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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

MINHA BENGALA FININHA

Minha bengala fininha

Tronquinho de cerejeira

Ajudas o meu andar

És minha companheira

 

Prendo-te com minha mão

Num afago que te dou

Nossa conversa é tão muda

Como um filme de Charlot

 

Falamos ambas da vida

Do tempo em que corria

Tu era um tronco verde

Primavera que nascia

 

Charlot às vezes sorri-me

Entre a mão e a bengala:

Troquinho de cerejeira

Também tem a sua fala.

 

Matilde Rosa Araújo

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

CANÇÕES DE ENTARDECERES

Os pôr de sol já andaram por aqui, em palavras e músicas.

Não lembra bem como tudo começou.

Há mais de 50 anos mora numa casa com vista que solta-se da Ponte Sobre o Tejo até ao aeroporto da Portela.

Por um dia, desatou a tirar fotografias de entardeceres com uma fatela máquina comprada em «loja de chineses».

Se não lembra como começaram, também não lembra com acabaram. O começo data de 6 de Junho de 2015, o fim de 7 de Dezembro de 2017, e, apesar de quase dois anos decorridos, há apenas 18 Entardeceres.

Não se sabe nunca que mistérios nos pode trazer um pôr de sol.

Se formos mais concretos, lembraremos sempre o que Chaplin em «Luzes da Cidade» diz: «A elegante melancolia do Crepúsculo.»

E ele agora volta aos pôr-do-sol porque, num golpe quase de mágica, descobriu que Rui  Ornelas, vizinho do 4º andar deste prédio com 51 anos, diariamente, nos finais do dia, tira fotografias, belíssimas fotografias, que nada, mesmo nada, têm a ver com as da sua máquina de «loja de chineses».

Aberto o pano para estes novos  entardeceres, neste primeiro de Agosto, primeiro de Inverno, lembra Françoise Hardy que há um mês, mais alguns dias, nos deixou e lembra-a na canção «Dis Lui Non», que um velho e querido amigo, o Pedro Freitas Branco, considera uma das melhores canções da década de 60.


domingo, 16 de junho de 2024

OLHARES

«Não vou aqui me gabar – mas vi Luzes da Cidade mais de vinte vezes. Aliás não seja por isso porque Otávio de Faria viu mais de trinta.»

Vinicius de Moraes

sábado, 25 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS


 Cinema

Vinicius de Moraes

Prefácio: Eucanaã Ferraz

Capa: André Carrilho

Colecção Horas Extraordinárias

O Independente Global. Lisboa 2004

Sou um apaixonado de Cinema. Só Deus sabe como gosto de um boa fita, o prazer que me traz ver «Cinema», discutir, ponderar, escrever, até fazer Cinema na Imaginação. Acho mesmo que só a Música traz-me uma tão grande sensação de plenitude e gratidão.

Não vou aqui me gabar – mas vi Luzes da Cidade mais de vinte vezes. Aliás não seja por isso porque Otávio de Faria viu mais de trinta.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ


 A quarta canção de (não) Natal é Smile, música de Charlie Chplin e letra de John Turner e Geoffrey Parsons, compost,a em 1936, para o filme Tempos Modernos.

O cantor brasileiro Djavan, no seu álbum Malasia, incluiu uma versão de Smile.

Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri
Quando o
sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo
irá supor
Que és feliz.

Da canção há duas versões de que gosto: a de Tony Bennett e a de Nat King Cole. 

Escolhi a de Nat King Cole, foi a primeira que ouvi e  porque A voz de Nat King Cole é um veludo eterno. É tão macia que apetece embrulharmo-nos nela. Ninguém soube cantar como ele – como se respirasses, sem esforço, sem exibição, como se ciciasse aos nossos ouvidos, disse alguém de que não lembro o nome.

Mas lembro que foi João Gilberto quem disse: ele não é preto, não. É azul.

Um cancro nos pulmões levou-nos, prematuramente, essa voz, esse sussurro.

Tinha 46 anos.

sábado, 12 de novembro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Por agora, terminamos os sublinhados, que encontrámos, e que José Saramago dedicou aos filmes, aos artistas, aos cinema da cidade onde viveu.

O texto está publicado em O Caderno nº2 e mostra uma curiosíssima memória que desde tenros anos ficou de Charlot, para concluir que não lhe deixou grande coisa.

