,3%).  A Associação dos Deficientes das Forças Armadas e o Departamento de Psicoterapia Comportamental do Hospital Júlio de Matos calculam que entre 30 mil e 100 mil combatentes ficaram a sofrer de distúrbios pós-traumáticos do stress de guerra. 
Entre 1961 e 74 foram recenseados pelas Forças Armadas 1.140.000 mancebos para prestarem serviço militar, dos quais foram incorporados e mobilizados para a guerra 820 mil (72%). Portugal manteve, em média, durante os anos de guerra 55.029 militares em Angola, 31.910 em Moçambique e 20.876 na Guiné. 
Segundo dados oficiais, os faltosos e refractários atingiram em cada ano 18% do contingente, em média, constituindo a emigração o principal destino de tais jovens. As estatísticas oficiais referem que o número de desertores dos três teatros de guerra foi de 181 – 101 de Angola, 59 da Guiné e 21 de Moçambique. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


A solidão é boa para não se estar sozinho.

José Gomes Ferreira em A Poesia Continua

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

QUOTIDIANOS


Sempre que há uma necrologia que me interessa, procuro no Google e na imprensa local mais dados, sobre pessoas há muito esquecidas. A morte costuma lembrá-los por breves dias.

José Pacheco Pereira no Público

OS ESCOMBROS DE UM ESCRITOR


Tenho uma secretária bonita, mas prefiro trabalhar na cama, como se estivesse a convalescer num poema de Robert Louis Stevenson. Uma zombie otimista apoiada por almofadas, produzindo páginas de fracos resultados – ainda não amadurecidos ou já amadurecidos demais. De vez em quando escrevo directamente no meu pequeno computador, olhando saudosamente para a prateleira onde está a minha velha máquina de escrever, ainda com a sua velha fita, junto a um processador de texto obsoleto da marca Brother. Uma fidelidade irritante impede-me de os pôr no lixo. Depois há as anotações nos cadernos, os seus conteúdos sempre a apelar a algo em mim – confissões, revelações, inumeráveis variações do mesmo parágrafo – e montes de guardanapos rabiscados com tiradas incompreensíveis. Frascos de tinta secos, pontas de canetas calcificadas, recargas de canetas há muito desaparecidas, lapiseiras sem mina. Os escombros de um escritor.

Patti Smith em M Train

UM PEQUENO PASSO


O Papa Francisco autorizou todos os sacerdotes a manterem definitivamente a capacidade de absolverem as mulheres que fizeram um aborto, disposição que devia vigorar apenas durante o ano jubilar da misericórdia, que terminou no domingo.

Para que nenhum obstáculo se interponha entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a todos os padres, a partir de agora, a faculdade de absolver o pecado do aborto. 

domingo, 20 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Podem traçar meu corpo à chicotada.
Podem calar meu grito enrouquecido.
Para viver de alma ajoelhada.
Vale bem mais morrer de rosto erguido.
                               
Maria Eugénia Varela Gomes

MARIA EUGÉNIA VARELA GOMES (1925.2016)


Aos 90 anos, faleceu hoje Maria Eugénia Varela Gomes - figura marcante da resistência antifascista e da solidariedade com os presos políticos no tempo da ditadura.

Em 1962 raptada e presa pela PIDE, por alegado envolvimento no golpe de Beja. É mantida isolada desde 6 de Janeiro até meados de Abril.

De 13 a 19 de Janeiro é submetida a tortura do sono, numa acção coordenada pelo chefe de Brigada Mortágua e chefiada pelo inspector Pereira de Carvalho.

Cumpre em Caxias um período de prisão até 27 de Junho de 1963.

Mensagem de Maria Eugénia Varela Gomes, escrita na tábua de um armário da prisão, e que está reproduzido no livro Contra Ventos e Marés:

Aqui esteve presa Maria Eugénia Sequeira Varela Gomes, mulher do Capitão varela Gomes, acusada, ao que parece, de ter colaborado na Revolução do 1º de Janeiro de 1962. O meu marido, que ficou gravemente ferido, está preso e doente na Penitenciária. Temos quatro filhos pequenos, 9,8,6, 5 anos; tudo sacrificámos ao nosso País. Mas temos fé de que dias melhores virão para este povo. Estou aqui isolada desde 6/1/62. Até quando? Quem vier depois de mim tenha fé porque nada se constrói de grande neste mundo sem mártires; e não há qualquer razão para que não sejamos nós algumas das vítimas; tenho a profissão de Assistente Social e sinto-me muito honrada em tal, como vós, em aqui ter vindo. 

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


 O circo é a vida. A Grande Festa. O sorriso pintado do palhaço e, lá dentro, as lágrimas. O circo sou eu, és tu, é aquela rapariguinha que vende violetas no Parque Mayer, é o Adelininho, agora nas estradas da Europa (ainda consultará jornais de província à procura de «O Gigante», é o porteiro do Monumental e os porteiros de todos os cabarés, são as raparigas do Bolero e as outras de todos os bares, de todos os cais. O circo somos nós todos – como dizia antigamente o poeta – ou ainda mais (digo eu).

Eduardo Guerra Carneiro em Como Não Quer a Coisa

A SÍNTESE


Há melhores guitarristas, há melhores intérpretes, até melhores poetas se nos limitarmos à poesia, mas não há ninguém melhor do que Bob Dylan a fazer a síntese de tudo isto. Dylan é um poeta e a canção faz parte da sua poesia.