Curiosamente o poeta José Gomes Ferreira também não era um incondicional adepto de Charlot, preferia Eisenstein, tal co deixou escrito numa crónica publicada, Junho de 193º na revista Imagem:

«Enquanto Charlie Chaplin, com os seus cabelos brancos de palhaço no declínio, o seu sorriso amargo de quem sofre uma dor imaginária, continua a gitar o eterno Charlot, espantalho de pano que infunde respeito ao público e aos poetas líricos, - Eisenstein sorri, cria, não se contenta com o que já está convencionado, afasta-se definitivamente da arte pura e dos seus artifícios pretensiosos.»

Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, “The Pilgrim”, que, retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Charlot nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cómicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada. Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cómico, mas um trágico. Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas clássicas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula. Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrisse assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo. O caso é que, uma vez que foi decidido que Chaplin é um actor cómico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.

José Saramago em O Caderno, 2º volume 

segunda-feira, 14 de março de 2022

CHAPLIN'S WORLD II



 










Paraos amantes de fotografias alusivas aos filmes, o Museu tem outros lugares curiosos: para cada um dos principais filmes, desde as curtas iniciais até àslongas metragens finais, há um espaço alusivo onde passam os filmes e existe um cenário que pretende evocar a memória de uma determinada cena do filme: é possível sentarmo-nos à mesa da casa oscilante de “A Quimera do Ouro”, onde Charlot comeu um opíparo sapato e chupou os atacadores como se de esparguete se tratasse, pormos o nosso corpo na diabólica engrenagem industrial de “Os TemposModernos”, sentarmo-nos ao lado da ceguinha de “As Luzes da Cidade”, irmos aparar o cabelo ao barbeiro judeu de “O Grande Ditador” e por aí fora… A pequenada adora tirar fotografias, e alguns adultos também. Eu que o diga…

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

CHAPLIN'S WORLD


Para concluir este pequeno ciclo de textos alusivos a Charles Chaplin, apenas umas curtas palavrinhas acerca do “Chaplin’s World” que, como já vos disse, foi aberto ao público na Primavera de 2016

É composto por três zonas distintas: a casa onde Chaplin viveu e os enormes jardins adjacentes, um Museu construído de raiz e um espaço destinado a venda de “memorabilia” e a restauração.

A casa tem abertos ao público dois andares e é suposto manter todo o mobiliário, quadros, “bibelots” e loiças originais, o que, já se sabe, é sempre de muito duvidosa verdade porque os herdeiros dificilmente iriam abrir mão de conservar alguns objetos de recordação pessoal em seu poder. Em muitas destas salas foram colocados manequins em tamanho natural, designadamente de Chaplin e da sua mulher, Oona. Mas também Albert Einstein por lá aparece, vá lá perceber-se bem porquê. Talvez pela sua grande amizade para com Chaplin.


Podendo ser o espaço mais interessante, por tudo aquilo que nos poderia mostrar acerca dos gostos pessoais e da intimidade de Chaplin, acaba por não o ser devido a alguma descaracterização que atrás vos referi, mas também ao facto de todas as salas e quartos serem pequenos e estarem apinhadas de gente, pelo que é difícil vê-los convenientemente e muito mais ainda fazer uma fotografia em condições.


O Museu propriamente dito acaba por ser o mais interessante e tem tudo o que se espera encontrar em espaços desta natureza: cartazes dos principais filmes, um exemplar da inconfundível roupa de “Charlot”, desde o chapéu até aos enormes sapatos, não esquecendo a indispensável e muito útil (para fins diversos…) bengala, os dois Óscares atribuídos a Chaplin, o Honorário em 1972 e o de melhor banda sonora para “Luzes da Ribalta” no ano seguinte, e também uma pedra que era parte integrante do célebre estúdio de Chaplin, situado em La Brea, Hollywood. Mas isto que vos digo é apenas uma pequeníssima parte do que lá se encontra em exibição já que, para além de eu próprio não me lembrar de tudo, enumerá-lo aqui seria fastidioso.


Para os amantes de fotografias alusivas aos filmes, o Museu tem outros lugares curiosos: para cada um dos principais filmes, desde as curtas iniciais até às longas metragens finais, há um espaço alusivo onde passam os filmes e existe um cenário que pretende evocar a memória de uma determinada cena do filme: é possível sentarmo-nos à mesa da casa oscilante de “A Quimera do Ouro”, onde Charlot comeu um opíparo sapato e chupou os atacadores como se de esparguete se tratasse, pormos o nosso corpo na diabólica engrenagem industrial de “Os Tempos Modernos”, sentarmo-nos ao lado da ceguinha de “As Luzes da Cidade”, irmos aparar o cabelo ao barbeiro judeu de “O Grande Ditador” e por aí fora… A pequenada adora tirar fotografias, e alguns adultos também. Eu que o diga…

Em alguns destes espaços, em jeito de homenagem, surgem-nos personagens da comédia americana (e não só…) que nada têm a ver com os filmes de Chaplin: vemos Buster Keaton, Harold Lloyd, Bucha e Estica e até Roberto Benigni e Woody Allen por lá aparecem.

Finalmente, a loja de recordações tem à venda tudo quanto se pode esperar. Filmes, livros, posters, T-shirts, bonecos e bugigangas de toda a natureza alusivas a Chaplin e, sobretudo, a Charlot. Foi lá que comprei o livro de Eugene Chaplin de que já aqui vos falei, alguns postalecos e um boneco do Charlot para oferecer aos meus Queridos Netos. Mas a caminho do aeroporto pus-me a pensar melhor: um só boneco para três netos (os que existiam à época…) vai dar discussão; para além disso, e apesar de todo o meu esforço para lhes mostrar alguns filmes, que amor e que ligação tem esta miudagem ao Charlot…? Nenhuma, é claro…!

Foi uma brilhante autojustificação esta que encontrei para esquecer os netos e fazer sentar o Charlot na minha estante da sala, tendo a pequenada sido generosamente compensada com uma razoável quantidade dos excelentes chocolates suíços, que certamente lhes terão proporcionado muito mais prazer do que o teria feito o pobre Charlot…!

Museus como este são importantes para preservar a memória de Chaplin/Charlot. Mas muito mais importante do que isso seria uma regular passagem dos filmes, coisa que me parece ter deixado de suceder, pelo menos por cá. Não passam na televisão, não têm direito a exibição na Cinemateca, deixaram de existir as saudosas “reposições de Verão… É também verdade que para a miudagem dos nossos dias filmes a preto-e-branco são dificilmente suportáveis, mas, ainda assim, espero que não passe pela cabeça de nenhum esperto a sua colorização, como sucedeu a tantas obras-primas do cinema americano.

E pronto! De Charlot e de Chaplin, já basta… 

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

terça-feira, 8 de março de 2022

O ÚLTIMO GAG DE CHARLES "CHARLOT" CHAPLIN


Tal como vos referi na última crónica, Chaplin faleceu no dia de Natal de 1977, aos 88 anos. Não terá sofrido muito porque teve um derrame cerebral durante o sono.

Dois dias depois, numa pequena cerimónia quase privada, foi sepultado no cemitério de Corsier-sur-Vevey, a muito curta distância da casa onde viveu durante 24 anos.

Mas o pior ainda estaria para vir…

Na madrugada do dia 1 de Março de 1978, o caixão e o corpo foram roubados do cemitério e, poucas horas depois, um pedido de resgate foi apresentado, por via telefónica, à mulher de Chaplin, Oona.

Oona afirmou que nunca teve intenção de pagar o que quer que fosse pelo corpo do marido mas, a conselho da Polícia e para ganhar tempo, prolongou a conversa entrando em negociações quanto ao montante a pagar. Quem assumia os contactos era o mordomo da casa, já que ela se recusara a falar com os ladrões.

Tanto a divisa em que o pagamento deveria ser feito como o montante foram variando no decurso das negociações. Primeiro eram francos franceses, depois libras esterlinas e, finalmente, dólares. E começou com 600.000 e acabou em 100.000 dólares.

Entretanto, na Comunicação Social muitos foram os motivos evocados para este roubo, como verão mais à frente.

Durante os mais de dois meses em que decorreram estas negociações, o processo de contacto era sempre o mesmo: uma chamada feita de uma cabine telefónica da região. Mas este lapso de tempo permitiu à Polícia identificar e monitorizar mais de 200 cabines telefónicas em toda a região de Lausanne e, quando se consideraram preparados, avisaram a Família para que dessem o acordo final para o pagamento do resgate, os tais 100.000 dólares que atrás vos referi.

Foi combinado com os larápios que o mordomo se faria transportar no Rolls Royce da casa e deixaria uma mala com o dinheiro num local previamente acordado.

E assim foi, só que em vez do mordomo quem conduziu o carro foi um polícia disfarçado.