Robert F. Thomas, Público 4 de Novembro.

sábado, 19 de novembro de 2016

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


O Diário de Notícias continua a publicar-se, mas abandona o lindíssimo edifício no cimo da Avenida da Liberdade, traço de Pardal Monteiro.

O jornal muda-se para uma das Torres de Lisboa, junto à 2ª Circular.

O edifício será destinado a habitação e serviços e manterá a fachada.


Este edifício é uma imagem que guardo desde miúdo quando com o meu avô íamos, nos domingos-sem-Benfica, passear para o Parque Eduardo VII.

As vezes que fui à loja do rés-do-chão, comprar números atrasados, por causa de algum artigo publicado no suplemento literário.

O meu avô, republicano histórico, benfiquista e anti-clerical, nunca leu o Diário de Notícias, o jornal das sopeiras, como então, por causa dos anúncios de oferta e procura de emprego, se dizia.

Lia O Século e o República.

Segui passos idênticos e, por uma só vez, o Diário de Notícias foi o meu jornal: de 9  de Abril a 25 de Novembro de 1975,  sub-directoria de José Saramago:

A história do Diário de Notícias é uma das histórias mais mal contadas deste país. E eu vou conta-la, tentendo que, finalmente, passe a ser bem contada. Mas sem grande esperança disso. Estamos em 75, sou director adjunto, Luís de barros está de férias, sou eu quem conduz o jornal. (Há que dizer que até essa altura alguns jornalistas tinham sido despedidos. Curiosamente sem nunca o director-adjunto ter tido qualquer intervenção nesse aspecto.) Uma tarde entram-me pelo gabinete três ou quatro jornalistas (não me lembro quem)). Traziam um papel assinado por trinta jornalistas (e não só jornalistas), no qual se discordava da orientação do jornal. Para denúncia e protesto, exigia-se a publicação desse papel na edição do dia seguinte. Li, disse que não estava de acordo, nem me parecia que tivessem razão (“vivemos no tempo que vivemos, o jornal tem esta linha, está ao lado da Revolução”). Acrescentei: “Não vou dizer que isso não se publica, lembro-vos só de que nesta casa há uma entidade que está acima da direcção e de certo modo também acima da administração e que se chama Conselho Geral de Trabalhadores (era o tempo em que estas coisas existiam). Vou, portanto chamar os responsáveis do CGT para que o Conselho reúna hoje e se acharem que isto deve ser publicado, será publicado”. Foram-se embora, chamei os responsáveis do CGT, contei-lhes o que se passava e pedi-lhes que convocassem toda a gente para a meia-noite. A essa hora chamam-me, lá a cima, já estava toda a gente, eu vou, levo o papel, lei-o, dou a minha opinião (o que era normal), e desço para o meu gabinete à espera das conclusões do debate. Em que não participei. Quando aquilo terminou, os mesmos responsáveis do CGT vêm-me comunicar que se tinha decidido suspender os não já trinta (porque tinham passado a ser 23) e recomendado à administração que lhes instaurasse processos disciplinares. Este foi o crime praticado pelo director-adjunto do Diário de Notícias, José Saramago.

VOLTAR A BARALHAR...


Poucas coisas – provavelmente nenhumas – gosto de dar como definitivas.

Então em matéria de livros, estamos conversados.

Só leio o que entendo ler e tenho por ideia de que quando os livros não me agradam a culpa é apenas minha.

Reli agora As Naus de António lobo Antunes.

Quando o li, em Abril de 1988, fiquei com uma péssima impressão.

È o sétimo livro de Lobo Antunes e os dois anteriores, Fado Alexandrino e Auto dos Danados, já não me tinham causado entusiasmo.

A releitura de As Naus não me levou a mudar de ideia.

Piorou, mesmo.

Naquelas muitas entrevistas que os autores dão, quando sai romance novo, Lobo Antunes pretendia que o livro era uma tentativa de dar, sob forma onírica, o retrato deste país, em que o passado e o presente se misturam .
A História de Portugal contada através do regresso das caravelas que trazem de volta os portugueses como os retornados do 25 de Abril.
É o melhor livro que escrevi, tanto do ponto de vista técnico como formal.

Juntar o regresso dos retornados das colónias com a dos navegadores do Infante poderá ser uma boa ideia mas, sempre opinião pessoal, faltaram unhas para a guitarra, e o resultado, nada conseguido, cifra-se numa destemperada confusão.

Um exemplo: voltei a não compreender como é que um homem de nome Luís a quem faltava a vista esquerda, que permaneceu no Cais de Alcântara três ou quatro semanas pelo menos, sentado em cima do caixão do pai, à espera que o resto da bagagem aportasse no navio seguinte, e como a bagagem não chegou, passeia-se, com o cadáver do pai pela zona ribeirinha à espera de se desfazer do caixão, até que na Estação de Santa Apolónia um outro homem, este chamado Garcia da Horta, cultor de ervas aromáticas e carnívoras, lhe compra o caixão e o converte para adubo das plantas.

Por vezes salta um sorriso, amarelo, mas o livro é uma desilusão.
 
Desde  Exortação aos Crocodilos que não voltei a concluir a leitura dos livros de António Lobo Antunes.

Outros estão por aí e ainda nem sequer os abri.

Talvez o não gostar de coisas definitivas me leve, um destes dias, a pegar neles, a miragem do encontrar uma surpresa.

Talvez…

Mas continuo a gostar do António Lobo Antunes cronista.

Aguardo, agora,  a chegada do Sexto Livro de Crónicas.

Talvez chegue pelo Natal.

Seria bem agradável.