Tudo muito bem organizado, só que ninguém contava que um carteiro local se apercebesse que o carro da Família Chaplin, sempre guiado pelo mordomo, estava a ser conduzido por um perfeito desconhecido e o resolvesse seguir de bicicleta, não fosse estar em curso mais um roubo envolvendo a pobre Família.

Imaginem bem a cena de um carteiro a dar ao pedal atrás de um Rolls Royce, qual François do “Há Festa na Aldeia” a fazer a “distribuição à americana”…!

É claro que esta perseguição  do carteiro levantou suspeitas por parte da Polícia, que julgou tratar-se de um membro do “gang” de ladrões e o prendeu de imediato, abortando a operação da entrega da mala. A Polícia local teria reconhecido de imediato o carteiro mas, por essa altura, o caso já estava entregue à Polícia Nacional, em artriculação com a Interpol, as quais, naturalmente, não conheciam o pobre candidato a herói de lado nenhum…

Apesar de tudo, este facto não levantou qualquer suspeita aos ladrões, que trataram de marcar novo dia e hora para a entrega do dinheiro. Seria o dia 17 de Maio, às 9h30. Desta vez, como não poderia deixar de ser perante tanto amadorismo, a Polícia já havia identificado o local da chamada telefónica e os maus da fita foram apanhados em flagrante.

Dois pobres  emigrantes, um polaco de 24 anos e outro búlgaro de 38, mecânicos de automóvel no desemprego, que viram ali a oportunidade de fazerem algum dinheirinho e orientarem as suas vidas. 

Certeiro como sempre, num dos últimos livros que escreveu José-Augusto França conta a história de seguinte forma: 

“… a imaginação chapliniana post mortem reassume toda a crueldade lógica de Monsieur Verdoux e realiza ainda um derradeiro e portentoso gag.

Não três dias (enfim…) mas três meses após a sua sepultura, o corpo de Charles Chaplin foi roubado, no que é uma forma simbólica de ressureição.

Duraram dezassete dias as buscas da polícia suíça e da Interpol, chamadas aflitamente em reforço, para encontrar os desaparecidos despojos. Hipóteses (que poderiam dar rushes de Monsieur Verdoux) foram avançadas pela imprensa, rádios e televisões ávidas de sensacional. Os raptores teriam sido um grupo neonazi a querer vingar a memória de Hitler-Hynkel. Ou de antissemitas que protestavam contra a sepultura de um judeu num cemitério cristão, ou de terroristas de qualquer outra referêncxia ideológica , para obterem uma forte indemnização contra a entrega do corpo; ou mesmo algum admirador fanático que desejasse conservar secretamente os restos do ídolo… Mas telefonemas insistentes dos raptores que desleixaram precauções profissionais permitiram a sua localização – tudo se resolvendo com a recuperação do cadáver e apreensão dos bandidos. Que bandidos afinal não eram , mas dois emigrantes balcânicos que planearam um golpe que lhes permitiria montar uma garagem, como confessaram à polícia… Pobres diabos, de desastrosa incompetência, perdidos num sonho de êxito social, pobres charlots da sociedade de consumo que lhe dera ideias de sucesso e fortuna…” (1).  

Mas a charada não foi de tão fácil resolução como José-Augusto França dá a entender …. É que os pobres  ladrões nem conseguiram fixar bem o local onde enterraram o caixão. Disseram que era um campo de trigo mas quando chegaram à zona a passagem do tempo tinha provocado o crescimento de plantas diversas, pelo que tudo estava, para eles, irreconhecível… Tiveram de escavar de fio a pavio os terrenos de um pobre agricultor local que, para tirar algum proveito da coisa, lá espetou um grande letreiro a dizer “CHAPLIN REPOUSOU AQUI. BREVEMENTE…”! Não receberia dinheiro pela visita, mas impingiria produtos da terra a quem se aproximasse para bater uma fotografia, o que não deixa de ser um esquema manifestamente chaplinesco…!

Apesar de Oona Chaplin lhes ter perdoado e ter apelado para que não sofressem pena pesada, foram ambos condenados a trabalho comunitário, o polaco, por ser o cabecilha, durante quatro anos, e o búlgaro, que sofria de perturbações mentais, a dezoito meses.

Tudo isto é uma história em tons de comédia negra, e foi nesse preciso registo que o francês Xavier Beauvois lhe dedicou um filme em 2014, “Le Rançon de la Gloire”, que teve direito a estreia em Portugal com o título de “O Preço da Fama”. 

O caixão com o corpo de Chaplin voltou à sua morada inicial, desta vez devidamente selado e tapado com uma camada de cimento que tornaria impossível qualquer nova tentativa de roubo.

Oona morreria treze anos depois, em 27 de Setembro de 1991, e o seu corpo seria colocado mesmo ao lado do marido, como fora seu desejo.

E foi lá, naquele pequeno e simpático cemitério com vista para o lago, que os fui visitar numa solarenga manhã de finais de Dezembro. Tinha pensado levar comigo umas flores para lhes deixar, mas nada encontrei à venda nas imediações e já não ia a tempo de ir procurar mais longe.

Ter-me-ia dado jeito ter ali à mão a ceguinha das “Luzes da Cidade” que vendia flores e que ofereceu uma flor ao vagabundo que espreitava pela janela, pouco antes de se aperceber, por um simples toque na mão, que teria sido ele o responsável pelo pagamento da sua cura, e não um homem rico , como até então pensara, naquele que é, garanto-vos a pés juntos, um dos mais belos finais da história do Cinema…

  1. José-Augusto França, “O Essencial Sobre Charles Chaplin”, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2015), págs. 102/103

 PS:

O título deste texto não é de minha autoria, antes foi surripiado a José Augusto França (vd 1, pág. 101)

Para além do filme de Xavier Beauvois, não disponho de muito mais fontes de informação detalhadas acerca dos fatos aqui relatados, pelo que parte deles foram retiradas da Net.


Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

O MEU QUERIDO CHARLOT


A América tratou, muitas vezes, a pontapé alguns dos seus melhores filhos, bem como outros que, como Charles Spencer Chaplin, embora não tivessem nascido lá, aí passaram uma boa parte da sua vida profissional.

Entre os principais responsáveis por essa perseguição estava, quase sempre, uma figura triste e sinistra que dava pelo nome de Edgar Hoover, o todo-poderoso patrão do FBI.

Hoover tomou Chaplin de ponta. Acusou-o de ser imoral e comunista, que era aquilo que numa determinada época se dizia de alguém que se declarasse humanista e antibelicista.

Desde quando não se sabe bem ao certo, mas é muito provável que um dos primeiros sobressaltos de Hoover tenha surgido em 1936 com “Os Tempos Modernos”. Aquela crítica a uma Sociedade que utiliza os avanços da tecnologia, não para libertar e dignificar o trabalho do Homem, mas para o escravizar ainda mais, transformando-o numa mera peça de uma complexa engrenagem industrial imposta em nome de uma busca desenfreada do maior e mais rápido lucro possível, não lhe deve ter caído muito bem…

Como bem também não lhe caíram, certamente, as posições assumidas por Chaplin em favor da entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial e o manifesto apoio que então deu aos soviéticos.

O discurso final de “O Grande Ditador”, de 1940, feito por um pobre barbeiro judeu perigosamente parecido com Adenoid Hynkel, o ditador da Tomânia, por sua vez perigosamente parecido com Adolf Hitler, pode muito bem ter sido a gota de água que fez transbordar o copo.

Apetecia-me espetar aqui todo esse discurso, que não só está cada vez mais adequado aos tristes tempos que atravessamos, como é essencial para compreendermos o pensamento e os Valores pelos quais Chaplin se regia. Mas é demasiado extenso e não vos quero maçar..


Deixarei apenas alguns extratos, exemplos de coisas que devem ter deixado Hoover com os poucos cabelos que tinha em pé:

……………………………………………

“Não quero governar nem conquistar ninguém.
Gostaria de auxiliar toda a gente – se possível: - os Judeus, os Gentios…, os Pretos…os Brancos.
Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém. 

Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e pode prover às necessidades de todos.

……………………………………………………………………………………………………………...

A nossa ciência tornou-nos cínicos; a nossa inteligência cruéis e impiedosos. Pensamos de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade que de máquinas. Se temos necessidade de inteligência, temos ainda mais necessidade de bondade e de doçura. Sem essas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido.

……………………………………………………………………...

Vós, povo, tendes o poder… o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, povo, tendes o poder de tornar a vida livre e bela, de fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Portanto, em nome da democracia, usemos desse poder. Unamo-nos. Lutemos por um mundo novo, um mundo que conceda a todos os homens a possibilidade de trabalhar, que dê futuro à juventude e segurança à velhice.

Foi prometendo-nos tudo isto que os tiranos tomaram conta do poder. Mas eles mentem. Não cumprem as promessas. Não as cumprirão nunca! Os ditadores libertam-se, mas tiranizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, para derrubar as barreiras entre nações, para acabar com a cupidez, o ódio e a intolerância. Lutemos por um mundo guiado pela razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à felicidade universal. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.” (1)


Não, não eram Putin ou Donald Trump os destinatários desta mensagem, embora os ditadores (ou aprendizes de …), por maior e mais vistosa que seja a sua poupa ou pequeno o bigote, se assemelhem todos, perigosamente. 

Retomando a nossa conversa, quando o seguinte filme de Chaplin (“Monsieur Verdoux”) viu a luz do dia, em 1947, já o FBI tinha iniciado uma investigação oficial cujo único objetivo seria conseguir que o indesejável cidadão inglês Charles Spencer Chaplin fosse expulso dos Estados Unidos.

Para além do tema central do filme ser, para alguns, chocante e com duplos sentidos muito dúbios (um velhote astuto que casa com mulheres ricas para depois as matar e ficar com o seu dinheiro…), Chaplin atacou, de uma penada, dois dos pilares onde assentava a Sociedade Americana: a Igreja e a Indústria do Armamento.

No final do filme, a um padre que o vai visitar à prisão para, supostamente, lhe dar a extrema unção, Monsieur Verdoux estende-lhe a mão e pergunta-lhe, sorridente: “Ora diga lá, meu irmão, o que é que eu posso fazer por si…?”.  E, depois, larga aquela célebre tirada de que uma morte faz um assassino, milhares um Herói.

Uns Estados-Unidos recém-saídos de uma guerra devastadora, orgulhosos dos seus heróis que acabavam de regressar a casa, iriam ter uma enorme dificuldade em engolir uma tirada destas, e não é por acaso que “Monsieur Verdoux” foi o filme de Chaplin que pior acolhimento teve no seu país.

E quem mais o atacou foram os suspeitos do costume: os jornais da Cadeia Hearst (a “Fox News” da época…), as senhoras da Legião Católica, a Liga dos Antigos Combatentes, todos o acusavam de ser um depravado, um simpatizante comunista e um ingrato para com tudo o que a América e o seu povo lhe deram. Quanto ao filme, esse foi boicotado, com permanentes ameaças aos exibidores que ousassem passá-lo e constantes manifestações defronte de muitas das salas de Cinema que, apesar de tudo, teimassem em o mostrar. 

Por tudo isto, e ao mesmo tempo que mais em escândalo de saias vinha a público, com reivindicações de paternidade (o processo Joan Barry, do qual sairia completamente ilibado), a popularidade de Chaplin na América já havia conhecido melhores dias...


Mas Chaplin não se escondia e nunca fez silenciar a sua voz. Criticou abertamente a “caça às bruxas”, a perseguição aos comunistas feita pelo Senador Joseph McCarthy, a coberto das competências da “House Un-American Activitees Committee”, o que fez aumentar ainda mais os rumores de que seria, também, um deles.

Algumas pessoas mais próximas de Chaplin, como a sua ex-mulher, Paulette Goddard, foram chamadas a testemunhar perante o Comité, e dizia-se, na altura, que também ele o seria muito em breve, o que, na realidade, nunca chegou a acontecer.

Em 1952 concluiu a rodagem de mais um filme, “As Luzes da Ribalta” e decidiu que faria a sua estreia mundial em Londres, já que era lá que toda a história se passava.

E partiu no Queen Elizabeth, acompanhado por toda a família.

No seu íntimo, Chaplin estaria convencido de que muito dificilmente iria poder regressar aos Estados Unidos, mas talvez ainda mantivesse uma ténue esperança.

Os seus piores receios confirmaram-se já a meio da viagem quando, numa noite em que estava a jantar com o pianista Arthur Rubinstein, recebeu um telegrama em que, nas suas próprias palavras, o informavam que “a entrada nos Estados Unidos me era vedada e que, antes de poder lá voltar, devia comparecer na Comissão de Inquérito do Serviço de Imigração a fim de responder às acusações de depravação política e moral”. (2)

Chaplin só voltaria aos Estados Unidos vinte anos depois, em 1972, para receber, das mãos de Jack Lemmon, um Óscar Honorário pela sua Carreira.


Edgar Hoover ganhara a batalha e deve ter dado pulos de contente.

Durante uns tempos Chaplin e a sua família viveram divididos entre Londres, Paris e Roma, à medida que ia sendo feita a apresentação do filme. A ideia de uma instalação definitiva em Inglaterra foi abandonada, não só por ter considerado que o clima não seria o mais adequado para as crianças, habituadas ao Sol da Califórnia, mas também por receios relacionados com a “restrição de divisas” (3).

Foi então que um amigo lhe aconselhou a Suíça, tendo ficado algum tempo instalado no “Hotel Beau Rivage”, em Lausanne, à beira do Lago Léman , enquanto que com vagar procurava uma nova casa. Mas a mulher, Oona, que se encontrava grávida de um quinto filho, encostou-o à parede e “declarou, categoricamente que, depois do parto, não queria voltar para o hotel” (4).

A procura da casa foi apressada e o casal acabou por escolher o “Manoir de Ban”, na aldeia de Corsier, mesmo à entrada da pequena cidade de Vevey de que vos falei no último texto. Uma casa enorme com 24 quartos/salas distribuídos por três andares, onde iria viver o resto dos seus dias      

Sou suspeito porque, tal como muitos da minha geração, sempre nutri um grande carinho pelo Charlot da minha infância. Ele foi a nossa alegria, a nossa felicidade, a certeza, naquela tenra idade, de que era mesmo bom viver.


Durante anos a fio sempre fui dizendo que era Chaplin o meu realizador preferido. Os tempos passaram e hoje já não estou assim tão certo, mas se tivesse de escolher a Obra de um só cineasta para mostrar aos extraterrestres o que é o Cinema, muito provavelmente escolheria a de Charles Chaplin. Está lá tudo quanto é preciso saber: a Alegria, a Tristeza, o Amor, a Solidariedade, o respeito para com o Ser Humano, mesmo quando, por vezes, era necessário dar um pontapé no rabo de um polícia e escapar-lhe por debaixo das pernas…! A profunda gargalhada e a lágrima ao canto do olho, por vezes no interior do mesmo plano. 


É certo que, numa perspetiva de “linguagem cinematográfica”, Chaplin sempre foi muito conservador. E mesmo no que respeita à utilização do som ele foi, como se sabe, o último dos resistentes. Mas isso não valeria a pena contar aos extraterrestres… 

Eu gostava tanto do Charlot que quando me comecei a deslocar ao estrangeiro mais regularmente era, quase sempre, para ir a Londres comprar discos, mas nunca regressava a casa sem trazer comigo duas ou três das suas curtas-metragens. Ainda não havia cassetes e, muito menos, DVD’s. Era no tempo do Super-8 e esses pequenos filmes de menos de meia-hora de duração têm a honra de terem sido os primeiros da minha já muito extensa coleção privada. 

Uma vez fui à Cinemateca ver um excelente documentário sobre Chaplin. Não garanto o nome porque nunca mais o voltei a ver, mas julgo que se tratava de “The Gentleman Tramp”, iniciado por Peter Bogdanovich em 1976 e concluído por Richard Patterson com o apoio de Walter Matthau, que lhe dá a voz. 

 Os últimos minutos deste documentário são feitos com recurso a filmes caseiros da própria Família Chaplin, sem utilização de qualquer “voz off” e apenas com o ruído típico de um projetor de Super- 8 a trabalhar. Vemos Chaplin já na sua casa de Vevey, rodeado pela família e a brincar com os filhos, alguns ainda de muito tenra idade. Ria-se, pecava neles ao colo, punha-os aos ombros, fazia palhaçadas, caretas e passos de dança imitando Charlot. Depois, mesmo no final, Oona, a mulher, dava-lhe o braço e levava-o a passear pelo jardim até ao extremo da propriedade, e ele lá ia devagarinho, apoiado numa bengala e percebemos que já com alguma dificuldade no andar, até o filme acabar num fundido em negro.


Essas últimas imagens tocaram-me profundamente. Eu estava fragilizado e em processo de separação e não sei o que mais me terá comovido. Aquela bonança depois da tempestade que foram os últimos anos na América…? Aquela enorme sensação de harmonia familiar…? Aquele momento de ternura com a mulher a levar Chaplin pelo braço pela estrada fora, idêntica à que vimos no final de tantos filmes do Charlot…?  Ou ter-me-á o ruído do projetor Super-8 feito recordar as projeções que eu próprio fazia para as minhas filhas, quando eram mais pequenitas…?

Sinceramente, não sei… Talvez que tudo isso junto...


O que sei é que desatei a chorar que nem uma Madalena… Não que apenas me tivessem vindo lágrimas aos olhos, porque essas, felizmente vêem-me com muita facilidade no Cinema. Nada disso… Um profundo nó na garganta, a soluçar e a chorar compulsivamente…  Felizmente que a sala estava meio vazia e eu estava no meu habitual lugar lá mais para trás, senão teria passado pela vergonha de alguém se aproximar de mim e me oferecer ajuda…

Longe estava eu de imaginar que um dia, muitos anos mais tarde, na companhia da Cristina, também eu iria estar ali naquela mesma casa, naquele mesmo jardim e a percorrer aquele mesmo caminho que vira Chaplin fazer com a sua mulher.

É que, desde 2017, a antiga casa de Chaplin, bem como o espaço adjacente, foi transformada em museu sob a designação de “Chaplin’s World” e aberta ao público. Mas disso vos darei conta noutra oportunidade.

Em Vevey Chaplin não vivia como um eremita. Recebia a Família, os muitos amigos que tinha, as grandes personalidades que o desejavam visitar, muitas vezes sem aviso prévio. Todos os sábados, enquanto pôde, descia ao mercado em companhia da mulher, e não perdia uma ida ao Circo sempre que estre descia à cidade.

Segundo conta o seu filho Eugène (5), aquele cujo nascimento apressou a compra da casa, aos domingos ia quase sempre almoçar a este restaurante que aqui vos mostro, ”L’Auberge de l’Onde”,  em Lavaux, a poucos quilómetros de Vevey.


Almoçar no restaurante de Chaplin e, se possível, na mesa de Chaplin, teria sido, para mim, um desejo irresistível, não tivesse eu o enorme azar dele estar encerrado para férias na época de fim do ano, em que por lá passei.

Chaplin morreu no dia de Natal de 1977, com 88 anos, tendo passado vinte e quatro felizes anos em Vevey. Durante esse período escreveu uma “Autobiografia”, publicada em 1964, realizou mais dois filmes (“Um Rei em Nova Iorque”, em 1957, e “A Condessa de Hong Kong”, dez anos depois) viu nascer mais três dos oito filhos que teve com Oona. Nos últimos anos dedicou-se a compor as músicas que iriam acompanhar a reedição dos seus velhos filmes mudos. 

Deixo-vos com as últimas palavras que escreveu na sua “Autobiografia”, e também com um pôr do Sol no Lago Léman, que ele tanto gostava de comtemplar.        

“No meio de tamanha felicidade, sento-me às vezes no nosso terraço ao pôr do Sol, e comtemplo o vasto relvado verde e o lago ao longe, e para lá do lago as montanhas tranquilizadoras, e quedo-me sem pensar em nada, a gozar essa magnífica serenidade”. (6)

1.      Charles Chaplin, “Autobiografia”, tradução de António Lopes Ribeiro, Editora Ulisseia, (1965), pág. 460/461/462.

2.      Idem, pág. 536

3.      Idem, pág 549

4.      Idem

5.      Esta como outras informações respeitantes à casa foram retiradas de “Le Manoir de Mon Père”, Eugène Chaplin, Editions Ramsay, 2007

6.       Vd (1), pág. 564


Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

domingo, 2 de junho de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


«The Kid» chegou a Vila velha com o título de «O Garoto de Charlot»
Se o Cinematógrafo Ideal e o diligente Jerónimo Fonseca haviam registado êxitos históricos – desde a já citada «Viagem à Lua» e de «Os Crimes de Diogo Alves», aos burlescos de Mack Sennett e às primeiras cowboiadas de Tom Mix – a entrada em cena de Charlie Chaplin e Jackie Coogan conquistou para o cinema-espectáculo a Vila Velha de todas as classes e idades. Tendo rido facilmente com os primeiros gags daquele sujeito de bigodinho, coco, bengala e pé de lado, a Vila nunca imaginara que ele a fizesse chorara. E, sendo as lágrimas um dos sais da vida, vila Velha verteu-as com gosto e abundância, aplaudindo calorosamente a obstinação e bravura daquele pai a salvar o filhinho do asilo. Meninas e mulheres feitas fungaram e ensoparam os lenços e a muitos homens de barba dura se molharam os olhos e se oprimiu o peito.
Na noite seguinte, O Pedro Neves chamou a atenção, durante a aula de leitura da Philarmónica, para o facto de o filme demonstrar bem a miséria que ia pela América, as desigualdades que lá se viviam, e, de um modo geral, a crueldade da sociedade capitalista.

Álvaro Guerra em Café República